sexta-feira, 4 de julho de 2014

"Morte aos árabes": ódio sem pudor surge na internet israelense
Hélène Sallon - Le Monde
A morte de três jovens israelenses, sequestrados no dia 12 de junho perto de um assentamento israelense na Cisjordânia, suscitou em Israel uma expressão de ódio anti-árabes que hoje alimenta o círculo de represálias.
Esses temores foram reforçados pelo sequestro e posterior anúncio da morte de um jovem palestino de Jerusalém Oriental, na quarta-feira (2), que pode ter sido um ato de vingança perpetrado por colonos israelenses. Outros atos de represália contra propriedades palestinas foram assinalados em diversas cidades da Cisjordânia. Na véspera, quase 200 pessoas haviam participado de uma manifestação anti-árabes em Jerusalém que descambou para uma "caça aos árabes", segundo testemunhas.
As autoridades israelenses agora estão com dificuldades para reprimir esses sentimentos de ódio, em parte alimentados pelos discursos belicistas de certos políticos que cercaram a operação militar "Guardião de nossos irmãos" na Cisjordânia e pelo hype midiático em torno da campanha "Bring back our boys" (Tragam de volta nossos meninos, em inglês). Esses sentimentos também repercutiram dentro da sociedade israelense, como prova o surgimento, desde o dia 30 de junho, de grupos no Facebook com a palavra de ordem "O povo de Israel exige vingança".
Nas páginas da rede social, jovens israelenses, entre os quais vários adolescentes e soldados, publicaram seus "selfies" (autorretratos) acompanhados de comentários racistas e incitações à vingança. Na quarta-feira (2), uma dessas páginas do Facebook que reunia mais de 35 mil seguidores foi fechada, segundo o jornal israelense "Haaretz". Outras páginas com o mesmo tema foram criadas desde então.
Preocupado com o fenômeno, o exército israelense publicou na quarta-feira um aviso destinado aos soldados.
"Se soldados se envolverem no envio de fotografias racistas e em incitações à punição de inocentes, isso será considerado um incidente grave que não corresponde ao comportamento esperado dos soldados das Forças Armadas israelenses. Cada um dos casos que forem assinalados aos comandantes será tratado com a maior severidade."

"Assassinato é assassinato"

A ministra da Justiça, Tzipi Livni, condenou essas incitações à vingança e afirmou que iria avaliar junto com o procurador-geral quais meios legais aplicar para processar os autores desses apelos.
"Devemos atacar a campanha de incitação que está acontecendo nas redes sociais. Se algo assim leva soldados a postarem fotos com suas armas ou adolescentes segurando cartazes incitando à morte de árabes, isso é terrível e eles precisam pagar por isso."
O primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu, por sua vez, fez um apelo na quarta-feira para que sejam processados os autores do assassinato de Mohammed Khudair, o palestino de 16 anos sequestrado em Jerusalém Oriental e morto. Ele também pediu para que os dois lados resistam à tentação de fazer justiça com as próprias mãos.
A família de um dos três jovens israelenses também se pronunciou contra esse assassinato durante uma cerimônia nacional na presença de dezenas de milhares de pessoas. "O sangue só tem uma cor. Um assassinato é um assassinato, independentemente da nacionalidade ou da idade, e não se justifica em nenhum caso", afirmou a família em um comunicado.
No entanto, alguns comentaristas apontam para a responsabilidade do chefe do governo israelense na promoção de um discurso de ódio. Em um comunicado publicado na segunda-feira, o próprio gabinete israelense havia feito um apelo por "vingança". Os três israelenses "foram sequestrados e mortos a sangue frio por animais. Em nome do povo judeu, eu queria dizer às famílias --as mães, os pais, as avós e avôs--, que estamos profundamente entristecidos. A nação inteira chora junto com vocês. Satã ainda não criou a vingança pelo sangue de uma criança…", comentou assim, pelo Twitter do governo, o primeiro-ministro, Binyamin Netanyahu, no dia 30 de junho, citando um poema do israelense Haim Nahman Bialik, escrito em 1903, acrescentando ainda: "O Hamas vai pagar."
Opinião: Lei fica em segundo plano na Cisjordânia, onde jovens foram mortos
Roger Cohen - NYTMorte de jovens reacende conflito Israel-palestinos
1°.jul.2014 - Avi e Rachel Fraenkel, pais de Naftali Frenkel, um dos três jovens israelenses sequestrados em junho, participam de seu funeral no assentamento de Nof Ayalon, região central de Israel. Os corpos de Gilad Shaer, 16, Naftali Frenkel, 16, e Eyal Ifrach, 19, foram encontrados nesta segunda-feira (30). Israel responsabiliza o Hamas pelo sequestro e pela morte dos jovens e diz que haverá retaliação. Shaer, Frenkel and Ifrach serão velados e sepultados em cerimônia conjunta em Modiín, região central de Israel.  Tomer Appelbaum/AP
"Israel é um Estado de direito e todos estão obrigados a agir de acordo com a lei", disse o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, após o rapto e assassinato de um adolescente palestino, morto em um aparente ataque por vingança pelo assassinato no mês passado de três adolescentes israelenses na Cisjordânia.
Ele chamou o assassinato de Muhammad Abu Khdeir em Jerusalém Oriental de "abominável". O presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, condenou o assassinato dos três israelenses, um deles também um cidadão americano, nos termos mais fortes.
Como entender este surto mais recente na rixa de sangue de árabes e judeus na Terra Santa, além da repulsa pela perda sem sentido da vida de quatro adolescentes? Como entender as lamentações dos mesmos líderes que optaram por jogar no lixo nove meses de tentativas americanas de mediação diplomática e agora colhem os frutos de sua irresponsabilidade?
Às vezes palavras, quaisquer palavras, parecem impróprias, porque os perpetradores do conflito desfrutam da atenção que recebem –todas as contorções verbais dos supostos pacificadores que insistem, em sua perseverança peculiar, que a razão pode triunfar sobre a vingança e a revelação bíblica.
Além disso, é preciso ser dito que Israel, um Estado de direito dentro das fronteiras pré-1967, não é um Estado de direito além delas na Cisjordânia ocupada, onde o domínio israelense sobre milhões de palestinos, há quase meio século, envolve coerção, humilhação e abusos quase rotineiros, aos quais a maioria dos israelenses se torna cada vez mais alheia.
O que acontece além da há muito esquecida Linha Verde tende apenas a invadir a consciência israelense quando estoura violência. Caso contrário, está acontecendo além do muro ou barreira (escolha a palavra que melhor se encaixa em sua política), em lugares onde é melhor não estender o assunto.
Mas aqueles lugares voltam para assombrar os israelenses, como os assassinatos vis de Eyal Yifrach, Naftali Fraenkel e Gilad Shaar demonstram. Netanyahu, sem apresentar evidência, culpou o Hamas pelos assassinatos. A vasta resposta israelense na Cisjordânia já resultou em seis palestinos mortos, cerca de 400 palestinos presos e grande parte do território em confinamento. As represálias se estenderam a Gaza. Os militantes palestinos dali dispararam foguetes e morteiros contra o sul de Israel em resposta.
Não é isso o que acontece em um Estado de direito. Além da Linha Verde se encontra um empreendimento israelense sem lei profundamente corrosivo, com o passar do tempo, ao nobre sonho sionista de uma democracia governada pela lei.
Todas as quatro mortes ocorreram em território ocupado ou anexado por Israel desde 1967. Ali, a lei fica em segundo plano diante das alegações messiânicas dos nacionalistas religiosos, que acreditam que os judeus têm o direito dado por Deus a todas as terras entre o Mediterrâneo e o Rio Jordão. A visão deles é a que domina, apesar de não ser a visão da maioria dos israelenses.
Nenhuma democracia pode permanecer imune à manutenção de um sistema não democrático de opressão em um território sob seu controle. Ter cidadãos de um lado de uma linha invisível e vassalos sem direitos do outro lado da linha não funciona. Uma democracia precisa de fronteiras; Israel impõe um governo militar aos palestinos nas áreas ocupadas, onde não há consentimento dos governados.
Quanto à (suposta) Autoridade Palestina, ela é fraca, e o movimento nacional palestino ainda é dilacerado por divisões sob um "governo de unidade", que não consegue nem mesmo pagar salários em Gaza.
Esta situação pode ser sustentável porque o poder está principalmente em Israel. Mas é sustentável apenas ao preço da violência que agora ocorre. Este é o futuro. Fora um acordo de paz entre dois Estados, a vingança sobrepujará a lei. A violência não é uma aberração. É a consequência lógica de uma ordem aberrativa suscetível a turbas de linchamento, sejam árabes ou judias.
A maioria dos israelenses e palestinos quer paz. Eles não querem que seus filhos morram assim. Mas seus líderes são figuras pequenas, que buscam apenas ganhos táticos de curto prazo.
Um amigo francês me encaminhou o boletim informativo recente de uma violinista francesa, Mathilde Vittu, que ensina música na Cisjordânia. Ela escreve sobre ver as crianças palestinas saindo de suas aulas, com os violinos nas costas, sendo cercadas por soldados israelenses tentando provocá-las. Ela vai a Gaza e observa o "duplo aprisionamento" imposto por Israel e pelas "regras do Hamas".
Em um conservatório improvisado, parcialmente destruído, atingido por cortes de luz no meio de solos de piano de Bach, ela fala sobre sua "emoção indescritível" com o concerto final mágico, onde ela recebeu o agradecimento "por nos libertar por uma noite por meio da música".
Um violinista muito talentoso, de 14 anos, diz a ela que planeja parar de tocar após sua prova para se tornar um "mártir", devido à morte de seu melhor amigo na Cisjordânia. Ela fica profundamente perturbada; então os moradores locais lhe dizem que muitas crianças em Gaza têm essa ambição aos 14 anos, mas depois pensam melhor a respeito.
Yifrach, Khdeir, Fraenkel, Shaar: será que a morte deles servirá a algum propósito? Eu duvido.

