sábado, 1 de agosto de 2015


Virna Lisi
A irrefreável ascensão do Facebook
Sarah Belouezzane - Le Monde
Universidade de Tsinghua/AP
O fundador do Facebook, Mark Zuckerberg O fundador do Facebook, Mark Zuckerberg
Houve quem dissesse que ele já era, que estava ultrapassado e seria substituído no uso diário pelo Twitter, pelo Instagram ou pelo Tumblr. No entanto, onze anos depois de ser criado no campus de Harvard por Mark Zuckerberg, então um jovem estudante de informática, o Facebook continua aqui e se destaca como a grande mídia planetária deste início de século.
A rede social se tornou o novo ogro da internet, devorando através de suas inovações tecnológicas, suas aquisições e seus lançamentos de produtos todos os usos pessoais dos internautas: compartilhamento de fotos, publicações de posts de blogs, compartilhamento de artigos de imprensa, vídeos, buscas online... Um caminho que se assemelha cada vez mais ao de outros gigantes da internet, como a Amazon, o Yahoo e sobretudo o Google, que se tornou seu principal adversário.

Guerra em todas as frentes

Os resultados financeiros publicados pela rede social na quarta-feira (29) são prova dessa trajetória espetacular. No segundo trimestre de 2015, o grupo de Menlo Park viu seu faturamento crescer 39% em relação ao mesmo período em 2014, chegando a US$ 4 bilhões (quase R$ 14 bilhões). Em compensação, seu lucro líquido caiu 9%, para US$ 750 milhões, mesmo assim superando todas as previsões.
Os mercados derrubaram em 5% o valor de suas ações nas transações pós-fechamento da Bolsa, e a culpa seria dos gastos muito elevados com pesquisas e desenvolvimento, que prejudicam os lucros. "Paciência, é preciso tempo para realizar grandes coisas", respondeu Mark Zuckerberg, que não esconde suas ambições desde que ele recusou a oferta de compra da Microsoft, por US$ 15 bilhões, em 2007, e que admite gastar dezenas de milhões de dólares para levar a cabo seus projetos. Foi assim que ele afastou os temores dos analistas sobre sua capacidade de monetizar a audiência da rede social por celular, uma vez que esta passou de 0% da receita em 2012 para os 75% de hoje.
A grande força do Facebook certamente é essa comunidade de usuários que, segundo os números publicados na quarta-feira, atingiu o recorde de 1,49 bilhão. "É através desse ativo que o Facebook ataca seus concorrentes, em todas as frentes. E ele não hesita em gastar o que quer que seja para conseguir isso", constata Eleni Marouli, da consultoria IHS. A ideia é monetizar o máximo possível o tempo que os internautas passam na rede social, e captar a maior parte possível do mercado na publicidade online, capitalizando sua capacidade de direcionar os anúncios.
O Facebook tem conduzido essa guerra em todas as frentes, como por exemplo no campo da pesquisa, principal área de atuação do Google. Isso porque a rede social de Zuckerberg não só lançou uma opção de busca que procura encontrar acontecimentos dentro dos limites de sua memória, como também está testando, nos Estados Unidos, uma opção que permite que os usuários postem links a partir de uma busca feita diretamente no site, graças a uma tecnologia desenvolvida na casa.
Mas é principalmente na frente dos vídeos que a maior rede social do mundo representa um perigo, tanto para o Google, que detém o YouTube, como para a Amazon e as redes de televisão. Em 2014, o Facebook introduziu a possibilidade de subir vídeos diretamente na timeline, uma opção que se tornou possível graças a um leitor criado pela própria empresa. Ou seja, não são mais necessários links que direcionem para o YouTube, o Dailymotion ou ainda as redes de TV. O usuário não precisa mais sair do Facebook, uma vez que os vídeos são reproduzidos automaticamente quando se passa por cima deles.
Isso é ótimo para os anunciantes, cujas propagandas acabam sendo vistas por tabela, ao contrário do YouTube, onde é preciso lançar um conteúdo, mas também para produtores de conteúdo como o Comedy Central ou mesmo a HBO, com quem Zuckerberg assinou um acordo para a transmissão de um antigo programa diretamente na timeline. O site chegou a prever a divisão da receita com produtores para estimular a criação, assim como o YouTube. "Eles estão investido de maneira agressiva nos conteúdos e nos vídeos, e compraram em 2014 o LiveRail, uma plataforma de monetização automatizada de anúncios em vídeos extremamente eficaz", observa Marouli.
Mas o Facebook não parou por aí. Ele lançou o Messenger, um aplicativo de mensagens, integrou o conteúdo de grandes mídias diretamente dentro dele e também está contando com o sucesso de suas caras aquisições como o Whatsapp, o maior serviço de mensagens do mundo, e o Instagram, o célebre site de compartilhamento de fotos.
Desde o início de 2015 ele vem testando o botão "buy", que permite comprar um produto exibido no Facebook, e está trabalhando no desenvolvimento de meios de pagamento. Mas os analistas acreditam que a ideia não é o Facebook se tornar um e-comércio, e sim mostrar a eficiência de sua publicidade e fechar cada vez mais seus membros dentro de seu universo. Um apetite de ogro.Facebook estreia nova sede no Vale do Silício
No Instagram, usuários que tiveram acesso à nova sede do Facebook em Menlo Park, no Vale do Silício, exibem detalhes do projeto de Ghry Partners batizado de "MPK20" (Menlo Park Building 20). Com criatividade, o novo edifício de 430 mil metros chama a atenção por mesclar arte e natureza em um espaço para lá de inspirador Reprodução/Instagram
"É possível transformar a morte em algo divertido"
Poucos dias antes de chegar ao Brasil para falar sobre câncer infantil, o médico americano Patch Adams, um dos pioneiros da medicina humanizada, deu entrevista ao site de VEJA
Carolina Melo - VEJA
O médico americano Patch Adams"Fiquei constrangido pelo filme", diz os médico americano Patch Adams, em entrevista exclusiva (Chip Somodevilla/Getty Images)
"O hospital pode ser um lugar extremamente agradável. Os pacientes deveriam nem sentir vontade de ir embora!"
O estilo de trabalhar e de se vestir faz com que o oncologista pediátrico americano Patch Adams, de 70 anos, seja muitas vezes confundindo com um palhaço de circo. Na verdade, ele usa quartos de hospitais para fazer seu espetáculo. Há 40 anos, Patch Adams inspira médicos de todo mundo a desenvolver uma medicina mais humanizada. Adams defende que a piada, quando acompanhada de boas gargalhadas, pode ser uma poderosa aliada no tratamento de doenças. Na década de 70, fundou nos Estados Unidos o Instituto Gesundheit ("saúde", em alemão), que atende pacientes de graça e integra a medicina tradicional com atividades recreativas, como pintura e teatro. A trajetória do oncologista se transformou em um filme estrelado por Robin Williams: Patch Adams - O Amor É Contagioso. Nesta semana, o médico falou com exclusividade ao site de VEJA, poucos dias antes de sua visita ao Brasil para dar palestras sobre o câncer infantil.

