sábado, 6 de dezembro de 2014

O crescimento dos EUA é benéfico para o Brasil
O Estado de S.Paulo
A economia norte-americana registrou comportamento favorável no bimestre outubro/novembro, confirmando a recuperação e antecipando um ritmo de crescimento do PIB da ordem de 3% no ano que vem. Houve aumento dos gastos dos consumidores e melhora do emprego, segundo o Livro Bege do Fed, o banco central dos Estados Unidos. O estudo é mais otimista que o anterior, de outubro.
Publicado oito vezes por ano, o Livro Bege reúne as análises dos 12 distritos regionais do Fed - Boston, Nova York, Filadélfia, Cleveland, Richmond, Atlanta, Chicago, Saint Louis, Minneapolis, Kansas City, Dallas e São Francisco. O trabalho ajuda a embasar as decisões do Comitê de Mercado Aberto (Fomc), com reunião marcada para os dias 16 e 17 próximos.
A recuperação da economia norte-americana é generalizada. Em Boston, por exemplo, 8 de 10 informantes notaram a recuperação industrial. Em Nova York, o mercado de trabalho é forte e o turismo se destaca. Em Chicago, a perspectiva de um inverno severo estimula o varejo. Em São Francisco, as atividades imobiliárias cresceram e os preços subiram nas áreas urbanas.
Por seu porte, a economia norte-americana compensa as dificuldades enfrentadas na União Europeia. Quinta-feira, o presidente do Banco Central Europeu (BCE), Mario Draghi, revisou para baixo as projeções de crescimento do PIB para o triênio 2014/2016 e admitiu novas medidas de relaxamento monetário.
A queda dos preços do petróleo no mercado global - de 37,9% no ano e de 15,6% em 30 dias, até 3/12 - beneficiou prontamente os consumidores norte-americanos. E o que estes economizaram em gasolina gastaram em outros itens, como vestuário apropriado para a temporada de frio intenso. Mas o aumento da demanda não se limitou a esse setor, chegando à tecnologia de informação, serviços financeiros, manufatura, construção, transporte, lazer e hotelaria. A procura por mão de obra cresceu tanto que, em distritos como Kansas City e Dallas, as empresas tiveram dificuldades para manter o pessoal qualificado.
Não só o mundo, mas o Brasil ganha com a retomada americana. Os Estados Unidos importam mais do Brasil - e, neste caso, mais manufaturados do que commodities, cujos preços caem. O pior da recuperação americana é a perspectiva de que o juro básico do Fed volte a subir, o que só se prevê para meados de 2015, quando se espera que o Brasil já esteja fazendo a lição de casa.
O Brasil tem jeito: privatização de estatais e quase extinção de cargos de confiança. Vai encarar, Dilma, ou só embromar?
Reinaldo Azevedo - VEJA
Na minha coluna  na Folha desta sexta, escrevo: “Tanto Paulo Roberto Costa como Youssef afirmam que o esquema da Petrobras era apenas uma das cabeças da hidra. É claro que a empresa não reúne condições particulares para ser tomada por uma quadrilha. Vigoram ali as condições estruturais presentes nas demais estatais e na administração. Logo… Até hoje ninguém se dispôs a me explicar por que um partido político reivindica a diretoria de operações de uma estatal. Com que propósito?”
Muito bem! Ao negar o pedido de revogação da prisão preventiva de Gerson de Mello Almada, vice-presidente da empresa Engevix, que está na carceragem da Polícia Federal em Curitiba, o juiz Sérgio Moro afirmou haver indícios de que “os crimes transcenderam a Petrobras”, classificando de “perturbadora” uma tabela apreendida em março com o doleiro Alberto Youssef. Ela traz uma lista com 750 obras públicas de infraestrutura. No papel, constavam “a entidade pública contratante, a proposta, o valor e o cliente do referido operador, sendo este sempre uma empreiteira”.
Pois é. O alerta que fiz na coluna da Folha não é o primeiro. Há tempo afirmo aqui que a Petrobras é apenas uma das franjas da organização criminosa que tomou conta do país. Como é que a gente coíbe a roubalheira? Se vocês querem saber, severas as leis até que são. O problema está na lentidão com que são aplicadas e na forma de organização do estado brasileiro.
Eis a palavra-chave para abrir as portas do enigma: estado. A corrupção não é nova no Brasil nem foi inventada pelo PT. Criadas as condições ideais, estejam certos, ela floresce em qualquer lugar: no Brasil, na Somália ou na Suécia. São as instituições e a certeza da punição que contêm os maus apetites humanos.
Vamos pensar de maneira lógica, uma dificuldade frequente no Brasil. E se a Embraer ainda fosse estatal? Resposta: ela estaria tomada pela máquina corrupta. E se a Vale ainda fosse estatal? Ela estaria tomada pela máquina corrupta. E se a telefonia ainda fosse estatal? Ela estaria tomada pela máquina corrupta. Vale dizer: mais estatais, mais poder aos corruptos. A relação é direta.