Tradutor: George El Khouri Andolfato
Advogada israelense tem missão impossível de cortar Irã da internet
Martin Untersinger - Le Monde
Como receber uma indenização de mais de um US$ 1 bilhão do Irã? Essa é a difícil questão enfrentada pela advogada israelense Nitsana Darshan-Leitner. Depois de ter obtido nos Estados Unidos a condenação do regime de Teerã por diversos atentados financiados por ele, ela agora não consegue receber o pagamento da indenização devida.A advogada decidiu então adotar um método inédito para isso: expropriar o Irã da internet. O objetivo de Nitsana Darshan-Leitner é, mais exatamente, apreender duas das chaves do funcionamento da rede: o domínio de topo $escape.getQuote().ir", o equivalente iraniano do $escape.getQuote().br" e os endereços IP atribuídos ao Irã.

Confiscar os nomes de domínios

Seu raciocínio é simples: como a internet é uma fonte de riqueza, o $escape.getQuote().ir" e os endereços IP são suas chaves, e já que Teerã não quer pagar o que a Justiça americana exige, por que não confiscar os sites iranianos?
Para isso, ela procurou a Icann. Essa organização americana subordinada ao Departamento de Comércio é responsável por parte da engrenagem que faz a rede funcionar, incluindo os domínios como $escape.getQuote().ir" e os endereços de IP.
Estes últimos são como os endereços postais dos computadores e dos servidores que compõem a internet: para encontrar um site, seu computador precisa do endereço IP, sem o qual ele não pode ser identificado e se orientar dentro da rede. De um ponto de vista puramente teórico, apropriando-se dessas duas alavancas, seria possível virar parte da internet iraniana de cabeça para baixo.
Mas Darshan-Leitner explicou em um comunicado que, se ela conseguir seu objetivo, a maioria dos sites que terminam em $escape.getQuote().ir" não seriam afetados e que somente os sites governamentais seriam o alvo.

Poucas chances de sucesso

Na realidade, a ação de Darshan-Leitner tem pouquíssimas chances de ter sucesso, na opinião de Stéphane Bortzmeyer, engenheiro de redes e especialista em arquitetura da internet.
"Tecnicamente, a Icann não pode fazer nada", ele explica. Na verdade, no que diz respeito aos códigos de países com duas letras, a Icann só cuida da organização.
Para que os computadores de todo o mundo saibam o que fazer e para onde enviar os internautas quando eles querem acessar um site que termine com um código de país com dois dígitos, quem manda é a empresa americana VeriSign, contratada pelo governo americano.
"Washington poderia dar essa ordem à VeriSign. Mas, do ponto de vista político, seria uma bomba nuclear, uma declaração de guerra", acredita Bortzmeyer. Além disso, esse sistema sob tutela do governo americano é uma questão de status quo, que poderia ser facilmente contornado em caso de emergência. Se os americanos decidissem riscar o Irã da internet, seria só de maneira provisória, segundo Bortzmeyer:
"Se os Estados Unidos cortassem o .ir, os países que estão satisfeitos com a gestão de Washington para o funcionamento da rede poderiam buscar uma outra solução, e os americanos perderiam seu poder."
Quanto ao segundo mecanismo, os endereços IP, Bortzmeyer observa que embora oficialmente a Icann atribua os endereços IP (para que dois computadores não tenham o mesmo), na verdade, é uma associação sediada na Holanda e, portanto sujeita à legislação holandesa, a Ripe NCC, a responsável pela atribuição dos endereços das máquinas situadas na Europa e no Oriente Médio. Portanto, pedir para que ela aplique sanções através da lei americana não teria efeito nenhum.