O que o senhor acha da forma como a medicina tem sido ensinada nas universidades? Um lixo. Há 40 anos me correspondo por cartas com muitos alunos de medicina de mais de 120 países e nunca recebi uma mensagem positiva sobre a maneira como têm sido educados. Durante esse tempo todo nada mudou. Os professores são rudes e arrogantes e educam médicos que não gastam tempo suficiente com o paciente. Esses médicos acabam achando normal trabalhar em ambientes de trabalho estressantes. Não há um hospital feliz no mundo. Uma pena. O hospital pode ser um lugar extremamente agradável. Os pacientes deveriam nem sentir vontade de ir embora!
Como um hospital pode ser divertido? Os profissionais devem ser bons -- e não me refiro apenas no sentido técnico. Um bom médico é aquele que sabe cultivar a relação com o paciente por meio da troca de amizade, confiança e... humor. Eu acredito e defendo sempre que é possível transformar a morte em algo divertido. Com humor. Tenho tentado fazer isso desde sempre.
Qual é o pior defeito que um médico pode ter? A arrogância. De todos os meus professores da faculdade, 95% deles eram arrogantes. Chegava a ser constrangedor quando eu entrava no quarto de um paciente com alguns deles. Eles ficavam com o paciente por cerca de 5 a 10 minutos. Isso é um médico ruim. As pessoas são complexas e têm doenças complicadas. É impossível conhecer um paciente em apenas 10 minutos.
Seu nome remete imediatamente ao personagem de Robin William em Patch Adams: O Amor é Contagioso, de 1998. Qual é a sua opinião sobre o filme? Eu fiquei constrangido pelo filme. Robin Williams, claro, não teve nada a ver com isso. O problema foi com o diretor (Tom Shadyac). Ele não teve o menor interesse em me conhecer de verdade. É um arrogante que quis vender ingressos. Ele não quis falar do meu trabalho como realmente é. Por exemplo, o meu melhor amigo da faculdade, que morreu seis anos após nossa formatura, se transformou no filme em uma namorada fictícia que morre de forma dramática. Essa versão inventada, obviamente, vende mais. Tive até de pedir desculpas ao filho desse meu amigo pelo que fizeram. Além disso, a cena em que Patch Adams leva uma paciente idosa para nadar em uma piscina de macarrão foi muito mais divertida na vida real.
Zimbábue pede extradição de caçador do leão Cecil
Homem que ajudou americano na caçada diz não lamentar morte de 'leão velho'
FSP
A ministra do Meio Ambiente do Zimbábue, Oppah Muchinguri, pediu nesta sexta-feira (31) a extradição do dentista americano Walter James Palmer, que matou o leão Cecil, um exemplar protegido e astro do parque natural de Hwange.
Cecil destacava-se por sua juba preta pouco comum e era objeto de pesquisa da universidade britânica de Oxford sobre a longevidade dos leões. Ele estava equipado com um colar de localização.
Ainda nesta sexta (31), o caçador profissional Theo Bronkhorst afirmou à agência de notícias AFP que não fez nada de errado ao acompanhar Palmer na caçada que acabou na morte do animal símbolo do Zimbábue.
"Fui contratado por um cliente para organizar uma caçada e disparamos contra um leão macho velho, que, para mim, superou a idade reprodutiva. Acho que não fiz nada de ruim."
Bronkhorst foi acusado de "não ter impedido uma caça ilegal". Foi posto em liberdade vigiada antes do início do julgamento do caso, no dia 5. 
Apesar de seu crescimento, a Índia continua rural e pobre
Julien Bouissou - Le Monde
Rupak De Chowdhuri/Reuters
Moradores disputam lugar em trem de Calcutá, na Índia, que deve ultrapassar a China e torna-se o país mais populoso do mundo em menos de uma década, seis anos antes do previsto, disse a ONU Moradores disputam lugar em trem de Calcutá, na Índia, que deve ultrapassar a China e torna-se o país mais populoso do mundo em menos de uma década, seis anos antes do previsto, disse a ONU
A Índia rural não se beneficiou muito da ascensão econômica do país ao longo dos últimos 25 anos. Essa foi uma das conclusões do vasto Censo Socioeconômico e das Castas (SECC) conduzido pelo governo indiano em 2011 junto a 243,9 milhões lares do país, e que teve parte de seus resultados publicados no início de julho. Essa radiografia revela uma mina de informações sobre a extensão da pobreza na Índia, e sugere caminhos para melhor combatê-la.
A primeira constatação foi que a Índia continua sendo um país maciçamente rural. Quase três quartos dos lares indianos vivem no campo, apesar da explosão demográfica de megalópoles como Nova Déli ou Mumbai, e ainda que a fronteira entre esses dois mundos seja porosa, considerando que muitos migrantes trabalham vários meses por ano em cidades, dependendo das oportunidades profissionais. "A Índia se encontra nos vilarejos", costumava dizer Mahatma Gandhi. Várias décadas mais tarde, essa constatação continua atual, e o nível de vida ali praticamente não melhorou.

"Pobreza e privação"

Dos lares rurais, 61% vivem em um "estado de privação", revela o SECC, ou porque suas habitações não passam de um cômodo, ou porque eles não contam com nenhum homem em idade entre 18 e 59 anos que possa gerar renda, dentre outros critérios escolhidos pela coordenação do censo. Em 90% dos lares rurais, aqueles cujas rendas são mais elevadas não ganham mais do que 150 euros por mês.
Se a Índia quiser se transformar em potência econômica, ela não pode mais ignorar as condições dessas populações afastadas dos centros urbanos. "A Índia rural ainda passa uma imagem sombria de pobreza e de privação", concluiu o jornal "The Hindu", em seu editorial de 7 de julho.
Outro dado surpreendente foi que somente metade dos lares rurais trabalha com agricultura, uma proporção que lembra que as aquisições de terras não afetam somente seus proprietários, longe disso. Quando terrenos são comprados para a construção de uma rodovia, são todos aqueles que vivem deles, tanto por trabalharem como mão de obra agrícola quanto por manterem uma lojinha, que são afetados.
Mais da metade dos lares rurais tiram justamente sua renda do "trabalho manual", sinal da crise agrícola que acomete o país. Eles estão imersos na economia informal, sem proteção social nem direitos trabalhistas. Somente um entre cada dez lares conta com um trabalhador registrado entre seus membros.
Esse estudo lança uma nova luz, de rara abrangência, sobre o aspecto multidimensional da pobreza. Até hoje, esta era medida em função das despesas ou do consumo calórico diário de um indivíduo. Ao determinar um nível de despesas que não passasse de 972 rúpias (R$ 53) por mês nas zonas rurais e 1.407 rúpias (R$ 77) nas cidades, um grupo de especialistas formado em 2012 pelo governo havia concluído que 29,5% da população indiana vivia abaixo do limiar de pobreza.
Para sair desse círculo vicioso, é preciso romper várias cadeias, entre elas a do analfabetismo, da desnutrição ou ainda do isolamento. Mas em um país onde os serviços públicos são deficientes, com hospitais caindo aos pedaços e escolas abandonadas pelos professores, sair dele é bem mais difícil do que em outros lugares, como no Brasil ou na China. O Ministério da Saúde indiano reconheceu, em janeiro, que cerca de 63 milhões de indianos passavam dificuldades financeiras devido aos gastos com saúde.
O diagnóstico estabelecido pelo SECC revela a extensão dos desafios que devem ser enfrentados, a começar pela educação. Quase metade dos lares rurais não sabem ler e escrever, ou o fazem com grandes dificuldades, em um país que pretende investir na inclusão digital. "Com mais de dois terços dos indianos tendo perdido o 'elevador da educação', seria interessante ver como uma Índia emergente pode 'emergir', sem falar no status de superpotência", escreveu K.P. Kannan, pesquisador no Centro para os Estudos de Desenvolvimento sediado em Thiruvananthapuram (Estado de Kerala), no site de notícias "The Wire".
Por fim, o SECC confirma a ligação que persiste entre casta e pobreza. Quanto mais baixa for a primeira, mais disseminada é a segunda. Ao contrário do que se costuma pensar, a base da pirâmide não é ocupada pelos "intocáveis", mas sim pelas populações tribais. Quatro entre cada cinco tribais vivem em um "estado de privação", sendo que representam 11% da população. Além disso, a pobreza atinge 73% dos membros das "castas listadas" que designam os intocáveis (18,46% da população).

