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sábado, 3 de janeiro de 2015
Xenofobia e populismo na Europa
Merkel, Hollande e Napolitano chamam à responsabilidade classe política do continente, diante de sinais inquietantes causados pela difícil conjuntura econômica
O Globo
A persistência de indicadores econômicos preocupantes na zona do euro e a possibilidade de um novo período de turbulência na Grécia, que antecipou as eleições para dia 25, puseram em evidência novas manifestações de xenofobia e populismo na Europa. Esse cenário levou três importantes líderes do continente a criticar o preconceito e o repúdio aos imigrantes, e a advertir partidos nacionalistas, na extrema direita, mas também na extrema esquerda, a não tentar tirar vantagens da situação.
Em seu pronunciamento de Ano Novo, a chanceler alemã Angela Merkel, mais importante líder europeia, atacou os organizadores de protestos anti-islâmicos no país, acusando-os de terem os corações “cheios de preconceito e, até, de raiva”. Ela não se referiu pelo nome, Pegida, ao movimento que reuniu grandes multidões em Dresden e outras cidades alemãs, mas demonstrou claramente que era dele que falava ao dizer que tais protestos discriminam pessoas de diferentes etnias e religiões.
Já o presidente da França, François Hollande, mirou na líder da Frente Nacional (de extrema-direita), Marine Le Pen, ao prometer lutar contra o que chamou de “conservadorismo arraigado” e posições políticas “perigosas”. A Frente Nacional vem crescendo no ambiente de estagnação econômica no país, sobretudo diante da incompetência demonstrada pelos socialistas de Hollande para encontrar alternativas viáveis, o que se pode dizer também da centro-direita francesa, carente de líderes.
O terceiro líder europeu pronunciou-se com a autoridade moral que acompanha os presidentes italianos, figuras de grande experiência política e elevada reputação. Aos 89 anos, em seu segundo mandato (está no cargo desde 2006 e renunciará em breve, pela idade), Giorgio Napolitano focou na necessidade de combater o crime e a corrupção, mas também “os perigosos apelos populistas” para que a Itália, ainda em crise, abandone o euro.
Os três líderes fazem um chamamento à responsabilidade da classe política europeia, o que tem seu valor diante da conjuntura no continente, em que a economia custa a se recuperar. Recentemente, o Banco Central Europeu (BCE) informou que o crescimento da zona do euro no ano passado ficou em apenas 0,8%, ao mesmo tempo em que reduziu de 1,6% para 1% a projeção para 2015.
O apelo bem poderia valer também para os eleitores gregos, que dia 25 irão às urnas escolher um novo governo. Está à frente nas pesquisas o líder da oposição, Alexis Tsipras, do partido de extrema-esquerda Syriza, contrário ao programa de austeridade imposto à Grécia pelas autoridades internacionais para manter o país solvente e na zona do euro. Espera-se que, se for o vencedor, Tsipras não jogue a Grécia num turbilhão que abalaria a frágil construção do euro e retardaria ainda mais o início da recuperação europeia. Esse risco já ocorreu no passado.
Merkel, Hollande e Napolitano chamam à responsabilidade classe política do continente, diante de sinais inquietantes causados pela difícil conjuntura econômica
O Globo
A persistência de indicadores econômicos preocupantes na zona do euro e a possibilidade de um novo período de turbulência na Grécia, que antecipou as eleições para dia 25, puseram em evidência novas manifestações de xenofobia e populismo na Europa. Esse cenário levou três importantes líderes do continente a criticar o preconceito e o repúdio aos imigrantes, e a advertir partidos nacionalistas, na extrema direita, mas também na extrema esquerda, a não tentar tirar vantagens da situação.
Em seu pronunciamento de Ano Novo, a chanceler alemã Angela Merkel, mais importante líder europeia, atacou os organizadores de protestos anti-islâmicos no país, acusando-os de terem os corações “cheios de preconceito e, até, de raiva”. Ela não se referiu pelo nome, Pegida, ao movimento que reuniu grandes multidões em Dresden e outras cidades alemãs, mas demonstrou claramente que era dele que falava ao dizer que tais protestos discriminam pessoas de diferentes etnias e religiões.
Já o presidente da França, François Hollande, mirou na líder da Frente Nacional (de extrema-direita), Marine Le Pen, ao prometer lutar contra o que chamou de “conservadorismo arraigado” e posições políticas “perigosas”. A Frente Nacional vem crescendo no ambiente de estagnação econômica no país, sobretudo diante da incompetência demonstrada pelos socialistas de Hollande para encontrar alternativas viáveis, o que se pode dizer também da centro-direita francesa, carente de líderes.
O terceiro líder europeu pronunciou-se com a autoridade moral que acompanha os presidentes italianos, figuras de grande experiência política e elevada reputação. Aos 89 anos, em seu segundo mandato (está no cargo desde 2006 e renunciará em breve, pela idade), Giorgio Napolitano focou na necessidade de combater o crime e a corrupção, mas também “os perigosos apelos populistas” para que a Itália, ainda em crise, abandone o euro.
Os três líderes fazem um chamamento à responsabilidade da classe política europeia, o que tem seu valor diante da conjuntura no continente, em que a economia custa a se recuperar. Recentemente, o Banco Central Europeu (BCE) informou que o crescimento da zona do euro no ano passado ficou em apenas 0,8%, ao mesmo tempo em que reduziu de 1,6% para 1% a projeção para 2015.
O apelo bem poderia valer também para os eleitores gregos, que dia 25 irão às urnas escolher um novo governo. Está à frente nas pesquisas o líder da oposição, Alexis Tsipras, do partido de extrema-esquerda Syriza, contrário ao programa de austeridade imposto à Grécia pelas autoridades internacionais para manter o país solvente e na zona do euro. Espera-se que, se for o vencedor, Tsipras não jogue a Grécia num turbilhão que abalaria a frágil construção do euro e retardaria ainda mais o início da recuperação europeia. Esse risco já ocorreu no passado.
Com fim do boom econômico, Brasil e vizinhos devem mudar estratégias para manter crescimento
William Neuman - NYT
William Neuman - NYT
O presidente da Venezuela pede por cortes no orçamento à medida que a
alta queda nos preços do petróleo reduz a receita de exportação do país.
O Peru relaxou as regulações ambientais para abrir caminho para grandes
projetos de mineração, na esperança de aumentar a produção diante da
queda nos preços do cobre, ouro e outros metais. No Brasil, prejudicado
pela queda nos preços das exportações de minério de ferro e soja, um
novo ministério deverá reduzir gastos e eliminar os incentivos fiscais
para escorar as finanças do governo.
Por uma década, o
continente foi transformado pelo crescimento econômico sustentado e por
reduções históricas na pobreza, movidos por um boom nos preços dos
commodities abundantes da região, incluindo petróleo, gás natural,
cobre, ouro, ferro, soja e milho.
Mas agora que o boom acabou, os preços desses produtos estão caindo e uma questão paira sobre a região. Será que os bons tempos serão seguidos por tempos ruins, como aconteceu repetidamente ao longo de décadas? Será que os governos reagirão da mesma forma que antes, acumulando dívidas e ignorando os sinais de perigo?
Ou será que as coisas serão diferentes desta vez?
"Nós entramos em uma nova etapa", disse José Antonio Ocampo, ex-ministro das Finanças da Colômbia, que é professor da Escola de Assuntos Públicos e Internacionais da Universidade de Columbia, em Nova York. "Eu não acho que os governos perceberam plenamente que isso está ocorrendo e que precisam mudar suas políticas."
Mas há sinais, ele disse, que muitos países na região estão mais bem posicionados agora do que no passado para lidar com o desafio. "Nós já estamos em um período de menor crescimento econômico e a questão é, 'o que virá a seguir?'" disse Jorge Familiar, o vice-presidente para a América Latina e Caribe do Banco Mundial. "Há 10 ou 15 anos nós estaríamos falando sobre gestão de crise, mas agora estamos falando sobre estratégias de crescimento."
O Brasil, o gigante econômico do continente e a sétima maior economia do mundo, segundo o Banco Mundial, resume tanto os problemas quanto as promessas da região.
Após anos de crescimento constante e redução da pobreza, a economia do Brasil estagnou. Apesar de haver muitos problemas, incluindo corrupção e erros do governo, a situação é agravada pela queda dos preços de algumas de suas principais exportações, incluindo minério de ferro e soja.
A presidente Dilma Rousseff, uma esquerdista que foi reeleita para um segundo mandato em outubro, sinalizou que tornará o crescimento econômico uma prioridade de seu segundo mandato, escolhendo uma equipe econômica amplamente vista como sendo pró-negócios.
Ela tem uma chance de ser bem-sucedida, disse Ocampo, porque o Brasil desenvolveu um grande setor manufatureiro que pode se beneficiar com a nova realidade econômica da região. Quando os preços dos commodities estão altos, as moedas dos países exportadores tendem a se valorizar. Isso pode prejudicar outros setores da economia, como o manufatureiro, já que a moeda mais forte faz com que os bens manufaturados exportados se tornem mais caros para os compradores estrangeiros.
Esse ciclo agora está invertido, com as moedas do Brasil e de vários outros países latino-americanos perdendo valor. Apesar disso pode aumentar a inflação, como já acontece no Brasil, a longo prazo pode levar a um crescimento das exportações de manufaturados.
Os desafios são grandes para o Peru, que depende altamente das operações de mineração que alimentaram um crescimento de mais de 6% ao ano de 2002 a 2012. Com a queda dos preços dos metais, o banco central prevê que a economia crescerá apenas 3% neste ano.
Em resposta, o governo do presidente Ollanta Humala apresentou medidas de estímulo, que incluem mais gastos do governo e redução de impostos. Humala também buscou abrir caminho para mais projetos de mineração, petróleo e gás, na esperança de compensar a queda nos preços com maior produção de metais que permanecem lucrativos, apesar de menos.
Mas muitos desses projetos estão parados por preocupações ambientais e forte oposição das comunidades locais. Parte da nova estratégia do governo é simplificar ou reduzir as regulações ambientais, incluindo esforços para acelerar o processo de avaliação de impacto ambiental, estabelecendo penas para as autoridades que não cumprirem os prazos e revertendo os recentes aumentos de multas para muitas violações ambientais.
"Simplesmente ficou mais barato poluir", disse Ricardo Giesecke, um ex-ministro do Meio Ambiente que critica as mudanças. Alonso Segura, o ministro das Finanças do Peru, disse que as medidas devem ajudar o país a retomar o crescimento econômico dos últimos anos.
"Nós queremos sustentá-lo em 6% ou próximo disso a médio prazo", ele disse. Novos projetos de mineração entrarão em produção no ano que vem, enquanto outros deverão aumentar a produção, ele disse. Projetos de infraestrutura que serão iniciados, como novas linhas de trem em Lima e um gasoduto no sul do Peru, também gerarão empregos e atividade econômica.
Mas Francisco Rodriguez, um economista do Bank of America Merrill Lynch, em Nova York, disse que as projeções otimistas de novas minas e outros projetos já deixaram a desejar no passado, frequentemente devido à oposição local. Ele também apontou para a incapacidade do país até o momento de domar seu apetite por bens importados, um resquício dos anos de preços altos dos commodities.
"Eles não parecem ter aceitado que um crescimento de 6% não é um objetivo razoável para o Peru, o que significa que não aceitaram que o boom dos commodities acabou", ele disse. "Isso se chama negação."
Talvez nenhum país esteja mais em apuros, ou mais estreitamente ligado aos altos e baixos dos preços dos commodities, do que a Venezuela, que no ano passado recebeu mais de 95% de sua receita de exportações do petróleo. Mas os preços do petróleo despencaram desde meados do ano, com o preço referencial do West Texas Intermediate caindo de mais de US$ 100 (R$ 265,6) o barril, em julho, para US$ 60 (R$ 159,4) em dezembro. O presidente Nicolás Maduro disse recentemente que o colapso reduziu a receita de seu país em cerca de um terço, mas que o impacto deverá se tornar ainda mais agudo no ano que vem.
A economia venezuelana já estava em sérias dificuldades antes da queda dos preços do petróleo, com inflação de mais de 60%, a mais alta na região, e escassez crônica de bens de consumo --uma situação que, acertada ou erroneamente, a maioria dos venezuelanos culpa Maduro.
Maduro apenas aumentou os temores dos investidores ao atribuir os problemas do país a inimigos travando uma "guerra econômica" que visa derrubar seu governo socialista. Não está claro se ficaram mais tranquilizados quando Maduro disse em um discurso, neste mês, que em 2015 ele deixaria de lado a maioria de suas outras ocupações para se concentrar exclusivamente na economia.
Tradutor: George El Khouri Andolfato
Mas agora que o boom acabou, os preços desses produtos estão caindo e uma questão paira sobre a região. Será que os bons tempos serão seguidos por tempos ruins, como aconteceu repetidamente ao longo de décadas? Será que os governos reagirão da mesma forma que antes, acumulando dívidas e ignorando os sinais de perigo?
Ou será que as coisas serão diferentes desta vez?
"Nós entramos em uma nova etapa", disse José Antonio Ocampo, ex-ministro das Finanças da Colômbia, que é professor da Escola de Assuntos Públicos e Internacionais da Universidade de Columbia, em Nova York. "Eu não acho que os governos perceberam plenamente que isso está ocorrendo e que precisam mudar suas políticas."
Mas há sinais, ele disse, que muitos países na região estão mais bem posicionados agora do que no passado para lidar com o desafio. "Nós já estamos em um período de menor crescimento econômico e a questão é, 'o que virá a seguir?'" disse Jorge Familiar, o vice-presidente para a América Latina e Caribe do Banco Mundial. "Há 10 ou 15 anos nós estaríamos falando sobre gestão de crise, mas agora estamos falando sobre estratégias de crescimento."
O Brasil, o gigante econômico do continente e a sétima maior economia do mundo, segundo o Banco Mundial, resume tanto os problemas quanto as promessas da região.
Após anos de crescimento constante e redução da pobreza, a economia do Brasil estagnou. Apesar de haver muitos problemas, incluindo corrupção e erros do governo, a situação é agravada pela queda dos preços de algumas de suas principais exportações, incluindo minério de ferro e soja.
A presidente Dilma Rousseff, uma esquerdista que foi reeleita para um segundo mandato em outubro, sinalizou que tornará o crescimento econômico uma prioridade de seu segundo mandato, escolhendo uma equipe econômica amplamente vista como sendo pró-negócios.