A "governança" em questão

No dia 23 de junho, a Icann recebeu de um tribunal do Estado de Washington uma intimação que a obrigava a detalhar suas relações contratuais com o Irã, o que seria uma etapa preliminar para uma eventual transferência do .ir e dos endereços IP.
Nem a Icann nem a Ripe NCC se manifestaram. A primeira tem dez dias para cumprir a intimação ou contestá-la na Justiça.
E esse episódio ocorre justamente agora que o papel da Icann se encontra em debate. A organização, que até o momento é subordinada, pelo menos em teoria, aos Estados Unidos, deve sair de seu domínio em breve, dentro de condições que ainda estão por definir.
A ministra francesa da Economia Digital, Axelle Lemaire, declarou recentemente que a Icann não era mais o local "adequado" para aquilo que se costuma chamar de "governança" da internet.
Espancamento de adolescente cigano expõe tensões na classe baixa francesa
Dan Bilefsky e Maïa De La Baume - NYT 
Denis Charlet/AFP
1º.out.2013 - Famílias ciganas fazem check-in no aeroporto de Lille, norte da França. Eles participam de um programa de retorno voluntário à Romênia 1º.out.2013 - Famílias ciganas fazem check-in no aeroporto de Lille, norte da França. Eles participam de um programa de retorno voluntário à Romênia
Com seus tristes prédios de apartamentos de concreto e seus bandos de jovens desempregados e entediados, o projeto habitacional Cité des Poètes desafia seu nome idílico.
Foi aqui neste subúrbio pobre de maioria de imigrantes no norte de Paris que, neste mês, um cigano de 17 anos, Gheorghe, conhecido como Darius, foi espancado até ficar inconsciente por uma gangue de até 20 jovens empunhando bastões de madeira e metal, de acordo com os promotores. Seu corpo flácido foi jogado em um carrinho de supermercado, com o rosto inchado congelado em uma máscara de dor. Darius, um cidadão romeno, continua em coma em condição crítica. Quase duas semanas depois do ataque, nenhuma prisão foi feita em um crime cuja brutalidade chocou a França e foi condenado pelo presidente François Hollande, que considerou o ato "além das palavras e injustificável". Promotores e testemunhas dizem que o ataque foi perpetrado em retaliação pela suspeita de que o menino ter roubado o projeto habitacional próximo. Embora não tenham caracterizado o ataque como um crime de motivação racial, os promotores dizem que não foi um crime comum, mas um verdadeiro linchamento na periferia de Paris, em meio a um clima cada vez mais inóspito para os grupos minoritários, aqui e em toda a Europa, principalmente para os ciganos. Por último, ele enfatizou as tensões existentes na classe baixa da França. Os ciganos, que montaram acampamentos nas periferias pobres das cidades francesas, estão em conflito com imigrantes residentes de longa data que têm dificuldades para se integrar e vivem na pobreza há décadas nos subúrbios que cercam Paris e outras cidades, conhecidos como banlieues. No caso de Darius, cujo nome completo não foi revelado pelas autoridades pelo fato de ser um menor, a fúria por viver na classe baixa nas periferias da capital francesa parece ter colocado os miseráveis contra os desesperados. "Aqueles que moram aqui são perdedores, a maioria não trabalha, e então essas pessoas ousam se assentar aqui perto", disse Aka, 45, que como a maioria dos moradores se recusou a dar seu sobrenome por medo de retaliação de outros moradores. Enquanto um grupo de ciganos vasculhava o lixo em busca de pedaços de metal perto de seu conjunto habitacional, ele disse: "São os pobres atormentando os pobres. Eles entram em nossas casas e destroem, roubam e vandalizam. É um absurdo". Dias depois que os ciganos montaram um acampamento improvisado no mês passado próximo de um conjunto habitacional do outro lado de uma rodovia, os moradores dizem que acordaram e encontraram carros sem os bancos. Joias, televisões e aparelhos de som desapareceram, disseram. Mas ninguém chamou a polícia, em uma demonstração da profunda desconfiança em relação às autoridades, compartilhada tanto pelos ciganos quanto pelos moradores do local.
Daya, 14, uma estudante que diz ter testemunhado o início do ataque, disse que os conjuntos habitacionais tinham seu próprio sistema de justiça interna. Ela disse que os homens locais formaram uma gangue que resolve os problemas com as próprias mãos, sem se dar ao trabalho de notificar a polícia. "Se você liga para eles, eles o transformam em alvo, então não nos damos ao trabalho", disse. O também estudante Bader, 15, acrescentou: "Nunca vimos a polícia aqui." Em 13 de junho, a noite do ataque, houve dois roubos em conjuntos habitacionais, disseram os promotores e testemunhas. Durante o segundo roubo, um jovem que se encaixava na descrição de Darius – usando calças de moletom e uma camiseta vermelha – foi visto tentando roubar um apartamento, mas conseguiu escapar. Ele já tinha sido pego roubando antes, dizem os moradores. Daya disse que estava voltando para casa de um jogo de basquete quando viu cerca de 20 homens indo em direção ao acampamento dos ciganos, segurando tacos. Ela disse que os homens vinham da Cité des Poètes e também de um conjunto habitacional próximo. Pelo menos um estava armado, disseram os promotores. Quando a avó de Darius tentou impedir a gangue, os integrantes bateram nela, disseram testemunhas. Então eles atravessaram os trilhos do trem e o levaram para o porão de um apartamento, onde bateram nele quase até a morte. Depois que Darius foi levado, sua mãe recebeu um telefonema dos sequestradores, que usaram o celular de Darius, e pediram um resgate de 15 mil euros, ou mais de US$ 12 mil. Eventualmente, o valor foi reduzido para 5.000 euros. O jornal francês Le Monde reportou que os sequestradores haviam ameaçado decapitar Darius. Ion Vardu Sandu, 49, um mecânico cigano cuja oficina fica ao lado do acampamento cigano e que emprega jovens do bairro, disse que a família de Darius havia oferecido devolver as joias que ele havia roubado. Em vez disso, ele encontrou o corpo quase sem vida de Darius do lado da estrada. "Ele mal estava respirando e seus olhos estavam fechados", disse Sandu. "Não foi um crime racista. Esse Darius era o ladrão número 1 na Romênia. Ele vem aqui e rouba e cria uma imagem ruim para todos nós." Depois que Darius foi atacado, os 150 ou mais ciganos que moravam perto dos conjuntos habitacionais fugiram. Hoje o acampamento cigano de quase 40 casas improvisadas está abandonado. Pilhas de lixo e roupas continuam por lá, junto com brinquedos, embalagens intocadas com comida pronta e sacos de baguete. Os investigadores dizem que tiveram dificuldades em capturar os responsáveis, em parte porque os ciganos, condicionados pela perseguição, deram testemunhos contraditórios, por temerem ser processados. Os ciganos, que foram segregados e enviados para campos de concentração junto com judeus pelos nazistas durante a 2ª Guerra Mundial, há muito lutam para superar o legado de perseguição. Descendentes de indianos, os ciganos há gerações continuam pobres e praticamente nômades, vivendo às margens da sociedade. Uma maioria dos cerca de 20 mil ciganos franceses, que não têm cidadania, vêm da Romênia e da Bulgária, dois dos mais novos e mais pobres membros da União Europeia, cujos cidadãos conquistaram o direito total de ir e vir para viver e trabalhar na UE este ano. 
Governo condena ataque
 Apesar de Hollande ter condenado o ataque, seu governo socialista acelerou a destruição dos acampamentos dos ciganos, e alguns críticos culpam-no por legitimar um clima de ódio contra os ciganos, inflamado pela extrema-direita. Seu primeiro-ministro recentemente nomeado, Manuel Valls, disse no ano passado que apenas uma minoria de ciganos podem se integrar, sugerindo que os demais deveriam ir embora. Em maio, o partido de extrema-direita de Marine Le Pen, a Frente Nacional, ficou em primeiro lugar nas eleições para o Parlamento Europeu, fazendo uma campanha anti-imigração que ressoou fortemente na economia paralisada da França. O partido alertou que o país corria o risco de ser inundado de ciganos, e no ano passado, seu fundador, Jean-Marie Le Pen, chamou a população cigana de Nice de "malcheirosa" e "causadora de urticária". Darius havia fugido de um hospital psiquiátrico na Romênia antes de ir para a França, disseram as autoridades, e ele parece se encaixar no padrão de muitos jovens ciganos que vivem no país. Os defensores dos ciganos dizem que depois de fugir da Romênia, ele se juntou à sua mãe e avó na França. Seu pai continua na Romênia. Darius não frequentou a escola e foi preso por suspeita de roubo pelo menos uma vez, sem ter sido acusado, disseram os promotores. Sua mãe está desempregada. Manon Fillonneau, um monitora de direitos humanos para o Centro Europeu de Direitos dos Ciganos em Paris, disse que a violência e a intimidação contra os ciganos tem se intensificado, incluindo relatos de um ataque de ácido no centro de Paris e coquetéis Molotov lançados contra trailers de ciganos perto de Lille, no norte da França. Crianças como Darius estão sendo evitadas pelas escolas públicas que temem legitimar os acampamentos ciganos onde elas vivem, disse ela. "Estamos perdendo uma geração de crianças", disse ela. Em Cité des Poètes, os jovens também disseram que se sentem abandonados pelo Estado francês. Cerca de 900 projetos de moradia foram construídos dos anos 70 aos 90 com a intenção de abrigar as populações de imigrantes da classe trabalhadora, muitos da África subsaariana e do norte da África. O desemprego nos projetos habitacionais chega a 30%, diz Benoît Ménard, do gabinete da prefeitura em Pierrefitte-sur-Seine. Um terço da população nasceu fora da França, de acordo com o Instituto Nacional de Estatísticas. A Cité des Poètes está passando por uma extensa reforma, com a instalação de varandas modernistas cor-de-laranja em alguns prédios e jardins. Mas os moradores dizem que as reformas são apenas maquiagem. "Não há cinema, piscina, quadra de futebol", disse o estudante Bader, sentado ao lado de seus amigos. "As pessoas não têm emprego nem dinheiro, então roubam ou vendem drogas. Elas não procuram fazer nada mais. Aqui não temos nada." 
Tradutor: Eloise De Vylder
Por que o destino da Ucrânia é importante
Thomas L. Friedman - NYT
Genya Svilov/AFP
Ucranianos comemoram acordo de livre comércio assinado com a União Europeia Ucranianos comemoram acordo de livre comércio assinado com a União Europeia
Não dá para inventar uma história dessas. O jornal "The Guardian" noticiou no domingo (29) que os ucranianos financiaram por "crowdfunding" o primeiro "drone popular", para ajudar seu exército a conter a infiltração de rebeldes apoiados pelos russos nas províncias do leste da Ucrânia, que fazem fronteira com a Rússia.
"Na semana passada, o site de 'crowdfunding' da Ucrânia, 'Projeto Popular', disse ter recebido doações suficientes para financiar um drone (aeronave não tripulada)", noticiou "The Guardian". "Os organizadores esperavam originalmente comprar um drone avançado israelense – por US$ 165 mil – ou um americano mais barato, custando US$ 120 mil. No final, entretanto, eles conseguiram montar um drone por apenas US$ 35 mil. Um projetista e outros voluntários montaram a fuselagem, com um instituto militar ucraniano inserindo o equipamento técnico."