Cotas por casta

Os dados sobre as outras castas ainda não foram publicados. Algumas poderiam reivindicar um aumento das cotas às quais elas têm direito na administração pública ou no ensino superior, ou, pelo contrário, sofrer a ira das castas superiores que acreditam ser desfavorecidas. Em ambos os casos, o Partido do Povo Indiano (BJP, situação) quer evitar entrar no meio de um fogo cruzado, a poucos meses de eleições regionais cruciais.
O ministro indiano da Economia, Arun Jaitley, anunciou que os resultados desse estudo servirão para melhorar os programas de combate à pobreza. O governo aposta em uma descentralização em nível de Estados e até de vilarejos, mas ainda será necessário medir seus efeitos. "A menos que sua capacidade de execução seja reforçada, e que auditorias adequadas de seus resultados sejam conduzidas, esse plano terá o mesmo destino que todos aqueles que o precederam", alerta o "The Hindu" em seu editorial.
A nova aliança sunita da Arábia Saudita
Hussein Ibish - TINYT
Toru Yamanaka
O rei da Arábia Saudita, Salman bin Abdulaziz O rei da Arábia Saudita, Salman bin Abdulaziz
Se o acordo nuclear do Irã foi um terremoto abalando a paisagem estratégica do Oriente Médio, um dos tremores secundários mais dramáticos foi a surpreendente chegada no mês passado à Arábia Saudita de uma delegação de alto nível do Hamas. A visita da organização islâmica que governa a Faixa de Gaza é o mais recente sinal de uma reviravolta na política saudita, que agora está buscando uma reaproximação com o movimento regional Irmandade Muçulmana, ao qual pertence o Hamas.
A Arábia Saudita há muito desconfia da Irmandade. Tradicionalmente, o reino considera os islamitas como uma ameaça política e uma fonte rival de autoridade islâmica no Oriente Médio. Essa suspeita se transformou em hostilidade aberta à medida que os partidos da Irmandade ameaçavam tomar Estados árabes cruciais após os levantes da Primavera Árabe na Tunísia, Egito e outros lugares em 2011.
Logo, os sauditas apreciaram a derrubada do presidente egípcio, Mohamed Morsi, um líder da Irmandade, em 2013. Essa foi a primeira de uma série de reveses para a Irmandade por toda a região. O ponto mais baixo ocorreu no ano passado, quando o governo saudita declarou a Irmandade como sendo um grupo terrorista. (O Hamas é o único partido da Irmandade que é abertamente armado e defende o uso da violência, especificamente contra Israel.)
O ministro das Relações Exteriores saudita, Adel Al-Jubeir, insistiu que a recente visita do Hamas foi por razões religiosas, não políticas, e que "a posição do reino em relação ao Hamas não mudou". Mas peregrinações a Meca geralmente não envolvem reuniões demoradas com toda a liderança, inclusive com o rei Salman bin Abdulaziz e seus principais vices, o príncipe Muhammed bin Nayef e o ministro da Defesa, Mohammed bin Salman.
A delegação do Hamas incluiu seus principais representantes no Egito e na Turquia, o que significa que suas principais facções estavam todas representadas: não se tratava de um jogo de poder por apenas um elemento. Como cortesia, durante a visita, os sauditas soltaram oito membros do Hamas presos por atividades políticas ilegais na Arábia Saudita.
Em outro sinal de uma abertura saudita aos grupos da Irmandade, as forças apoiadas pelos sauditas no Iêmen empossaram no mês passado Nayef al-Bakri, do partido Al-Islah (também designado como sendo um grupo terrorista por Riad) ligado à Irmandade, como governador de Áden, uma importante cidade do sul, que as forças apoiadas pelos sauditas tinham acabado de retomar.
Três outras importantes figuras da Irmandade -–Rachid al-Ghannouchi, do Partido Ennahda da Tunísia; Abdul Majeed al-Zindani, do Al-Islah; e Hammam Saeed, da Irmandade Muçulmana da Jordânia-– visitaram a Arábia Saudita nas últimas semanas. Havia até mesmo um rumor, nem confirmado e nem negado, de que a Irmandade foi discretamente removida da lista de terrorismo do reino.
Uma massa crítica de circunstâncias é responsável por essa mudança nas atitudes sauditas. O rei Salman nutre mais simpatia pelos conservadores religiosos do que seu antecessor. A Irmandade enfraquecida agora é menos vista como uma ameaça, enquanto os extremistas do Estado Islâmico são vistos como sendo bem mais perigosos. Acima de tudo, a nova abordagem saudita é moldada pelo confronto regional com Teerã, no rastro do acordo nuclear.
Riad está fortalecendo as relações com outro membro do Conselho de Cooperação do Golfo, o Qatar, que teria intermediado a visita do Hamas. Riad também intensificou os esforços de aproximação com a Turquia e o Sudão. Isso parece ser uma ampla tentativa saudita de recrutar o máximo possível de atores políticos sunitas por todo o Oriente Médio para confrontar o Irã e seus aliados xiitas.
Os sauditas e a Irmandade podem encontrar uma causa comum em vários conflitos regionais. Um importante jornalista saudita, Jamal Khashoggi, me disse: "A Arábia Saudita está interessada em trabalhar com a Irmandade porque é politicamente eficaz em locais como a Síria e o Iêmen".
O cálculo saudita é de que não pode enfrentar simultaneamente o Irã e seus aliados islamitas xiitas, como o Hizbollah, assim como movimentos jihadistas, como a Al Qaeda e o Estado Islâmico, e radicais islâmicos mais tradicionais. Daí a tentativa de aproximação saudita com a Irmandade mais moderada.
Para os sauditas, atrair o Hamas assegurará que o Irã perca influência em Gaza, deixando apenas a Jihad Islâmica como uma aliada desobediente. O Irã teria supostamente respondido suspendendo seus fundos para o Hamas.
Mas o próprio Hamas tem facções concorrentes e seu braço militar, as Brigadas Izzedine al-Qassam, mantém laços profundos com o Irã. Mas a distensão saudita com a Irmandade não se limita ao Hamas, e mais está em jogo para os islamitas da região. Todo o movimento da Irmandade Muçulmana enfrenta uma crise existencial com a derrubada de Morsi e a repressão no Egito; agora Riad está oferecendo uma tábua de salvação.
Um relacionamento mais estreito dos sauditas com o Hamas exigirá uma hábil diplomacia. Riad precisa evitar piorar as relações com o Egito, que permanece tão hostil quanto antes à Irmandade, ou minar a Autoridade Palestina na Cisjordânia, que é controlada pelo Fatah, o movimento majoritário da Organização para a Libertação da Palestina. Os sauditas precisam agir com cuidado para assegurar que sejam vistos no Cairo e em Ramallah como exercendo um papel construtivo, promovendo tanto a reconstrução de Gaza quanto a reconciliação entre o Fatah e o Hamas.
O acordo nuclear com o Irã levou a Arábia Saudita a tornar prioridade a reversão da influência regional do Irã. Sua estratégia é unir o máximo possível o Oriente Médio sunita (com exceção de extremistas como o Estado Islâmico e a Al Qaeda). Riad pode estar certa de que essa é a melhor forma de fortalecer sua mão contra o coeso bloco xiita de Teerã. Mas também significa consolidar as divisões sectárias já agudas no Oriente Médio.
Isso tornará as coisas mais difíceis para potências externas como os Estados Unidos que não possuem uma afinidade natural com nenhum dos campos. Quanto aos povos da região, uma nova ordem regional baseada na identidade sectária é realmente perigosa.
Tradutor: George El Khouri Andolfato 
"Erdogan é capaz de incendiar a Turquia", diz político de oposição curdo
Hasnain Kazim - Der Spiegel
Reuters
O turco Selahattin Demirtas, dirigente do partido pró-curdo (Partido Democrático do Povo) O turco Selahattin Demirtas, dirigente do partido pró-curdo (Partido Democrático do Povo)
Em uma entrevista para a "Spiegel", o principal político de oposição curdo, Selahattin Demirtas, pede por um cessar-fogo entre o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, e o Partido dos Trabalhadores do Curdistão.
Demirtas, 42, copresidente do Partido Democrático Popular (HDP), é amplamente considerado como vencedor na eleição no início de junho. Seu carisma se deve principalmente ao fato de seu partido ter recebido 13% do voto popular, tornando-se o primeiro partido curdo a conquistar um mandato no Parlamento turco e impedindo que o Partido Justiça de Desenvolvimento (AKP) obtivesse maioria absoluta. Para a entrevista, Demirtas recebeu a "Spiegel" na nova sede parlamentar de seu partido em Ancara. A sala é grande e clara e sua mesa é flanqueada tanto pela bandeira turca quanto pela de seu partido.
Spiegel: Sr. Demirtas, seu sucesso há dois meses deu esperança a muitas pessoas dentro e fora da Turquia, que o saudaram como um marco para a democracia. Mas hoje, o país ameaça retornar a uma condição de guerra civil. Como chegou a isto?