Ela tem uma chance de ser bem-sucedida, disse Ocampo, porque o Brasil desenvolveu um grande setor manufatureiro que pode se beneficiar com a nova realidade econômica da região. Quando os preços dos commodities estão altos, as moedas dos países exportadores tendem a se valorizar. Isso pode prejudicar outros setores da economia, como o manufatureiro, já que a moeda mais forte faz com que os bens manufaturados exportados se tornem mais caros para os compradores estrangeiros.
Esse ciclo agora está invertido, com as moedas do Brasil e de vários outros países latino-americanos perdendo valor. Apesar disso pode aumentar a inflação, como já acontece no Brasil, a longo prazo pode levar a um crescimento das exportações de manufaturados.
Os desafios são grandes para o Peru, que depende altamente das operações de mineração que alimentaram um crescimento de mais de 6% ao ano de 2002 a 2012. Com a queda dos preços dos metais, o banco central prevê que a economia crescerá apenas 3% neste ano.
Em resposta, o governo do presidente Ollanta Humala apresentou medidas de estímulo, que incluem mais gastos do governo e redução de impostos. Humala também buscou abrir caminho para mais projetos de mineração, petróleo e gás, na esperança de compensar a queda nos preços com maior produção de metais que permanecem lucrativos, apesar de menos.
Mas muitos desses projetos estão parados por preocupações ambientais e forte oposição das comunidades locais. Parte da nova estratégia do governo é simplificar ou reduzir as regulações ambientais, incluindo esforços para acelerar o processo de avaliação de impacto ambiental, estabelecendo penas para as autoridades que não cumprirem os prazos e revertendo os recentes aumentos de multas para muitas violações ambientais.
"Simplesmente ficou mais barato poluir", disse Ricardo Giesecke, um ex-ministro do Meio Ambiente que critica as mudanças. Alonso Segura, o ministro das Finanças do Peru, disse que as medidas devem ajudar o país a retomar o crescimento econômico dos últimos anos.
"Nós queremos sustentá-lo em 6% ou próximo disso a médio prazo", ele disse. Novos projetos de mineração entrarão em produção no ano que vem, enquanto outros deverão aumentar a produção, ele disse. Projetos de infraestrutura que serão iniciados, como novas linhas de trem em Lima e um gasoduto no sul do Peru, também gerarão empregos e atividade econômica.
Mas Francisco Rodriguez, um economista do Bank of America Merrill Lynch, em Nova York, disse que as projeções otimistas de novas minas e outros projetos já deixaram a desejar no passado, frequentemente devido à oposição local. Ele também apontou para a incapacidade do país até o momento de domar seu apetite por bens importados, um resquício dos anos de preços altos dos commodities.
"Eles não parecem ter aceitado que um crescimento de 6% não é um objetivo razoável para o Peru, o que significa que não aceitaram que o boom dos commodities acabou", ele disse. "Isso se chama negação."
Talvez nenhum país esteja mais em apuros, ou mais estreitamente ligado aos altos e baixos dos preços dos commodities, do que a Venezuela, que no ano passado recebeu mais de 95% de sua receita de exportações do petróleo. Mas os preços do petróleo despencaram desde meados do ano, com o preço referencial do West Texas Intermediate caindo de mais de US$ 100 (R$ 265,6) o barril, em julho, para US$ 60 (R$ 159,4) em dezembro. O presidente Nicolás Maduro disse recentemente que o colapso reduziu a receita de seu país em cerca de um terço, mas que o impacto deverá se tornar ainda mais agudo no ano que vem.
A economia venezuelana já estava em sérias dificuldades antes da queda dos preços do petróleo, com inflação de mais de 60%, a mais alta na região, e escassez crônica de bens de consumo --uma situação que, acertada ou erroneamente, a maioria dos venezuelanos culpa Maduro.
Maduro apenas aumentou os temores dos investidores ao atribuir os problemas do país a inimigos travando uma "guerra econômica" que visa derrubar seu governo socialista. Não está claro se ficaram mais tranquilizados quando Maduro disse em um discurso, neste mês, que em 2015 ele deixaria de lado a maioria de suas outras ocupações para se concentrar exclusivamente na economia.
Tradutor: George El Khouri Andolfato
Classe econômica ganha "assento premium" em voos graças à queda dos combustíveis
Joe Sharkey - TINYT
Divulgação
Eu ocasionalmente sugiro que os viajantes de negócios em viagens internacionais exaustivas deveriam poder voar no conforto da classe executiva. Ou pelo menos em assentos premium da classe econômica, com mais espaço para as pernas e melhor serviço, do que na miséria dos assentos comuns. Essa sugestão irrita alguns gerentes frugais de viagens de negócios.
As companhias aéreas, por outro lado, adoram ouvir isso. Por todo o mundo, enquanto acumulam lucros recordes e comemoram a queda acentuada nos preços do petróleo, as companhias aéreas estão gastando bilhões para tornar seus produtos de assentos premium –principalmente na classe executiva, mas também na primeira classe– mais atraentes para os viajantes de negócios. Parece haver a suposição de que os preços mais baixos de energia estão deixando mais dinheiro disponível nos bolsos dos viajantes, assim como um relaxamento das políticas das empresas para voo em classes premium.
"Nós realmente estamos vendo um grande aumento de viagem na classe executiva", disse Peter Vlitas, o vice-presidente sênior para vendas e marketing de viagens aéreas da Protravel International, uma empresa de gestão de viagem.
A melhora da economia é um motivo, assim como mais pessoas estarem viajando internacionalmente, com frequência em viagens mais longas por múltiplas cidades. "Elas podem viajar dos Estados Unidos para Londres, mas voltam de Paris após um pulinho na Alemanha", disse.
Há seis ou sete anos, uma passagem típica de ida e volta na classe executiva de Nova York a Londres custava cerca de US$ 11 mil. Agora, com a capacidade abundante e a concorrência robusta, essas passagens custam geralmente entre US$ 6.500 e US$ 7 mil, e os agentes de viagem podem negociar preços mais baixos para os grandes compradores corporativos.
O principal argumento para permitir a classe executiva é a produtividade. "Se falarmos em ir para a Europa em um assento econômico, eles chegam às seis ou sete da manhã e devem começar a trabalhar imediatamente", disse Vlitas. "Então, como vemos em nossas pesquisas, eles tendem a ficar bem até por volta das 11 da manhã, mas depois bate o cansaço."
Mas algumas empresas que aprovam viagens em classe executiva o fazem apenas em uma direção. "Para economizar dinheiro, a empresa os envia na classe executiva, e depois, no caminho de volta, os coloca em um assento premium da classe econômica", disse.
As companhias aéreas estão comemorando a queda no preço dos combustíveis, enquanto preveem lucros recordes e gastam prodigamente na melhoria de seus produtos de preços mais altos. Ao mesmo tempo, elas dedicam pouca atenção de marketing aos assentos mais baratos. Em uma conferência de investidores na semana passada com analistas do mercado de ações, a Delta Air Lines utilizou um slide que ilustrava sua estratégia de gestão de receita. Ele dizia, "receita mais alta por meio de melhor segmentação do cliente".
Segmentação do cliente é uma forma chique de dizer, "nós não queremos competir por participação de mercado básica; nós temos pouco interesse na capacidade de crescimento; e nos concentraremos no produtores de receita mais alta, especialmente aqueles sentados na frente do avião". Parece que as companhias aéreas também esperam ver mais do que um analista na conferência da Delta disse ser "ganhos inesperados" em riqueza do consumidor, criada pelos preços mais baixos de energia.
Glen Hauenstein, o diretor chefe de receita da Delta, explorava o tema na semana passada.
"É muito interessante pensar não apenas no que os preços mais baixos do combustível fazem à companhia aérea, mas também ao consumidor e o que pretendem fazer com o que economizarem com os preços mais baixos dos combustíveis", disse Hauenstein na conferência. A Delta está prevendo um lucro de US$ 5 bilhões no ano que vem, apoiado por uma economia estimada de US$ 1,5 bilhão em combustível.
Os viajantes mais jovens, em especial, estão abertos a comprar passagens aéreas mais caras, disse Hauenstein aos analistas.
"Se pensarmos no que os milenares estão fazendo, e no que as pessoas estão fazendo em geral, você não os vê comprando camisetas. Você não os vê correndo aos shoppings. Você não os vê comprando bens de curto prazo. Você não os vê comprando bens duráveis. Os milenares querem experiências", disse. "No que eles estão gastando dinheiro? Eles gastam em entretenimento e viagem."
Todas as grandes companhias aéreas estão cortando e picando suas estruturas de tarifas, seus programas de fidelidade e seus assentos, para se concentrarem naqueles que viajam muito e gastam mais, em vez daqueles que viajam muito em passagens baratas. A Delta, por exemplo, em uma reestrutura de seus assentos, atualizou seus produtos de classe executiva internacional e doméstica transcontinental e mudou o nome de BusinessElite para Delta One.
Isso é claramente uma tentativa de dizer que a classe executiva é a nova primeira classe, apesar de algumas companhias aéreas, entre elas a Emirates e a Etihad Airways, estarem estabelecendo novos níveis de extravagância em suas cabines de primeira classe. Um Etihad A380, por exemplo, tem uma suíte privada na primeira classe contando uma sala de estar, banheiro com chuveiro e um quarto.
Aqueles de nós lá na fileira 34 se perguntarão por que custos drasticamente mais baixos de combustível não se traduzem em tarifas básicas mais baixas. De fato, o senador Charles E. Schumer, democrata de Nova York, está pedindo por uma investigação federal sobre o motivo para o preço das passagens aéreas não ter caído. E por que as companhias aéreas persistem em adicionar aquelas infernais sobretaxas de combustível ao preço das passagens.
Segundo as companhias aéreas, nós temos que entender que todos esses bilhões precisam ser colocados em investimentos para compra de novos aviões e tornar a frente do avião um lugar melhor para aqueles que pagam muito mais. E as companhias aéreas nos Estados Unidos estão fazendo exatamente isso, disse Vlitas.
"Não apenas elas precisam correr atrás de todas aquelas companhias aéreas premium", disse, "como também agora estão liderando a investida".
Tradutor: George El Khouri Andolfato
"É muito interessante pensar não apenas no que os preços mais baixos do combustível fazem à companhia aérea, mas também ao consumidor e o que pretendem fazer com o que economizarem com os preços mais baixos dos combustíveis", disse Hauenstein na conferência. A Delta está prevendo um lucro de US$ 5 bilhões no ano que vem, apoiado por uma economia estimada de US$ 1,5 bilhão em combustível.
Os viajantes mais jovens, em especial, estão abertos a comprar passagens aéreas mais caras, disse Hauenstein aos analistas.
"Se pensarmos no que os milenares estão fazendo, e no que as pessoas estão fazendo em geral, você não os vê comprando camisetas. Você não os vê correndo aos shoppings. Você não os vê comprando bens de curto prazo. Você não os vê comprando bens duráveis. Os milenares querem experiências", disse. "No que eles estão gastando dinheiro? Eles gastam em entretenimento e viagem."
Todas as grandes companhias aéreas estão cortando e picando suas estruturas de tarifas, seus programas de fidelidade e seus assentos, para se concentrarem naqueles que viajam muito e gastam mais, em vez daqueles que viajam muito em passagens baratas. A Delta, por exemplo, em uma reestrutura de seus assentos, atualizou seus produtos de classe executiva internacional e doméstica transcontinental e mudou o nome de BusinessElite para Delta One.
Isso é claramente uma tentativa de dizer que a classe executiva é a nova primeira classe, apesar de algumas companhias aéreas, entre elas a Emirates e a Etihad Airways, estarem estabelecendo novos níveis de extravagância em suas cabines de primeira classe. Um Etihad A380, por exemplo, tem uma suíte privada na primeira classe contando uma sala de estar, banheiro com chuveiro e um quarto.
Aqueles de nós lá na fileira 34 se perguntarão por que custos drasticamente mais baixos de combustível não se traduzem em tarifas básicas mais baixas. De fato, o senador Charles E. Schumer, democrata de Nova York, está pedindo por uma investigação federal sobre o motivo para o preço das passagens aéreas não ter caído. E por que as companhias aéreas persistem em adicionar aquelas infernais sobretaxas de combustível ao preço das passagens.
Segundo as companhias aéreas, nós temos que entender que todos esses bilhões precisam ser colocados em investimentos para compra de novos aviões e tornar a frente do avião um lugar melhor para aqueles que pagam muito mais. E as companhias aéreas nos Estados Unidos estão fazendo exatamente isso, disse Vlitas.
"Não apenas elas precisam correr atrás de todas aquelas companhias aéreas premium", disse, "como também agora estão liderando a investida".
Tradutor: George El Khouri Andolfato
O papel do azar no câncer é revisto
Sandrine Cabut - Le Monde
Seria o câncer mais uma questão de azar do que de ambiente ou de maus genes? Essa é a surpreendente teoria de dois pesquisadores americanos, cujo estudo foi publicado pela revista "Science" do dia 2 de janeiro. Segundo estimativas de Cristian Tomasetti e Bert Vogelstein (John Hopkins Kimmel Cancer Center, Baltimore), dois terços das incidências de tumores malignos entre adultos seriam devidos essencialmente ao azar, por mutações aleatórias que ocorrem durante as divisões das células-tronco.
Os fatores de risco clássicos (tabaco, álcool, alimentação, vírus, poluentes…) ou uma suscetibilidade genética só ocorreriam em um terço dos casos. Entretanto, oncologistas franceses ressaltam que há limitações metodológicas no trabalho, uma vez que os cânceres de mama e de próstata, que são os mais frequentes, não foram estudados.
Os dois americanos partiram de uma constatação bem conhecida: a incidência de câncer varia muito de acordo com os órgãos. Assim, o risco de ter diagnosticado um tumor maligno ao longo da vida é de 6,9% para o pulmão, 0,6% para o cérebro e somente 0,00072% para as cartilagens da laringe. É verdade que as diferenças se devem em parte à exposição a substâncias cancerígenas ou a uma suscetibilidade genética, mas isso não explica tudo. Por exemplo, por que o câncer de intestino delgado é 20 vezes menos frequente do que o de cólon ou de reto?