Bom para eles. O destino da Ucrânia importa – tanto quanto, se não mais, que o da Síria e do Iraque. Nós não precisamos procurar por "moderados" na Ucrânia. Milhões ali já lutaram e votaram por alinhar seu país com os mercados livres e povos livres da União Europeia.
Em Bruxelas, o recém-eleito presidente ucraniano, Petro Poroshenko, assinou um pacto comercial com a União Europeia que reduzirá as tarifas das exportações ucranianas para o mercado da UE em troca da implantação pela Ucrânia de reformas anticorrupção, de transparência e controle de qualidade, que visam colocar sua economia dentro dos padrões ocidentais.
É o mesmo acordo que o antecessor de Poroshenko, Viktor Yanukovych, se recusou a assinar em novembro passado, sob pressão do presidente da Rússia, Vladimir Putin. Isso provocou a revolução na principal praça de Kiev, que levou à queda de Yanukovych e à rebelião dos separatistas dirigidos por Putin no leste da Ucrânia. Esse foi o motivo para apenas horas após o acordo ter sido assinado, o vice-ministro das Relações Exteriores da Rússia, Grigory Karasin, ter sido citado pela agência de notícias "Interfax" como alertando ominosamente que o acordo UE-Ucrânia teria "sérias consequências".
É mesmo? Pense a respeito. Um país ameaçando outro por assinar um pacto comercial na esperança de aumentar a renda de sua população, que está muito atrás das de seus vizinhos, como a Polônia, que se juntaram à União Europeia após o colapso da União Soviética. Eu entendo que os russos não queiram que a Ucrânia ingresse na Otan, uma aliança de defesa ainda voltada a conter o poder russo. Eu me opunha à expansão da Otan no final da Guerra Fria e não a apoiaria agora. Mas um acordo comercial que nem mesmo leva ao ingresso automático na UE? É assim que a Rússia mantém seu status de poder? Mantendo seus vizinhos pobres e carentes de energia?
Eu argumentei em maio que Putin "piscou" quando, após as sanções do Ocidente e a ameaça de mais, ele recuou as tropas da fronteira da Ucrânia, onde estavam reunidas – na esperança de, primeiro, bloquear a eleição de Poroshenko e, segundo, a assinatura do acordo com a UE. Mas talvez Putin tenha apenas mudado de estratégia. Apesar de não ter invadido, ele apenas despejou armas e substitutos no leste da Ucrânia, para fomentar o separatismo nas áreas de língua russa. Hoje, Poroshenko – cansado das mentiras tipo Goebbels de Putin – ordenou que suas forças retomem o controle do leste da Ucrânia e o direito de seu país de escolher seu futuro. Putin claramente teme mais sanções. É hora dos Estados Unidos e da UE impô-las.
Ao negar aos ucranianos o direito de escolher seu próprio caminho econômico e político, Putin mostra o quanto ele é idiota e esperto ao mesmo tempo. Ele é idiota por acreditar que, neste mundo conectado de cidadãos recém-empoderados, ele pode desfrutar da mesma "esfera de influência" que a Rússia tinha na Europa Central na época dos czares. Desculpe. Se um líder quer ter uma esfera de influência hoje – nesta era de "pessoas de influência"– ele precisa adquiri-la pela forma como se comporta ou tomá-la à força. Na Ucrânia, Putin é incapaz da primeira e – por ora – não ousa fazer a segunda. Os czares nunca tiveram que lidar com pessoas de influência que financiam por crowdfunding seus próprios drones.
Mas Putin também é esperto. Ou como colocou o analista russo Vladimir Frolov no "The Moscow Times": "O presidente Vladimir Putin pode fracassar em atingir sua meta de impedir o acordo de associação da Ucrânia com a UE, mas em casa ele já lucrou com sua estratégia política para a Ucrânia, ao redefinir a conversa nacional da Rússia. Sua principal realização foi eliminar qualquer debate significativo sobre futuros alternativos para a Rússia. Há menos de um ano, ainda havia espaço político para promoção de alternativas democráticas ao sistema de Putin".
Mas a tomada da Crimeia pela Rússia e sua guerra por procuração na Ucrânia, acrescentou Frolov, "transformaram a conversa nacional de um debate saudável sobre o desempenho presidencial de Putin em uma discussão tóxica sobre guerra e os inimigos da Rússia. A propaganda de Moscou pintou com sucesso o levante popular da Ucrânia contra o sequestro do Estado por uma camarilha corrupta como sendo 'um golpe fascista patrocinado pelos Estados Unidos'".
Portanto, se Putin "está combatendo nazistas na Ucrânia, então, por extensão, qualquer um que discorde dele pode ser um colaborador nazista e um inimigo da Rússia. Isso fecha o espaço político para todas as visões alternativas para a Rússia, exceto como um império revisionista hostil ao Ocidente".
Saída de imigrantes é a principal causa de queda populacional na Espanha
Ana Carbajosa - El País 
Cati e Ramiro Ayo já estão com a cabeça no Equador, para onde pretendem voltar com suas duas filhas depois do verão, para montar um negócio com o qual tirar partido dos conhecimentos de serralheiro que Ramiro adquiriu em construções na Espanha. Como boa parte de seus vizinhos equatorianos em Mula (Múrcia), estão há quase 15 anos na Espanha e, também como seus compatriotas, sentem que chegou o momento de partir do país que os recebeu em tempos de bonança e no qual agora sentem que sobram. De festa em festa, despediram-se nos últimos três anos de quase todos os seus amigos. "Os que ficam se contam nos dedos das mãos", lamenta Cati no ferro-velho para onde se mudaram depois que o banco tomou seu apartamento.
A saída de imigrantes como os Ayo é a principal causa do acentuado declínio da população da Espanha, segundo os dados de migrações publicados na segunda-feira (30) pelo Instituto Nacional de Estatística (INE). Até 547.890 pessoas emigraram, o maior número desde que se registram esses dados. Trata-se do segundo ano consecutivo em que a Espanha perde população, com uma redução de 220.130 pessoas. 
O número total de imigrantes se situa em 4.676.022, ou 7,82% menos que em 2012. É o quarto ano consecutivo em que se registra um saldo migratório negativo, e representa uma queda seis vezes superior à de 2010, o primeiro ano em que começou a cair. O INE também fala em 230.581 nacionalizados espanhóis, o que explica parte do declínio de estrangeiros.
Os espanhóis não escapam ao êxodo migratório. Durante 2013, 79.306 espanhóis decidiram ir para o exterior, o que representa um crescimento de 38,5% em relação ao ano anterior. E só 33.396 espanhóis decidiram voltar ao país. O maior número de saídas em termos relativos ocorreu entre as comunidades equatoriana, colombiana e boliviana. Em termos absolutos, os que mais emigraram foram os romenos (69.669) e os marroquinos (52.483). Vão-se também os ingleses e os alemães, assustados pelas obrigações exigidas pelo fisco espanhol e para os quais o custo de vida na Espanha não compensa mais viver sob o sol. Os países cuja população continua aumentando se contam nos dedos das mãos. Os russos e os chineses estão entre eles.
Cati e Ramiro Ayo voltam para o Equador porque lá, segundo Ramiro, "é igual a quando viemos para cá. Todos têm sua casa e seu carro, e nos bancos tudo é facilitado". Seguem o rastro do otimismo que os trouxe à Espanha em 2000 e que aqui se foi faz tempo. Como eles, centenas de equatorianos que se assentaram nesta comarca agrícola disseram adeus aos cítricos e aos tomates.
A maioria dos cafés de Mula fechou, assim como cerca de 30 lojas arruinadas pela crise e pelo êxodo de consumidores. O centro ficou cheio de apartamentos desocupados, que são vendidos a preços baixos. "A maioria foi para seu país e entregou os apartamentos aos bancos, que em muitos casos os vendem a preço de custo", apontam na agência local da imobiliária Jiménez Huéscar.
O caso de Mula, um povoado de 17 mil habitantes que acumula problemas financeiros e sociais depois do estouro da bolha imobiliária, não é especialmente grave. Mas sobretudo não é o único. A saída silenciosa e constante de imigrantes se reproduz pelos povoados e bairros de toda a Espanha. Os cerca de 5 milhões de imigrantes que o país recebeu nos tempos de bonança partem agora, em uma espécie de chuva fina, imperceptível aos olhos dos que desenham as políticas macroeconômicas.
Os que partem são mais jovens que a média nacional, e portanto com maior possibilidade de ter filhos que os espanhóis, o que contribui para agravar o problema do envelhecimento da população. A análise de maio passado do INE sobre a população ativa na Espanha indica que houve uma redução de 424.500 pessoas ativas no último ano, 364 mil delas estrangeiras.
Apesar da falta de estudos sobre o impacto da saída de imigrantes, ou de planos oficiais para controlar ou dirigir as saídas, há economistas que afirmam que a perda de peso populacional forçosamente provocará mudanças no metabolismo de um país que engordou muito em pouco tempo e que agora emagrece rapidamente. O economista Edward Hugh, autor do livro "Adeus à Crise?" e do blog Demography acredita que a saída de trabalhadores "pode ser só o princípio". Ele indica a queda do consumo básico e a perda de capital humano formado para trabalhar como algumas das principais consequências da redução demográfica, e destaca o impacto em médio prazo sobre as aposentadorias. "As pessoas que saem estão em idade de contribuir e não fazem uso excessivo do sistema de saúde porque são jovens", indica.
Hugh refere-se por último ao debate global que apenas começou na Espanha --apesar da montanha-russa demográfica dos últimos anos-- sobre se é bom ou ruim a população de um país diminuir. As projeções do INE, por exemplo, indicam que a Espanha perderá 2,6 milhões de habitantes nos próximos dez anos se a tendência se mantiver. "Quando a economia se recuperar, vamos sentir falta dos que partiram, sobretudo dos mais qualificados", aponta o diretor do Centro de Estudos sobre Migrações e Cidadania, Joaquín Arango.
Partem primeiro aqueles cujos países oferecem mais alternativas. No caso espanhol, foram os cidadões da União Europeia, depois os brasileiros e argentinos e depois os demais. Vão-se também os que conseguem a nacionalidade espanhola, isto é, os mais integrados. "Os colégios, os hospitais e em geral os serviços públicos fizeram o esforço para adaptar-se melhor ou pior a uma realidade que agora se esfuma", analisa González Ferrer. Javier Díaz Giménez, professor de economia no IESE, queixa-se de que os sucessivos governos não souberam criar planos migratórios nem quando os trabalhadores vinham nem agora que se vão. "Não soubemos reter os imigrantes", opina.
Os especialistas advertem sobre a complexidade de quantificar esse fenômeno. Os dados de migrações publicados na segunda-feira (30) correspondem às altas e baixas do censo municipal, submetidas a um tratamento estatístico que pretende afinar as saídas e entradas. O problema é que as pessoas que partem não costumam comunicá-lo, e sua saída costuma aparecer quando se limpa o censo municipal, a cada dois anos. O desejo de alguns municípios de ter maior número de habitantes inscritos, com o objetivo de ter acesso a mais recursos, também não ajuda a esclarecer a magnitude da hemorragia demográfica. Carmen González Enríquez, do Real Instituto Elcano, aponta o impacto da reforma da Saúde. "Desde que excluíram da Saúde os imigrantes sem permissão de residência, muitos deixaram de se recensear porque não lhes garantia o acesso ao sistema", explica.
