sexta-feira, 1 de agosto de 2014

As contas públicas afundam
O Estado de S.Paulo
Só com uma criatividade escandalosa, ou com uma sorte quase inimaginável, o governo conseguirá apresentar no fim de 2014 um resultado fiscal parecido com o anunciado no começo do ano - um superávit primário de R$ 99 bilhões. O secretário do Tesouro, Arno Augustin, continua prometendo alcançar a meta. Já havia prometido no mês anterior, ao apresentar os números de maio, e mantém sua exibição de otimismo. O superávit primário é o dinheiro separado para o serviço da dívida - pelo menos para uma parte dos juros, como tem ocorrido no Brasil. Depois de um péssimo primeiro semestre, o governo terá apenas seis meses, em condições muito desfavoráveis, para produzir pouco mais de 70% do prometido. O resultado primário acumulado de janeiro a junho chegou a modestíssimos R$ 29,38 bilhões. Esse valor ficou 43,67% abaixo do alcançado um ano antes e corresponde a apenas 29,68% do programado para o ano inteiro.
Esse foi o saldo primário das contas gerais do setor público. Entram no balanço as contas federais, estaduais e municipais e os dados da maior parte das estatais controladas pelo Tesouro (resultados da Petrobrás e da Eletrobrás ficam de fora).O governo central, formado por governo federal, Banco Central (BC) e Previdência Social, participou com R$ 15,37 bilhões acumulados até junho. Este valor corresponde a 19,02% do saldo programado para o poder central, de R$ 80,8 bilhões. As contas consolidadas do setor público são calculadas pelo BC e o resultado primário corresponde à necessidade de financiamento.
O Tesouro também divulga mensalmente um balanço do governo central, mas seus cálculos, um pouco diferentes daqueles produzidos pelo BC, são baseados no confronto entre receitas e despesas primárias. A pequena diferença é insuficiente para mudar o panorama. As contas do governo central estão em condições precárias há alguns anos, continuaram em mau estado no começo de 2014 e pioraram em maio e junho. No dois meses houve déficit primário. O resultado de junho, pelos cálculo do BC, foi um buraco de R$ 2,7 bilhões. Pelo critério do Tesouro, o buraco ficou em R$ 1,95 bilhão. Nenhum dos dois resultados vale uma comemoração. Ambos apontam problemas sérios na economia e na gestão do dinheiro recolhido pelo poder central. O saldo apontado no relatório do Tesouro foi o pior para o mês desde o ano 2000.
Por esse relatório, o governo central acumulou entre janeiro e junho um superávit primário de R$ 17,24 bilhões - 50,11% menor que o dos primeiros seis meses de 2013. Por esse critério, o governo terá de produzir um resultado primário de R$ 63,56 bilhões no segundo semestre - mais que o triplo do conseguido até junho - para alcançar os R$ 80,8 bilhões prometidos para todo o ano.
Esse valor será alcançado, segundo o secretário do Tesouro. Para justificar seu otimismo, ele menciona a expectativa de crescimento econômico maior no segundo semestre, com maior arrecadação de impostos e contribuições, e o ingresso de receitas especiais, como os pagamentos, a partir de agosto, do novo Refis. O refinanciamento de dívidas tributárias, segundo a estimativa inicial, deveria render R$ 12,5 bilhões neste ano. A projeção foi elevada para R$ 15 bilhões e, em seguida, para R$ 18 bilhões.
Mas os técnicos da Fazenda apostam ainda na entrada de outros recursos. Alguns já começaram a entrar na primeira metade do ano. A receita de dividendos pagos por estatais, de R$ 10,49 bilhões no semestre, foi 36,3% maior que a de janeiro a junho de 2013. Esse valor representou 60,85% do superávit primário acumulado no período. Se a conta incluir a arrecadação de bônus de concessões, de R$ 1,24 bilhão, as receitas extraordinárias, isto é, fora do padrão recorrente, corresponderão a 68,08% do resultado primário contabilizado até junho.
É preciso levar em conta o peso desse tipo de receita para avaliar a condição das contas públicas. Contas sólidas e sustentáveis são aquelas dependentes da arrecadação rotineira de tributos e da gestão prudente dos gastos. As contas brasileiras estão muito longe desse padrão.
Aos governantes do PT
João Bosco Leal*
Dizer que nosso país está um caos é redundante, mas penso que realmente precisamos discutir o que está ocorrendo, como chegamos aqui e para onde estamos caminhando.
Aos governantes do PTUm governo como o do Partido dos Trabalhadores, com uma máquina administrativa tão inchada que possui 39 ministros para 24 ministérios e, mesmo assim, o país que governa encontra-se praticamente destruído em todas as áreas, não pode ser considerado eficiente e nem mesmo levado a sério (pastas como a Casa Civil e o Banco Central, que na prática são órgãos auxiliares, mas cujos titulares têm status de primeiro escalão, provocam a diferença entre os dois números).
O governo que aí está foi capaz de - com empregos para apadrinhados políticos, retenção artificial de preços, aquisições ou construções superfaturadas - fazer desmoronar uma das maiores empresas do mundo, a Petrobrás, que por décadas foi o orgulho de todos os brasileiros. Também em nome de controlar a inflação, manipulou o preço da energia de tal maneira que as empresas do setor estão sendo "socorridas" com bilhões de reais por mês, para também não falirem.
Por ordem do governo, os departamentos de crédito do Banco do Brasil e da Caixa Econômica Federal não avaliam, como qualquer outro banco, os riscos de empréstimos quando os mesmos se destinam a tomadores das classes C e D e, como consequência, claro, o risco passa a ser do contribuinte brasileiro que, mais uma vez, certamente será chamado a cobrir os rombos provocados nos patrimônios da União, mas isso, sem dúvida, após as eleições.
Nossas lideranças políticas cometem tantos erros e declaram tantas bobagens que, internacionalmente, é comum serem motivos de chacotas, como a atualmente realizada por jornalistas europeus de que, se Lula cumprisse sua promessa de atravessar o oceano a nado caso o Brasil perdesse a copa, causaria indigestão nos tubarões, ou rirem da declaração de Dilma de que o Brasil faria a "Copa das Copas".
Nossa presidente, que criticou a política econômica da chanceler alemã Angela Merkel, dizendo que ela provocava um "tsunami monetário", ouviu como resposta: "Essa senhora vem à Alemanha nos dizer o que temos que fazer? Ora, a Alemanha vai bem, obrigado, apesar de tudo. Mas eu vou aproveitar para dar um conselho a ela... antes de vir aqui reclamar das nossas políticas econômicas, por que ela não diminui os gastos do governo dela e diminui os juros que são exorbitantes no Brasil? Se eu posso emprestar dinheiro a juros baixos e o meu povo pode ganhar juros absurdos lá no país dela, não vou ser eu que direi ao meu povo para não fazer isso. Ela que torne a especulação no país dela menos atraente".