A dupla selecionou 31 tipos de câncer para os quais esses dados estavam disponíveis, e os compararam com a incidência de cada tumor ao longo da vida entre a população americana. A correlação entre o número total de divisões das células-tronco em um dado órgão e o risco de ocorrência de um câncer nesse mesmo tecido se revelou muito nítida. Por exemplo, as células-tronco do cólon se dividem quatro vezes mais que as do intestino delgado, o que esclarece melhor a diferença de incidência desses dois tumores.
Por fim, os cânceres foram classificados em dois grupos. No primeiro, os 22 tipos de câncer (de pâncreas, melanomas, tumores do pulmão em não-fumantes) onde o papel do acaso é preponderante. O segundo corresponde aos nove tumores (cânceres do cólon, do pulmão de fumantes…) onde outros fatores estão claramente implicados.
Mesmo nesse grupo, a dinâmica da renovação dos tecidos exerce um papel "essencial", e os efeitos do ambiente e da genética só se somam, afirmam os autores. Para os tipos de câncer do primeiro grupo, medidas de prevenção têm poucas chances de serem eficazes e eles propõem que é preferível apostar na detecção. Já a prevenção se justifica nos tumores onde o papel do ambiente é reconhecido.
Seriam superestimadas as causas exógenas do câncer, como a poluição e a alimentação?
"É uma abordagem tentadora, e seus gráficos são impressionantes", ressalta o professor Fabien Calvo (Instituto Gustave Roussy), diretor científico do Cancer Core Europe, que reúne seis centros europeus de pesquisa sobre o câncer. "De fato, esses resultados confirmam a teoria clássica segundo a qual o câncer é uma doença do envelhecimento, uma vez que os riscos são proporcionais ao número total de divisões das células-tronco."
O Dr. Fabrice Denis, oncologista da cidade de Mans e pesquisador da Universidade de Rouen, segue a mesma linha. "Nos últimos anos foi dada muita ênfase às causas exógenas do câncer, como a poluição e a alimentação... mas esse trabalho confirma que o câncer é antes de tudo uma doença de idosos. Ele também dá suporte à ideia de que quando a expectativa de vida avança rapidamente, o que foi o caso do ser humano, que triplicou a sua em dois séculos, a biologia não acompanha."
"As estimativas do número de divisões das células-tronco nesses tecidos não nos pareciam confiáveis", justifica Cristian Tomasetti. "Por exemplo, os dados sobre o câncer de mama são muito controversos e dependem de fatores hormonais". As causas do aumento desse tipo de tumor são em si sujeitas a debate.
Por fim, o papel de produtos cancerígenos como o tabaco continua enorme: para o pulmão, o risco "espontâneo" aumenta 70 vezes. O tabaco está implicado em 17 tipos de câncer, e é responsável por mais de 20%¨da mortalidade por essas doenças no mundo.
Uma coisa é certa, as ciências matemáticas vêm ocupando um espaço crescente na oncologia. Fabrice Denis e Christophe Letellier (CNRS, Rouen) publicaram recentemente um modelo baseado na teoria do caos, que leva em conta as diferentes dinâmicas do câncer de acordo com as interações entre as células tumorais e as outras células dos pacientes. O resultado são aplicações concretas para detectar precocemente as recaídas, e testes clínicos já estão sendo efetuados para o câncer de pulmão.
Sandrine Cabut - Le Monde
Seria o câncer mais uma questão de azar do que de ambiente ou de maus genes? Essa é a surpreendente teoria de dois pesquisadores americanos, cujo estudo foi publicado pela revista "Science" do dia 2 de janeiro. Segundo estimativas de Cristian Tomasetti e Bert Vogelstein (John Hopkins Kimmel Cancer Center, Baltimore), dois terços das incidências de tumores malignos entre adultos seriam devidos essencialmente ao azar, por mutações aleatórias que ocorrem durante as divisões das células-tronco.
Os fatores de risco clássicos (tabaco, álcool, alimentação, vírus, poluentes…) ou uma suscetibilidade genética só ocorreriam em um terço dos casos. Entretanto, oncologistas franceses ressaltam que há limitações metodológicas no trabalho, uma vez que os cânceres de mama e de próstata, que são os mais frequentes, não foram estudados.
Os dois americanos partiram de uma constatação bem conhecida: a incidência de câncer varia muito de acordo com os órgãos. Assim, o risco de ter diagnosticado um tumor maligno ao longo da vida é de 6,9% para o pulmão, 0,6% para o cérebro e somente 0,00072% para as cartilagens da laringe. É verdade que as diferenças se devem em parte à exposição a substâncias cancerígenas ou a uma suscetibilidade genética, mas isso não explica tudo. Por exemplo, por que o câncer de intestino delgado é 20 vezes menos frequente do que o de cólon ou de reto?
"Uma doença do envelhecimento"
Para avaliar a participação do acaso (efeito estocástico) em comparação com outros fatores, os pesquisadores levaram em conta a dinâmica da renovação das células-tronco nos tecidos. É possível de fato supor que quanto mais elevado for o número de divisões, maior é o risco de mutações aleatórias e, portanto o de câncer.A dupla selecionou 31 tipos de câncer para os quais esses dados estavam disponíveis, e os compararam com a incidência de cada tumor ao longo da vida entre a população americana. A correlação entre o número total de divisões das células-tronco em um dado órgão e o risco de ocorrência de um câncer nesse mesmo tecido se revelou muito nítida. Por exemplo, as células-tronco do cólon se dividem quatro vezes mais que as do intestino delgado, o que esclarece melhor a diferença de incidência desses dois tumores.
Por fim, os cânceres foram classificados em dois grupos. No primeiro, os 22 tipos de câncer (de pâncreas, melanomas, tumores do pulmão em não-fumantes) onde o papel do acaso é preponderante. O segundo corresponde aos nove tumores (cânceres do cólon, do pulmão de fumantes…) onde outros fatores estão claramente implicados.
Mesmo nesse grupo, a dinâmica da renovação dos tecidos exerce um papel "essencial", e os efeitos do ambiente e da genética só se somam, afirmam os autores. Para os tipos de câncer do primeiro grupo, medidas de prevenção têm poucas chances de serem eficazes e eles propõem que é preferível apostar na detecção. Já a prevenção se justifica nos tumores onde o papel do ambiente é reconhecido.
Seriam superestimadas as causas exógenas do câncer, como a poluição e a alimentação?
"É uma abordagem tentadora, e seus gráficos são impressionantes", ressalta o professor Fabien Calvo (Instituto Gustave Roussy), diretor científico do Cancer Core Europe, que reúne seis centros europeus de pesquisa sobre o câncer. "De fato, esses resultados confirmam a teoria clássica segundo a qual o câncer é uma doença do envelhecimento, uma vez que os riscos são proporcionais ao número total de divisões das células-tronco."
O Dr. Fabrice Denis, oncologista da cidade de Mans e pesquisador da Universidade de Rouen, segue a mesma linha. "Nos últimos anos foi dada muita ênfase às causas exógenas do câncer, como a poluição e a alimentação... mas esse trabalho confirma que o câncer é antes de tudo uma doença de idosos. Ele também dá suporte à ideia de que quando a expectativa de vida avança rapidamente, o que foi o caso do ser humano, que triplicou a sua em dois séculos, a biologia não acompanha."
O câncer de mama e de próstata não foram considerados
Mas o inventário dos genes de predisposição ao câncer – implicados em 5% a 10% dos casos – está longe de estar terminado, observam os especialistas franceses. Mais importante, os dois tumores mais frequentes (mama e próstata) não foram levados em conta no estudo, o que poderia modificar o enorme peso do acaso (65%, com um intervalo de confiança amplo) apresentado pelos americanos."As estimativas do número de divisões das células-tronco nesses tecidos não nos pareciam confiáveis", justifica Cristian Tomasetti. "Por exemplo, os dados sobre o câncer de mama são muito controversos e dependem de fatores hormonais". As causas do aumento desse tipo de tumor são em si sujeitas a debate.
Por fim, o papel de produtos cancerígenos como o tabaco continua enorme: para o pulmão, o risco "espontâneo" aumenta 70 vezes. O tabaco está implicado em 17 tipos de câncer, e é responsável por mais de 20%¨da mortalidade por essas doenças no mundo.
Uma coisa é certa, as ciências matemáticas vêm ocupando um espaço crescente na oncologia. Fabrice Denis e Christophe Letellier (CNRS, Rouen) publicaram recentemente um modelo baseado na teoria do caos, que leva em conta as diferentes dinâmicas do câncer de acordo com as interações entre as células tumorais e as outras células dos pacientes. O resultado são aplicações concretas para detectar precocemente as recaídas, e testes clínicos já estão sendo efetuados para o câncer de pulmão.
Índia estuda liberar ou não o direito ao suicídio
Jerry Pinto - TINYT
L. tem 21 anos de idade, é profissional da mídia em Mumbai, usa gel no cabelo e camisas abotoadas. Nós nos conhecemos em uma sessão de leitura de um livro, há algumas semanas, e ele me contou sobre uma noite, há dois anos, quando uma amiga dele tentou se matar.
Jerry Pinto - TINYT
L. tem 21 anos de idade, é profissional da mídia em Mumbai, usa gel no cabelo e camisas abotoadas. Nós nos conhecemos em uma sessão de leitura de um livro, há algumas semanas, e ele me contou sobre uma noite, há dois anos, quando uma amiga dele tentou se matar.
Quatro amigos
estavam em um bar, bêbados, quando S. disse que nunca iria superar a
paixão que tinha por um homem. Ela foi ao banheiro e voltou com os
pulsos sangrando. "O proprietário ficou apavorado e chamou a polícia",
disse L.. "Nós fechamos a conta rapidamente e fugimos antes que eles
aparecessem".
L. levou S. a um hospital, mas "os médicos se recusaram a tratá-la porque era um caso de suicídio". A polícia chegou antes de S. poder ser levada para casa e encaminhada a seu médico de família. "Os policiais disseram que ela era uma criminosa e que teria que ser levada para a delegacia de polícia". "Eles disseram que estávamos incitando o crime e que por isso também seríamos levados à delegacia de polícia".
Nesse ponto, L. fez o que todo jovem privilegiado do mundo faz nessas situações: ligou para o pai, um agente de viagens de sucesso. "Papai veio ao hospital e me deu um tapa na cara, duas ou três vezes, na frente da polícia. Acho que foi para mostrar aos policiais que estava falando sério. Acho que ele me estapeou para não ter que pagar muito. Nos livramos com $ 12.000 rúpias (cerca de R$ 500), depois de uma séria negociação".
L. estava diante da Seção 309 do Código Penal indiano de 1860, uma legislação concebida pelo próprio lorde vitoriano Macaulay, que pune a tentativa de suicídio com multa e até um ano de prisão. Ajudar ou instigar suicídio -uma ofensa criada mais tarde- é punível com até dez anos de prisão, com a possibilidade de trabalho árduo.
A justificativa para a criminalização de tentativa de suicídio é o argumento teológico de sempre: só Deus pode dar a vida, portanto só Deus pode tirá-la. A pena mais dura pela instigação ao suicídio surgiu de uma característica mais distintamente indiana.
A Índia tem leis severas contra a exigência de dote por parte das noivas e suas famílias. Mas mesmo depois do casamento, as mulheres às vezes são assediadas pelos sogros pedindo dinheiro, ouro ou presentes, e algumas, levadas ao desespero, se matam. O encorajamento criminoso ao suicídio muitas vezes foi usado para levar estes casos à justiça.
Mas agora, por iniciativa do partido governante Bharatiya Janata, a lei está prestes a ser revogada. A medida segue uma recomendação de 2008 pela Comissão de Direito, que sugeriu que a tentativa de suicídio deve ser "considerada mais como uma manifestação de um estado doentio da mente que merece tratamento e cuidado do que uma ofensa a ser retribuída com punição".
A notícia chega em boa hora, uma vez que a Índia tem a maior taxa de suicídio do mundo entre jovens de 15 a 29 anos e precisa desesperadamente repensar sua abordagem da saúde mental. (Em muitas cidades, a terapia eletroconvulsiva continua sendo um tratamento comum para a depressão e tendências suicidas; em pequenas aldeias, a cura padrão pode ser o exorcismo). Embora a lei contra o suicídio raramente tenha sido aplicada, sua própria existência -e a ameaça de prisão- serve para desestimular as pessoas que tentaram ou pensaram em suicídio a procurarem ajuda. As autoridades, às vezes, se aproveitam da lei para obter vantagem política ou para conseguir dinheiro, chantageando as famílias já traumatizadas.
Quando eu ouvi no início deste mês que a revogação da lei estava sendo estudada, eu chorei. Ela nunca foi usada contra a minha mãe, mas me lembro do dia em que um policial veio à nossa casa em uma das muitas ocasiões em que ela tentou tirar sua própria vida. Eu tinha cerca de 12 anos de idade. Ele se sentou no nosso sofá Rexine vermelho escuro e falou calmamente com meu pai. Ele tinha um cheiro acre, de suor em poliéster, e recusou uma oferta de chá, gesto padrão de hospitalidade na classe média da Índia. Ele não pediu dinheiro, mas meu pai lhe deu algum de qualquer maneira, agradecendo-lhe por seu tempo e paciência. Depois que o policial partiu –após aceitar a oferta- perguntei ao meu pai se minha mãe seria presa caso contrário. Ele disse: "Eu não sei se posso correr o risco".
Minha mãe era uma suicida crônica. Pagamos várias vezes. Quando um dia ela teve um verdadeiro acidente ao atravessar a estrada, um policial apareceu novamente, convencido de que ela tinha tentado mais uma vez. Meu pai pagou tanto daquela vez, em contas hospitalares e subornos, que tivemos que desistir do sonho de mudar para uma casa maior.
Nem todas as pessoas que tentam o suicídio são doentes mentais: há indianos que querem se matar por motivos religiosos, como alguns jainistas, ou por convicção política.
Em vários territórios do nordeste, a draconiana Lei de Poderes Especiais das Forças Armadas de 1958 permite que os agentes disparem contra pessoas suspeitas de atuar contra o Estado. Em 2004, as mulheres do Estado de Manipur fizeram uma manifestação contra a lei tirando a roupa e carregando uma faixa onde se lia "Exército indiano nos estupre". Um dos protestos mais comoventes foi a campanha de Irom Sharmila Chanu, que em 2000, quando tinha 28 anos de idade, começou uma greve de fome para pedir a revogação da lei. Desde então, ela nunca mais comeu voluntariamente.