Apesar da dificuldade de medir o êxodo, a verdade é que em campo a evidência impressiona. Pouco antes das 7h em uma manhã de junho, no Consulado do Equador em Madri, o engenheiro Aníbal se prepara para vender banana com manteiga derretida, acebolado e tamales às pessoas que fazem fila, em plena na rua. Algumas preparam sua volta e se animam a participar da conversa. Há quem já tenha parte da família fora do país. Outros irão logo. "Lá se ganha pouco, mas nunca falta o que comer", dizem. "Você vai ao campo, pesca e depois há a família..." O próprio Aníbal partirá dentro de alguns meses, depois de cinco anos desempregado, desde que terminaram as obras e parou de operar a grua. Há cada vez menos equatorianos para os quais vender refeições, lamenta.
O embaixador do Equador na Espanha, Miguel Calahorrano, calcula em pelo menos 50 mil aqueles que retornaram (há ao todo 56.466 equatorianos a menos na Espanha, segundo o INE), mas também fala em milhares com dupla nacionalidade equatoriana-espanhola emigrados para a Europa e que não contam como estrangeiros na Espanha. Duas universidades espanholas estão estudando, por encomenda da embaixada, a saída de equatorianos da Espanha. "É para tentar saber o que está acontecendo com nossa gente", indica o embaixador. Para Calahorrano, a origem dos males de sua comunidade está nas hipotecas, "que os bancos lhes venderam sabendo que não poderiam pagar". Calculam que 20 mil de seus nacionais se encontrem nessa situação. "Em nosso país vão viver melhor. Terão uma vida digna."
Em Mula, a saída de equatorianos coincidiu com a chegada de magrebinos. A prefeitura diz que no final de 2007 havia 1.707 equatorianos e hoje há 664. O problema é que em Mula, assim como em muitos outros locais da Espanha, não atualizaram o censo municipal. Em parte por falta de verbas, segundo fontes municipais, mas também porque caso se registre um declínio acentuado da população receberiam menos verbas.
O grosso dos imigrantes parte de Mula, como dos demais povoados da Espanha, em um contexto de empobrecimento generalizado e de crescente tensão social. Com o passar dos meses, os subsídios acabam e o exército de pedreiros, encanadores e eletricistas que deixaram a escola para trabalhar no litoral espanhol por 3 mil euros por mês hoje vaga pelas ruas, sem trabalho ou benefícios. Competem pelos empregos e pelas ajudas do banco de alimentos ou as bolsas de refeitório com os imigrantes que ainda não foram ou que chegam, procedentes de outras regiões da Espanha ou outros países.
"Antes, os beneficiários das bolsas-refeição que distribuímos eram sobretudo latino-americanos, e agora são principalmente espanhóis", explica María Dolores Romero, do serviço social da prefeitura de Mula. E conta que pela primeira vez em um muro do povoado, o lugar onde se distribuem os alimentos, apareceu há pouco tempo um grafite que dizia "Os espanhóis primeiro".
Alguns estrangeiros em Mula queixam-se de que agora a população local não os trata bem e que não se sentem bem-vindos. Em um bar qualquer, basta mencionar a palavra "imigrante" para que a temperatura suba e comecem a recitar os supostos benefícios e desvantagens comparativos. "Com as vacas gordas, todos éramos muito bons, mas quando o cinto aperta é outra coisa", afirma Jerónimo Moya, técnico de desenvolvimento local da prefeitura de Mula. "A tensão é palpável. As pessoas estão desesperadas e culpam os imigrantes."
No meio da tarde, nos arredores de Mula, um ônibus para e descem cerca de 15 temporárias que voltam da colheita de tomate, ganhando 6,42 euros por hora embaixo do plástico. Há trabalhadoras do Equador, da Bolívia, da Argentina, da Bulgária e também da Espanha. Como todos os dias, saíram daqui às 4h45 da manhã e voltam derrotadas. Víctor Ipiales, o motorista do ônibus, está arrumando os papéis para voltar ao Equador, seguindo sua mulher, sua filha e seus netos, que já foram há três anos. Diz que "aqui não há mais futuro". Algumas de suas passageiras habituais também fizeram as malas. Outras, como Paola Espinel, invejam os que se vão. "Em nossa idade e sem estudos, seria muito difícil encontrar outro trabalho. Muitos partem cheios de ilusão, mas para nós, que não temos nada, não resta outra coisa senão continuarmos aqui."
Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
Em meio à crise econômica, cresce a ira contra os donos de navios comerciais gregos
Manfred Ertel - Der Spiegel
Angelos Tzortzinis/AFP
Manifestantes gregos protestam contra as medidas de austeridade impostas ao país Manifestantes gregos protestam contra as medidas de austeridade impostas ao país
A economia grega continua sofrendo, mas os donos de navios do país estão gastando como se não houvesse crise. Antes populares, as companhias de transporte marítimo estão sendo amplamente insultadas.
Houve um tempo em que os donos de navios gregos adornavam as capas de revistas de fofocas e dirigiam times de futebol, seguros do afeto de milhões de fãs. Mas, hoje em dia, homens como Theodoros Veniamis, um dos empresários mais ricos do setor no país, precisa de proteção pessoal. Muitos não saem de casa sem ela.
Na lista de gregos odiados por seus compatriotas, os donos de companhias de transporte marítimo quase chegaram ao topo; só os políticos são mais detestados. Eles são ameaçados por grupos radicais de esquerda e até atacados fisicamente. Também houve tentativas de sequestros. Em pelo menos um caso, a família do dono de uma companhia marítima pagou milhões em resgate.
Os magnatas do transporte marítimo na Grécia são considerados gananciosos e inescrupulosos. De acordo com análises internacionais, pelo menos 140 bilhões de euros do setor deixaram de ser tarifados desde 2002, uma quantia que reduziria em quase metade as obrigações financeiras do país criticamente endividado.
Só na Suíça, acredita-se que existam 60 bilhões de euros em fundos gregos, a maioria pertencente a companhias de transporte marítimo. Eles foram em parte acumulados legalmente, graças a uma rede de regulações especiais que permite isenção de impostos para os donos de navios, e em parte ilegalmente, através de sonegação de impostos. No ano passado, Viktor Restis, dono de uma companhia de transporte marítimo, foi preso sob suspeita de lavagem de dinheiro.
"Seguimos nosso próprio metabolismo"
Mas isso não é tudo. A Grécia continua sendo um país em crise. O desemprego está em 27%, a arrecadação de impostos estagnou e Atenas está pechinchando com os credores internacionais por um novo corte nas dívidas. Enquanto isso, as companhias de transporte marítimo estão expandindo suas frotas como se dinheiro não fosse problema.
No ano passado, elas encomendaram 275 novos navios no valor de quase 10 bilhões de euros, mais do que qualquer país no mundo. Uma soma similar foi investida na reforma de suas frotas. Só nas primeiras semanas deste ano, as companhias de comércio exterior gregas encomendaram 15 navios usados e 19 novos no valor de cerca de 5 bilhões. É quase como se não tivesse havido crise no setor ao longo dos últimos anos.
"Seguimos nosso próprio metabolismo", diz Veniamis. "Compramos quando os tempos estão difíceis. É nossa receita para o sucesso." Como muitas companhias gregas de transporte marítimo são empresas familiares – diferentemente das corporações de propriedade pública que formam a maior parte de sua concorrência internacional – elas podem bancar essa estratégia, diz. "O dinheiro vem de nossos próprios bolsos."
Mas quando questionado sobre quando dinheiro chega em seu bolso, ele fica quieto. Veniamis, 63, administra a Golden Union Shipping Company, que tem uma frota de 52 navios. Ele está em 51º lugar na lista do Lloyd's dos donos de transportadoras marítimas mais influentes do mundo. Como presidente do Sindicato de Transportadoras Marítimas da Grécia, ele também fala em nome de aproximadamente 800 famílias do setor que comandam 5 mil navios cargueiros, de contêineres e navios-tanque – a maior frota comercial do mundo em termos de capacidade.
Quando questionado sobre a sonegação de impostos e as investigações de pelo menos 46 empresários do setor, ele se torna evasivo. Na Alemanha também há "muitas formas de evitar pagar impostos", diz Veniamis. "Estamos concorrendo com o mundo inteiro. Mas em nenhum lugar os empresários são tão patriotas."
Ovelhas negras
E quanto à chamada "lista Lagarde", que leva o nome do ex-ministro francês das finanças, que elenca mais de 2 mil contas no exterior em um banco em Genebra? Entre os nomes nas contas, suspeita-se que mais de 100 sejam de donos de companhias de navios e suas mulheres.
"Exceções", diz Veniamis – incidentes isolados, nos quais propriedades privadas ou propriedades familiares passaram pelos balancetes das companhias. Elas são ovelhas negras, diz ele, do tipo que existe em qualquer lugar. Então ele logo mudou de assunto e descreveu como seu grupo apoia 12 mil famílias necessitadas entregando cestas mensais de produtos que contêm de tudo, "de azeite de oliva a croissants."
Veniamis também não gosta de falar sobre o fato de que quase todos os países europeus subsidiam suas companhias de transporte marítimo para mantê-las competitivas com as do Oriente distante. O imposto sobre tonelagem, que é padronizado mundialmente, é uma forma de apoio. É um tipo de imposto uniforme, que depende principalmente do tamanho e capacidade do navio, mas não da renda que ele gera.
A taxa por tonelada difere, mas de acordo com especialistas, não há nenhum outro lugar no mundo onde os donos de navios são poupados dos fardos financeiros da mesma forma que na Grécia.
Mais pressão
As companhias de transporte marítimo gregas, e aquelas que operam no país, são quase isentas de impostos ou taxas, e a renda advinda do comércio internacional não precisa ser taxada de forma alguma. Mesmo quando uma companhia de transporte marítimo vende um navio, ela não paga imposto. O partido de oposição Syriza recentemente contou um total de 58 regras especiais e demandou que elas sejam mudadas. "Nunca tivemos um sistema diferente", diz Veniamis. "Pagamos impostos como pessoas privadas assim como os outros."
Até 7% da produção econômica da Grécia depende do transporte marítimo, diz ele. A marinha mercante do país, segundo ele, emprega mais funcionários locais por navio do que a Alemanha. Mas no fim das contas, isso significa apenas 30 mil gregos e o sindicato dos marinheiros gregos reclama de uma taxa de desemprego de 70%. O sindicato também argumenta que, enquanto os donos de navios gregos pagaram privadamente 15 milhões de euros em impostos para os cofres estatais em 2012, os marinheiros pagaram mais de 55 milhões de euros.
Mas agora os donos de navios estão enfrentando pressão. O governo em Atenas conseguiu que eles aprovassem dobrar voluntariamente as taxas de tonelagem, uma medida que deve se traduzir em 140 milhões em arrecadação do setor de transporte marítimo anualmente durante os próximos três anos.
Os empresários se regozijaram com os elogios do público gerados pelo acordo. Mas as companhias de transporte marítimo acreditam que o acordo custará a elas apenas 100 milhões de euros por ano, bem menos do que espera o Ministério das Finanças. E elas estão pedindo muito mais tempo para pagar a quantia.
Tradutor: Eloise De Vylder
Cidade alemã elege representante de partido nazista para Conselho Municipal
Alison Smale - NYT
Ele é conhecido aqui como SS-Siggi, e com seu corpo grandalhão e tatuagens "Germania", certamente faz jus ao apelido.