Demirtas: O AKP, o partido do presidente Recep Tayyip Erdogan, causou esta situação deliberadamente.  Até as eleições de junho, eles governaram a Turquia unilateralmente por mais de uma década. Mas não conseguiram bloquear nossa ascensão ao poder, de modo que optaram por fomentar o caos no país. Essa é a única explicação possível para a guerra deles contra o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK).
Spiegel: O senhor chegou a alegar que o ataque pela milícia terrorista Estado Islâmico em Suruc, no qual 32 pessoas foram mortas, foi instigado pelo governo como pretexto para o conflito armado. O senhor tem alguma prova?
Demirtas: Se você fala em documentos que provem que o Estado esteve envolvido, não, não temos. Mas há indicações claras. Nossa pesquisa sugere que esse ataque pelo EI só foi possível por causa do governo do AKP, que por anos tolerou as atividades dos extremistas na Turquia.
Spiegel: E quanto aos ataques mortais contra as forças de segurança turcas pelo Partido dos Trabalhadores do Curdistão? Esses ataques não confirmam ainda mais que o PKK é uma organização terrorista?
Demirtas: Eu não sei por que o PKK fez aquilo, mas não deveria. Essa não é a forma apropriada de agir. Nós pedimos urgentemente ao PKK e ao governo turco que baixem suas armas. É preciso que haja um cessar-fogo mútuo.
Spiegel: O PKK executou dois policiais –-e isso foi antes do início do bombardeio turco.
Demirtas: Esse ato foi de fato um capítulo sombrio e sujo. Foi uma vingança pelo ataque em Suruc, cometido por uma unidade local do PKK. A organização maior não reivindicou a responsabilidade. Parece-me que elementos individuais buscavam provocar o Estado turco.
Spiegel: Seus detratores alegam que o HDP e o PKK são afiliados um do outro. Vocês estão estreitamente conectados de alguma forma?
Demirtas: É claro que ocorreram reuniões. Nós nos sentamos à mesma mesa durante as negociações de paz nos últimos anos. Nós também falamos com o líder do PKK, Abdullah Öcalan, em sua cela na prisão na ilha de Imrali, no Mar de Mármara. As palavras dele têm grande peso em seu movimento. Para nós, trata-se de uma mediação dentro da estrutura da lei. Fora isso, não há conexão estrutural entre nós. Não somos o braço político do PKK, como nossos detratores nos acusam.
Spiegel: O senhor teme que seu partido seja proibido, como alguns linhas-duras do AKP estão exigindo?
Demirtas: Apesar de não haver um Judiciário independente na Turquia, eu não acredito que o Tribunal Constitucional permitiria que nosso partido fosse banido. Erdogan sabe muito bem que não pode simplesmente proibir o HDP. Mas ele deseja suspender a imunidade de membros individuais do Parlamento que considera como terroristas. Ele deseja criminalizar nosso partido para que nosso apoio público diminua.
Spiegel: Na quinta-feira, o gabinete do procurador-geral anunciou que estava abrindo uma investigação contra o senhor por incitamento de protestos armados.
Demirtas: Erdogan não pode aceitar nenhuma perda adicional de poder por causa da ameaça de investigações de corrupção contra ele. Desde que ele perdeu a maioria no Parlamento, ele se sente acuado. Esse é o motivo para ele inventar essas conspirações, visando gerar conflito. Isso inclui as acusações contra mim.
Spiegel: Desde junho, nenhuma coalizão de governo foi formada. Haverá novas eleições após esta mais recente escalada?
Demirtas: Sim, há a possibilidade. Eu diria que há 50% de chances. Nas circunstâncias atuais, uma coalizão entre o HDP e o AKP é impensável. Caso chegue a uma campanha eleitoral, eles tentarão nos difamar nos vinculando a violência e terror. Mas estou convencido de que as pessoas nos verão, como fizeram durante as eleições de junho, como uma chance de paz. O AKP perderia ainda mais votos em uma nova eleição, enquanto nós certamente nos sairíamos ainda melhor do que os 13% que obtivemos da última vez.
Spiegel: O que Öcalan, o líder do PKK, tem a dizer sobre a situação atual?
Demirtas: Não sei. Ele enfrenta atualmente um isolamento rígido em sua cela. Ninguém fala com ele há quatro meses. Nem seu advogado, nem sua família, nem nenhum político.
Spiegel: O governo turco diz que está combatendo todos os "terroristas" igualmente. Por que o senhor vê a abordagem dele como sendo principalmente uma campanha contra os curdos?
Demirtas: Veja, por exemplo, o número de pessoas presas em batidas por toda a Turquia recentemente. Quantos membros do EI estão entre elas? Poucas dezenas? Por outro lado, mais de mil curdos foram presos, particularmente os jovens, com base de serem simpatizantes do PKK. Esses números dizem tudo.
Spiegel: O senhor esperava que isso acontecesse após a eleição?
Demirtas: Eu não duvidaria de nada envolvendo Erdogan antes da eleição, independente de quão louco. Ele é perfeitamente capaz de incendiar o país para se manter no poder. Temos testemunhado uma mudança preocupante já há algum tempo. A democracia que conseguimos arduamente na Turquia está ruindo. Está piorando a cada dia.
Spiegel: O senhor espera que o país volte à guerra civil, como nos anos 80 e 90, quando o PKK e as forças armadas se enfrentavam e cerca de 40 mil pessoas morreram?
Demirtas: Não, a sociedade turca não permitiria isso. Ela não deseja mais derramamento de sangue. O AKP, entretanto, adoraria esse caos para que se beneficiasse. Mas acho que um retorno à guerra civil pode ser descartado.
Spiegel: Talvez o senhor devesse dizer isso ao PKK, que é em parte responsável pelo caos, após assassinar policiais e soldados.
Demirtas: Estou certo que o PKK aceitaria um cessar-fogo que também fosse respeitado pelo lado turco. Se a Turquia parasse seus bombardeios e batidas contra o PKK nas cidades turcas e voltasse às negociações de paz, nós poderíamos ter um cessar-fogo no mesmo dia.
Spiegel: O homem-bomba de Suruc era supostamente um curdo. Quantos curdos são membros do Estado Islâmico e por quê?
Demirtas: Pelo que ouvimos, há mais de 1.000 curdos no EI. Afiliação a um certo grupo étnico não tem nada a ver com os pontos de vista políticos da pessoa. Isso não protege ninguém de erros crassos. Nós aprendemos que temos que desenvolver novos programas para impedir que nossos jovens se juntem aos extremistas.
Spiegel: Por um lado, os Estados Unidos apoiam os curdos em sua luta contra o EI. Por outro, os americanos se calam quando bombas turcas atingem posições curdas no norte do Iraque e no norte da Síria. O senhor se sente traído por Washington?
Demirtas: Os curdos se responsabilizam pela paz e estabilidade na região. Trabalhar com os curdos facilita a segurança em todos os países envolvidos. Eu critico os Estados Unidos por permitirem os ataques aéreos turcos contra o PKK nos Montes Qandil, no norte do Iraque, apenas para que Ancara permita que utilizem a base aérea de Incirlik em sua luta contra o EI. Isso não faz sentido.
Spiegel: O senhor prefere a posição alemã?
Demirtas: A Alemanha parabeniza a Turquia por sua ação contra o EI, mas a critica pelos bombardeios desproporcionais contra posições curdas. Acho que os políticos alemães têm um melhor entendimento da situação.
Spiegel: A OTAN deveria exercer pressão sobre sua aliada, a Turquia?
Demirtas: A Turquia foi bem-sucedida em convencer os Estados Unidos a concordarem com uma zona de proteção no norte da Síria. A OTAN provavelmente também apoia isso, mas é desvantajosa para os curdos ali. O governo em Ancara deseja usar essa zona como palco de manobra para uma ação contra eles. Se essa zona for criada, então deveria ser feito juntamente com as forças curdas.
Spiegel: O senhor entende a preocupação da Turquia de que os curdos na Síria poderiam buscar o estabelecimento de seu próprio Estado?
Demirtas: Os curdos sírios não desejam a desintegração do Estado sírio. Mas desejam mais autonomia, para que possam ter mais livre arbítrio. A Turquia não tem motivos para temer isso. Por que uma entidade dessas na fronteira representa uma ameaça à Turquia? Ancara deveria estar bem mais preocupada em melhorar suas relações com os curdos. Ter o EI na fronteira com a Turquia é um risco muito maior.
Tradutor: George El Khouri Andolfato 
No alvo de políticos e da população, touradas são postas em xeque na Espanha
Alguns dos novos governantes saídos das eleições de 24 de maio estão questionando os festejos tradicionais com bois bravos
Andreu Manresa, Cristina Huete, Ignacio Zafra, Maiol Roger e Aitor Bengoa - El País