Todos os anos, Sharmila é detida e alimentada à força por um tubo nasal até ser liberada. Em seguida, ela declara que continuará seu jejum e é presa novamente. A acusação? Tentativa de suicídio. A sentença? Até um ano.
E agora? A Índia está decidindo se permitirá que cidadãos como Sharmila tenham a liberdade suprema: o direito de recusarem-se a continuar a viver, por qualquer razão. A Índia, em outras palavras, está decidindo se será uma verdadeira democracia.
Tradutor: Deborah Weinberg
L. levou S. a um hospital, mas "os médicos se recusaram a tratá-la porque era um caso de suicídio". A polícia chegou antes de S. poder ser levada para casa e encaminhada a seu médico de família. "Os policiais disseram que ela era uma criminosa e que teria que ser levada para a delegacia de polícia". "Eles disseram que estávamos incitando o crime e que por isso também seríamos levados à delegacia de polícia".
Nesse ponto, L. fez o que todo jovem privilegiado do mundo faz nessas situações: ligou para o pai, um agente de viagens de sucesso. "Papai veio ao hospital e me deu um tapa na cara, duas ou três vezes, na frente da polícia. Acho que foi para mostrar aos policiais que estava falando sério. Acho que ele me estapeou para não ter que pagar muito. Nos livramos com $ 12.000 rúpias (cerca de R$ 500), depois de uma séria negociação".
L. estava diante da Seção 309 do Código Penal indiano de 1860, uma legislação concebida pelo próprio lorde vitoriano Macaulay, que pune a tentativa de suicídio com multa e até um ano de prisão. Ajudar ou instigar suicídio -uma ofensa criada mais tarde- é punível com até dez anos de prisão, com a possibilidade de trabalho árduo.
A justificativa para a criminalização de tentativa de suicídio é o argumento teológico de sempre: só Deus pode dar a vida, portanto só Deus pode tirá-la. A pena mais dura pela instigação ao suicídio surgiu de uma característica mais distintamente indiana.
A Índia tem leis severas contra a exigência de dote por parte das noivas e suas famílias. Mas mesmo depois do casamento, as mulheres às vezes são assediadas pelos sogros pedindo dinheiro, ouro ou presentes, e algumas, levadas ao desespero, se matam. O encorajamento criminoso ao suicídio muitas vezes foi usado para levar estes casos à justiça.
Mas agora, por iniciativa do partido governante Bharatiya Janata, a lei está prestes a ser revogada. A medida segue uma recomendação de 2008 pela Comissão de Direito, que sugeriu que a tentativa de suicídio deve ser "considerada mais como uma manifestação de um estado doentio da mente que merece tratamento e cuidado do que uma ofensa a ser retribuída com punição".
A notícia chega em boa hora, uma vez que a Índia tem a maior taxa de suicídio do mundo entre jovens de 15 a 29 anos e precisa desesperadamente repensar sua abordagem da saúde mental. (Em muitas cidades, a terapia eletroconvulsiva continua sendo um tratamento comum para a depressão e tendências suicidas; em pequenas aldeias, a cura padrão pode ser o exorcismo). Embora a lei contra o suicídio raramente tenha sido aplicada, sua própria existência -e a ameaça de prisão- serve para desestimular as pessoas que tentaram ou pensaram em suicídio a procurarem ajuda. As autoridades, às vezes, se aproveitam da lei para obter vantagem política ou para conseguir dinheiro, chantageando as famílias já traumatizadas.
Quando eu ouvi no início deste mês que a revogação da lei estava sendo estudada, eu chorei. Ela nunca foi usada contra a minha mãe, mas me lembro do dia em que um policial veio à nossa casa em uma das muitas ocasiões em que ela tentou tirar sua própria vida. Eu tinha cerca de 12 anos de idade. Ele se sentou no nosso sofá Rexine vermelho escuro e falou calmamente com meu pai. Ele tinha um cheiro acre, de suor em poliéster, e recusou uma oferta de chá, gesto padrão de hospitalidade na classe média da Índia. Ele não pediu dinheiro, mas meu pai lhe deu algum de qualquer maneira, agradecendo-lhe por seu tempo e paciência. Depois que o policial partiu –após aceitar a oferta- perguntei ao meu pai se minha mãe seria presa caso contrário. Ele disse: "Eu não sei se posso correr o risco".
Minha mãe era uma suicida crônica. Pagamos várias vezes. Quando um dia ela teve um verdadeiro acidente ao atravessar a estrada, um policial apareceu novamente, convencido de que ela tinha tentado mais uma vez. Meu pai pagou tanto daquela vez, em contas hospitalares e subornos, que tivemos que desistir do sonho de mudar para uma casa maior.
Nem todas as pessoas que tentam o suicídio são doentes mentais: há indianos que querem se matar por motivos religiosos, como alguns jainistas, ou por convicção política.
Em vários territórios do nordeste, a draconiana Lei de Poderes Especiais das Forças Armadas de 1958 permite que os agentes disparem contra pessoas suspeitas de atuar contra o Estado. Em 2004, as mulheres do Estado de Manipur fizeram uma manifestação contra a lei tirando a roupa e carregando uma faixa onde se lia "Exército indiano nos estupre". Um dos protestos mais comoventes foi a campanha de Irom Sharmila Chanu, que em 2000, quando tinha 28 anos de idade, começou uma greve de fome para pedir a revogação da lei. Desde então, ela nunca mais comeu voluntariamente.
Todos os anos, Sharmila é detida e alimentada à força por um tubo nasal até ser liberada. Em seguida, ela declara que continuará seu jejum e é presa novamente. A acusação? Tentativa de suicídio. A sentença? Até um ano.
E agora? A Índia está decidindo se permitirá que cidadãos como Sharmila tenham a liberdade suprema: o direito de recusarem-se a continuar a viver, por qualquer razão. A Índia, em outras palavras, está decidindo se será uma verdadeira democracia.
Tradutor: Deborah Weinberg
Cuba examina modelo vietnamita e chinês para traçar futuro
Juan Jesús Aznarez - El País
Fidel Castro sempre lamentou que a morte de Ho Chi Minh tivesse caído no abismo revolucionário de 1969, sem ter podido conhecer o estrategista que comandou os nacionalistas de meados do século 20 no Vietnã contra o colonialismo da França e dos EUA. Concluídas as guerras de libertação na Indochina e substituídas as trincheiras antiimperialistas do Mekong pelos hidroaviões turísticos, a revolução cubana comemora seu 56º aniversário mergulhada na introspecção, digerindo uma normalização diplomática com Washington que a obrigará a corrigir sua trajetória.
Juan Jesús Aznarez - El País
Fidel Castro sempre lamentou que a morte de Ho Chi Minh tivesse caído no abismo revolucionário de 1969, sem ter podido conhecer o estrategista que comandou os nacionalistas de meados do século 20 no Vietnã contra o colonialismo da França e dos EUA. Concluídas as guerras de libertação na Indochina e substituídas as trincheiras antiimperialistas do Mekong pelos hidroaviões turísticos, a revolução cubana comemora seu 56º aniversário mergulhada na introspecção, digerindo uma normalização diplomática com Washington que a obrigará a corrigir sua trajetória.
Rumo a Hanói ou a Pequim? Talvez rumo ao Vietnã, com escala em
Artemisa, a bancada de testes da mudança gerencial, o laboratório
provincial onde o PCC (Partido Comunista de Cuba) ensaia a
descentralização e o recuo do intervencionismo do Estado. O quadrante
revolucionário vai ignorar o pluripartidarismo e o formato chinês, o
"enriquecer é glorioso" proclamado em 1992 por Deng Xiaoping, porque a
maior das Antilhas arderia pelos quatro costados aos gritos de
"covarde". Nem a história nem a cultura cubanas parecem permitir uma
tradução automática das mudanças abordadas pela China e o Vietnã em 1978
e 1986: duas economias de mercado às ordens do Partido Comunista.
Fidel Castro também teria desejado conhecer John F. Kennedy, mas não foi possível porque o presidente americano foi assassinado em 1963, quando ponderava algum tipo de acordo com o chefe guerrilheiro que em 1º de janeiro de 1959 havia entrado triunfalmente em Havana depois de derrubar Fulgencio Batista, um sargento fantoche de Washington. Caso tivesse havido a conciliação, as cabalas sobre o futuro de Cuba teriam sido outras. Refratário ao capitalismo, ausente dos atos da histórica distensão, nada se sabe sobre os sentimentos do patriarca durante as negociações com os EUA, em cujas cloacas se tramaram atentados contra sua vida.
Mais de meio século depois do magnicídio de Dallas, Barack Obama e Raúl Castro conseguiram a aproximação que teria sido impossível com Kennedy desde o momento da aliança com a União Soviética. Havana comemora este aniversário da revolução reconduzindo estruturas concebidas para o confronto, calculando os prós e os contras do novo itinerário. Castigada pelas refregas e a utopia, a revolução cubana se aproxima dos EUA com a guarda erguida, aparentemente disposta a receber golpes em áreas macias, mas cobrindo órgãos vitais. Não obstante, as aberturas econômicas e sociais derivadas do apaziguamento binacional podem avivar inércias democratizadas incontáveis.
A efeméride deste ano não é protocolar, porque a circunstância é histórica. Cuba ferve de expectativa. Também deve havê-la nos setores do PCC marcados pela desconfiança e o doutrinamento, preocupados com as consequências do degelo com o inimigo. Suspeitam que a privatização da economia ganhará força e aceleração ao amparo dos novos tempos, promovida pelos previsíveis empréstimos internacionais para fomentá-la. Temem que a ajuda americana seja malévola e conduza ao surgimento de uma burguesia potente, insolidária e apátrida: uma quinta coluna que conspirará para reinstaurar na ilha a semente do capitalismo, a exploração do homem pelo homem, e será cúmplice das ambições anexionistas do ianque.
Raúl Castro e a direção do partido acometem uma tarefa complexa, pedagógica: explicar à militância mais ideologizada o elaborado trabalho assumido desde 17 de dezembro; entender-se com o inimigo, modernizar o país, abrir-se ao mundo e ampliar as liberdades econômicas com pragmatismo e justiça distributiva; sem pressa, sem ceder poder político nem os meios de produção, com as bandeiras da gratuidade da saúde e do ensino sempre levantadas.
A harmônica sincronia entre capitalismo e comunismo. O catecismo parece tão impossível quanto a derrubada da revolução à força. O governo começa 2015 obrigado a reformular algumas essências programáticas: fomentar o empreendimento e a criação de emprego privado, mas tentará conter o acúmulo de riqueza entre os 500 mil autônomos cubanos que sonham com cadeias de restaurantes e cinemas, empresas de importação e exportação e as franquias de Wal-Mart, McDonald's e Apple.
China e Vietnã são duas referências que o governo objeta porque seu crescimento econômico foi tão assombroso quanto foram preocupantes as desigualdades sociais geradas. Há apenas dois meses, Carlos Alonso Zaldívar, ex-embaixador espanhol em Cuba (2004-2009), resumia na revista "Política Exterior" o grande dilema: 6 milhões de cubanos, de uma população total de 11,5 milhões, dependem da proteção oficial em pensões, serviços e produtos subvencionados; 68% do orçamento são gastos sociais. "Sabendo como vivem, nada é mais natural que o temor dessas pessoas de que esse gasto se reduza ou mesmo desapareça. Isto gera uma força de resistência à mudança."
Outros 4 milhões trabalham para o Estado, e seu escasso salário é complementado com subsídios. Como o horizonte é problemático, registram-se resistências ideológicas e políticas à mudança dentro do PCC, do Exército e da Polícia Nacional Revolucionária. "Mas a autêntica resistência que explica o ritmo lento das reformas procede da dificuldade de tornar o país mais produtivo sem lançar milhões de pessoas à indigência. Esse é o problema de fundo que Raúl e sua gente têm de resolver. Uma terapia de choque aplicada a Cuba destruiria o país para gerações", afirma Zaldívar. Não surpreende, então, que o novo rumo revolucionário possa ser o Vietnã, onde enriquecer não é tão glorioso quanto na China, mas é melhor visto do que nas provetas estatais da caribenha província de Artemisa.
Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
Fidel Castro também teria desejado conhecer John F. Kennedy, mas não foi possível porque o presidente americano foi assassinado em 1963, quando ponderava algum tipo de acordo com o chefe guerrilheiro que em 1º de janeiro de 1959 havia entrado triunfalmente em Havana depois de derrubar Fulgencio Batista, um sargento fantoche de Washington. Caso tivesse havido a conciliação, as cabalas sobre o futuro de Cuba teriam sido outras. Refratário ao capitalismo, ausente dos atos da histórica distensão, nada se sabe sobre os sentimentos do patriarca durante as negociações com os EUA, em cujas cloacas se tramaram atentados contra sua vida.
Mais de meio século depois do magnicídio de Dallas, Barack Obama e Raúl Castro conseguiram a aproximação que teria sido impossível com Kennedy desde o momento da aliança com a União Soviética. Havana comemora este aniversário da revolução reconduzindo estruturas concebidas para o confronto, calculando os prós e os contras do novo itinerário. Castigada pelas refregas e a utopia, a revolução cubana se aproxima dos EUA com a guarda erguida, aparentemente disposta a receber golpes em áreas macias, mas cobrindo órgãos vitais. Não obstante, as aberturas econômicas e sociais derivadas do apaziguamento binacional podem avivar inércias democratizadas incontáveis.
A efeméride deste ano não é protocolar, porque a circunstância é histórica. Cuba ferve de expectativa. Também deve havê-la nos setores do PCC marcados pela desconfiança e o doutrinamento, preocupados com as consequências do degelo com o inimigo. Suspeitam que a privatização da economia ganhará força e aceleração ao amparo dos novos tempos, promovida pelos previsíveis empréstimos internacionais para fomentá-la. Temem que a ajuda americana seja malévola e conduza ao surgimento de uma burguesia potente, insolidária e apátrida: uma quinta coluna que conspirará para reinstaurar na ilha a semente do capitalismo, a exploração do homem pelo homem, e será cúmplice das ambições anexionistas do ianque.