Sim, claro! Além das disposições objetivas — as tais condições —, é preciso que haja um partido que faça da corrupção um método, uma categoria de pensamento, um norte ético. A corrupção atinge proporções inéditas no país porque, nos 12 anos do mandarinato petista, o estado, mesmo sem aquelas empresas privatizadas em governos anteriores, passou a ter uma presença na economia só comparável à que havia no regime militar — que, todos sabemos, era essencialmente menos corrupto, o que não quer dizer que fosse desejável em muitos outros aspectos. É que a moral dos quartéis é mais severa do que a dos políticos.
Não se agiganta o estado impunemente. Acreditem: mesmo quando administrado por homens individualmente honestos, ele passa a atender a interesses de corporações, de grupos de pressão, de voluntariosos organizados que reivindicam para si o direito de comandar os destinos do país.
Se Dilma realmente quisesse deixar uma herança virtuosa, se tudo não passasse de embromação para fazer passar o tempo, se tivesse, de fato, a disposição de moralizar a vida pública, como prega em discursos, ela começaria o seu período de reformas não pela política, mas pela administração: profissionalize todos os postos das estatais, reduza os cargos federais de livre nomeação à sua dimensão mínima e reinicie o programa de privatizações. Começando pela Petrobras.
Vamos lá, Dilma, deixe a esquerda raivosa e a direita perplexa, como disse Collor um dia — só que sem a farsa! É claro que estou fazendo uma ironia. Não vai acontecer. Só estou evidenciando que o Brasil tem jeito. O que não tem jeito no país é a canalha que se apossa do bem público em proveito próprio. E ela é ainda mais safada quando alega fazer isso em nome de uma ideologia.
Lugar de Sininho é atrás das grades
Rodrigo Constantino - VEJA 
A “ativista” Elisa Quadros, mais conhecida como Sininho, está foragida. Seu mandado de prisão foi expedido após ficar claro que havia desrespeitado a medida cautelar que a proibia de participar de novos protestos. A paixão revolucionária falou mais alto. A inclinação à delinquência foi forte demais.
O desembargador Siro Darlan vai avaliar agora o novo pedido de habeas corpus, e enviou um pedido de explicações ao juiz titular da 27ª Vara Criminal, Flávio Itabaiana, antes de julgá-lo. De acordo com a investigação da Polícia Civil, no dia 15 de outubro, Sininho e seus comparsas estiveram em um protesto na Cinelândia, em frente à Câmara de Vereadores. A reportagem do GLOBO refresca nossa memória:
Quando deixou o presídio em Gericinó, no dia 24 de julho deste ano, Sininho e outros ativistas agrediram jornalistas. Ela estava presa juntamente com Camila Jourdan, coordenadora do programa de pós-graduação em filosofia da Uerj, e Igor D’Icarahy no complexo penitenciário. Na ocasião, cerca de 30 manifestantes que aguardavam do lado de fora atacaram repórteres que cobriam a saída dos ativistas. Houve reação, e uma briga generalizada tomou conta da rua em frente ao presídio. A situação só se acalmou quando os três acusados foram embora.
Na mesma noite em que deixou a prisão, Sininho voltou a se envolver num caso de polícia. Ela e uma amiga, identificada como Camila, que seria advogada, foram acusadas de terem agredido fisicamente Joia Sangenis, de 58 anos. A confusão aconteceu quando um grupo, em que estava Sininho, comemorava a libertação num restaurante na Cinelândia. Joia, que registrou queixa de lesão corporal na Delegacia Especial de Atendimento à Mulher (Deam), no Centro, contou que, ao chegar ao local foi acusada de delatora, o que deu início, de acordo com ela, a agressões.
Ou seja, trata-se claramente de alguém que não consegue se manter longe de confusões e respeitar as leis. Sininho já se mostrou reincidente, incapaz de agir conforme uma cidadã ordeira. Julga-se acima das leis, acha que sua “revolução” lhe concede um direito de ignorar as regras da sociedade. Delinquiu, e delinquirá novamente se permanecer solta, isso está claro. Seu lugar é na prisão, para garantir mais paz e ordem aos trabalhadores deste país e para proteger nosso patrimônio público.
PS: Um amigo e leitor, que é advogado, mandou email argumentando que mantê-la presa poderia, sim, ser visto como afronta ao estado de direito, e que não existe prisão antes de sentença condenatória transitada em julgado, salvo por razões cautelares (ex: evitar que a pessoa venha a delinquir novamente, intimidar testemunhas, seja linchada, etc). Lembra, ainda, que existem outras medidas cautelares diversas da prisão e eficazes, sendo menos invasivas à liberdade das pessoas. Pode ser, e não sou da área jurídica. Meu texto focou mais no que julgo ser o lugar ideal para esta “ativista”, que já deixou claro não ter apreço pelas leis, mas claro que defendo isso com base, antes, em todo o devido processo legal a que todos devem ter direito.
PRESIDÊNCIA DO PT DÁ VIDA DE MARAJÁ A RUI FALCÃO
Cláudio Humberto - O Globo