As últimas duas bobagens foram uma nota do governo brasileiro, que classificou como "inaceitável" a escalada desproporcional da ofensiva militar sobre Gaza e a declaração do assessor especial do governo para assuntos internacionais, "chanceler" Marco Aurélio Top Top Garcia, de que Israel estaria cometendo um genocídio na Faixa de Gaza.  Em resposta, Yigal Palmor, porta-voz da diplomacia israelense disse que, apesar de ser a 7ª economia do mundo, o Brasil era "irrelevante" em termos políticos, um anão diplomático e que "desproporcional" é uma derrota por 7 a 1 no futebol.
Tentando diminuir a besteira dita por Top Top Garcia, a presidente Dilma, em sabatina da Folha de São Paulo disse: "Na Faixa de Gaza está havendo um massacre, uma ação desproporcional, não um genocídio". Claro que não se pode concordar com a matança que vem ocorrendo na Faixa de Gaza, tragédia decorrente do radicalismo que separa os líderes do Hamas e de Israel, mas é preciso cuidado para tratar de assunto tão delicado.
O Brasil não pode opinar sobre o conflito entre árabes e judeus ao mesmo tempo em que se cala diante do abate - com um míssil russo do "companheiro" Vladimir Putin -, de um avião na Ucrânia, que matou 298 civis de vários países do mundo; nada diz sobre todos os crimes cometidos pelos irmãos Castro, em Cuba; apoia Hugo Chávez e Nicolás Maduro na Venezuela - que levaram seu país a uma destruição total de sua economia e a uma radical ditadura socialista -, ou silencia sobre a destruição econômica, a censura e a perseguição política dos oponentes, promovidas por Cristina Kirchner e Evo Morales na Argentina e na Bolívia.
A política externa brasileira nos governos do PT, além de ser "irrelevante", insignificante, têm sido a de apoiar os "companheiros" socialistas, marxistas, castristas ou bolivarianos, e de clara oposição aos países democratas e capitalistas.
Esquecem-se nossos governantes de que todos esses países não são economicamente fortes e que, para construirmos escolas, hospitais, rodovias, portos, geradoras de energia e tudo o que o país precisa para se desenvolver, só há uma saída: vender o que produzimos para quem pode comprar e, claro, não será para os países governados por estes "companheiros" que venderemos, pois além de possuírem economias muito pequenas ou falidas, não possuem sequer quantidade suficiente de consumidores para nossa produção.
"Senhores governantes do PT, antes de sequer olhar para a casa do vizinho, cuidem da sua".
João Bosco Leal       www.joaoboscoleal.com.br
*Jornalista, escritor e empresário
Finalmente, descobrimos uma função para o senador Suplicy
Reinaldo Azevedo - VEJA
Padilha nos ombros do fortão Eduardo Suplicy (foto: Aloisio Mauricio/Brazil Photo Press/Folhapress)
Padilha nos ombros do fortão Eduardo Suplicy (foto: Aloisio Mauricio/Brazil Photo Press/Folhapress)
Vinte e quatro anos de mandato, e finalmente os paulistas descobriram uma função para o senador Eduardo Suplicy (PT): carregar Alexandre Padilha nos ombros. Como vocês viram, durante uma caminhada ontem, em São Paulo, o senador, aos 73 anos, carregou nos ombros o candidato ao governo de São Paulo. Demonstrou, sem dúvida, que muque o antigo lutador de boxe ainda tem. Que serventia tem isso para o Estado que ele representa no Senado? Ninguém até agora descobriu. Ele é dado, assim, a práticas inusitadas: canta rap no Senado, veste cueca por cima do terno, vai dormir em acampamento de sem-terra… Caso não se reeleja, tem uma carreira promissora no mundo do entretenimento.
O seu voto é uma arma.
Em outubro, atire para matar.
Springfield Armory 1911 A1

OPETH - THE LEPER AFFINITY


0302Holly Peers 
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Shannon Stewart
Shannon Stewart

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A ruinosa trajetória da Argentina kirchnerista
Pode-se discutir se justiças nacionais devem deliberar sobre dívidas soberanas, mas nada reduz a culpa das correntes políticas hegemônicas pelas crises no país
O Globo 
Vito Tanzi, economista italiano radicado nos Estados Unidos, estabeleceu uma relação próxima, e não apenas profissional, com a Argentina. Depois de viajar muito ao país, como representante do Fundo Monetário Internacional, a fim de assessorar governos argentinos em apuros cambiais, ou a lazer, Tanzi lançou em 2007 um livro sobre o que viu. Deu um título sugestivo ao que chamou de “Crônica econômica”: “Como um dos países mais ricos do mundo perdeu sua fortuna”.
O economista encontraria, nas últimas semanas, rico material para confirmar suas teses. É ilustrativo como, em 13 anos, a Argentina conseguiu entrar em moratória duas vezes. Esta última ainda é contestada — pelo menos em Buenos Aires e Brasília. Mas não há dúvidas que, haja ou não o default formal, o país enfrentará problemas ainda maiores na obtenção de financiamentos externos, além de experimentar uma aceleração no desaquecimento da economia, em recessão, e na inflação, já em 25%. Assim como na crise da dívida de dezembro de 2001 — na explosão anunciada do câmbio fixo —, a atual é obra doméstica, e produzida com eficiência. Basta observar o mundo: não há qualquer país de algum porte em crise cambial, muito menos exportador de alimentos, como a Argentina, um dos maiores.
Cristina Kirchner, seu ministro da Fazenda, o jovem professor marxista Axel Kicillof, e aliados no continente entendem não haver moratória porque a argentina deseja pagar os US$ 832 milhões de juros devidos a credores em 30 de junho, mas a Justiça americana, eleita contratualmente para mediar conflitos, não deixa. E porque, em Corte americana, fundos “abutres” — especializados em correr elevados riscos na compra de títulos “podres” com grandes descontos, e tentar resgatá-los pelo valor de face por via judicial — ganharam da Argentina, em tribunal de Nova York, o direito a receber cerca de US$ 1,5 bilhão, integralmente. Parêntesis: a conotação negativa dada por argentinos e brasileiros aliados a fundos “abutres” é de fundo ideológico, pois os vulture funds são atores usuais e necessários nos mercados mundiais. Pois ajudam a dar liquidez a papeis rejeitados pelos investidores. Em certa medida, preservam ativos.