Raúl Castro e a direção do partido acometem uma tarefa complexa, pedagógica: explicar à militância mais ideologizada o elaborado trabalho assumido desde 17 de dezembro; entender-se com o inimigo, modernizar o país, abrir-se ao mundo e ampliar as liberdades econômicas com pragmatismo e justiça distributiva; sem pressa, sem ceder poder político nem os meios de produção, com as bandeiras da gratuidade da saúde e do ensino sempre levantadas.
A harmônica sincronia entre capitalismo e comunismo. O catecismo parece tão impossível quanto a derrubada da revolução à força. O governo começa 2015 obrigado a reformular algumas essências programáticas: fomentar o empreendimento e a criação de emprego privado, mas tentará conter o acúmulo de riqueza entre os 500 mil autônomos cubanos que sonham com cadeias de restaurantes e cinemas, empresas de importação e exportação e as franquias de Wal-Mart, McDonald's e Apple.
China e Vietnã são duas referências que o governo objeta porque seu crescimento econômico foi tão assombroso quanto foram preocupantes as desigualdades sociais geradas. Há apenas dois meses, Carlos Alonso Zaldívar, ex-embaixador espanhol em Cuba (2004-2009), resumia na revista "Política Exterior" o grande dilema: 6 milhões de cubanos, de uma população total de 11,5 milhões, dependem da proteção oficial em pensões, serviços e produtos subvencionados; 68% do orçamento são gastos sociais. "Sabendo como vivem, nada é mais natural que o temor dessas pessoas de que esse gasto se reduza ou mesmo desapareça. Isto gera uma força de resistência à mudança."
Outros 4 milhões trabalham para o Estado, e seu escasso salário é complementado com subsídios. Como o horizonte é problemático, registram-se resistências ideológicas e políticas à mudança dentro do PCC, do Exército e da Polícia Nacional Revolucionária. "Mas a autêntica resistência que explica o ritmo lento das reformas procede da dificuldade de tornar o país mais produtivo sem lançar milhões de pessoas à indigência. Esse é o problema de fundo que Raúl e sua gente têm de resolver. Uma terapia de choque aplicada a Cuba destruiria o país para gerações", afirma Zaldívar. Não surpreende, então, que o novo rumo revolucionário possa ser o Vietnã, onde enriquecer não é tão glorioso quanto na China, mas é melhor visto do que nas provetas estatais da caribenha província de Artemisa.
Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
Sentimento de ser vencedor muda a percepção do que é justo
Sarah Green - Harvard Business School Publishing Corp
Getty Images
Nossas crenças sobre justiça, habilidade e confiança mudam dependendo de nos sentirmos vencedores ou perdedores?
Sim, segundo uma nova pesquisa de Jazmin L. Brown-Iannuzzi, Kristjen B.
Lundberg e B. Keith Payne, da Universidade da Carolina do Norte, em
Chapel Hill, e Aaron C. Kay, da Universidade Duke. Para explorar essas
questões, os pesquisadores utilizaram um jogo online para perguntar
sobre uma questão particularmente acalorada: redistribuição de renda.
Os pesquisadores realizaram uma série de experimentos para seu novo artigo, um deles particularmente interessante. Eles criaram um jogo online baseado no mercado de ações e deram aos participantes 40 centavos para investir em até seis "empresas" diferentes, supostamente baseadas em companhias reais.
Para fazer o jogo parecer realista, os pesquisadores deram aos participantes descrições de cada empresa, desempenho das ações no passado, relações preço/ganhos e guias para ajudá-los a interpretar toda a informação. Os pesquisadores disseram aos participantes que, após terem feito suas opções de investimento, o computador realizaria seis meses de atividade do mercado de ações de fato.
O que realmente aconteceu é que os ganhos e perdas foram atribuídos aleatoriamente.
Todavia, os pesquisadores disseram a um terço dos participantes que o desempenho deles foi "melhor do que 89% de todos os jogadores até o momento", enquanto para outro terço foi dito que o desempenho deles foi "pior do que 89% de todos os jogadores até o momento". Para o terço final, um grupo de controle, não foi dito nada a respeito do desempenho deles.
Finalmente, os maiores ganhadores tiveram seus ganhos reduzidos em 20% para compensar as perdas daqueles com pior desempenho, enquanto aqueles com pior desempenho receberam um bônus equivalente a 25% de seus ativos.
Depois de tudo isso, foi pedido aos participantes do jogo que recomendassem mudanças na forma como os ganhos eram redistribuídos. Eles recomendariam que os vencedores mantivessem mais de seus ganhos... ou dessem mais? Qual o tamanho do bônus que os perdedores deveriam receber?
Como se poderia esperar, os vencedores apresentaram maior probabilidade de se oporem à redistribuição. Os perdedores, entretanto, estiveram longe de se tornarem socialistas; a maioria deles pareceu aceitar a manutenção do status quo. Quanto ao grupo de controle, eles ficaram em uma posição intermediária, porém mais próxima dos vencedores.
Os pesquisadores também pediram aos "investidores" para avaliar o quanto o jogo e o sistema econômico americano eram justos. Os vencedores apresentaram uma probabilidade significativamente maior do que os perdedores de considerar tanto o jogo falso quanto o sistema econômico americano real como sendo justos. De novo, o grupo de controle tendeu a se inclinar mais na direção do grupo de status alto.
Claramente, nossas crenças mudam dependendo de termos vencido ou perdido (e se sabemos o resultado). Mas vencer ou perder muda a forma como interpretamos as crenças dos outros?
Para descobrir, os pesquisadores realizaram o experimento de novo, desta vez descartando o grupo de controle (já que se comportava como os vencedores) e pedindo desta vez aos participantes que avaliassem as recomendações do grupo anterior e a tendência deles.
O que descobriram –após muita matemática– foi que os jogadores que recomendaram a redistribuição de mais riqueza foram vistos como mais motivados pelo interesse próprio. Mas isso ocorreu apenas na visão dos vencedores.
Já os jogadores que quiseram reduzir a redistribuição foram vistos como relativamente menos tendenciosos e, de forma interessante, isso tanto na visão dos ganhadores quanto na dos perdedores.
E, importante, os pesquisadores documentaram –por meio de dois outros estudos– que não é objetivamente ser um vencedor ou perdedor que muda nosso ponto de vista e nos faz suspeitar que os outros sejam tendenciosos. É apenas se sentir subjetivamente assim.
Talvez esse estudo possa ajudar a explicar por que, apesar da enorme desigualdade de renda nos Estados Unidos, os eleitores permanecem contrários a uma maior redistribuição de renda.
Então, temos o seguinte cenário: estar no topo torna você contrário a compartilhar e com maior probabilidade de ver aqueles que discordam de você como sendo tendenciosos. Enquanto isso, as pessoas na metade inferior em grande parte concordam com o status quo. Já aqueles que não sabem qual posição têm na hierarquia agem basicamente como as pessoas no topo.
Simultaneamente, todos suspeitam mais das pessoas que querem aumentar a redistribuição de renda do que daqueles que querem diminui-la.
Sendo assim, 60 anos de redução de impostos feitas pelos vários governos dos Estados Unidos, de repente, não me parecem tão estranhos.
Tradutor: George El Khouri Andolfato
Sarah Green - Harvard Business School Publishing Corp
Getty Images
Os pesquisadores realizaram uma série de experimentos para seu novo artigo, um deles particularmente interessante. Eles criaram um jogo online baseado no mercado de ações e deram aos participantes 40 centavos para investir em até seis "empresas" diferentes, supostamente baseadas em companhias reais.
Para fazer o jogo parecer realista, os pesquisadores deram aos participantes descrições de cada empresa, desempenho das ações no passado, relações preço/ganhos e guias para ajudá-los a interpretar toda a informação. Os pesquisadores disseram aos participantes que, após terem feito suas opções de investimento, o computador realizaria seis meses de atividade do mercado de ações de fato.
O que realmente aconteceu é que os ganhos e perdas foram atribuídos aleatoriamente.
Todavia, os pesquisadores disseram a um terço dos participantes que o desempenho deles foi "melhor do que 89% de todos os jogadores até o momento", enquanto para outro terço foi dito que o desempenho deles foi "pior do que 89% de todos os jogadores até o momento". Para o terço final, um grupo de controle, não foi dito nada a respeito do desempenho deles.
Finalmente, os maiores ganhadores tiveram seus ganhos reduzidos em 20% para compensar as perdas daqueles com pior desempenho, enquanto aqueles com pior desempenho receberam um bônus equivalente a 25% de seus ativos.
Depois de tudo isso, foi pedido aos participantes do jogo que recomendassem mudanças na forma como os ganhos eram redistribuídos. Eles recomendariam que os vencedores mantivessem mais de seus ganhos... ou dessem mais? Qual o tamanho do bônus que os perdedores deveriam receber?
Como se poderia esperar, os vencedores apresentaram maior probabilidade de se oporem à redistribuição. Os perdedores, entretanto, estiveram longe de se tornarem socialistas; a maioria deles pareceu aceitar a manutenção do status quo. Quanto ao grupo de controle, eles ficaram em uma posição intermediária, porém mais próxima dos vencedores.
Os pesquisadores também pediram aos "investidores" para avaliar o quanto o jogo e o sistema econômico americano eram justos. Os vencedores apresentaram uma probabilidade significativamente maior do que os perdedores de considerar tanto o jogo falso quanto o sistema econômico americano real como sendo justos. De novo, o grupo de controle tendeu a se inclinar mais na direção do grupo de status alto.
Claramente, nossas crenças mudam dependendo de termos vencido ou perdido (e se sabemos o resultado). Mas vencer ou perder muda a forma como interpretamos as crenças dos outros?
Para descobrir, os pesquisadores realizaram o experimento de novo, desta vez descartando o grupo de controle (já que se comportava como os vencedores) e pedindo desta vez aos participantes que avaliassem as recomendações do grupo anterior e a tendência deles.
O que descobriram –após muita matemática– foi que os jogadores que recomendaram a redistribuição de mais riqueza foram vistos como mais motivados pelo interesse próprio. Mas isso ocorreu apenas na visão dos vencedores.
Já os jogadores que quiseram reduzir a redistribuição foram vistos como relativamente menos tendenciosos e, de forma interessante, isso tanto na visão dos ganhadores quanto na dos perdedores.
E, importante, os pesquisadores documentaram –por meio de dois outros estudos– que não é objetivamente ser um vencedor ou perdedor que muda nosso ponto de vista e nos faz suspeitar que os outros sejam tendenciosos. É apenas se sentir subjetivamente assim.
Talvez esse estudo possa ajudar a explicar por que, apesar da enorme desigualdade de renda nos Estados Unidos, os eleitores permanecem contrários a uma maior redistribuição de renda.
Então, temos o seguinte cenário: estar no topo torna você contrário a compartilhar e com maior probabilidade de ver aqueles que discordam de você como sendo tendenciosos. Enquanto isso, as pessoas na metade inferior em grande parte concordam com o status quo. Já aqueles que não sabem qual posição têm na hierarquia agem basicamente como as pessoas no topo.
Simultaneamente, todos suspeitam mais das pessoas que querem aumentar a redistribuição de renda do que daqueles que querem diminui-la.
Sendo assim, 60 anos de redução de impostos feitas pelos vários governos dos Estados Unidos, de repente, não me parecem tão estranhos.
Tradutor: George El Khouri Andolfato
As comemorações fracassadas do outono alemão
Sonia Combe - Le Monde
9.nov.2014 - Fogos de artifício explodem acima
do Portão de Brandemburgo neste domingo (9), nas comemorações de 25 anos
da queda do muro de Berlim, na Alemanha
Poderiam ter se atido a isso, mas para que o espetáculo fosse completo, era preciso empregar a memória. Uma memória muito seletiva. Uma ex-cidadã da Alemanha Oriental me contou como, atraída por um canal de televisão até um antigo ponto de passagem do Muro, perguntaram-lhe sobre a alegria que ela teria sentido ao passar para o lado ocidental na noite de 9 de novembro de 1989.
Mas ela confessou que, depois de correr durante mais de um mês de um comitê de cidadãos para outro, sua principal preocupação não havia sido ir até lá. O que estava acontecendo do lado oriental era bem mais interessante! Decepcionada, a repórter mudou de assunto e perguntou se ela tinha medo da Stasi.
Ali a decepção foi ainda maior: a ex-cidadã do Leste explicou que ela só criticava o regime dentro do Partido e que, para ser sincera, ela não vivia com medo da Stasi porque ela não pertencia a um círculo de dissidentes. Pior, ela não estava entre aqueles que aplaudiram o plano de dez pontos para a reunificação do chanceler Kohl, lançado em 28 de novembro de 1989.
Era mais do que queriam ouvir. Ela logo foi deixada de lado e sua fala não passou na TV. Assim como não houve iniciativa do Museu Judaico de Berlim que, no dia 6 de novembro, organizou uma mesa redonda sobre a forma como minorias turcas, vietnamitas, judaicas ou qualquer outra podem ter vivido o acontecimento.
Foi um sociólogo germano-africano que abriu o debate: filho de uma comunista da Alemanha Oriental, onde ele cresceu, ele militava em 1989 por uma "RDA melhor" e confessou ter chorado quando foi anunciada a queda do Muro.
Já a representante da comunidade turca diz o quanto ela se alegrou com os berlinenses da parte ocidental; ela se juntou a eles nas ruas para ir ao encontro dos berlinenses do Leste, pronta para abraçá-los, mas estes recuaram ao vê-la, tão morena...
O massacre de novembro
Vinda do Vietnã, onde a RDA recrutava seus trabalhadores imigrantes, sua vizinha também dizia estar feliz pois não precisava mais ter medo de engravidar. Na RDA as trabalhadoras imigrantes não tinham nem o direito de ter filhos, nem de abortar. Essa medida era pouco conhecida, e não tinha nada a ver com a Stasi, mas sim com o cinismo dos Estados contratantes. Por fim, foi a vez do diretor do Centrum Judaicum, Hermann Simon, de falar.
O historiador cujos pais escolheram viver na RDA contou com seu humor costumeiro como sua esposa e ele, naquela célebre noite, não haviam entendido nada do que gaguejou Schabowski (o secretário do partido de Berlim Oriental responsável por todo o acontecimento), tinham ido dormir e, ao saberem da queda do Muro ao acordar, simplesmente pensaram: isso não é bom para os judeus!
Um ano antes, em 9 de novembro de 1988, as duas Alemanhas haviam competido na comemoração da "noite dos cristais" que ocorrera 50 anos antes. Uma comemoração sempre esconde outra por trás.