O ex-jornalista Rui Falcão, 71, subiu muito na vida após assumir a presidência do PT, em 2011. Ex-militante da organização clandestina VAR-Palmares e ex-sindicalista, Falcão se rendeu aos encantos da burguesia e agora leva vida de marajá, com hábitos de milionário, que revela ao usar o jatinho Cessna Citation CJ3, prefixo PP-MPP, que alugou ontem para uma viagem solitária de São Paulo a Florianópolis.

LONGE DO CHECK-IN

O jato fretado à TAM custou R$ 20 mil. A mesma empresa cobra vinte vezes menos por passagem em avião de carreira, no mesmo trecho.

PARTIDO RICO

Nascido em bases operárias, o PT agora enricou, recebendo “doações” milionárias de empresas que prestam serviços aos governos petistas.

LAVAGEM DE ‘PROPINA’

Parte do dinheiro roubado da Petrobras foi entregue ao PT por meio de “doações” oficiais, segundo executivos presos na Operação Lava Jato.

SEM PRECEDENTES

Empresas contratadas nos governos Lula e Dilma fazem “doações” estranhas. Só em 2013, ano não-eleitoral, foram R$ 79,7 milhões.

TUBOS ‘XING LING’ COMPROMETEM ABREU E LIMA

A refinaria Abreu e Lima pode estar operando com tubos falsificados, sob risco até de explosão. Superfaturado, o monumento ao desperdício da Petrobras em Pernambuco era responsabilidade do ex-diretor Paulo Roberta Costa, que relatou diversas fraudes em delação premiada ao juiz federal Sergio Moro, do Paraná. O site especializado Petronotícias suspeita que o material vem da China, sem a devida certificação.

PELO CANO
O consórcio liderado pela Camargo Corrêa teria comprado os tubos da Sanko Sider, que nega a denúncia, mas não diz de quem comprou.

VELHA PRÁTICA

A sueca Skanska também foi alvo em 2008 de denúncia de tubos fajutos, numa térmica da Petrobras em Cubatão (SP).

A FRAUDE DA FRAUDE

Contra o risco de vazamento e até de explosão, os tubos devem ter certificado do API (EUA), mas fraudadores falsificam o certificado.

DOIDO POR AVIÕES...

Disfarçaram, mas o Hércules C-130 da FAB, que fez pouso forçado, há dias, levava à estação espacial Antártica Sérgio Solon de Pontes, assessor-chefe da presidência do TSE, e ex-assessor de Dilma.

...SEM MEDO DE VOAR
Secretário de Turismo, o ex-assessor de Dilma na Casa Civil foi convidado VIP no primeiro voo da Eithad Airways à capital, Abu Dhabi, com direito a estadia em hotel luxuoso e visita a uma ilha estilo Caras.

DAQUI NÃO SAIO
Em cabo-de-guerra para ficar no comando da Marinha no Dilma 2, o enrolado almirante Moura Neto indicou o almirante de esquadra Carlos Augusto de Souza para o Superior Tribunal Militar, que será substituído por Wilson Barbosa Guerra, agora chefe do Estado-Maior da Marinha.

TERCEIRA VIA

O deputado André Figueiredo (PDT-CE) procurou dirigentes do PROS, PCdoB e DEM em busca de apoio para disputar o comando da Câmara contra o líder do PMDB, Eduardo Cunha (RJ), em 2015.