Esta crise da dívida argentina é o desfecho de muita arrogância e inabilidade no tratamento com os credores por parte dos Kirchner, Néstor e Cristina. Assim como de uma política econômica desastrosa, por populista e heterodoxa. Cristina K. chegou a intervir no BC para desviar reservas externas a fim de financiar despesas correntes. Hoje, elas estão em menos de US$ 30 bilhões, depois de terem chegado a US$ 52 bilhões em 2011. E virarão pó se os demais credores argentinos acionarem cláusula que lhes concede a mesma vantagem dos “abutres”. Pode-se discutir se justiças nacionais devem continuar a deliberar sobre contratos de dívidas soberanas. Mas nada consegue minimizar a responsabilidade das correntes políticas hegemônicas na Argentina por mais esta crise. Vito Tanzi que o diga.
O novo calote argentino
O Estado de S.Paulo
Por mais que o governo da presidente Cristina Kirchner tente buscar culpados externos - os credores que chama de "abutres", a Justiça americana, o mediador nomeado para as negociações com os credores, o sistema financeiro e até o governo de Barack Obama -, é sua, e dos que a antecederam nos últimos 13 anos, a responsabilidade pela nova crise financeira que abala a Argentina e, mais uma vez, coloca o país na condição de pária da comunidade internacional.
Por não ter chegado a um acordo com os credores que não aceitaram as escorchantes condições de pagamento impostas em 2005 pelo então presidente Néstor Kirchner, o governo de Buenos Aires foi impedido pela Justiça americana de pagar as parcelas referentes à dívida reestruturada que venceram no dia 30 de julho. Por isso, a Argentina entrou em situação de calote.
Ruim para qualquer devedor, essa situação pode ser desastrosa para um país cuja economia anda mal, pois tornará impossível o já difícil acesso ao mercado financeiro internacional. Os argentinos pagarão um preço elevado pelos sucessivos equívocos de seu governo no trato da dívida externa do país.
O problema começou em dezembro de 2001, quando, sob uma séria crise política, o presidente interino Adolfo Rodríguez Saá - que permaneceu poucos dias no cargo - anunciou a suspensão do pagamento de todos os compromissos relativos à dívida externa, estimada em cerca de US$ 100 bilhões. Quatro anos depois, o presidente Néstor Kirchner - marido de Cristina - forçou boa parte dos credores a aceitar as duras condições para a reestruturação da dívida. Era receber só uma fatia daquilo a que tinham direito, pois o desconto exigido por Kirchner era brutal, ou não receber nada.
Na ocasião, detentores de cerca de 75% da dívida aceitaram as imposições. O governo chegou a dizer, em tom de bravata, que a negociação da dívida estava encerrada para sempre. Em 2010, no entanto, o governo, já sob a chefia de Cristina Kirchner, voltou atrás e aceitou negociar com os credores que não haviam aceitado as perdas impostas em 2005.
A maioria dos credores aderiu. Só 7%, chamados holdouts, continuaram sem acordo com o governo argentino. Alguns deles recorreram à Justiça americana exigindo o pagamento do que lhes é devido. Mesmo tendo sido condenado a honrar seus compromissos, o governo Kirchner se recusou a pagar esses credores e, para tentar encontrar uma solução, o juiz responsável pelo caso, Thomas Griesa, nomeou um negociador. A Argentina depositou em um banco americano o valor para quitar a parcela da dívida renegociada que venceu em 3o de julho, mas Griesa determinou que esse dinheiro só poderá ser liberado depois de resolvida a questão com os holdouts. O não pagamento caracterizou o calote argentino.
Sem conseguir avaliar adequadamente os problemas internos do Brasil, como as pressões inflacionárias, a crise fiscal expressa nos maus resultados divulgados nos últimos dias e a persistente deterioração das contas externas, especialmente da balança comercial, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse não ver riscos para o Brasil decorrentes dos graves problemas argentinos. Poderá ter uma surpresa em breve.
Já com sérios problemas na área cambial, a Argentina terá problemas ainda maiores para pagar suas importações. O governo Kirchner, com a conivência do governo Dilma, já vinha impondo severas restrições à entrada de produtos brasileiros no país; agora, deverá intensificar essas medidas.
Haverá consequências para o Brasil. Por causa da debilitada demanda argentina e das medidas protecionistas do governo Kirchner, o comércio bilateral vem encolhendo. No primeiro semestre deste ano, as exportações brasileiras para a Argentina somaram US$ 7,42 bilhões, 19,8% menos do que o exportado na primeira metade de 2013. Dificilmente o Brasil compensará essa redução com a ampliação das vendas para outros mercados, pois, desde a chegada do PT ao poder, o governo brasileiro vem perdendo oportunidades para concluir novos acordos comerciais.
Argentina volta à moratória 13 anos depois
Christine Legrand - Le Monde
Estupor e confusão em Buenos Aires. Treze anos depois, a Argentina voltou à moratória. O governo peronista de Cristina Kirchner não conseguiu chegar a um acordo, na quarta-feira (30) em Nova York, com os fundos 'abutres' NML e Aurelius, que exigem o pagamento de US$ 1,3 bilhão de títulos que eles adquiriram.
Em dezembro de 2001, Buenos Aires já havia dado o calote em sua dívida, mergulhando o país na mais grave crise financeira de sua história. Desta vez, a agência de classificação de risco Standard & Poor's declarou a Argentina em moratória "seletiva", que atinge somente uma parte da dívida. Mas as consequências serão consideráveis.
O ministro argentino da Economia, Axel Kicillof, que até agora não havia participado das difíceis negociações, foi em caráter de urgência a Nova York, na terça-feira (29). Ele não forneceu maiores detalhes, nem disse a palavra "calote". "Vamos buscar uma solução justa, equilibrada e legal para 100% de nossos credores", ele repetiu na quarta-feira (30), mas "em condições razoáveis, sem tentativa de extorsão".
O ex-presidente do banco central Aldo Pignanelli se mostrou convicto de que "agora se abre a possibilidade de um ajuste entre instituições privadas", com um acordo que poderá ser anunciado em breve. Já o economista Guillermo Nielsen falou em "uma situação preocupante e complexa" e estimou que "os bancos privados se colocaram em uma situação política incômoda".

"A vítima será o povo"

Segundo ele, "a estratégia legal do governo foi um fracasso", e "a primeira vítima será a macroeconomia, com importações mais caras e uma queda nas exportações", o que levará a "uma maior inflação, cuja vítima será o povo".
É o mesmo diagnóstico de Hugo Moyano, líder da Confederação Geral dos Trabalhadores (CGT, oposição): "O governo critica com razão os fundos 'abutres', mas faz a mesma coisa que eles com os salários dos trabalhadores argentinos", declarou.