Este ano as cerimônias relembrando o massacre nazista foram ofuscadas pela alegria ressuscitada dos 25 anos da queda do Muro. Fiel a seu engajamento, Hans Coppi, filho de um casal de resistentes da chamada rede da "orquestra vermelha" e nascido na prisão (a execução de sua mãe foi adiada até o parto), havia feito um convite em nome do Comitê Antifascista para as comemorações de 9 de novembro de 1938 no local da antiga prisão e local de execuções de Plötzensee.
Ali se encontraram alguns velhos antifascistas acompanhados de ex-cidadãos da RDA que, em sua maior parte, não queriam a extinção de seu país. Na época eram partidários da "terceira via", da qual a escritora Christa Wolf fora a porta-voz, a de um "socialismo do qual não se fugiria."
Não é a queda do Muro que acabam de comemorar na Alemanha, mas sim a reunificação. Apesar da ligação que há entre os dois fatos, que acabou sendo vista como natural, assim como acabou sendo vista como natural a divisão da Alemanha de antes, trata-se de dois acontecimentos distintos. No entanto, esquecida pela mídia, ignorada por uma historiografia da RDA feita por historiadores originários das margens do Reno ou da Baviera, a considerável parte da sociedade da Alemanha oriental que não se encantou com o plano do chanceler Kohl lançado no final daquele eufórico mês de novembro foi uma realidade.
Lembrar sua existência 25 anos depois teria perturbado a alegria orquestrada? O consenso entre o espetáculo midiático e a história acadêmica corre o risco de nos privar ainda por alguns bons anos, na melhor das hipóteses até o próximo aniversário importante, do relato objetivo e sem paixão, em palavras sem ideologia, daquilo que "realmente aconteceu" naquele outono de 1989, o famoso "wie es eigentlich gewesen" do historiador Herbert von Ranke.
Sonia Combe - Le Monde
Markus Schreiber/AP
A comemoração, esse ato político repleto de significados que, como se
sabe, não são somente memoriais, pode prejudicar gravemente a verdade
histórica. Deixemos de lado a de 1914-1918 e olhemos para nossos
vizinhos alemães. A febre comemorativa que Berlim viveu no outono
passado acaba de nos produzir a prova disso.
Não é o lado do espetáculo que está sendo questionado aqui - os balões
soltos ao longo do antigo traçado do Muro tiveram um efeito belíssimo.
Tampouco critica-se o concerto, nunca se deve negar o prazer de ouvir
uma boa execução da Nona Sinfonia.Poderiam ter se atido a isso, mas para que o espetáculo fosse completo, era preciso empregar a memória. Uma memória muito seletiva. Uma ex-cidadã da Alemanha Oriental me contou como, atraída por um canal de televisão até um antigo ponto de passagem do Muro, perguntaram-lhe sobre a alegria que ela teria sentido ao passar para o lado ocidental na noite de 9 de novembro de 1989.
Mas ela confessou que, depois de correr durante mais de um mês de um comitê de cidadãos para outro, sua principal preocupação não havia sido ir até lá. O que estava acontecendo do lado oriental era bem mais interessante! Decepcionada, a repórter mudou de assunto e perguntou se ela tinha medo da Stasi.
Ali a decepção foi ainda maior: a ex-cidadã do Leste explicou que ela só criticava o regime dentro do Partido e que, para ser sincera, ela não vivia com medo da Stasi porque ela não pertencia a um círculo de dissidentes. Pior, ela não estava entre aqueles que aplaudiram o plano de dez pontos para a reunificação do chanceler Kohl, lançado em 28 de novembro de 1989.
Era mais do que queriam ouvir. Ela logo foi deixada de lado e sua fala não passou na TV. Assim como não houve iniciativa do Museu Judaico de Berlim que, no dia 6 de novembro, organizou uma mesa redonda sobre a forma como minorias turcas, vietnamitas, judaicas ou qualquer outra podem ter vivido o acontecimento.
Foi um sociólogo germano-africano que abriu o debate: filho de uma comunista da Alemanha Oriental, onde ele cresceu, ele militava em 1989 por uma "RDA melhor" e confessou ter chorado quando foi anunciada a queda do Muro.
Já a representante da comunidade turca diz o quanto ela se alegrou com os berlinenses da parte ocidental; ela se juntou a eles nas ruas para ir ao encontro dos berlinenses do Leste, pronta para abraçá-los, mas estes recuaram ao vê-la, tão morena...
O massacre de novembro
Vinda do Vietnã, onde a RDA recrutava seus trabalhadores imigrantes, sua vizinha também dizia estar feliz pois não precisava mais ter medo de engravidar. Na RDA as trabalhadoras imigrantes não tinham nem o direito de ter filhos, nem de abortar. Essa medida era pouco conhecida, e não tinha nada a ver com a Stasi, mas sim com o cinismo dos Estados contratantes. Por fim, foi a vez do diretor do Centrum Judaicum, Hermann Simon, de falar.
O historiador cujos pais escolheram viver na RDA contou com seu humor costumeiro como sua esposa e ele, naquela célebre noite, não haviam entendido nada do que gaguejou Schabowski (o secretário do partido de Berlim Oriental responsável por todo o acontecimento), tinham ido dormir e, ao saberem da queda do Muro ao acordar, simplesmente pensaram: isso não é bom para os judeus!
Um ano antes, em 9 de novembro de 1988, as duas Alemanhas haviam competido na comemoração da "noite dos cristais" que ocorrera 50 anos antes. Uma comemoração sempre esconde outra por trás.
Este ano as cerimônias relembrando o massacre nazista foram ofuscadas pela alegria ressuscitada dos 25 anos da queda do Muro. Fiel a seu engajamento, Hans Coppi, filho de um casal de resistentes da chamada rede da "orquestra vermelha" e nascido na prisão (a execução de sua mãe foi adiada até o parto), havia feito um convite em nome do Comitê Antifascista para as comemorações de 9 de novembro de 1938 no local da antiga prisão e local de execuções de Plötzensee.
Ali se encontraram alguns velhos antifascistas acompanhados de ex-cidadãos da RDA que, em sua maior parte, não queriam a extinção de seu país. Na época eram partidários da "terceira via", da qual a escritora Christa Wolf fora a porta-voz, a de um "socialismo do qual não se fugiria."
Não é a queda do Muro que acabam de comemorar na Alemanha, mas sim a reunificação. Apesar da ligação que há entre os dois fatos, que acabou sendo vista como natural, assim como acabou sendo vista como natural a divisão da Alemanha de antes, trata-se de dois acontecimentos distintos. No entanto, esquecida pela mídia, ignorada por uma historiografia da RDA feita por historiadores originários das margens do Reno ou da Baviera, a considerável parte da sociedade da Alemanha oriental que não se encantou com o plano do chanceler Kohl lançado no final daquele eufórico mês de novembro foi uma realidade.
Lembrar sua existência 25 anos depois teria perturbado a alegria orquestrada? O consenso entre o espetáculo midiático e a história acadêmica corre o risco de nos privar ainda por alguns bons anos, na melhor das hipóteses até o próximo aniversário importante, do relato objetivo e sem paixão, em palavras sem ideologia, daquilo que "realmente aconteceu" naquele outono de 1989, o famoso "wie es eigentlich gewesen" do historiador Herbert von Ranke.
François Hollande e a arte do boxe
Gérard Courtois - Le Monde
É verdade que o pacto de responsabilidade, proposto então às empresas,
foi moldado e aprovado pelo Parlamento, e deverá começar a produzir seus
efeitos benéficos.
É verdade que a lei sobre a transição energética fincou as bases de uma sociedade mais contida na emissão de carbono e até mesmo em melhores condições para o combate ao aquecimento climático. Por fim, a "nova lei de descentralização", também anunciada um ano atrás, ao menos levou à reforma do mapa da França, ainda à espera do esclarecimento das novas jurisdições.
Mas, quanto ao resto, o voluntarismo de François Hollande se deparou com a dura realidade. A urgente "luta pelo emprego" terminou com um aumento de 181 mil pessoas à procura de emprego sem nenhuma atividade nos onze primeiros meses do ano, levando o número de desempregados da categoria A na França metropolitana para quase 3,5 milhões.
E a redução dos gastos públicos, também elevada a causa nacional? Apesar dos esforços proclamados, e para desgosto de nossos parceiros europeus, o governo não conseguiu reduzir nem o déficit público (4,4% do PIB esperado em 2014, ante 4,3% em 2013) nem a dívida pública, que ultrapassou a marca astronômica de 2 trilhões de euros no outono.
O balanço foi igualmente negativo no campo político. O chefe do Estado esperava conter os danos nas eleições municipais de março, mas elas foram desastrosas para a esquerda e obrigaram o presidente a trocar de primeiro-ministro. Da mesma forma, ele esperava que as eleições europeias de maio fossem a oportunidade para refutar "aqueles que negam o futuro da Europa, querem voltar às antigas fronteiras e abandonar o euro".
Todos sabem o que aconteceu: a Frente Nacional se exibindo com 25% e um Partido Socialista arrasado. Em setembro, a periclitante maioria senatorial de esquerda virou oposição. Por fim, a ação do governo foi constantemente contestada pela revolta de alguns pelotões de deputados socialistas, convictos de que a política econômica atual é ineficaz e nociva.
Ele queria uma República "exemplar", mas em 2014 ele foi obrigado a afastar dois de seus conselheiros e dois ministros inescrupulosos. Ele pretendia encarnar um presidente "normal", mas sua vida privada foi escancarada por revistas sensacionalistas e pelos testemunhos comprometedores de sua ex-companheira.
Enfim, há um ano o chefe do Estado vem "apanhando". Mas ele o faz com aparente serenidade, o que diz muito sobre sua combatividade. Como um boxeador mais técnico do que golpeador, ele tem certeza de que, mesmo acuado nas cordas do ringue, cambaleante e prestes a ser nocauteado, sempre é possível tomar a "iniciativa", "avançar" e "ganhar", segundo o vocabulário pugilístico empregado durante sua breve passagem por Saint-Pierre-et-Miquelon, na semana passada.
Essa é evidentemente sua intenção para 2015. Protegido pelas instituições, ele quer aproveitar toda oportunidade possível para mostrar que não perdeu nada de sua vivacidade e de sua habilidade, assim como ele fez invariavelmente nas últimas semanas com seus diversos encontros, visitas-surpresa e gestos simbólicos. Em suma, quer recuperar o sentido "da conquista, da dinâmica, do movimento". Aquele que especular sobre seu cansaço e sua possível desistência de se recandidatar em 2017 sairá decepcionado.
No entanto, não faltarão desafios. Políticos, primeiramente. Todas as previsões apontam para uma nova derrota da esquerda em março nas eleições departamentais, ainda mais brutal pelo fato de que, pela primeira vez, os conselhos gerais não serão renovados pela metade, mas sim integralmente. Após a erosão da base municipal em 2014, é a poderosa rede dos domínios departamentais da esquerda que corre o risco de ser desmantelada.
Como as mesmas causas produzem os mesmos efeitos, ou até efeitos cumulativos, a eleição regional de dezembro promete ser igualmente devastadora. E, para piorar as coisas, o Partido Socialista marcou seu próximo congresso para junho: mais ainda do que durante as escaramuças dos últimos meses, a solidez da maioria será então submetida a fortes turbulências, caso os rebeldes consigam se juntar para contestar a orientação econômica estabelecida pelo chefe do Estado.
Em segundo lugar, os desafios econômicos. É verdade que a análise de conjuntura do Insee permite que se espere uma melhora. A queda do preço do petróleo (que alivia os gastos com energia), a queda do euro (que favorece as exportações), uma taxa de juros excepcionalmente baixa (que estabiliza o montante da dívida), os primeiros efeitos significativos do crédito de imposto para a competitividade e o emprego e do pacto de responsabilidade, tudo isso contribui para dar credibilidade à previsão de 1% de crescimento em 2015, após três anos de quase estagnação. Mas isso não bastará para conter nem o aumento do desemprego, nem o do endividamento.
Ora, os franceses julgam o chefe do Estado pelo primeiro, e Bruxelas pelo segundo. Então será preciso que essas previsões sejam confirmadas no próximo ano e sejam amplificadas em 2016, para que ele possa esperar se recandidatar com um balanço razoavelmente convincente.
Por fim, François Hollande não está sozinho no ringue. Independentemente do que digam ou pensem, seus principais adversários estão longe de estar com a partida ganha. Por enquanto, a volta de Nicolas Sarkozy à liderança da UMP não desencadeou a dinâmica irresistível esperada pelo ex-presidente, muito menos o trabalho de reforma radical da direita, indispensável após dois anos de turbulências.
Quanto à presidente da Frente Nacional, nem seus sucessos eleitorais, nem sua presença local, nem as adesões heterogêneas que ela registra bastam para mostrar que ela seria capaz de governar o país futuramente. É o suficiente para convencer o chefe do Estado de que as coisas ainda podem melhorar em 2015 e além.
Gérard Courtois - Le Monde
"Intenso e difícil": foi assim que o presidente da República definiu,
na noite de 31 de dezembro de 2013, o ano que chegava ao fim. Passado um
ano, que adjetivos ele escolherá para resumir 2014 em seu discurso de
fim de ano para os franceses? Inextricável e deprimente, ou duro e
desastroso? O difícil será escolher, pois tantas coisas não se passaram
como ele esperava.
É verdade que a lei sobre a transição energética fincou as bases de uma sociedade mais contida na emissão de carbono e até mesmo em melhores condições para o combate ao aquecimento climático. Por fim, a "nova lei de descentralização", também anunciada um ano atrás, ao menos levou à reforma do mapa da França, ainda à espera do esclarecimento das novas jurisdições.
Mas, quanto ao resto, o voluntarismo de François Hollande se deparou com a dura realidade. A urgente "luta pelo emprego" terminou com um aumento de 181 mil pessoas à procura de emprego sem nenhuma atividade nos onze primeiros meses do ano, levando o número de desempregados da categoria A na França metropolitana para quase 3,5 milhões.
E a redução dos gastos públicos, também elevada a causa nacional? Apesar dos esforços proclamados, e para desgosto de nossos parceiros europeus, o governo não conseguiu reduzir nem o déficit público (4,4% do PIB esperado em 2014, ante 4,3% em 2013) nem a dívida pública, que ultrapassou a marca astronômica de 2 trilhões de euros no outono.