Por 30 anos, durante os quais teve vários problemas com a lei, Siegfried Borchardt --conhecido como SS-Siggi e ligeiramente parecido com Hulk Hogan-- esteve envolvido com a extrema-direita dessa cidade desolada de 600 mil habitantes, trabalhando em sua facção política. Este mês, para o horror do establishment político e de muitos moradores, ele assumiu seu lugar no Conselho Municipal de 94 membros.
Sua ascensão contradiz a imagem que a Alemanha faz de si mesma de um país alérgico ao nacionalismo e ao populismo que estão ganhando terreno em outras partes da Europa. Esta Alemanha --na Baviera, no sudoeste, em torno de Frankfurt-- é o motor econômico da Europa, com baixo desemprego, exportações em expansão e lojas brilhantes transbordando prosperidade.
Dortmund é outra Alemanha: um antigo centro de carvão e aço, deteriorado, no coração da região industrial de Ruhr, com a zona norte desorganizada, poucos empregos, criminalidade maior que a média em alguns bairros, um grande centro para registrar quem busca asilo e um local onde quase um em cada três habitantes tem origem estrangeira.
A eleição de Borchardt em maio tanto chocou quanto dividiu os moradores e ajudou a revelar uma série de tensões --não só entre os alemães nativos e os imigrantes mais recentes, mas também entre os muitos grupos de imigrantes da cidade-- que surgiram a partir das profundas mudanças demográficas pelas quais a cidade passou.
Quando Borchardt e cerca de duas dúzias de neonazistas tentaram entrar em uma festa pós-eleitoral em maio, causaram uma briga nas escadarias da prefeitura. "Estrangeiros, fora!", gritava um grupo; "Nazistas, fora!", berrava o outro.
Entre uma nuvem de spray de pimenta, dez pessoas ficaram feridas, inclusive Christian Gebel, 38, designer gráfico e membro do Conselho Municipal pelo Partido Pirata, que ainda tem uma cicatriz pequena sobre a sobrancelha direita, onde foi atingido por uma garrafa de cerveja arremessada.
Quando Borchardt assumiu seu lugar no Conselho Municipal na semana passada, acompanhado até a prefeitura por 15 de seus amigos, a polícia não quis arriscar. Havia "mais policiais do que políticos", concluiu o jornal local "Ruhr Nachrichten" em seu blog ao vivo enquanto Borchardt e seu grupo era recebido por 200 manifestantes anti-nazistas que se reuniram para vaiá-lo.
Desde que Borchardt participava da torcida Borussenfront, do time de futebol local Borussia Dotrmund, nos anos 80, Dortmund já tinha uma reputação de ser um centro de referência para cerca de 9.600 pessoas atualmente consideradas pela agência de inteligência doméstica da Alemanha como extremistas de direita ativos.
Um relatório anual apresentado na semana passada pelo ministro de Interior, Thomas de Maizière, alertou especialmente sobre o aumento da atividade de direita, especialmente o assédio a estrangeiros e pessoas que buscam asilo.
"Eles estão constantemente tentando envenenar a atmosfera", disse Maizière sobre os extremistas.
Alguns partidos neonazistas foram banidos na Alemanha, mas outros conseguiram sobreviver tomando cuidado para não ultrapassar as fronteiras da lei. O Partido Nacional Democrático da Alemanha, NPD, neonazista, conseguiu uma cadeira nas eleições parlamentares europeias recentes, e os neonazistas estão representados nos Parlamentos de dois dos 16 Estados da Alemanha.
Em Dortmund, a quantidade de votos para a extrema-direita não mudou este ano em relação à última eleição em 2009, cerca de 4.000. Mas ela teve mais peso porque o comparecimento geral às urnas diminuiu. O voto de extrema-direita ficou dividido entre o NPD (que também tem um integrante no Conselho Municipal) e Borchardt e seu partido, Die Rechte.
Borchardt concorreu a uma cadeira defendendo a plataforma anti-imigração de uma "Alemanha para os alemães" da extrema-direita, que tende a não fazer campanha de forma muito ativa, em parte para não ultrapassar os limites da lei e correr o risco de ser banida. Da mesma forma, os eleitores de direita tendem a guardar suas preferências para si mesmos.
Ilsegret Bonke, 82, uma viúva que viveu 52 anos de sua vida na dilapidada rua Schelswiger, no norte da cidade, é uma das poucas moradoras alemãs nativas remanescentes.
Em uma tarde recente, ela assistiu com satisfação a um policial que levou embora um adolescente cigano que, segundo ela, havia arrancado sua peruca na rua havia três dias.
"Eu o reconheci e liguei para a polícia", disse ela. Denunciar os delitos dos ciganos "me mantém jovem", acrescentou ela com um sorriso.
Cetin Satelmis, 56, passou 35 anos em Dortmund trabalhando em fábricas têxteis e outras antes de comprar uma casa de esquina na mesma rua, onde ele tem um quiosque no piso térreo. Ele se orgulha do progresso que fez desde que imigrou da região central da Anatólia, na Turquia. Hoje ele é um cidadão alemão, dono de um imóvel e dirige um Mercedes preto brilhante.
Mas ele anunciou com raiva que entregaria o imóvel para seu filho e deixaria a cidade para sempre. "Onde estou?", perguntou ele, enquanto dezenas de ciganos, crianças, adolescentes e jovens mães brincavam e gritavam a alguns metros dali. "Na Alemanha ou na terra dos ciganos?" (Vários dos ciganos haviam comprado doces ou cigarros no quiosque dele alguns minutos antes.)
Um e-mail pedindo comentários ou uma entrevista com Borchardt ou um de seus aliados para discutir suas políticas ficou sem resposta, e tentativas de contatá-lo por telefone também não tiveram sucesso.
Ele não revelou muito para os repórteres na prefeitura além de afirmar que, para ele, o pensamento nazista não é automaticamente repulsivo. Sua volubilidade com frequência varia "com a hora do dia e o nível de álcool em seu sangue", disse Alex Völkel, jornalista e blogueiro local.
Völkel e outros ativistas cívicos enfatizaram que Borchardt precisava apenas de 1% de um comparecimento fraco às urnas nas eleições locais para conseguir sua vaga, ou cerca de 2.100 votos.
As pessoas em Dortmund, insistiram eles, estão muito mais engajadas em projetos anti-nazistas; recentemente houve uma viagem de 45 adolescentes até Auschwitz com uma mulher cigana que vive em Berlim e cujo pai sobreviveu ao campo da morte. No ano que vem, a berlinense e sua irmã, uma cantora bastante conhecida, estão planejando um evento em um memorial de uma só lápide em Dortmund, que relembra a deportação de ciganos e sintis daquele local pelos nazistas em 1943.
Como muitos desses memoriais na Alemanha, a lápide oferece um conselho ao visitante. Esta, colocada em 1998 em um canto um tanto quanto abandonado do lado norte de Dortmund, diz que o destino dos deportados e assassinados deve servir como "um lembrete para intervir a tempo contra a falta de humanidade".
Tradutor: Eloise De Vylder
Espanhóis que fugiram da crise brigam contra exploração na Alemanha 
Grupo de jovens imigrantes em Berlim defende compatriotas que sofrem abusos no trabalho e os põe em contato com sindicatos alemães
Luis Doncel - El País
É uma cena muito comum nestes anos em que a crise empurrou muitos espanhóis para o exílio econômico. Um grupo de jovens se reúne em um bar de uma cidade europeia ou de outra parte do mundo.
Mas, os indivíduos de 20 a 30 e poucos anos que tomavam cerveja na última quarta-feira (25) no bairro de Kreuzberg, em Berlim, não têm em comum apenas o fato de terem deixado um país onde mais da metade dos menores de 25 anos estão desempregados. Eles também deixaram a Espanha forçados pela situação econômica, mas agora se organizaram para ajudar os que imigraram mais tarde e que, depois de chegar ao paraíso alemão, encontraram-se em empregos abusivos ou com salários sensivelmente inferiores aos que ganham os empregados locais.
Do nada, eles criaram o Grupo de Ação Sindical (GAS), uma plataforma pensada para servir de conexão entre os empregados que sofrem abusos no país onde acabaram de chegar e os sindicatos alemães.
Enfermeiras que ganham metade do que recebem suas equivalentes alemãs e a quem não é permitido fazer pausas em jornadas de 12 horas, trabalhadores de empresas inovadoras que ganham 300 euros por uma jornada completa. São situações com as quais se depararam os jovens ligados ao movimento 15-M, que em setembro passado montou uma assessoria para os imigrantes espanhóis que chegam a Berlim.
Uma "oficina precária", como a chamam, pensada para dar informação sobre os passos necessários para registrar-se na prefeitura ou outros trâmites burocráticos, constatou, de repente, necessidades com as quais não havia contado. Daí nasceu em fevereiro passado o GAS.
"Queremos que as pessoas se organizem em seus empregos. Indagar para ver quem é suscetível de realizar ação sindical em grupos nos quais até agora não havia qualquer tipo de comitê de empresa", explica Miguel Sanz, ambientalista de 34 anos.
O grupo está em ação há apenas quatro meses e já viu resultados. Eles entraram em contato com empregados de seis empresas, mas só em duas conseguiram envolver as pessoas na defesa de interesses comuns.
"As outras quatro eram pequenas demais, startups em que as pessoas não se atrevem a mobilizar-se", diz outro integrante do movimento. Entre as enfermeiras, eles encontraram um coletivo disposto a dar o passo de organizar-se.
"Procuramos a eles porque não podemos tolerar que nos paguem 9,5 euros por hora enquanto um empregado alemão pode ganhar até 15 euros. E se deixarmos a empresa antes de um ano e meio, como estipula o contrato, nos obrigam a pagar uma multa que pode chegar a 6.600 euros", aponta Natalia Silva, enfermeira que procurou o grupo, trabalha de forma altruísta e se financia com contribuições individuais e com atos como "festas solidárias".
Os ativistas afirmam que a reação do sindicato Verdi, o segundo maior do país, foi muito positiva. Ambas as organizações editaram de forma conjunta folhetos em castelhano nos quais reivindicam, entre outras coisas, o mesmo salário "pelo mesmo trabalho e a mesma qualificação" e acabar com a multa que amarra os enfermeiros da empresa.
"Os sindicalistas que contatamos nos disseram que há anos tentavam penetrar nesses coletivos, mas que por algum motivo não o conseguiam. Talvez seja porque os trabalhadores com problemas não nos veem como os burocratas do sindicalismo que só buscam afiliados", acrescenta Sanz. Ele insiste que o que fazem hoje não poderia ser entendido sem a onda mobilizadora que representou para todos eles o 15-M.
A organização dos trabalhadores estrangeiros, explicam os promotores da iniciativa, também interessa aos alemães, que muitas vezes veem as empresas lhes negarem melhoras sociais com o argumento de que sempre há espanhóis, portugueses ou gregos dispostos a fazer o mesmo trabalho por menos dinheiro. Essa situação aumentou a tensão entre empregados locais e imigrantes, gerando em alguns casos algo muito parecido com a xenofobia, segundo criticam os ativistas.
Dos 2,3 milhões de estrangeiros registrados como trabalhadores na Alemanha, a Espanha contribuiu no ano passado com 48.546, atrás de outros 12 países europeus. O número aumentou nos últimos tempos e, com ele, as situações que, em muitos casos, não violam a lei, mas constituem abusos que poderiam ser aliviados.
Os promotores da proposta indicam que ela só acaba de começar e acreditam que se reproduzirá em outros lugares e setores. Qual será o próximo?
"Não sei. Mas em Londres há uma situação muito parecida. Talvez lá também surja algo", respondem.