Como forma de protestar contra a crise econômica na Argentina, que tem feito a moeda local (o peso) perder seu valor de compra, internautas criaram a página "Los Billetes Andan Diciendo" ("As Cédulas Andam Dizendo", em tradução livre) no Facebook. Nela, eles postam cédulas de dois, cinco e dez pesos com desenhos que ironizam a atual situação do país. Na foto acima, a imagem do militar argentino Manuel Belgrano foi substituída pelo desenho do personagem cômico Chapolin Colorado Alexander Bustamante/Facebook
Para o instituto de estudos Abeceb, as consequências do default serão uma queda de 3,5% do PIB, uma inflação anual de 41% e uma queda no consumo de quase 4%.
As reservas de câmbio já caíram para seu menor nível em sete anos, US$28 bilhões. Após uma década de forte crescimento graças às exportações agrícolas, especialmente de soja, o país entrou em recessão, levando a um crescente mal-estar social. A Argentina também se tornou dependente das exportações no plano energético. A indústria tem operado em seu regime mais baixo em dez anos.
Se o calote durar, as consequências serão graves para os bancos e as empresas argentinas, que veriam uma elevação nos seus custos de empréstimo. O Brasil, principal parceiro comercial do país, sobretudo através do setor automobilístico, bem como os bancos espanhóis Santander e BBVA, bem estabelecidos na Argentina, também seriam afetados.

Fim manchado do mandato de Kirchner

O fim do mandato presidencial de Cristina Kirchner, que termina em dezembro de 2015, será, portanto, manchado pelo segundo calote do país em treze anos. Ele também será marcado por uma forte queda de sua popularidade. A presidente argentina alega ter, junto com seu marido Néstor Kirchner (2003-2007), "reinserido a Argentina no mundo", ao libertar o país do fardo de sua dívida.
Em 2003, a Argentina honrou, antecipadamente e de uma só vez, o total daquilo que devia ao Fundo Monetário Internacional (FMI) e, mais recentemente, ao Clube de Paris em 28 de julho. Em um tom combativo, Kirchner transformou em causa nacional a briga contra os fundos 'abutres' acusados de tentativa de "extorsão", silenciando a oposição sobre um assunto delicado.
Porém, seus detratores a acusam de má gestão. De fato, embora as imensas entradas de divisas resultantes do boom do preço das matérias-primas exportadas pela Argentina tenham lhe permitido pagar a dívida, a presidente não usou-as para diversificar a economia, nem para melhorar o dia a dia dos argentinos, os sistemas de educação, de saúde, de moradia ou de transporte público.
Empresas dos EUA estão ficando mestres na 'arte' de evitar impostos
Paul Krugman - NYT
Em decisões recentes, a maioria conservadora da Suprema Corte deixou clara sua opinião de que as corporações são como pessoas, com todos os direitos que as pessoas têm. Elas têm o direito à liberdade de expressão, o que no caso delas significa gastar muito dinheiro para usar o processo político para seus fins. Têm direito a crenças religiosas, incluindo aquelas que as fazem negar benefícios aos seus trabalhadores. A seguir, o direito de portar armas?
Há, no entanto, uma grande diferença entre as pessoas corporativas e pessoas como eu e você: seguindo as tendências atuais, estamos caminhando para um mundo em que só as pessoas humanas pagam impostos.
Nós ainda não chegamos a esse ponto: o governo federal ainda recebe um décimo de sua receita de impostos sobre os lucros das empresas. Mas costumava ganhar muito mais --um terço da receita vinha dos impostos sobre lucros no início dos anos 1950, um quarto ou mais até 1960. Parte do declínio desde então reflete uma queda nos impostos, mas principalmente uma evasão fiscal corporativa cada vez mais agressiva –algo que os políticos pouco fizeram para impedir.
O que nos leva à estratégia de evasão fiscal da moda, a "inversão". O termo se refere a uma manobra legal em que a empresa declara que suas operações nos EUA são de propriedade de sua subsidiária no exterior, e não o contrário, e usa essa inversão de papéis para transferir os lucros registrados para fora da jurisdição americana, para algum lugar com uma taxa de imposto mais baixa.
A coisa mais importante a entender sobre o processo de inversão é que ele não envolve uma mudança significativa das empresas americanas para o exterior. Considere o caso da Walgreen, a rede de drogarias gigante que, de acordo com diversas reportagens, está à beira de tornar-se legalmente suíça. Se o plano der certo, nada vai mudar no negócio em si; sua farmácia local não vai fechar e reabrir em Zurique. Será uma transação puramente no papel --mas vai privar o governo dos EUA de vários bilhões de dólares em receitas que você, contribuinte, terá de recompor, de uma forma ou de outra.
Isso quer dizer que o presidente Barack Obama está errado em descrever as empresas envolvidas na inversão como "desertoras corporativas"? De fato, não. Elas estão se esquivando de seu dever cívico, não importa se estão literalmente se mudando para o exterior ou não. Mas os apologistas da inversão, que alegam que os altos impostos estão empurrando as empresas para fora dos Estados Unidos, na verdade estão falando bobagem. Essas empresas não estão mudando sua produção ou seus empregos para o exterior e ainda estão obtendo seus lucros aqui nos EUA. Tudo o que estão fazendo é esquivando-se dos impostos sobre esses lucros.
E o Congresso poderia acabar com essa evasão de impostos –afinal, é ilegal uma empresa afirmar que seu domicílio legal fica em um lugar onde ela tem pouco negócio real. Assim, uma restrição dos critérios para uma empresa se declarar não americana poderia bloquear muitas das inversões atuais. Então, há alguma razão para não deter essa perda gratuita das receitas? Não.
Os opositores da repressão à inversão tipicamente argumentam que, em vez de fechar as brechas, devemos reformar todo o sistema de tributação de lucros, talvez até acabar com esse tipo de tributo. Eles também argumentam que tributar os lucros das empresas prejudica o investimento e a criação de empregos. Mas esses argumentos são muito fracos contra o fim da prática de inversão.
Primeiro de tudo, há algumas boas razões para tributar os lucros. Em geral, os impostos nos EUA privilegiam a renda de capital aos rendimentos auferidos a partir de salários; o imposto corporativo ajuda a corrigir esse desequilíbrio. Poderíamos, em princípio, manter o nível dos impostos sobre os rendimentos de capital se compensássemos os cortes nos impostos corporativos com impostos substancialmente mais elevados sobre ganhos de capital e dividendos --mas essa seria uma solução imperfeita e, de qualquer forma, no estado atual da nossa política, isso só não vai acontecer.
Além disso, o fim da tributação de lucros iria aumentar consideravelmente o poder dos executivos das empresas. Será que realmente queremos isso?