O balanço foi igualmente negativo no campo político. O chefe do Estado esperava conter os danos nas eleições municipais de março, mas elas foram desastrosas para a esquerda e obrigaram o presidente a trocar de primeiro-ministro. Da mesma forma, ele esperava que as eleições europeias de maio fossem a oportunidade para refutar "aqueles que negam o futuro da Europa, querem voltar às antigas fronteiras e abandonar o euro".
Todos sabem o que aconteceu: a Frente Nacional se exibindo com 25% e um Partido Socialista arrasado. Em setembro, a periclitante maioria senatorial de esquerda virou oposição. Por fim, a ação do governo foi constantemente contestada pela revolta de alguns pelotões de deputados socialistas, convictos de que a política econômica atual é ineficaz e nociva.
O chefe do Estado "apanha"
O próprio François Hollande pagou caro por sua incapacidade de iniciar a recuperação do país prometida em 2012. Nunca um presidente havia passado por tamanho descrédito: grosso modo, apesar de uma ligeira melhora nos últimos dois meses, quatro entre cada cinco franceses não confiam mais nele.Ele queria uma República "exemplar", mas em 2014 ele foi obrigado a afastar dois de seus conselheiros e dois ministros inescrupulosos. Ele pretendia encarnar um presidente "normal", mas sua vida privada foi escancarada por revistas sensacionalistas e pelos testemunhos comprometedores de sua ex-companheira.
Enfim, há um ano o chefe do Estado vem "apanhando". Mas ele o faz com aparente serenidade, o que diz muito sobre sua combatividade. Como um boxeador mais técnico do que golpeador, ele tem certeza de que, mesmo acuado nas cordas do ringue, cambaleante e prestes a ser nocauteado, sempre é possível tomar a "iniciativa", "avançar" e "ganhar", segundo o vocabulário pugilístico empregado durante sua breve passagem por Saint-Pierre-et-Miquelon, na semana passada.
Essa é evidentemente sua intenção para 2015. Protegido pelas instituições, ele quer aproveitar toda oportunidade possível para mostrar que não perdeu nada de sua vivacidade e de sua habilidade, assim como ele fez invariavelmente nas últimas semanas com seus diversos encontros, visitas-surpresa e gestos simbólicos. Em suma, quer recuperar o sentido "da conquista, da dinâmica, do movimento". Aquele que especular sobre seu cansaço e sua possível desistência de se recandidatar em 2017 sairá decepcionado.
No entanto, não faltarão desafios. Políticos, primeiramente. Todas as previsões apontam para uma nova derrota da esquerda em março nas eleições departamentais, ainda mais brutal pelo fato de que, pela primeira vez, os conselhos gerais não serão renovados pela metade, mas sim integralmente. Após a erosão da base municipal em 2014, é a poderosa rede dos domínios departamentais da esquerda que corre o risco de ser desmantelada.
Como as mesmas causas produzem os mesmos efeitos, ou até efeitos cumulativos, a eleição regional de dezembro promete ser igualmente devastadora. E, para piorar as coisas, o Partido Socialista marcou seu próximo congresso para junho: mais ainda do que durante as escaramuças dos últimos meses, a solidez da maioria será então submetida a fortes turbulências, caso os rebeldes consigam se juntar para contestar a orientação econômica estabelecida pelo chefe do Estado.
Em segundo lugar, os desafios econômicos. É verdade que a análise de conjuntura do Insee permite que se espere uma melhora. A queda do preço do petróleo (que alivia os gastos com energia), a queda do euro (que favorece as exportações), uma taxa de juros excepcionalmente baixa (que estabiliza o montante da dívida), os primeiros efeitos significativos do crédito de imposto para a competitividade e o emprego e do pacto de responsabilidade, tudo isso contribui para dar credibilidade à previsão de 1% de crescimento em 2015, após três anos de quase estagnação. Mas isso não bastará para conter nem o aumento do desemprego, nem o do endividamento.
Ora, os franceses julgam o chefe do Estado pelo primeiro, e Bruxelas pelo segundo. Então será preciso que essas previsões sejam confirmadas no próximo ano e sejam amplificadas em 2016, para que ele possa esperar se recandidatar com um balanço razoavelmente convincente.
Por fim, François Hollande não está sozinho no ringue. Independentemente do que digam ou pensem, seus principais adversários estão longe de estar com a partida ganha. Por enquanto, a volta de Nicolas Sarkozy à liderança da UMP não desencadeou a dinâmica irresistível esperada pelo ex-presidente, muito menos o trabalho de reforma radical da direita, indispensável após dois anos de turbulências.
Quanto à presidente da Frente Nacional, nem seus sucessos eleitorais, nem sua presença local, nem as adesões heterogêneas que ela registra bastam para mostrar que ela seria capaz de governar o país futuramente. É o suficiente para convencer o chefe do Estado de que as coisas ainda podem melhorar em 2015 e além.
Permitindo que o Google nos observe
A. C. Grayling - Prospect
A. C. Grayling - Prospect
Bancos e governos são empresas enormes com interesses particulares que
nem sempre coincidem com os interesses dos indivíduos envolvidos com
eles. Isso também é verdade sobre o Google e o Facebook. Mas as pessoas
se queixam muito dos dois primeiros e relativamente pouco dos segundos.
Por quê? Considere o Google. Ele o observa; monitora os sites que você
visita, não apenas para que possa lhe dirigir publicidade, mas para
escolher o tipo de informação que ele acredita que você gostará, quando
você procura informação. Isso é perturbador. Define um perfil seu. Ele
está mantendo um registro de suas atividades online. Faz isso por
motivos comerciais, sem malícia premeditada, certamente; mas está
criando algo que nas mãos erradas poderia ser uma ferramenta maligna
devastadora.
Se isso parece paranoia de teóricos da conspiração - ora, vivemos em uma era em que os temores paranoicos estão se tornando reais. Nossa vontade apressada de adotar as facilidades de comunicação, pesquisa e entretenimento disponibilizadas por nossos equipamentos eletrônicos nos desnuda diante de qualquer órgão público ou privado que deseje saber o que dizemos, o que pensamos, o que fazemos e queremos, com quem nos associamos, nossa localização, nossos movimentos, quanto gastamos e no quê, nossos amores e ódios, nossas vidas sexuais.
É como se as paredes e os tetos de nossas casas tivessem se transformado em vidro, nossos pensamentos fossem amplificados em um discurso audível, se nossas pegadas fossem brilhantes com cores individuais que rastreiam todos os nossos trajetos.
Será que, paradoxalmente, porque as atividades dos bancos e do governo são mais transparentes que as do Google e dos muitos outros órgãos - principalmente privados, não responsabilizáveis e pouco conhecidos - que nos observam no ciberespaço, onde hoje passamos tanto tempo, que nos queixamos deles e os criticamos?
É porque sabemos o que eles fazem que podemos saber do que não gostamos neles? É porque há remédio e recurso contra eles por suas falhas mais notáveis que podemos nos queixar deles - enquanto o que está por trás dos pequenos olhos vermelhos lá na escuridão do ciberespaço é opaco e incontestável, e por isso não nos queixamos?
A resposta é sim, pelo menos em parte. Atualmente há uma situação confusa e perturbadora referente aos riscos que a ciber-revolução representa para nossa privacidade e autonomia como indivíduos, e ao mesmo tempo as oportunidades que ela oferece para penetrar no sigilo de governos e outras agências.
Organizações como a Hacked Off, que faz campanhas contra invasões de privacidade pela imprensa, e a Logan Symposium, que reúne "hacktivistas", denunciantes e jornalistas investigativos, abordam, às vezes de maneiras concorrentes, os problemas e as possibilidades em jogo. Onde está o equilíbrio e onde a convergência de interesses?
Idealmente, queremos saber o que as grandes organizações pretendem, enquanto mantemos nossas vidas privadas; mas é claro que algumas grandes organizações estão preocupadas com o que algumas pessoas fazem em particular - fabricar bombas e planejar atrocidades, por exemplo - e, no interesse de todos, nos submetem a vigilância e invasão de privacidade. Em tempos de ameaça, talvez fosse sábio aceitar a necessidade disto, desde que seja adequadamente monitorado e tenha duração limitada ao tempo da ameaça em si.
É menos claro que a conveniência de que o Google nos informe sobre produtos e serviços que combinam com nosso perfil, como um exercício permanente e sem monitoramento, justifique sermos alvo de uma coleta de dados tão maciça, que poderiam ser vendidos ou invadidos por outras agências menos benignas.
Privacidade é coisa do passado. A ineficiência e a desconjunção de coleta e análise de dados na época pré-computador eram uma maravilhosa proteção das liberdades civis. A mera existência da capacidade de reunir e coletar informação sobre indivíduos na velocidade da luz não é motivo, é claro, para que isso deva ser feito - embora exista uma infeliz propensão das pessoas a pensar que se algo pode ser feito é razão suficiente para fazê-lo.
Poderíamos ter decidido construir essas novas tecnologias para que seu modo normal fosse ocultar, e não revelar, fatos sobre usuários individuais, que não interessam a ninguém. Não o fizemos, e conhecemos o resultado.
No entanto, quase não nos queixamos disso, reservando nossas críticas para os demônios que conhecemos. A moral da história é: vamos descobrir mais sobre as agências que nos vigiam; vamos exigir que sejam transparentes; e se encontrarmos motivo vamos nos queixar.
Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
Se isso parece paranoia de teóricos da conspiração - ora, vivemos em uma era em que os temores paranoicos estão se tornando reais. Nossa vontade apressada de adotar as facilidades de comunicação, pesquisa e entretenimento disponibilizadas por nossos equipamentos eletrônicos nos desnuda diante de qualquer órgão público ou privado que deseje saber o que dizemos, o que pensamos, o que fazemos e queremos, com quem nos associamos, nossa localização, nossos movimentos, quanto gastamos e no quê, nossos amores e ódios, nossas vidas sexuais.
É como se as paredes e os tetos de nossas casas tivessem se transformado em vidro, nossos pensamentos fossem amplificados em um discurso audível, se nossas pegadas fossem brilhantes com cores individuais que rastreiam todos os nossos trajetos.
Será que, paradoxalmente, porque as atividades dos bancos e do governo são mais transparentes que as do Google e dos muitos outros órgãos - principalmente privados, não responsabilizáveis e pouco conhecidos - que nos observam no ciberespaço, onde hoje passamos tanto tempo, que nos queixamos deles e os criticamos?
É porque sabemos o que eles fazem que podemos saber do que não gostamos neles? É porque há remédio e recurso contra eles por suas falhas mais notáveis que podemos nos queixar deles - enquanto o que está por trás dos pequenos olhos vermelhos lá na escuridão do ciberespaço é opaco e incontestável, e por isso não nos queixamos?
A resposta é sim, pelo menos em parte. Atualmente há uma situação confusa e perturbadora referente aos riscos que a ciber-revolução representa para nossa privacidade e autonomia como indivíduos, e ao mesmo tempo as oportunidades que ela oferece para penetrar no sigilo de governos e outras agências.
Organizações como a Hacked Off, que faz campanhas contra invasões de privacidade pela imprensa, e a Logan Symposium, que reúne "hacktivistas", denunciantes e jornalistas investigativos, abordam, às vezes de maneiras concorrentes, os problemas e as possibilidades em jogo. Onde está o equilíbrio e onde a convergência de interesses?
Idealmente, queremos saber o que as grandes organizações pretendem, enquanto mantemos nossas vidas privadas; mas é claro que algumas grandes organizações estão preocupadas com o que algumas pessoas fazem em particular - fabricar bombas e planejar atrocidades, por exemplo - e, no interesse de todos, nos submetem a vigilância e invasão de privacidade. Em tempos de ameaça, talvez fosse sábio aceitar a necessidade disto, desde que seja adequadamente monitorado e tenha duração limitada ao tempo da ameaça em si.
É menos claro que a conveniência de que o Google nos informe sobre produtos e serviços que combinam com nosso perfil, como um exercício permanente e sem monitoramento, justifique sermos alvo de uma coleta de dados tão maciça, que poderiam ser vendidos ou invadidos por outras agências menos benignas.
Privacidade é coisa do passado. A ineficiência e a desconjunção de coleta e análise de dados na época pré-computador eram uma maravilhosa proteção das liberdades civis. A mera existência da capacidade de reunir e coletar informação sobre indivíduos na velocidade da luz não é motivo, é claro, para que isso deva ser feito - embora exista uma infeliz propensão das pessoas a pensar que se algo pode ser feito é razão suficiente para fazê-lo.
Poderíamos ter decidido construir essas novas tecnologias para que seu modo normal fosse ocultar, e não revelar, fatos sobre usuários individuais, que não interessam a ninguém. Não o fizemos, e conhecemos o resultado.
No entanto, quase não nos queixamos disso, reservando nossas críticas para os demônios que conhecemos. A moral da história é: vamos descobrir mais sobre as agências que nos vigiam; vamos exigir que sejam transparentes; e se encontrarmos motivo vamos nos queixar.
Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
Desigualdade também chama a atenção nos países ricos
Paul Krugman
Em 2014, a crescente desigualdade nos países ricos finalmente recebeu a atenção merecida, quando "O Capital no Século 21", de Thomas Piketty, se tornou um best-seller surpresa (merecidamente). Os suspeitos habituais ainda estão em negação bem remunerada, mas, para todos os demais, está óbvio que agora renda e riqueza estão mais concentradas no topo do que jamais estiveram desde a Era Dourada –e a tendência não exibe nenhum sinal de ceder.
Mas essa é uma história sobre desdobramentos dentro das nações, e, portanto, incompleta. É realmente necessário complementar a análise ao estilo de Piketty com uma visão global, e ao fazê-lo, eu argumentaria, você obtém um senso melhor do que há de bom, de ruim e de potencialmente terrível no mundo em que vivemos.
Assim, permita-me sugerir que você dê uma olhada no notável gráfico de ganhos de renda ao redor do mundo, produzido por Branko Milanovic, do Centro de Pós-Graduação da Universidade Municipal de Nova York (ao qual me juntarei na metade deste ano). O que Milanovic mostra é que o crescimento da renda desde a queda do Muro de Berlim tem sido uma história de "picos gêmeos". É claro que as rendas subiram no topo, com a elite mundial se tornando ainda mais rica. Mas também ocorreram ganhos imensos para o que poderia ser chamado de classe média global --principalmente as crescentes classes médias da China e Índia.