Festival de São Firmino, na Espanha, tem protesto, festa e muita correria
14.jul.2015 - Folião é derrubado por um touro durante o festival de São Firmino, em Pamplona, na Espanha. Pessoas de todo o mundo participaram do evento que durou oito dias - Álvaro Barrientos/AP
Os festejos taurinos recebem estocadas em grande parte da geografia espanhola. As eleições municipais e autonômicas de maio propiciaram a chegada ao poder de formações que não veem com bons olhos esses espetáculos, nem as subvenções de que gozavam até agora. Uma dúzia de municípios, entre eles Alicante e Huesca, deverão convocar referendos para decidir se essas festas serão proibidas. Somada à proibição que pesa sobre as corridas de touros na Catalunha há cinco anos, essa tendência faz que os eventos taurinos sejam mais questionados que nunca na Espanha.

Madri - cidade amiga dos animais

Na capital, a corporação liderada pela prefeita Manuela Carmena (Agora Madri) renunciou ao palco que tinha reservado na Praça de Las Ventas. Carmena anunciou sua intenção de transformar a capital em "cidade amiga dos animais" e defendeu a eliminação de subvenções a escolas e espetáculos taurinos.

Valência - onda antitaurina

A Comunidade Valenciana viveu uma reação em cadeia de medidas que põem em xeque os festejos taurinos. O novo governo autonômico anunciou que deixará de subvencionar esses eventos e estuda reverter a declaração de Bem de Interesse Cultural que o Partido Popular aprovou sobre a festa dois meses antes das eleições. Na cidade de Valência, o novo prefeito, Joan Ribó, do partido Compromisso, afirmou que não vai favorecer nem subvencionar atividades que representem maus-tratos a animais. Alicante, por sua vez, deixará de subvencionar a festa, segundo fontes da Câmara Municipal, que anunciaram, segundo diversos meios de comunicação, que a partir de 2017 a praça municipal não abrigará touradas. O recém-estreado governo tripartite na prefeitura promoverá um referendo para se declarar cidade antitaurina.
A cidade de Gandia suprimiu as touradas por considerá-las maus-tratos a animais e pelo gasto público. Alzira deixará de autorizar as corridas de touros nas ruas. Outras (Xàtiva, Sueca, Aldaia, Simat de Valldigna, Benifaió e Tavernes de Valldigna) vão organizar consultas para decidir se mantêm os festejos com touros. Em Denia, a prefeitura hesita sobre a convocação de um referendo sobre os "bous a la mar", em que os animais acabam na água. Llíria reduziu os dias de festas taurinas de dez para quatro. E em Paiporta o prefeito do Compromisso pactuou com o setor taurino local para destinar a subvenção à compra de livros escolares.

Aragão - fim das subvenções

Em Zaragoza, a equipe municipal liderada pelo prefeito Pedro Santisteve, do Zaragoza em Comum, reuniu-se com as associações de moradores da capital e de seus distritos rurais para anunciar que não subvencionará mais festejos que incluam atividades como corridas de touros. A decisão, salienta a prefeitura, não afeta as "vaquillas" (corridas de novilhas, sem danos físicos aos animais). Huesca também pretende organizar um referendo para decidir se proíbe as touradas.

Galícia - suspensão da feira

O prefeito de La Coruña, Xulio Ferreiro, da Maré Atlântica, extinguiu de forma antecipada o contrato com a empresa promotora da feira taurina que se realizava tradicionalmente na cidade nos primeiros dias de agosto. Ferreiro argumentou que rescindir o contrato corresponde ao "interesse público". A cidade economizará 50 mil euros, explicou.

Baleares - medida simbólica

Em Palma de Maiorca, o Pacto de Cort (PSOE-Podemos-Més) prevê declarar-se no próximo plenário "cidade livre de maus-tratos a animais e antitaurina". Entretanto, no que se relaciona às touradas, a medida fica em um plano simbólico, já que a arena da cidade, o Coliseo Balear, é propriedade privada e funciona sob uma licença autonômica de atividade. Por isso a tourada anual, prevista para 6 de agosto, se mantém na agenda.
A Prefeitura de Palma pedirá ao Parlamento balear que modifique a atual lei autonômica de proteção animal de 1992 para proibir a tauromaquia em todas as suas formas. Em Baleares já foram apresentadas cerca de 130 mil assinaturas para pedir a proibição dos festejos taurinos nas ilhas. Além de Palma, outros 19 municípios se declararam antitaurinos.