Quanto à reforma do sistema: sim, seria uma boa ideia. Mas a defesa de uma eventual reforma basicamente não tem nada a ver com a questão da brecha da inversão. Afinal de contas, há grandes debates sobre o formato da reforma, debates que levariam anos, mesmo que não tivéssemos um partido republicano que metodicamente se opõe a qualquer coisa que o presidente proponha, mesmo que seja algo que os republicanos defendiam anos atrás. Por que deixar as corporações evitarem o pagamento de seu quinhão por anos, enquanto esperamos que o impasse se resolva?
Finalmente, nada disso tem nada a ver com o investimento e a criação de empregos. Se e quando a Walgreen mudar sua "cidadania", ela vai poder reter mais de seus lucros, mas não terá qualquer incentivo para investir esses lucros extras em suas operações nos EUA.
Portanto, isso deveria ser fácil. Sim, tenhamos um debate sobre como e quanto taxar os lucros.  Mas, enquanto isso, fechemos essa brecha ultrajante.
Tradutor: Deborah Weinberg
Impelidos pela violência, imigrantes encaram travessia fluvial até os EUA
Jorge Ramos - NYT
Muitos não chegam à margem. Afogam-se. O rio é o Bravo ou o Grande, traiçoeiro e imprevisível. Por baixo de sua aparente placidez, fortes correntes e redemoinhos podem enrolar uma pessoa com lixo e galhos. O lodo do fundo a suga. É marrom, impenetrável e poluído. Suas pedras arrancam a pele.
E nos últimos nove meses, 33 pessoas se afogaram só na área de Laredo. Quase todas imigrantes.
Esse é o rio que certa tarde cruzou Orbin, um menino hondurenho de 15 anos. Conheci-o pouco depois da "cruzada", como muitos chamam a aventura de cruzar a nado do México para os EUA.
Orbin já sofreu de tudo. Não conheceu seu pai, e sua mãe partiu de San Pedro Sula, em Honduras, para os EUA quando ele tinha 6 anos. As gangues mataram seu melhor amigo diante de seus olhos --"bateram em sua cabeça e ele morreu"-- e depois o ameaçaram de morte. Depois de 25 dias viajando absolutamente sozinho por Honduras, Guatemala e México, só lhe faltava atravessar o rio para chegar aos EUA e começar uma nova vida.
"Sim, eu tinha medo", confessou-me Orbin. Mas era maior o medo de ficar em sua casa em Honduras. "Queriam que eu entrasse nas gangues", contou-me, referindo-se à perigosa Mara 18. "E como eu lhes disse que não, então me disseram que em um mês uma coisa ia me acontecer."
Orbin não esperou, e com um pouco de dinheiro que seu tio lhe deu foi para os EUA. Além disso, queria se reunir com sua mãe, que vive na Flórida, a qual não via há nove anos.
A história de María é semelhante. Sua filha Ana, de 17 anos, foi ameaçada de estupro por membros do bando Los Chinos, em Honduras. Um vizinho interveio e o mataram, disse-me Ana, chorando.
María soube imediatamente o que devia fazer. "Quando nos disseram que nos matariam, me assustei tanto que decidi ir embora", disse. Viajou com Ana e com sua outra filha, Juana, de 14 anos.
Não sabe como, mas o fez só com US$ 300 e sem "coiote". As três cruzaram o rio Bravo com roupas íntimas e segurando na boca um saco de plástico preto onde guardavam seus poucos pertences.
Com a ajuda da patrulha de fronteiras dos EUA, eu também cruzei o rio para saber o que passam imigrantes como Orbin, María, Ana e Juana.(A reportagem para a televisão, em inglês, pode ser vista neste link. E devido às fortes correntes, terminei a quase 200 metros do meu ponto de partida. A travessia é muito difícil para um adulto e quase impossível para uma criança.
Mas o que leva uma criança a arriscar sua vida? Esses meninos estão fugindo da violência, das gangues e da extrema pobreza. Nada disso é novo na América Central. Também não é nova uma lei americana de 2008 que proíbe a deportação imediata de crianças sozinhas originárias de El Salvador, Guatemala e Honduras. Isso, na prática, significa que a política extraoficial dos EUA é a que não deporta crianças centro-americanas.
Então, o que é novo? O novo é que as famílias centro-americanas entenderam claramente que a reforma migratória havia morrido no Congresso dos EUA e que o presidente Obama, de alguma maneira, estava disposto a ajudá-los. Obama já tinha protegido legalmente mais de 500 mil "sonhadores" --estudantes sem documentos-- e poderia fazê-lo por outros milhões com um ato executivo.
Mas mesmo que isso não fosse verdade, há o fator emocional. Este é essencial para se entender a atual crise das crianças na fronteira. As famílias centro-americanas estão separadas há anos, com mães e pais nos EUA e seus filhos aos cuidados de tios e avós nos países mais pobres do hemisfério.
Diante da certeza de que nada seria resolvido legalmente logo, tomaram a decisão desesperada de mandar buscar seus filhos, apesar dos riscos. Não havia mais nada a esperar. O "rumor" de que não deportavam as crianças sozinhas da América Central era verdade, afinal, (são muito poucas as deportações das 24 mil crianças detidas em 2013) e a fronteira sul se encheu de menores de idade.
Nada disso aconteceria com uma reforma migratória. Essas são as consequências da inação de políticos que estão mais preocupados com a política do que com o bem do país. E esta não é a última crise. Mais imigrantes continuarão chegando ilegalmente, crianças e adultos, até que encontremos a maneira de fazê-lo ordenadamente, com uma nova lei.
Enquanto isso, mais crianças centro-americanas como as que conheci em Laredo continuarão arriscando suas vidas nas águas cruéis do rio Bravo. O risco de se afogar na praia não é nada comparado com o que deixaram para trás.
(Os nomes dos imigrantes que entrevistei não são reais. Pediram-me que os trocasse por temerem represálias dos bandos criminosos, mesmo aqui nos EUA.)
Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
Ninguém manda tanto na China quanto Xi Jinping
China está em expurgo, como nos bons velhos tempos  stalinistas
Lluís Bassets - El País
17.mar.2013 - O novo presidente da China, Xi Jinping, faz seu primeiro discurso como mandatário do país no encerramento do Congresso Nacional do Povo, em Pequim. Xi  disse que vai lutar por um "grande renascimento da nação chinesa" Wang Zhao/AFP 
Ninguém manda tanto na China desde os tempos de Mao quanto o atual timoneiro Xi Jinping. Deng Xiaoping, o pequeno timoneiro, que mandou muito, nunca acumulou cargos; seus sucessores tampouco acumularam tantos: presidente da República, secretário-geral do Partido Comunista, presidente das comissões militares do partido e do governo e presidente do Conselho Nacional de Segurança, nova instituição que o próprio Xi inaugurou.