JUNTOS NA CAUSA

Na tentativa de salvar sua candidatura à presidência da Câmara, Júlio Delgado (PSB) propôs a André Figueiredo (PDT) acordo de apoio mútuo a quem disputar o segundo turno contra Eduardo Cunha.

RETA FINAL

O governador Agnelo Queiroz (PT) ficou desconsertado com aplausos calorosos para o sucessor Rodrigo Rollemberg (PSB), na posse de Leonardo Bessa como procurador-geral de Justiça do DF.

BOLA DA VEZ
O senador Eunício Oliveira (CE) e o deputado Henrique Alves (RN) travam queda de braço no PMDB pelo Ministério da Integração. O PT e o PROS também querem, e tentam vetar o senador cearense.

NÃO DÁ IDEIA

Atolado com a baixa mundial do preço de petróleo, o semiditador Nicolás Maduro teria vendido uma ilha da Venezuela a chineses para pagar dívidas, dizem jornais de Hong-Kong.

ONTEM E HOJE

Desabafo na internet: “Antigamente os cartazes nas ruas, com rosto de criminosos, ofereciam recompensas. Hoje em dia, pedem votos.”
A vitória da corrupção 
PLÁCIDO FERNANDES VIEIRA - Correio Braziliense  
É a gravíssima a confissão de um executivo da Toyo Setal de que parte dos recursos desviados da Petrobras, entre 2008 e 2011, ia parar nos cofres do PT, por meio de doações oficiais ao partido. O caso, se comprovado, configura um crime "quase" perfeito, com a quadrilha se valendo da Justiça Eleitoral para lavar dinheiro roubado via aditivos contratuais com a estatal. Uma ousadia e tanto.
Como se trata de delação premiada, o diretor da empreiteira não pode mentir. Se o fizer, corre o o risco de perder o benefício judicial de redução da pena. Então, fica a pergunta: a grana da corrupção irrigou a campanha de Dilma em 2010? Se a resposta for sim, o escândalo da Petrobras pode chegar ao topo da cadeia de comando no Planalto e ter desdobramentos muito mais graves do que o mensalão.
À medida que as investigações da Operação Lava-Jato avançam, fica evidente o desconforto do governo com as revelações que vêm à tona. Não bastasse o noticiário negativo sobre as maracutaias na Petrobras, o juiz federal que chefia as investigações, Sergio Moro, afirmou haver indícios de que o mesmo esquema de ladroagem descoberto na maior estatal brasileira se estende a cerca de 750 obras públicas de infraestrutura no país.
Em linguagem figurada, é como se o câncer da corrupção, transmitido pela mesma organização criminosa, provocasse infecção generalizada no Brasil. Todo o "mapeamento" da sangria está detalhado, segundo o juiz, em agenda do doleiro Alberto Youssef apreendida pela Polícia Federal. São bilhões e bilhões de reais afanados dos cofres públicos. Dinheiro de impostos que você, leitor, e todos os brasileiros pagam. Sim: poderia melhorar a precária situação de escolas e hospitais no país. Em vez disso, serve para enriquecer corruptos e projetos de poder eivados de populismo e tentações autoritárias.
Para além do populismo
ALBERTO AGGIO - O Estado de S.Paulo
"Há um fantasma que assombra a América Latina: esse fantasma é o populismo." Com essa imagem Ernesto Laclau dá tintas dramáticas a seu A Razão Populista, ao sintetizar suas reflexões a respeito do que caracteriza os governos chamados de populistas na América Latina do nosso tempo. A menção ao "fantasma do populismo" reporta-se a uma temerária e anômala presença que, há algumas décadas, se imaginava definitivamente afastada do continente.
Desde o pós-guerra, no século passado, uma marca pejorativa acompanha o populismo. Ele seria o "outro" repugnante, uma manifestação aberrante e anormal, uma síndrome, um espectro ou mesmo uma recorrente "tentação" que acompanha os atores políticos latino-americanos como via para alcançar e manter-se no poder. A paráfrase de Marx é imediatamente reconhecível e se pode deduzir que Laclau pensa em reservar ao "populismo atual" um lugar idêntico ou semelhante ao que Marx imaginava para o comunismo na Europa dos idos de 1848.
Diferentemente das expectativas de Laclau, o populismo do século 21, pelo menos até o momento, não parece provocar as grandes esperanças que o comunismo haveria de provocar no seu tempo, muito depois da célebre frase de Marx. Nos países onde opera, ao contrário, exibe alguns módicos avanços sociais, baseados principalmente na ampliação do consumo, apresenta extremas dificuldades econômicas, com a exceção parcial da Bolívia de Evo Morales, e em quase todos expressa inclinações antidemocráticas preocupantes.