País Basco - San Sebastián, a exceção

A capital guipuzcoana vai na contracorrente. O PNV desbancou da prefeitura a coalizão Bildu, e uma das primeiras medidas do novo prefeito, Eneko Goia, foi suspender a proibição de realizar corridas na Praça de Illumbe. O veto estabelecido pela Bildu em San Sebastián contrastava com a situação na localidade próxima de Azpeitia, núcleo de atividades taurinas governado pela formação abertzale [nacionalista basca], onde se permitem as touradas. Assim, nas próximas festas da Semana Grande os touros voltarão à arena, em uma das duas feiras que serão transmitidas ao vivo pela Rádio Televisão Espanhola (RTVE).
Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves 
Cidade mais azulejada do mundo, Lisboa briga com os 'furtos de paredes'
Lisboa tenta pôr fim ao furto dos azulejos de suas fachadas. Todo ano desaparecem mais de 10 mil unidades
Javier Martín - El País
Há amores que matam, e o de Lisboa é um deles. O turista quer levar a cidade no coração e de passagem, se puder, também na mala. Algumas vezes é uma simples pedra de uma de suas ladeiras íngremes, mas outras vão além e levam um azulejo da casa que roubou sua alma.
Há dois anos, duplicaram-se as denúncias de furtos de azulejos em Lisboa, coincidindo com um aumento espetacular da chegada de visitantes à capital portuguesa. Leonor Sá, diretora da SOS Azulejo, nega-se a atribuir este problema ao turismo. "Creio que se começa a valorizar o que temos, e portanto se denuncia mais. Se não apreciamos a fachada de nossa casa, tampouco vamos consertá-la, e a deterioração fomenta o vandalismo."
A cada ano são roubados em Lisboa cerca de 10 mil azulejos, seja por indivíduos que depois os vendem em mercados paralelos ou por obra de bandos organizados que buscam painéis completos em igrejas ou palácios abandonados. Foi o caso recente da capela da Quinta da Flamenga, que perdeu todo o seu precioso revestimento formado por milhares de peças. Embora o preço dependa do tamanho e da antiguidade, um bom painel vale dezenas de milhares de euros.
A SOS Azulejo nasceu há oito anos para frear o espólio da cidade azulejo a azulejo. Assim que entrou em ação, as denúncias diminuíram 80%. "Bastou publicar na web as imagens dos painéis roubados para que começassem a ser recuperados. Apareceram até em museus nacionais", lembra Sá. Mas esse é o caso de representações figurativas; as geométricas são mais fáceis de comercializar.
Lisboa é a cidade mais azulejada do mundo. Os cartazes ou anúncios luminosos de outros lugares aqui eram painéis de azulejos que representavam a leiteria Camponeza, os banhos públicos ou uma humilde parada de trem. A beleza está à vista de todos em qualquer parte, e por isso ainda é mais difícil sua preservação. "O governo pretende que essas fachadas de Lisboa sejam patrimônio da humanidade, mas para isso é preciso ditar leis protetoras", reclama Leonor Sá.
Entre 1980 e 2000, Lisboa perdeu 25% dos azulejos artísticos, mas nem sempre por furtos. A picareta era a maior ameaça "a este patrimônio coletivo único". Por isso, a prefeitura proibiu a demolição de fachadas com azulejos e também a retirada das cerâmicas. "A mudança é de 180 graus", explica Sá. "Passamos de uma situação em que os conservacionistas tínhamos de provar o valor da fachada a que sejam as construtoras quem prove sua falta de valor."
Mas a pequena destruição de paredes continua. Onde desaparece um azulejo, logo cai o segundo e o terceiro... "O grande perigo é a falta de conservação de uma propriedade que é privada, embora esteja em público. Algumas prefeituras, como as de Aveiro e Porto, advertem o dono sobre a deterioração de sua propriedade, inclusive lhe oferecem seu armazém de azulejos, caso hajam iguais."
A luta contra o espólio depende da sensibilidade dos municípios. "Nós pretendemos uma legislação nacional que proíba a retirada de azulejos, à margem de qualquer declaração de patrimônio, sempre muito complicada", diz Sá, que tem muito trabalho pela frente.
Basta visitar a típica Feira da Ladra, junto ao Panteão Nacional, para se comprar uma cerâmica com séculos de história por 10 euros; se não, é entrar no eBay, onde se encontram às centenas, ou, se quiserem garantias, ir à loja de Manuel Leitão e escolher entre suas mais de 500 mil unidades.
"Alguns propõem que, como no caso do marfim, se proíba o comércio de azulejos", diz Sá. "Não queremos ser tão radicais, preferimos ir pouco a pouco removendo consciências."
A única arma de Leonor Sá é a palavra. Não tem orçamento para salvar sua cidade, enquanto assiste à moda dos tuk-tuk e das guias alternativas, que percorrem a cidade em busca de paredes com os últimos grafites e se esquecem do azulejo, a street art que faz de Lisboa uma cidade inimitável.
Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
A Alemanha é benigna
Tiago Moreira de Sá - Público
A crise do Euro, se serviu para evidenciar a hegemonia alemã, também deixou manifesta em vários momentos a benignidade dessa liderança
Em 1870, depois de ter concluído a unificação da Alemanha, Otto von Bismarck percebeu que ela era demasiado poderosa para não ameaçar todos os outros Estados da Europa e construiu um sistema de autocontenção do poder alemão alicerçado num emaranhado de alianças – com a Áustria-Hungria, a Rússia e a Itália –, na abdicação de mais pretensões territoriais no continente europeu e na renúncia à expansão colonial (até meados da década de 1880).
Desta forma, fez com que o custo de uma coligação de contrabalanceamento a Berlim fosse superior ao seu benefício, impedindo que britânicos, franceses, russos e austríacos tivessem o incentivo para se juntarem contra a Alemanha unificada.
Numa altura em que cresce o sentimento anti-alemão na Europa e todos os dias são publicados nos meios de comunicação social artigos a denunciar o perigo vindo da Alemanha, algo muito ampliado pela corrente crise grega, importa ter presente uma ideia essencial: a actual hegemonia alemã é benigna. Como a história do século XX demonstra, podia não ser, mas é. E a memória histórica contribui muito para que a larga maioria das elites alemãs esteja empenhada que assim seja e continue a ser.
O conceito de hegemonia benigna foi desenvolvido pela teoria das relações internacionais, em especial por G. John Ikenberry, para retratar uma ordem internacional liberal, pluralista e aberta, assente em princípios democráticos e em mecanismos de autocontenção do poder dos Estados dominantes, na qual todos têm lugar e voz, participando no essencial do processo de tomada de decisão. Assim, apesar da existência de uma potência hegemónica, os outros países têm não só oportunidade para buscarem a prossecução dos seus princípios e interesses, como passam a ter possibilidade de se colocarem na melhor posição possível para influenciarem o próprio processo de tomada de decisão do hegemon.
Tal como a ordem internacional norte-americana do pós-1945 que inspirou Ikenberry, a ordem regional europeia alemã actual encaixa nesta categoria. A Alemanha dos nossos dias deve ser definida como uma potência hegemónica benigna, o que resulta tanto do facto de estar sujeita a uma contenção – e autocontenção – a vários níveis, como da sua continuada aposta no espaço pluralista e em muitos aspectos supranacional que é a UE.