Aos 38 anos da morte do "Grande Timoneiro", a quinta geração de líderes depois de Mao não tem mais complexos na hora de agregar cargos. Não se desenvolveu um culto à personalidade no estilo maoista, pelo menos ainda não, mas há uma forte marca pessoal nas decisões e um grande acúmulo de poder efetivo. Acabaram-se as direções colegiadas.
Coincide com um fato característico nesse tipo de regime: a China está em expurgo, como nos bons velhos tempos stalinistas. Vão caindo em desgraça dezenas de quadros comunistas acusados do maior crime que se pode cometer nesse tipo de partido: "graves violações da disciplina", eufemismo para a corrupção e o enriquecimento ilícito próprios de um capitalismo tão peculiar quanto o chinês, desregulado em algumas coisas e autoritário em todas.
Não é um expurgo qualquer, como sempre houve, nem um meio expurgo como o que sofreu Zhao Ziyang, secretário do partido que se negou a disparar contra os estudantes da Praça Tiananmen em 1989 e depois foi preso em sua casa até sua morte, sem acusação nem julgamento. Esse é um expurgo grande, por cima, como não havia desde a morte de Mao. Agora alcançou Zhou Yongkang, que até 2012 foi um dos nove homens mais poderosos do país, czar da polícia e da espionagem e patrono da indústria de petróleo.
Xi Jinping está há pouco mais de um ano com as rédeas na mão, mas as sustenta com firmeza: mostra o peito em política externa, aumenta seu gasto militar e descarta qualquer vacilação quanto à autoridade indiscutível e exclusiva do papel do Partido Comunista. Dois de seus lemas merecem a duvidosa homenagem da citação obrigatória: a ideia de que há um sonho chinês, comparável ao sonho americano, e o apelo ao combate contra tigres e moscas, símbolos da corrupção, que agora a caça de Zhou Yongkang exemplifica em seu grau máximo.
É preciso voltar de novo à época de Mao para interpretar a atual temporada de expurgos. Zhou pertencia à família política de Jiang Zemin, líder da terceira geração e patrono do bando de Xangai. Seu candidato a sucedê-lo na cúpula do poder era Bo Xilai, o patrono de Chongqing que caiu em desgraça depois que sua mulher foi condenada por assassinato. Todos os parentes e amigos de Zhou estavam bem colocados, como também estão os de Xi e os de todos. A caça ao tigre gigante é um conto moral: saibam quem manda e quanto manda.
Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
Comunidade internacional não deve abandonar a Líbia, mas sim mediar conflito
Karim Mezran - NYT
Efe
Coluna de fumaça emana do local de ataque a um armazém de combustível em Trípoli Coluna de fumaça emana do local de ataque a um armazém de combustível em Trípoli
Em um momento em que a Líbia precisa urgentemente da ajuda de seus aliados, a maioria dos países, incluindo os Estados Unidos, está evacuando suas embaixadas ou reduzindo drasticamente o número de funcionários. Semanas de combates entre milícias mataram centenas em Trípoli e Benghazi, além de provocar disrupção no fornecimento de comida, água e combustível aos civis.
Apesar da segurança diplomática ser compreensivelmente uma prioridade, os representantes da comunidade internacional não devem deixar o país. Em vez disso, eles devem manter contato com os principais atores políticos na Líbia –a Irmandade Muçulmana e a Aliança das Forças Nacionais, e os líderes das milícias em guerra de Misurata e Zintan– caso desejem mediar uma solução para o conflito.
A violência que toma conta da Líbia se deve à luta política entre grupos que poderiam ser amplamente caracterizados como islamitas e anti-islamitas. Desde a colaboração entre eles para derrubada do coronel Muammar Gaddafi em 2011, essas facções estão brigando pelos espólios da vitória, deixando disfuncional a economia e a política da Líbia.
Para romper o impasse, um ex-general renegado, Khalifa Hifter, lançou uma campanha em maio prometendo erradicar os islamitas do leste da Líbia. Ele militarizou a divisão política ao colocar no mesmo saco todos os islamitas, desde os moderados aos radicais, e os declarando como sendo seus inimigos. A maioria dos não-islamitas ficou do lado do general Hifter, sinalizando assim aos islamitas que todos eles são considerados radicais e poderiam ter o mesmo destino que os islamitas no Egito –serem totalmente marginalizados da política ou exterminados. Diante dessa ameaça existencial, os islamitas empregaram sua vantagem militar para assegurar sua sobrevivência.
Uma batalha em escala plena estourou em meados de julho pelo controle do aeroporto de Trípoli. Do ponto de vista dos islamitas, ela tinha dois objetivos principais: obstruir o Parlamente recém-eleito de se reunir e exercer suas responsabilidades, e controlar as principais estradas para Trípoli e desviar o movimento de pessoas e bens para o aeroporto de Maitiga, controlado pelos islamitas.
Tanto o general Hifter quanto os islamitas acreditam que podem vencer militarmente. Com ambos os lados convencidos da vitória a longo prazo, nada os força a se sentarem à mesa de negociação. Isso torna o papel da comunidade internacional essencial na mediação do conflito ou ele irá se arrastar.
Enquanto fracassavam os esforços tradicionais de mediação tribal, o governo líbio –que é neutro, em grande parte impotente e não exerce nenhum controle real sobre o país– pede formalmente pelo envolvimento internacional. O ministro das Relações Exteriores, Mohamed Abdulaziz, pede em particular aos "treinadores" para que apoiem as fracas forças de segurança líbias. Isso poderia ser um primeiro passo, mas está longe de ser suficiente.
Uma combinação de ameaças se seguiu à intervenção internacional limitada e negociações mediadas apresentam maior probabilidade de serem bem-sucedidas. Essa abordagem de três pontas deveria começar com uma ameaça, feita pelos Estados Unidos e pelos países europeus, de intervenção militar limitada para forçar os lados em guerra a se retirarem das duas principais cidades e cessar fogo contra civis e instalações; as milícias que desobedecessem a ordem deveriam ser alvo de ataques aéreos.
Segundo, a comunidade internacional deveria empregar uma força de paz para proteção dos civis, das instituições do governo e de instalações vitais, como reservatórios de água, a rede elétrica e os campos de petróleo.
Terceiro, a ONU deveria mediar agressivamente negociações para se chegar a uma grande barganha política. Isso envolveria a formação de um governo de unidade e um roteiro aceito por todos para desarmamento das milícias, reinício da economia e permissão para que o processo de transição política continue, incluindo a convocação do Parlamento recém-eleito.
Esses três passos restaurariam a segurança física e ajudariam a criar um ambiente propício para um diálogo nacional abrangente. Assim que as partes em guerra começarem a negociar, um comitê eleito em fevereiro poderia finalmente começar a trabalhar na elaboração de uma Constituição.