Empresa cancela programa depois de protesto

"Lamentavelmente, devemos lhes informar que, com efeito imediato, damos por finalizado nosso programa para pessoal de enfermaria em nível europeu Work & Travel Europe. Essa decisão não foi fácil, mas uma série de atuações nos últimos tempos não nos deixaram outra opção."
Assim começava, no início deste mês, a carta da empresa GIP em que, "diante das acusações e recriminações" que recebera, dava por concluída a iniciativa por meio da qual mais de cem enfermeiros espanhóis e gregos encontraram um posto de trabalho na Alemanha.
Alguns participantes do programa haviam entrado em contato com os promotores do Grupo de Ação Sindical em Berlim para denunciar o que consideravam abusos e discriminações diante dos trabalhadores alemães. Natalia Sierra, uma das enfermeiras espanholas, afirma que os salários são sensivelmente inferiores, que elas trabalham jornadas de 12 horas sem direito a descanso e que as obrigam a terminar o contrato que assinaram por um ano e meio, sob ameaça de uma multa de até 6.600 euros.
"A empresa cancelou o programa acusando-nos de protestar demais", afirma, cercada pelos ativistas que lhe proporcionaram assessoria e a puseram em contato com o sindicato alemão Verdi.
O folheto, editado conjuntamente pelo Verdi, o GAS e o movimento 15-M de Berlim pede que a companhia dê o mesmo salário pelo mesmo trabalho e a mesma qualificação, acabe com os contratos que obrigam a permanecer na empresa, esclareça o sistema de atribuição de cargos em diversos lugares da Alemanha, que as horas de trabalho realizadas pelos empregados não sejam reduzidas quando houver menos pacientes, o pagamento dos salários em caso de doença e o direito a pausas na jornada de trabalho.
A mobilização sindical ainda não conseguiu nenhuma das reivindicações, mas os ativistas consideram um êxito ter envolvido trabalhadores que antes aceitavam condições abusivas sem reclamar.
Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
Cresce número de espanhóis que saem do país em busca de uma vida melhor
Ana Carbajosa - El País
A saída de espanhóis da Espanha não só não para como se acentua. Ao todo, 79.306 espanhóis partiram em busca de uma vida melhor no exterior, enquanto somente 33.393 voltaram. Esses números representam um crescimento de 38,5% em relação ao ano anterior. Equador, Reino Unido, França e Alemanha são os destinos mais escolhidos.
Um terço desses emigrados não nasceu na Espanha: são estrangeiros que adquiriram a nacionalidade espanhola. No caso dos espanhóis que se transferiram para o Equador (10.163), são sobretudo equatorianos nacionalizados ou menores de 15 anos filhos de equatorianos e nascidos na Espanha. É frequente que muitos emigrantes esperem obter a nacionalidade para deixar a Espanha e assim conservar uma via de entrada caso a situação econômica melhore no futuro.
"Menos discursos e mais recursos", é que pede o cartaz segurando por alunos da cidade de La Mojonera, onde professores deram aulas ao ar livre, nesta quinta-feira (24), para protestar contra o corte de gastos do governo espanhol ao ensino público Francisco Bonilla/Reuters
"As nacionalizações podem distorcer um pouco a imagem da emigração espanhola", interpreta Amparo González Ferrer, do grupo de pesquisa de dinâmicas demográficas do Conselho Superior de Pesquisas Científicas (CSIC na sigla em espanhol). "Mas mesmo assim há um claro aumento do número dos que partem."
A pesquisadora afirma que o fluxo de trabalhadores espanhóis que tiveram de emigrar é muito maior do que o que mostram as estatísticas oficiais, que só computam uma pequena fração dos que se foram. Ferrer fixou-se no número de espanhóis que se inscreveram na seguridade social no Reino Unido e na Alemanha. O resultado, afirma, é entre seis e sete vezes maior que os números oficiais. A diferença se explica porque "as pessoas que emigram não se inscrevem necessariamente no consulado espanhol no país de destino, e esse é o dado que os números oficiais levam em conta".
Assim, por exemplo, em um estudo intitulado "A nova emigração espanhola. O que sabemos e o que não", González Ferrer escreve que "é mais provável que o número se aproxime de 700 mil [espanhóis emigrados] entre 2008 e 2012 do que os 225 mil estimados por fontes oficiais".
Pobreza atinge 14% dos franceses, aponta instituto nacional de pesquisas
Claire Guélaud - Le Monde
Loic Venanceloic/AFP
Membros da Cruz Vermelha francesa ajudam sem-teto que em um túnel da estação de trem em Chatou, perto de Paris Membros da Cruz Vermelha francesa ajudam sem-teto que em um túnel da estação de trem em Chatou, perto de Paris
A pobreza aumentou de forma regular desde 2008, chegando a atingir 14,3% da população em 2011, e esse aumento se explica pelas crescentes dificuldades encontradas pelos pobres para saírem desse estado.
Essas são algumas das principais constatações feitas pelo Instituto Nacional de Estatística e Estudos Econômicos (Insee) na edição de 2014 de seu relatório anual sobre "As rendas e o patrimônio familiar" publicado na quarta-feira (2).
Como sempre acontece com esse tipo de publicação, os resultados apresentados pelo Insee são ao mesmo tempo interessantes e frustrantes, uma vez que remontam ao ano de 2011, um ano de recuperação confirmada com um aumento de 2,1% do PIB. Também porque, desde essa data, o crescimento francês voltou a cair (+0,3% em 2012 e em 2013), o que certamente tem um impacto sobre as rendas das famílias. Esse efeito ainda não é conhecido, por ora. Mas deve-se lembrar de que em 2011, com um crescimento de 2,1%, o índice de pobreza aumentou 0,3%.
A pesquisa "Rendas fiscais e sociais" revela que em 2011 o padrão de vida médio das pessoas que vivem em uma família na França metropolitana era de 19.550 euros (R$ 59 mil), ou seja, 1.630 euros por mês, e que ele permaneceu estável em euros constantes, depois de ter subido e descido em 2010 (-0,5%) e 2009 (+0,4%).
Antes da crise, entre 2004 e 2008, ele vinha aumentando 1,8% por ano em média. 10% das pessoas mais pobres têm um padrão de vida inferior a 10.530 euros; 10% das mais ricas têm uma renda de pelo menos 37.450 euros, ou seja, 3,6 vezes maior.
Recuperação das rendas patrimoniais
Deve-se lembrar de que o padrão de vida é o conjunto das rendas (de atividades, de pensões etc.) recebidas pelas famílias, livres de impostos diretos e em relação ao número de unidades de consumo.
Ao contrário de 2010, quando praticamente todas as categorias de população viram seu padrão de vida cair, somente os 40% mais pobres estiveram nessa situação em 2011. Já os 40% mais ricos viram seu padrão de vida subir. A maioria dos indicadores mostra uma progressão das desigualdades que atingem seu mais alto nível registrado desde 1996.
Esse aumento é um pouco maior na França do que no conjunto dos países da União Europeia. Uma parte provém do dinamismo persistente das rendas muito altas (a partir de 93 mil euros para os mais "ricos", entre 256 mil e 810.700 para os 60 mil "muito ricos" e pelo menos 810.700 euros para os cerca de 6 mil "mais ricos"). A recuperação deles é explicada em grande parte pelo aumento das rendas patrimoniais.
Já a pobreza vem avançando entre os ativos empregados (8% são pobres) e entre os desempregados (38,9% são pobres). Os aposentados foram os únicos que viram seu índice de pobreza abaixar (-0,7%), indo a 9,3%.
Outra informação interessante: de um ano para outro, a probabilidade de continuar pobre é grande, uma vez que dois entre três pobres em 2009 continuaram dessa forma em 2010. Está diminuindo o número de pessoas que conseguem sair da pobreza e 30% das pessoas que entram em situação de pobreza permanecem nessa condição por pelo menos três anos. Por fim, embora pessoas em cargos de gerência e profissões intermediárias saiam em média mais rápido da pobreza, à medida que o tempo passa as diferenças entre categorias de população vão diminuindo.
Com discurso atraente, Renzi quer reformar a "velha tia chata" 
Claudi Pérez - El País 
Remo Casilli/Reuters
Primeiro-ministro da Itália declarou-se capaz não só de reformar a Itália, mas de fazer o mesmo com a Europa Primeiro-ministro da Itália declarou-se capaz não só de reformar a Itália, mas de fazer o mesmo com a Europa
A tarefa da política consiste em resolver, e não só em relatar; e em todo caso em pôr a vela onde sopra o vento, e não em pretender que o vento sopre onde se coloca a vela. A Itália e seu contínuo espetáculo político sempre tiveram relatores notáveis: de Lampedusa e Maquiavel até (salvando as galácticas distâncias) os líderes dos últimos anos.
Os Berlusconi, Monti e companhia chegaram ao poder com promessas descomunais embaixo do braço, mas nunca resolveram: nada fizeram para tirar a Itália desse triângulo vicioso do crescimento zero, níveis de dívida insustentáveis e as desvantagens da camisa de força na qual está se transformando uma união monetária assimétrica, com resultados discutíveis na gestão da crise, com um "pacto de estabilidade" ao qual sempre falhou o sobrenome "de crescimento". No máximo mostraram um enorme talento para se colocar de perfil e jurar e perjurar que fariam reformas - que nunca chegaram - para que a tempestade da crise do euro caísse só sobre a Espanha, menos hábil em vender azeite, presunto ou promessas políticas.
Renzi demonstrou esta semana que pertence à estirpe dos excelentes narradores. Possui um discurso atraente, fresco, distante dos tons lúgubres do europessimismo imperante, e conseguiu encarnar as ânsias de regeneração em seu país. Imperativo, pequeno-burguês, católico e bom conhecedor do poder econômico, em Estrasburgo esteve à altura das ambições que lhe atribuem: declarou-se capaz não só de reformar a Itália, mas de fazer o mesmo com a Europa, a qual descreve com sua eficaz linguagem irreverente como "essa velha tia chata".
Não é fácil passar das musas ao teatro. Renzi chegou ao poder em fevereiro com uma facada política digna das tragédias de Shakespeare e não demorou a anunciar que faria quatro reformas, uma por mês: lei eleitoral, mercado de trabalho, burocracia e sistema fiscal. Mas passaram quatro meses e apenas estreou sua escrivaninha. Gerhard Schröder, campeão alemão das reformas antes de ir ganhar milhões na Gazprom, costumava dizer que é muito mais fácil aprovar medidas ambiciosas do que ativá-las com êxito: Renzi nem sequer deu o primeiro desses dois passos.
As reformas em casa são inadiáveis para um país bloqueado, com uma dívida que pesa como uma lápide e com dúvidas sobre sua banca, que poderia sair abalada do próximo exame do Banco Central Europeu.
Para evitá-lo, os italianos vão manobrar com a fineza que os caracteriza: afinal, têm figuras chaves nas instituições, que varrem para casa à menor ocasião ("prudência, a Rússia é o maior mercado de exportação de móveis italianos", disse o ex-comissário Antonio Tajani em plena escalada na Ucrânia). Renzi tem planos para a Europa. Sabe que suas reformas na Itália não bastam e que há um lapso de tempo entre sua aprovação e os primeiros resultados, nos quais o capital político costuma se esvair a toda velocidade.
Para evitar esse estrangulamento, precisa que a Comissão faça com a Itália o contrário do que fez no início, no momento mais duro da crise, com todos os demais: Bruxelas deve aplicar as regras fiscais com suavidade. O eleitorado deixou claro em 25 de maio que não vai tolerar uma terceira recessão; agora só falta que Renzi faça o que ninguém pôde fazer e convença disso o nome no qual desembocam todas as análises sobre a Europa: o de Merkel, dona da vela e do vento e de tudo o mais.
Renzi tem de correr com dois pesos sobre os ombros: ser a enésima grande esperança da esquerda (embora mais social-cristão que social-democrata) e usar seu talento como relações-públicas para convencer Merkel de que a Europa precisa imperiosamente de um pacote de investimento para evitar que os velhos fantasmas (os Le Pen e companhia) acabem de sair do armário. Não há crescimento sem investimento: a legislatura depende de que um florentino viciado no Twitter convença "frau Nein" de que é preciso colocar aí a vela para resolver a crise de uma vez por todas. 
Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
Policiais franceses perdem explosivo dentro do aeroporto de Marselha
Cem gramas de explosivo militar C-4 desapareceram durante treinamento com cães no segundo maior aeroporto da França
Patrícia Dichtchekenian - OM
Durante treinamento, policiais franceses colocaram um bloco de explosivos C-4 no aeroporto de Marselha – o segundo maior do país – e esqueceram onde o esconderam. Segundo a imprensa francesa, as autoridades procuram as cem gramas do material militar sem sucesso há uma semana.
Wikicommons