E vamos deixar claro: o crescimento da renda nos países emergentes produziu ganhos imensos em bem-estar humano, retirando centenas de milhões de pessoas da miséria e lhes dando uma chance de uma vida melhor.
Agora a má notícia: entre esses picos gêmeos --a elite global cada vez mais rica e a crescente classe média chinesa-- se encontra o que poderíamos chamar de vale de desalento: as rendas cresceram muito pouco, se é que cresceram, para as pessoas em torno do 20º percentil da distribuição mundial de renda. E quem são essas pessoas? Basicamente, as classes trabalhadoras dos países ricos. E apesar dos dados de Milanovic irem apenas até 2008, é possível termos certeza que a situação desse grupo piorou ainda mais desde então, abalada pelos efeitos do alto desemprego, da estagnação dos salários e das políticas de austeridade.
Além disso, os apuros dos trabalhadores nos países ricos são o outro lado dos ganhos acima e abaixo. A concorrência das exportações das economias emergentes certamente é um fator depressor nos salários nos países mais ricos, apesar de provavelmente não a força dominante. Mais importante, a elevação da renda no topo foi conseguida, em grande parte, espremendo as rendas abaixo: reduzindo salários, cortando benefícios, esmagando sindicatos e desviando uma crescente parcela dos recursos nacionais para esquemas financeiros.
Talvez ainda mais importante, os ricos exercem um efeito vastamente desproporcional sobre as políticas. E as prioridades da elite --preocupação obsessiva com déficits orçamentários, com a suposta necessidade de cortar programas sociais-- contribuíram muito para tornar ainda mais fundo o vale de desalento.
Logo, quem fala por aqueles deixados para trás nesse mundo de dois vales? Seria possível esperar que os partidos convencionais de esquerda assumiriam uma posição populista em prol de suas classes trabalhadoras domésticas. Mas em vez disso o que se tem --de líderes que variam de François Hollande, na França, a Ed Milliband, no Reino Unido, e, sim, Barack Obama-- é um resmungo desajeitado. (Na verdade, Obama fez muito para ajudar os trabalhadores americanos, mas ele é notavelmente ruim em defender suas causas.)
O problema com esses líderes convencionais, eu argumentaria, é que eles temem desafiar as prioridades da elite, em particular a obsessão com os déficits orçamentários, por temer serem considerados irresponsáveis. E isso deixa o campo aberto para líderes não convencionais --alguns deles altamente assustadores-- que estão dispostos a tratar da revolta e desespero dos cidadãos comuns.
Os esquerdistas gregos que podem chegar ao poder ali neste mês são supostamente os menos assustadores desse grupo, apesar de suas exigências de redução da dívida e fim da austeridade poderem provocar um tenso impasse com Bruxelas. Em outros lugares, entretanto, nós vemos a ascensão de partidos nacionalistas, anti-imigrantes, como a Frente Nacional na França e o Partido da Independência do Reino Unido --e há pessoas ainda piores no aguardo.
Tudo isso sugere algumas analogias históricas desconfortáveis. Lembre-se, esta é a segunda vez que temos uma crise financeira global seguida por uma desaceleração econômica mundial prolongada. Naquela vez, como agora, todas as respostas eficazes para a crise foram bloqueadas pelas exigências da elite de orçamentos equilibrados e moedas estáveis. E o resultado foi a entrega do poder para as mãos de pessoas que eram, digamos, não muito agradáveis.
Eu não estou sugerindo que estamos à beira de repetir plenamente os anos 30. Mas eu argumentaria que os líderes políticos e de opinião precisam aceitar a realidade de que nossa configuração global atual não está funcionando para todos. Ela é boa para a elite e fez muito bem para os países emergentes, mas aquele vale de desalento é muito real. E coisas ruins acontecerão se não fizermos algo a respeito.
Tradutor: George El Khouri Andolfato
Paul Krugman
Em 2014, a crescente desigualdade nos países ricos finalmente recebeu a atenção merecida, quando "O Capital no Século 21", de Thomas Piketty, se tornou um best-seller surpresa (merecidamente). Os suspeitos habituais ainda estão em negação bem remunerada, mas, para todos os demais, está óbvio que agora renda e riqueza estão mais concentradas no topo do que jamais estiveram desde a Era Dourada –e a tendência não exibe nenhum sinal de ceder.
Mas essa é uma história sobre desdobramentos dentro das nações, e, portanto, incompleta. É realmente necessário complementar a análise ao estilo de Piketty com uma visão global, e ao fazê-lo, eu argumentaria, você obtém um senso melhor do que há de bom, de ruim e de potencialmente terrível no mundo em que vivemos.
Assim, permita-me sugerir que você dê uma olhada no notável gráfico de ganhos de renda ao redor do mundo, produzido por Branko Milanovic, do Centro de Pós-Graduação da Universidade Municipal de Nova York (ao qual me juntarei na metade deste ano). O que Milanovic mostra é que o crescimento da renda desde a queda do Muro de Berlim tem sido uma história de "picos gêmeos". É claro que as rendas subiram no topo, com a elite mundial se tornando ainda mais rica. Mas também ocorreram ganhos imensos para o que poderia ser chamado de classe média global --principalmente as crescentes classes médias da China e Índia.
E vamos deixar claro: o crescimento da renda nos países emergentes produziu ganhos imensos em bem-estar humano, retirando centenas de milhões de pessoas da miséria e lhes dando uma chance de uma vida melhor.
Agora a má notícia: entre esses picos gêmeos --a elite global cada vez mais rica e a crescente classe média chinesa-- se encontra o que poderíamos chamar de vale de desalento: as rendas cresceram muito pouco, se é que cresceram, para as pessoas em torno do 20º percentil da distribuição mundial de renda. E quem são essas pessoas? Basicamente, as classes trabalhadoras dos países ricos. E apesar dos dados de Milanovic irem apenas até 2008, é possível termos certeza que a situação desse grupo piorou ainda mais desde então, abalada pelos efeitos do alto desemprego, da estagnação dos salários e das políticas de austeridade.
Além disso, os apuros dos trabalhadores nos países ricos são o outro lado dos ganhos acima e abaixo. A concorrência das exportações das economias emergentes certamente é um fator depressor nos salários nos países mais ricos, apesar de provavelmente não a força dominante. Mais importante, a elevação da renda no topo foi conseguida, em grande parte, espremendo as rendas abaixo: reduzindo salários, cortando benefícios, esmagando sindicatos e desviando uma crescente parcela dos recursos nacionais para esquemas financeiros.
Talvez ainda mais importante, os ricos exercem um efeito vastamente desproporcional sobre as políticas. E as prioridades da elite --preocupação obsessiva com déficits orçamentários, com a suposta necessidade de cortar programas sociais-- contribuíram muito para tornar ainda mais fundo o vale de desalento.
Logo, quem fala por aqueles deixados para trás nesse mundo de dois vales? Seria possível esperar que os partidos convencionais de esquerda assumiriam uma posição populista em prol de suas classes trabalhadoras domésticas. Mas em vez disso o que se tem --de líderes que variam de François Hollande, na França, a Ed Milliband, no Reino Unido, e, sim, Barack Obama-- é um resmungo desajeitado. (Na verdade, Obama fez muito para ajudar os trabalhadores americanos, mas ele é notavelmente ruim em defender suas causas.)
O problema com esses líderes convencionais, eu argumentaria, é que eles temem desafiar as prioridades da elite, em particular a obsessão com os déficits orçamentários, por temer serem considerados irresponsáveis. E isso deixa o campo aberto para líderes não convencionais --alguns deles altamente assustadores-- que estão dispostos a tratar da revolta e desespero dos cidadãos comuns.
Os esquerdistas gregos que podem chegar ao poder ali neste mês são supostamente os menos assustadores desse grupo, apesar de suas exigências de redução da dívida e fim da austeridade poderem provocar um tenso impasse com Bruxelas. Em outros lugares, entretanto, nós vemos a ascensão de partidos nacionalistas, anti-imigrantes, como a Frente Nacional na França e o Partido da Independência do Reino Unido --e há pessoas ainda piores no aguardo.
Tudo isso sugere algumas analogias históricas desconfortáveis. Lembre-se, esta é a segunda vez que temos uma crise financeira global seguida por uma desaceleração econômica mundial prolongada. Naquela vez, como agora, todas as respostas eficazes para a crise foram bloqueadas pelas exigências da elite de orçamentos equilibrados e moedas estáveis. E o resultado foi a entrega do poder para as mãos de pessoas que eram, digamos, não muito agradáveis.
Eu não estou sugerindo que estamos à beira de repetir plenamente os anos 30. Mas eu argumentaria que os líderes políticos e de opinião precisam aceitar a realidade de que nossa configuração global atual não está funcionando para todos. Ela é boa para a elite e fez muito bem para os países emergentes, mas aquele vale de desalento é muito real. E coisas ruins acontecerão se não fizermos algo a respeito.
Tradutor: George El Khouri Andolfato
2014 foi o ano em que vivemos as novidades que definirão os rumos do século
Luiz Felipe de Alencastro
Dentre os acontecimentos e revelações marcantes de 2014, três se destacam pelas consequências que terão ao longo do século 21. O primeiro é a importância da espionagem eletrônica e dos ciberataques lançados por governos, empresas e hackers.
No passado mês de fevereiro, a invasão da Crimeia pela Rússia mostrou que as operações de ciberguerra estão efetivamente integradas ao arsenal militar das grandes potências. Neste mês de dezembro, os estragos do inédito ataque à firma Sony revelaram outro aspecto do problema.
Quer tenha sido perpetrado pela Coreia do Norte, como acusou o presidente Obama, ou desencadeado por hackers a serviço de outros interesses, o ciberataque à Sony ilustrou a vulnerabilidade da teia digital americana às investidas externas.
Grandes e médias empresas, países visados e menos visados, agora já sabem: a cibersegurança conta tanto quanto a cotação na bolsa ou os porta-aviões.
O segundo fato capital do ano foi a consagração da China como a maior potência mercantil do planeta. Publicado no último mês de abril, um estudo do banco londrino Standard Chartered sublinhou a nova realidade geopolítica.
Correspondendo a 11,5% do comércio mundial e a 47% do seu próprio PNB, as trocas externas da China a transformaram numa megapotência mercantil. No começo do século 20, o império britânico granjeava de um peso similar ao da China atual no comércio mundial.
Porém, antes disso, os britânicos haviam derrotado a França (em Trafalgar e Waterloo), a Rússia (na Crimeia), a China (na guerra do Opium) e abocanhado a Índia (em 1858), impondo sua lei em todos os mares. Quantas batalhas e quais zonas de influência Pequim deverá ganhar para consolidar seu poderio no século 21?
O terceiro dado relevante de 2014 terá sido a divulgação, no mês de agosto, de um relatório do UNICEF (órgão das Nações Unidas dedicado à infância) sobre a pujança do crescimento demográfico africano.
Em 1950, a África continha apenas 9% da população mundial. No final do século 21, a proporção será de 40%. Na mesma altura, perto da metade das crianças e adolescentes menores de 18 anos será africana.
Como explicita o relatório do UNICEF, retomado pela "Economist", "o futuro da humanidade será crescentemente africano". Pelas projeções dos dados vê-se também que a língua portuguesa será cada vez mais falada na África onde viverá a maioria dos lusófonos no final do século.
Este é o ponto que faz toda a diferença entre os acontecimentos mencionados acima. Virado para os países africanos, tendo a maior população de afrodescendentes vivendo fora da África, contando com mais embaixadas nas capitais africanas do que nas capitais latino-americanas, o futuro do Brasil também será crescentemente africano.
Luiz Felipe de Alencastro
Dentre os acontecimentos e revelações marcantes de 2014, três se destacam pelas consequências que terão ao longo do século 21. O primeiro é a importância da espionagem eletrônica e dos ciberataques lançados por governos, empresas e hackers.
No passado mês de fevereiro, a invasão da Crimeia pela Rússia mostrou que as operações de ciberguerra estão efetivamente integradas ao arsenal militar das grandes potências. Neste mês de dezembro, os estragos do inédito ataque à firma Sony revelaram outro aspecto do problema.
Quer tenha sido perpetrado pela Coreia do Norte, como acusou o presidente Obama, ou desencadeado por hackers a serviço de outros interesses, o ciberataque à Sony ilustrou a vulnerabilidade da teia digital americana às investidas externas.
Grandes e médias empresas, países visados e menos visados, agora já sabem: a cibersegurança conta tanto quanto a cotação na bolsa ou os porta-aviões.
O segundo fato capital do ano foi a consagração da China como a maior potência mercantil do planeta. Publicado no último mês de abril, um estudo do banco londrino Standard Chartered sublinhou a nova realidade geopolítica.
Correspondendo a 11,5% do comércio mundial e a 47% do seu próprio PNB, as trocas externas da China a transformaram numa megapotência mercantil. No começo do século 20, o império britânico granjeava de um peso similar ao da China atual no comércio mundial.
Porém, antes disso, os britânicos haviam derrotado a França (em Trafalgar e Waterloo), a Rússia (na Crimeia), a China (na guerra do Opium) e abocanhado a Índia (em 1858), impondo sua lei em todos os mares. Quantas batalhas e quais zonas de influência Pequim deverá ganhar para consolidar seu poderio no século 21?
O terceiro dado relevante de 2014 terá sido a divulgação, no mês de agosto, de um relatório do UNICEF (órgão das Nações Unidas dedicado à infância) sobre a pujança do crescimento demográfico africano.
Em 1950, a África continha apenas 9% da população mundial. No final do século 21, a proporção será de 40%. Na mesma altura, perto da metade das crianças e adolescentes menores de 18 anos será africana.
Como explicita o relatório do UNICEF, retomado pela "Economist", "o futuro da humanidade será crescentemente africano". Pelas projeções dos dados vê-se também que a língua portuguesa será cada vez mais falada na África onde viverá a maioria dos lusófonos no final do século.
Este é o ponto que faz toda a diferença entre os acontecimentos mencionados acima. Virado para os países africanos, tendo a maior população de afrodescendentes vivendo fora da África, contando com mais embaixadas nas capitais africanas do que nas capitais latino-americanas, o futuro do Brasil também será crescentemente africano.
sexta-feira, 2 de janeiro de 2015
quinta-feira, 1 de janeiro de 2015
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