Apesar da gravidade da situação, não há muito apetite nas capitais ocidentais por uma resposta militar à atual crise na Líbia. Essa relutância se deve em grande parte aos temores de sentimentos anti-Ocidente entre os líbios, particularmente acentuados pelo ataque de setembro de 2012 contra a missão dos Estados Unidos em Benghazi. Essa percepção é equivocada. Pelo contrário, o povo líbio respeita os Estados Unidos por exercerem um grande papel na independência da Líbia nos anos 40, pela oposição à ditadura do coronel Gaddafi durante grande parte de seu reinado, e pelo auxílio aos rebeldes durante a revolução de 2011.
Agora, como naquela ocasião, a comunidade internacional tem uma participação no futuro da Líbia. O desastre humanitário que se desdobra no país poderia facilmente se transformar em um grande problema para a Europa, que já vê um grande afluxo de imigrantes, que atravessam o vasto território não monitorado da Líbia. Além disso, uma Líbia fracassada dominada por milícias extremistas constituiria uma ameaça à segurança da região e ao Ocidente, se transformando em refúgio para organizações terroristas, de onde poderiam lançar facilmente operações contra alvos por todo o mundo.
Os líbios demonstraram pouca capacidade de impedir sua transição de descarrilar. Representantes dos governos ocidentais e de organizações internacionais agora devem demonstrar que abandonar as embaixadas não significa que estejam de saída do país.
Tradutor: George El Khouri Andolfato
Cessar-fogo é quebrado poucas horas após seu início
Logo nas primeiras horas da trégua, o governo israelense acusou o Hamas de violar o acordo e palestinos relataram oito mortes em bombardeio em Rafah
VEJA
Os combates entre o Exército de Israel e o Hamas foram retomados nesta sexta-feira poucas horas depois da entrada em vigor de um cessar-fogo humanitário de 72 horas – os dois lados do conflito se acusam um ao outro de ter violado a trégua. Segundo a rede CNN, oito palestinos foram mortos e quinze ficaram feridos por bombardeios de artilharia israelense em Rafah, no sul da Faixa de Gaza. Um funcionário israelense disse à CNN que o Hamas atacou as forças israelenses dentro de Gaza na manhã desta sexta, descrevendo o ato como "uma grave violação" do cessar-fogo. As Forças de Defesa de Israel se recusou a comentar sobre os relatórios de palestinos de bombardeio em Rafah. Apesar do episódio, a BBC relata que o resto da Faixa de Gaza amanheceu em relativa tranquilidade. O cessar-fogo humanitário de 72 horas na Faixa de Gaza teve início nesta sexta, mas após ataques de ambos os lados, ainda não está claro se os envolvidos vão continuar tentando realizar uma trégua. Israel e Hamas concordaram com a trégua na quinta-feira e a medida entrou em vigor às 8 horas desta manhã, pelo horário local (2h de Brasília). 
Acordo – Israel e Hamas concordaram com o cessar-fogo humanitário depois de 24 dias de um conflito que deixou mais de 1.400 palestinos e 56 soldados de Israel mortos. O anúncio foi feito em comunicado conjunto do secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon e do secretário de Estado americano, John Kerry na quinta-feira. Durante o período do cessar-fogo, "as forças no terreno vão permanecer no local", diz o comunicado, indicando que as tropas israelenses que entraram em Gaza na ofensiva terrestre vão continuar na região. A operação israelense foi lançada no dia 8 deste mês, com o objetivo de minar a capacidade do Hamas de disparar foguetes contra seu território. No dia 17 teve início a operação por terra, destinada à destruição de túneis clandestinos usados por radicais.
Cerca de um quarto dos 1,8 milhão de habitantes de Gaza, pequeno e empobrecido território ao oeste de Israel, foram deslocadas por causa do conflito, de acordo com a ONU. O cessar-fogo tinha o intuito de permitir a entrada de alimentos e suprimentos médicos, prestar melhor atendimento aos feridos e sepultar os mortos. Sob a trégua, funcionários israelenses e palestinos deveriam se reunir no Cairo para tentar chegar a um "cessar-fogo durável", disse o comunicado da ONU e dos EUA.
“Este cessar-fogo é crítico para dar a civis inocentes um necessário alívio em meio a violência. Durante este período, civis em Gaza vão receber ajuda humanitária urgentemente necessária, e terão a oportunidade de realizar tarefas vitais, incluindo enterrar os mortos, cuidar dos feridos e reabastecer os estoques de alimentos. Consertos em infraestrutura essencial de água e energia que estavam atrasados também poderão ser retomados neste período”, enumera o texto.
Guerra entre Israel e o Hamas – Vamos dar a notícia direito!
Reinaldo Azevedo - VEJA 
Noticia-se mundo afora que Israel e Hamas aceitaram um cessar-fogo de 72 horas, negociado pelos Estados Unidos e pela ONU. Ok. É um fato, mas pode ser dito de outro modo, mais de acordo com a natureza desse fato. O Hamas aceitou o cessar-fogo desta vez, o que não tinha feito até agora. Sim, esse detalhe escapava ao noticiário majoritariamente anti-Israel. Era o movimento terrorista que se recusava a suspender os ataques. Afinal, para ele, quanto mais cadáveres, melhor; quanto mais mortos, melhor; quanto mais vítimas, melhor. É assim que facínoras caíram no gosto da estupidez politicamente correta.
Consta que a trégua é incondicional. Em situações semelhantes, no passado, ela sempre foi rompida pelo Hamas. Mesmo nesta jornada, combinou-se um cessar-fogo humanitário de algumas horas para atender algumas vítimas. Os terroristas não o respeitaram. Consta ainda que haverá negociações posteriores, encerrado esse período de três dias. Tomara! Se o Hamas insistir no tal “fim do bloqueio a Gaza”, no entanto, não haverá acordo. Como esquecer que, antes do início dessa nova incursão, eram os extremistas muçulmanos que estavam no ataque, sozinhos?
E por que o Hamas aceita agora o cessar-fogo, se é que vai levar a sério a palavra? Porque é claro que a situação em Gaza é dramática. Segundo a ONU, há 200 mil pessoas abrigadas em suas instalações e outro tanto na casa de parentes. O desavisado logo parte para o ataque: “Estão vendo? Israel só agride civis…”. Não! O Hamas é que, de forma declarada, infiltra-se entre os civis e transforma bairros em bases militares – e, portanto, em alvos militares também. É bom não esquecer: antes desse novo conflito, havia um clima de revolta contida contra o Hamas na Faixa de Gaza. O terror precisa de corpos para manter o poder.