Polícia francesa garante que, sem um dispositivo como um detonador, o material perdido “não é perigoso”. 

O incidente aconteceu quando os policiais treinavam seus cães a detectar explosivos em uma zona de carga do aeroporto. Segundo a revista Le Point, a hipótese mais provável aponta para uma situação de perda, não de roubo. Para o jornal Le Parisien, “houve uma negligência na vigilância do conteúdo”.
A situação deve resultar em sanções administrativas e processos judiciários aos responsáveis pelo exercício no local. Apesar de assumir que “todas as buscas falharam”, os policiais asseguram que o material  “é um produto estável, que se assemelha a uma massa de modelar”.
O C-4 é um explosivo que se tornou muito comum nos últimos anos em atentados suicidas no Oriente Médio. Trata-se de um material pouco sensível, isto é, que não explode se for pressionado, atingido por uma bala ou jogado ao fogo. A polícia francesa ainda garante que, sem um dispositivo como um detonador, o material “não é perigoso”.
Efeitos da 1ª Guerra ainda repercutem cem anos depois
Jérôme Gautheret - Le Monde
O turbilhão de comemorações no qual a França está imersa desde o início do ano, com ápices recentes no 70º aniversário do Desembarque na Normandia e no pontapé inicial do centenário da Primeira Guerra Mundial, com alguns dias de intervalo, oferece um contraste surpreendente.
Julguem por si mesmos: no dia 6 de junho, sobre as praias da Normandia, as potências ocidentais comemoravam, apesar da crise ucraniana e das reticências, o Desembarque e a vitória sobre a Alemanha nazista. Barack Obama e Vladimir Putin dividiam o mesmo palanque, juntamente com dezenas de outros chefes de Estado. É claro, alguns sorrisos tinham algo de forçado, mas não faltou quase ninguém na foto de família.
Diversos jornais anglo-saxões apontaram facilmente que o abraço entre dois combatentes veteranos, um francês e um alemão, no encerramento da cerimônia, assim como a celebração da construção europeia provavelmente se deviam mais à onda eurocética constatada durante as eleições de 25 de maio do que ao rigor histórico: o Desembarque não tem muito a ver com a reconciliação que tornou possível a União Europeia.
Em compensação, ele deve tudo à aliança indefectível de Londres e Washington, essa "escolha do 'grand large' [relação transatlântica]", reivindicada por Churchill, em nome da qual o general De Gaulle recusou o ingresso do Reino Unido no mercado comum. Essa inconveniente realidade teria sido perigosa de se celebrar em 2014, nesse momento em que a tentação de os britânicos deixarem a UE parece mais forte: ela foi dispensada em perfeito consenso geral.
Três semanas mais tarde e 2.000 quilômetros mais longe, em Sarajevo, para o centésimo aniversário do assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando, ponto de partida da espiral que levou à Primeira Guerra Mundial, as comemorações ofereciam o espetáculo inverso: manifestações dentro e fora da cidade, sérvios-bósnios inaugurando uma estátua de Gavrilo Princip, o assassino do arquiduque, no leste da cidade, em resposta às comemorações oficiais, que são acusadas de colocarem sobre Belgrado o peso de uma responsabilidade exclusiva no desencadeamento da tragédia.
A justaposição desses dois aniversários, com algumas semanas de intervalo, só ressalta mais uma vez o quanto a Europa, embora tenha superado em grande parte o trauma da Segunda Guerra Mundial, ainda não se livrou das consequências da Primeira.
A construção europeia é filha da paz de 1945 e da questão central do conflito (o combate ao fascismo, valor comum às democracias), e permite a criação de uma narrativa comum, através das comemorações relativamente apaziguadas. No caso da Primeira Guerra Mundial, a situação é mais complexa. Primeiro porque o confronto não se presta a uma leitura política única, atribuindo a responsabilidade exclusiva a um campo ou a uma ideologia, mas sobretudo porque os tratados de paz geraram inúmeros rancores e frustrações que permanecem palpáveis até hoje.

Feridas escancaradas

É verdade que o sentimento de humilhação alemão após o Tratado de Versalhes (1919) foi amplamente obliterado pelo horror nazista, mas no leste da Europa as feridas dos derrotados continuam escancaradas. É especialmente o caso do antigo espaço austro-húngaro, submetido a uma mudança radical na delimitação das terras, que deu a melhor parte aos vencedores. Assim, a Hungria, perdendo dois terços de seu território na conclusão do Tratado de Trianon (1920), não superou a perda de províncias como a Transilvânia, coração histórico do reino magiar.
Os militantes do Jobbik (extrema direita), que tem a adesão de quase um entre cada cinco eleitores, ainda reivindicam a reparação do "crime" de Trianon, bem como a volta à "Grande Hungria", e esse discurso tem seu impacto sobre o partido no poder, o Fidesz, de Viktor Orban, que tem feito acenos discretos às minorias húngaras dos países vizinhos.
Os vencedores não estão necessariamente melhores: a Sérvia, por exemplo, recebeu em 1919 um status dominante dentro da Iugoslávia. Foi um cálice envenenado que logo viria a provocar tensões inter-étnicas e ressentimentos: 70 anos mais tarde, o país se desintegrou, deixando a Sérvia em ruínas.
Mas, as consequências dos tratados não param nas fronteiras do antigo império dos Habsburgos. A violência dos termos do Tratado de Sèvres, que organizava o desmembramento do Império Otomano, provocou na Turquia o surto kemalista, a expulsão de milhões de gregos da Anatólia e a instauração de uma república de nacionalismo radical, cuja negação do genocídio cometido contra os armênios em 1915 continua sendo o aspecto mais contundente.
Mais longe ainda, o colapso do Império Otomano também levou a uma nova delimitação das fronteiras do Oriente Próximo, tendo como consequência a criação de Estados heterogêneos e fracos do ponto de vista estrutural. Assim, os jihadistas do EIIL que estão tentando implantar um Estado islâmico sunita entre a Síria e o Iraque só estão contestando uma reconfiguração nascida na Primeira Guerra Mundial.
Um século mais tarde, e o mundo ainda sofre com os efeitos vertiginosos do atentado de 28 de junho de 1914 em Sarajevo.

terça-feira, 1 de julho de 2014