A contenção de Berlim é feita no essencial a três níveis. Em primeiro lugar, ela é contida militarmente, desde logo por se tratar de uma dimensão onde não está sequer em causa a perspectiva da sua hegemonia, que pertence sim aos Estados Unidos, como também devido à sua permanência na NATO, liderada pelos norte-americanos. Em segundo lugar, é contida politicamente (e, em teoria, economicamente) pelos mecanismos institucionais da ordem europeia comunitária, aceitando partilhar o seu poder externo com outros Estados-membros no contexto do processo de tomada de decisão comunitário, sofrendo ainda, através deste, a influência desses outros Estados na definição da sua política interna, uma vez que as normas comunitárias têm aplicação doméstica e sobrepõem-se ao seu direito. Em terceiro lugar, é contida pela sua própria cultura política, desenvolvida historicamente a partir da Segunda Guerra Mundial e em resultado de muitos dos seus traumas, que se caracteriza pela pouca apetência dos dirigentes de Berlim para assumirem uma liderança ao nível internacional, o que se vê no esforço que levam a cabo para manter formalmente o eixo franco-alemão (não obstante o declínio evidente da França), ou nos gastos anormalmente baixos em forças armadas para uma potência da sua dimensão, ou ainda na postura pouco dada a intervenções militares, como ficou patente durante a invasão do Iraque, em 2003 e, mais recentemente, durante a intervenção da NATO na Líbia.
Há também vários motivos para concluirmos que a hegemonia alemã no contexto da União Europeia é benigna. Desde logo, é de realçar o compromisso da Alemanha com a continuação da integração europeia e das suas instituições, das quais são de destacar as que se enquadram no âmbito da nuclear zona Euro. É importante que se lembre que a UE tem oferecido um enquadramento propiciador do desenvolvimento económico alemão e mesmo do seu poder, mas também não se deve esquecer que a Alemanha é o único Estado-membro que se poderia dar ao luxo de abdicar da Europa comunitária e permanecer como potência regional altamente relevante. Assim, é significativa a opção de Berlim por continuar a limitar a sua liberdade de decisão no plano externo e interno ao aceitar partilhá-la com os outros países da UE. Mas a benevolência da hegemonia alemã revela-se também no comportamento dos restantes Estados europeus, em particular das grandes potências como a França e a Grã-Bretanha, que tendo a possibilidade de fazer coligações com capacidade para contrabalançarem Berlim simplesmente têm optado por não o fazer, residindo a resposta no facto de considerarem que beneficiam da liderança desta, ou pelo menos que o custo de confrontá-la e surgir com alternativas excede o benefício de não o fazer.
A crise do Euro, se serviu para evidenciar a hegemonia alemã, também deixou manifesta em vários momentos a benignidade dessa liderança, não obstante a impressão de pontual intransigência. Se, por um lado, o governo alemão tem persistido na rejeição da revisão do Tratado Orçamental ou da possibilidade de mutualização das dívidas soberanas dos Estados-membros, por outro lado, tem também dado vários sinais de compromisso com a resolução da crise, como no momento de pagar a maior parte do preço do resgates dos países em dificuldade, na aprovação do Mecanismo de Estabilidade Europeu, na criação da União Bancária, na aceitação de uma política Quantitative Easing por parte do BCE, para já não falar na abertura à revisão dos “programas de austeridade” traduzida no prolongamento das maturidades e na descida dos juros, ou mesmo, no caso grego, perdão de dívida.
Desta forma, ao contrário do que é a percepção geral, na prática a Alemanha tem afirmado a sua visão de resolução da crise manifestando o compromisso com a continuidade de uma zona Euro que inclua todos os membros actuais (o que, para a esmagadora maioria dos governantes alemães, a começar por Angela Merkel, significa também a Grécia), ainda que sem deixar de o fazer com o estabelecimento das suas normas. De facto, este revela-se como um momento em que Berlim abraça um papel de potência ordenadora, procurando que a ordem europeia pós-crise seja estruturalmente diferente do ponto de vista das políticas económicas e financeiras, de uma forma que ostente a sua marca, mas sem deixar de obedecer a um pressuposto de abertura e inclusividade.
Tal não impede que os alemães devam mostrar maior abertura à participação dos outros países nas soluções para o final da crise, algo que até funcionaria como mensagem de que a sua liderança continuará a ser benevolente, de que a sua autocontenção permanecerá efectiva e de que o seu compromisso com a UE e com uma visão desta como comunidade de povos continua a prevalecer. Mas, por muito que tal seja politicamente incorrecto, com as devidas diferenças, deve considerar-se que a Alemanha hoje, como nos tempos de Bismarck, é benigna. 
Na Europa dos muros e das valas, acumulam-se as crises humanitárias
Sofia Lorena - Público
Nada de novo. Quando, em Abril, mais de 700 imigrantes se afogaram no Mediterrâneo num só dia, Bruxelas chegou mais depressa a acordo para lançar uma missão militar de combate aos traficantes na Líbia do que para decidir o que fazer os milhares que conseguem chegar vivos ao lado de cá.
Entretanto, acumulam-se os muros, as valas, as vedações e o policiamento. A Hungria anunciou esta semana que vai acelerar a construção de uma vala de 175 quilómetros onde assentará um muro de quatro metros de altura ao largo da sua fronteira com a Sérvia – deveria estar acabada em Novembro, ficará pronta no fim de Agosto. Os sérvios protestaram formalmente com Budapeste e consideram que ficarão com milhares de refugiados vindos da Grécia e dos Balcãs encurralados dentro do seu território – sendo que, na sua esmagadora maioria, estas pessoas não querem ficar na Hungria, tentam chegar à Áustria ou à Alemanha.
O Governo nacionalista de Víctor Orban respondeu que a Bulgária lançou um projecto semelhante, estando a erguer uma barreira de 160 quilómetros com a Turquia, e que também Espanha tem cercas e valas nos seus enclaves do Norte de África.
Tudo isto é verdade e pouco disto faz sentido. “Esta é uma crise tanto de política como de imigração e só pode evoluir em dois sentidos. Ou a Europa continua a militarizar as suas fronteiras e a debater à exaustão quotas de refugiados como estes fossem lixo tóxico, ou encontra coragem e liderança para pôr em prática um sistema de asilo em que os estados membros trabalhem juntos para assegurar que os refugiados têm condições básicas para viver onde quer que cheguem”, escreve no Guardian Daniel Trilling, editor da revista New Humanist.
Ao longo da fronteira sérvia com a Hungria, como noutras fronteiras da Europa, já há milhares de pessoas a dormirem em fábricas abandonadas, acampamentos ou junto à vala em construção. “Agora é Verão e podemos instalá-los em tendas”, disse à Reuters o ministro dos Assuntos Sociais sérvio, Aleksander Vulin. “O que é que vamos fazer com crianças, doentes e pessoas mais velhas quando chegarmos aos 20 graus negativos?”
Cameron promete “mais cães e cercas” para travar imigrantes no canal da Mancha
Sofia Lorena - Público
“Em vez de enviar soldados ou erguer cercas, devíamos ocupar-nos desta crise humanitária”, pede a ONU. Holande e Cameron vão conversar esta sexta-feira, por telefone