A operação Margem Protetora está em seu 24º dia, a mais longa desde que Israel retirou militares e civis judeus de Gaza, em 2005. Depois disso, o Exército realizou outras duas operações: uma entre 2008 e 2009, que durou 23 dias, e outra em 2012, durante sete dias. Esta também é a operação que fez o maior número de soldados israelenses mortos desde a Guerra do Líbano.
Hamas deve ser derrotado à moda antiga, a começar por exigência de rendição incondicional
Felipe Moura Brasil - VEJA
Pedi ao leitor Gabriel Marini que traduzisse este artigo de 28 de julho do colunista americano-israelense Zev Chafets, que está perfeitamente de acordo com a cobertura que venho fazendo neste blog do conflito no Oriente Médio. Ao lançar foguetes contra Israel de maneira deliberada, o Hamas unificou o povo israelense, a ponto de 86,5% aprovarem a atual operação em Gaza. Eles sabem que não há solução diplomática a tratar com terroristas que pregam o seu extermínio, como mostrei aqui. Agora é preciso vencê-los, lutando até o fim. Segue o texto traduzido, com a minha revisão. O título é o mesmo do post. (FMB)
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O jornal Jerusalém Post publicou na manhã de segunda-feira os resultados de uma pesquisa sobre os próximos passos de Israel. [No Globo, aqui.] Cerca de 10% do público disse que já bastava, e que era hora de um cessar-fogo. Outros 3% não tinham tanta certeza.
Entretanto, 86.5% dos israelenses judeus disseram que queriam continuar lutando.
Ninguém me perguntou, mas eu estou com a maioria.
Israel tentou duas vezes antes, em 2008 e 2012, pôr um fim à infiltração e ao disparo de mísseis por parte do Hamas através de ações militares limitadas. Ambos esses esforços terminaram com um cessar-fogo acompanhado por ameaças do governo de Israel ao Hamas, do tipo “não nos obriguem a voltar aqui novamente”.
Quando o Hamas abriu fogo, três semanas atrás, muitos israelenses esperavam que, desta vez, fosse diferente. Em vez disso, o primeiro-ministro Netanyahu e o seu gabinete adotaram um conjunto limitado de objetivos de guerra: destruir os túneis do Hamas que os levavam a Israel, enfraquecer sua estrutura de foguetes e melhorar as condições para o próximo cessar-fogo.
Desde então, Israel destruiu muitos túneis. Derrubou muitos mísseis e foguetes. E concordou com quatro ou cinco cessar-fogos. E, ainda assim, não conseguiu atingir nenhuma dessas finalidades limitadas. O Hamas continua atirando mísseis (nesta segunda matou seis em solo israelense), infiltrando unidades de comando via túneis supostamente destruídos (outro grupo foi interceptado na segunda), e violando cada um dos “cessar-fogos humanitários” (como fez na segunda). Em suma, o Hamas está lutando para valer. Ele vê esta guerra como uma guerra de verdade, uma batalha de vida ou morte.
Neste ponto, estou com o Hamas.
Esta é uma guerra de verdade. E o objetivo de uma guerra de verdade é a vitória.
O Hamas não será derrotado por meio da explosão de seus túneis. Se Israel bater em retirada após o próximo cessar-fogo temporário, eles construirão túneis melhores e mais profundos. O Hamas não será derrotado pelo esgotamento de seu arsenal de foguetes. Se Israel permitir que o Hamas permaneça de pé, ele conseguirá mais do Irã (que admite abertamente fornecê-los), ou os construirá com partes contrabandeadas. Se puder, preencherá esses novos foguetes com produtos químicos, o que tornará extremamente perigoso para Israel interceptá-los em áreas civis, que são os alvos do Hamas.
Não, o Hamas tem de ser derrotado à moda antiga. Isto começa com uma nova exigência – rendimento incondicional – e a disposição em fazer o que for necessário para atingi-lo.
As imagens televisivas terão impacto negativo na imagem de Israel? Depende de quem estiver assistindo. A esquerda europeia anti-Israel e os muçulmanos europeus anti-judeus ficarão indignados, mas isso eles já estão. Alguns rabinos liberais e celebridades judias, ruborizados, ecoarão Michel Corleone (“É minha família, Kay, não sou eu”). Editorialistas e colunistas menosprezarão a perda do “alto padrão moral “ de Israel. Experts que insistem que é ciência política indiscutível que o terror não pode ser derrotado militarmente recusar-se-ão a crer em seus próprios olhos.
Como eu sei isso? Eu já vi esse espetáculo antes.
Mas o universo televisivo é um lugar grande. Os governantes do Egito e da Arábia Saudita, que consideram o Hamas um inimigo terrorista, provavelmente apreciarão o show. Assim como os líderes de Rússia, China, Índia, Nigéria e outros países atualmente engajados em esforços para derrotar as insurreições fundamentalistas islâmicas.
Para Israel, os jihadistas são uma chave demográfica. Eles podem não gostar de ver Gaza em chamas e o Hamas derrotado, mas essas são cenas que concentrarão suas mentes. Os aiatolás iranianos, o Hezbollah, a Al Qaeda, as Crianças Assassinas do Califado do ISIL [da sigla em inglês para Estado Islâmico do Iraque e do Levante] e outros Saladinos dos tempos modernos aparecerão odiando Israel ainda mais do que eles odeiam agora? Talvez sim. Mas eles também terão uma visão mais realista do que eles podem fazer a respeito.
Como sempre, a audiência mais importante de todas está bem aqui, em casa. Com o passar dos anos, os israelenses ficaram habituados a um certo nível de violência do Hamas. Mísseis? Ah, eles nem matam tanta gente assim. Sequestros? Solte uns mil terroristas que você consegue o cara de volta. Substituir o Hamas? O que vier depois pode ser pior! Não podemos simplesmente fazer um acordo melhor desta vez, conseguir mais uns anos de relativa tranquilidade antes do próximo round?
A resposta é não. Não há acordo a ser feito com o Hamas, nem sucessor algum que Israel deva temer mais do que ele. Hamas é o diabo que Israel conhece e também o demônio que tem de matar. A quantidade de matança depende do quão rapidamente os hamasniks se renderão ou ⎯ aqui vai a possibilidade menos provável ⎯ da população em Gaza decidir que já sofreu o bastante e que é hora de se voltar contra eles.
Será que Bibi Netanyahu tem estômago para levar isso adiante? Será que ele quer? Eu não sei. Mas eu sei quem quer que ele tente – 86.5% do público judeu israelense.
* Zev Chafets é comentarista da FoxNews.com. O texto foi traduzido por Gabriel Marini, a pedido e com revisão do colunista da VEJA Felipe Moura Brasil.