Para além dessas questões, as diferenciações entre esses governos levam a uma pergunta inevitável: ainda é possível ou produtivo mobilizar o conceito de populismo para pensar a América Latina de hoje? A pergunta tem sentido porque o populismo é reconhecidamente um conceito problemático, por suas ambiguidade, imprecisão, vagueza, generalização, elasticidade, subjetividade, etc.
O populismo emergiu num cenário de crise do liberalismo e de ascensão de massas, na América Latina e no mundo. Buscava a construção de uma sociedade industrial e moderna, politicamente orientada pelo Estado, incorporando as massas à cidadania pela via dos direitos sociais. Realizou uma "fuga para a frente", cujo objetivo era realizar transformações sem rupturas violentas, evitando o que havia ocorrido nos processos capitalistas e socialistas de industrialização retardatária.
O populismo interditou a via de passagem "clássica" para a modernidade, caracterizada pela integração autônoma das classes populares às estruturas políticas da democracia liberal. Ao invés disso, conectou desenvolvimento econômico e espaços institucionalizados de integração político-social de massas, reservando ao Estado um papel central. Essa "história sem síntese" foi vista como a principal razão de a sociedade latino-americana expressar claros limites para vivenciar a modernidade. Mais do que um conceito, o populismo passou a ser, portanto, uma teoria explicativa a respeito dos descaminhos da modernidade latino-americana.
A trajetória do populismo no século 20 foi, em certo sentido, democratizadora, ainda que, em geral, avessa ao constitucionalismo e ao liberalismo. Foi marcada pela incompletude de um Estado de bem-estar social limitado, de um programa nacionalista que estatizava apenas alguns setores da economia, de uma legislação trabalhista e corporativista que organizava as classes populares e, ao mesmo tempo, lhes retirava a autonomia. Entretanto, o grau de coesão foi tão marcante que tais características foram, em geral, mantidas por aqueles que romperam com o populismo e assumiram o poder em aliança com os militares.
A luta política contra os regimes autoritários deslocou o populismo do centro da política latino-americana, recusou a centralidade do Estado e promoveu a autonomia da sociedade civil em sua dinâmica de expansão da cidadania. No plano mundial, as mudanças alteraram as relações entre política e mercados, afetando todos os governos. Tudo isso parecia enterrar definitivamente o populismo como um constructo ideológico passível de ser mobilizável apenas na "era dos Estados nacionais", mas anacrônico no contexto de globalização.
Contudo a mesma conjuntura que viu o avanço das amplas liberdades, do pluralismo e da alternância de poder nas democracias latino-americanas recém-saídas do autoritarismo também produziu uma espécie de "revanche do populismo", que hoje se expressa na moldura do bolivarianismo. Nela se supõe a emergência de uma forma de política na qual a relação entre governantes e governados abriria passagem para a construção de uma democracia direta e participativa, superior à democracia representativa, entendida como obsoleta e ineficiente. O populismo do século 21 busca uma identidade integral entre a instituição do "povo-sujeito" e a política, anulando a ideia de representação, bem como a noção de "governo do povo", entendida como uma contradição em termos.
Para Laclau, a razão populista e a razão política são idênticas, o que desloca para o plano secundário a deliberação racional vigente nas democracias ocidentais. Essa radicalização contraposta à modernidade, avessa ao indivíduo e sua expressão autônoma, que dá sustentação ao populismo do século 21, é sintetizada por Félix Patzi, ex-ministro da Educação da Bolívia, como "uma espécie de autoritarismo baseado no consenso".
O populismo dos dias que correm é visivelmente uma força regressiva no político. Nele predominam o autoritarismo, a intolerância e o antipluralismo. Onde é possível, afronta os direitos humanos, suprime as liberdades, reprime opositores, persegue juízes e jornalistas. Onde a ordem constitucional democrática é mais legitimada, a resistência é maior a esse tipo de movimento, que, em termos mais apropriados, nem deveria ser qualificado de populismo.