Numa semana marcada por tentativas massivas para atravessar o canal – na noite de terça para quarta-feira 2300 imigrantes tentaram fazê-lo, em grupos de algumas dezenas, e um sudanês de 23 anos morreu, atropelado por um camião; entretanto, morreu um segundo sudanês que tinha ficado gravemente ferido (são já dez os mortos desde dia 1 de Junho) –, a noite de quinta para sexta teve menos gente a tentar dar o salto mas vários confrontos entre a polícia francesa e os imigrantes. Uns 300 foram interceptados pelos agentes (Paris enviou 120 polícias antimotim na terça-feira para se juntarem aos 300 já mobilizados nos vários acessos ao canal) e alguns ficaram feridos na fuga.
David Cameron parou antes de anunciar a intervenção do Exército, algo que os tablóides britânicos não param de lhe exigir. Explicou apenas que para atenuar a espera dos camiões que ficam parados sempre que o canal encerra para se procurarem imigrantes, o Governo vai usar terrenos do Ministério da Defesa e oferecer parques de estacionamento alternativos à auto-estrada no exterior do porto britânico – na M20 têm-se formado filas de até 18 horas para chegar aos ferries que atravessam o canal. De acordo com o jornal Independent, os militares vão trabalhar com a polícia mas a operação será, para já, coordenada por autoridades civis.
O Governo conservador tem sido acusado pela oposição à direita de fraqueza (Nigel Farage, líder do partido antieuropeísta e xenófobo UKIP, também quer o Exército na fronteira) e pela oposição de esquerda e grupos de direitos humanos de “desumanizar” um drama que é essencialmente humanitário. A maioria das pessoas que sobrevivem em Calais a tentar chegar ao Reino Unido fugiram de nações devastadas por conflitos – Afeganistão, Sudão, Síria – ou por serem perseguidos nos seus países – Etiópia, Eritreia.
“Ele deveria lembrar-se que está a falar de pessoas, não de insectos”, afirmou a líder interina do Labour, Harriet Harman. O candidato à liderança dos trabalhistas Andy Burnham, falou numa linguagem “escandalosa”.
Peter Sudtherland, representante especial do secretário-geral das Nações Unidas para as Imigrações, lamentou “o debate excessivo sobre a questão de Calais” no Reino Unido. “Há cinco a dez mil pessoas a viverem em condições terríveis em Calais. Em vez de se pensar em enviar soldados ou em construir valas, deveríamos ocupar-nos desta crise humanitária”, disse, em declarações à emissora pública BBC.
França e Reino Unido já ergueram muitos quilómetros de cercas junto aos túneis e à volta do principal parque de estacionamento de camiões do lado francês. Na quarta-feira, a ministra do Interior, Theresa May, anunciou que Londres vai investir mais dez milhões de euros no reforço das vedações existentes.
Um sítio para viver em segurança
Do outro lado da fronteira, o Governo francês tem-se remetido ao silêncio quase total, com vários políticos britânicos e exigirem que a situação seja resolvida com Cameron e o Presidente François Hollande sentados à mesa - está previsto que os dois líderes falem ao telefone ainda esta sexta-feira. Depois do Ministério do Interior ter anunciado o reforço polícial, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Laurent Fabius, apelou agora a que esta questão, “uma situação aterradora do ponto de vista humanitário”, seja discutida para lá dos reforços policiais anunciados pelos dois países.
Num dos confrontos com a polícia, um sírio suspeito de levar consigo um objecto afiado para cortar as vedações, foi revistado e esteve uns 30 minutos com os agentes. “Nós estamos apenas a tentar atravessar para chegar a um lugar seguro. Para quê toda esta polícia? Temos guerras nos nossos países e precisamos de um sítio para viver em segurança”, disse aos polícias Adam, um sírio de 27 anos, do mesmo grupo, cita o Guardian.
“Podem enviar esta mensagem a David Cameron?”, pediu ao mesmo diário William Ali, outro sírio que perguntou ao jornalista por que é que o Reino Unido deixou de aceitar imigrantes que fogem da guerra. “Somos 40 pessoas – não somos mil, não somos duas mil, não somos um milhão. Na Jordânia, há um milhão de sírios. No Curdistão [iraquiano], há um milhão de sírios. Como é que o Reino Unido pode recusar 40 pessoas?”
Imigrantes criam cidade paralela na França
Cerca de 5.000 que tentam chegar ao Reino Unido acampam perto de mata em Calais, sob condições precárias
Chamado de 'jungle', local fica a 5 km do centro da cidade, onde não há sinal da crise migratória existente
LEANDRO COLON - FSP
Quem chega ao centro da cidade portuária de Calais, no extremo norte da França, não tem a percepção de que a cidade representa hoje um drama imigratório que assusta a Europa. Calais toca sua vida com restaurantes, lojas e hotéis sem sinal da recente confusão de imigrantes que tentam passar para o Reino Unido pelo Eurotúnel, que faz a ligação entre os dois países pelo canal da Mancha.
Basta percorrer cerca de cinco quilômetros, no entanto, para se deparar com o subúrbio miserável de barracas montadas em uma mata rasa à beira das rodovias que dão acesso ao túnel. É uma "Calais paralela", marginalizada dos que vivem de fato na cidade.
Os acampamentos são apelidados de "jungles" (selvas, em inglês). Estima-se que vivam ali cerca de 5.000 pessoas, em sua maioria homens, que deixaram países na África e na Ásia para chegar à Europa por terra (via Turquia) ou pelo mar Mediterrâneo.
As primeiras barracas começaram a surgir ainda no fim dos anos 90, mas o modelo atual de moradia se consolidou em 2002.
A Folha visitou os dois principais "jungles", marcados por muita poeira e pouca higiene.
Além das barracas, há uma farmácia, uma loja de bebidas, uma mesquita e uma igreja improvisadas, tudo debaixo de lona. Voluntários prestam assistência médica numa enfermaria.
Todo dia às 12h, dezenas de imigrantes se amontoam na portaria de um centro comunitário para tomarem banho. É quando recebem uma refeição.
Esse espaço foi reformado pelo governo francês, que diz ter gastado € 3 milhões (R$ 11,28 milhões) no local –visitantes, como jornalistas, são proibidos de conhecê-lo por dentro.
As autoridades dizem ainda que investiram recentemente € 500 mil (R$ 1,88 milhão) para melhorar as condições das barracas.
A prefeita de Calais, Natacha Bouchart, tem culpado o governo britânico pela crise.
Ela afirma que os benefícios sociais e o crescimento do mercado de trabalho informal no Reino Unido incentivam a chegada de mais pessoas a Calais.
Os britânicos, por sua vez, consideram que os franceses estimulam o fluxo de imigrantes (leia texto ao lado).
Bouchart diz que o país deveria compensar Calais em até € 50 milhões (R$ 188 milhões) por supostas perdas econômicas de imagem.
VIAGEM NO BANHEIRO
Os imigrantes passam o dia perambulando pelos acampamentos ou pela área do Eurotúnel –poucos se arriscam a se deslocar, de fato, para o centro da cidade.
O sudanês Victor Mohamed, 23, é um deles. Na manhã de sexta-feira (31), ele cumpriu a rotina de encher galões de água no acampamento. Chegou há apenas uma semana ao local. Desembarcou há seis meses na Sicília (Itália), após uma viagem de quatro dias de barco.
Viajou alguns dias de trem da Itália até Calais. E como pagou a viagem? "Conseguia entrar no trem e passava a maior parte do tempo no banheiro dos vagões para não ser pego pelo cobrador."
Europa, a miragem para lá dos muros
Público
Calais, depois das tragédias no Mediterrâneo, é agora a face mais visível de um drama insolúvel

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