José Eduardo Cardozo volta a meter os pés pelos pés e a se comportar como advogado do PT
Reinaldo Azevedo - VEJA
José Eduardo Cardozo, como a personagem citada por Millôr, é um homem destemido e, depois de chegar ao limite, sempre dá mais um passo. É evidente que, como já destaquei aqui e como afirmou ontem o senador Aécio Neves (MG), presidente do PSDB, é um despropósito que seja Cardozo o escalado para defender o PT e a “candidata” (não a presidente!) Dilma Rousseff da acusação feita por um executivo. Luís Inácio Adams foi na mesma trilha, rebaixando um pouquinho mais as instituições, como de hábito.
Pois não é que, depois de ter incorrido no absurdo na quinta, Cardozo volta à carga nesta sexta? Afirmou:
“Não se podem fazer especulações políticas com investigações. Atrapalha as investigações e, muitas vezes, serve a um revanchismo que eu acho que perdeu espaço para a democracia brasileira. E isso afirmo como ministro da Justiça. Cabe a mim defender a democracia e a verdade dos fatos. [...] Agora, não podemos transformar isso, quando um delator fala em 11 partidos que receberam doações legais em uma disputa política eleitoral, localizando uma campanha específica”.
Dá quase para fazer o jogo de sete erros. Em primeiro lugar, especulações são livres. A Constituição garante o direito de especular. Revanchismo? Disputas políticas dentro das regras do jogo, meu senhor, não são “revanchismo”, a menos que se admita que o vencedor transgrediu as linhas da normalidade. Foi o caso? Que história é essa de “cabe a mim defender a democracia”??? Ao senhor e a todos os brasileiros! O fato de Cardozo ser ministro da Justiça não faz dele um juiz, com competência para definir o que é “democracia” e o que é “especulação”. Quanto a escolher uma “campanha específica”, o que respondo ao doutor? Só uma “campanha específica” elegeu a presidente da República.
Cardozo se mostrou a segunda figura mais deletéria do governo Dilma, só perdendo para Gilberto Carvalho. Imaginem que foi capaz de dizer o seguinte:
“Cabe ao ministro da Justiça garantir investigações, sejam na Petrobras ou no cartel do metrô em São Paulo”. Uma
sutileza tão elefantina quanto tem se tornado seu perfil físico. Ao tocar no “cartel do Metrô de São Paulo” — e vou dar de barato, para efeitos de raciocínio, que ele tenha existido como diz a PF —, é claro que Cardozo tenta criar uma equivalência entre os dois casos, o que é, por si, um escândalo, seja na natureza do crime apontado, seja no volume de recursos. De resto, por que Cardozo não toca no cartel do metrô de Belo Horizonte ou de Porto Alegre?
Sigamos. Ministro da Justiça não garante nada. Quem garante é a lei. Quer dizer que, se Cardozo deixar de “garantir”, a Polícia Federal passará a ter menos prerrogativas? Tenham paciência!
Cardozo, impávido e cada vez mais colosso, foi adiante:
“O que eu disse não foi em defesa de nenhum partido, foi em defesa dos fatos que constaram de depoimentos. Porque eu ouvi inúmeras declarações que diziam textualmente que aquela situação divulgada aproximava os fatos investigados da campanha da presidente Dilma, do Palácio do Planalto etc. Mas vamos ver os fatos. [...] Quem disse que essa doação, em primeiro lugar, havia um conluio para recebê-la? Isso não está claro nesse depoimento e, por isso, está sendo investigado. Em segundo lugar, não está claro que em momento algum [o dinheiro] tenha ido para a campanha da presidente Dilma em 2010 ou para o governador A, B, C ou D”.
Ainda que assim fosse, esse não é um texto para Cardozo, mas para o presidente do PT ou para o tesoureiro. Dê-se ao respeito, meu senhor.
O líder do PSDB na Câmara, Antonio Imbassahy (BA), emitiu uma nota muito oportuna. Lê-se lá:
“Os ministros, talvez pela ansiedade de se cacifarem para a vaga que está aberta no Supremo Tribunal Federal, queiram mostrar serviço e misturem as atribuições de Estado ao papel partidário. É até compreensível que ambos estejam também preocupados com a situação da presidente Dilma, que pode, lá na frente, enfrentar situações mais difíceis ainda, mas não está entre suas atribuições serem advogados do PT. Isso é inadmissível”.
É isso!
Impeachment não é golpismo  
Dilma erra ao classificar como “golpistas” aqueles que pedem sua saída, desde que ela ocorra dentro dos legítimos marcos institucionais   
GAZETA DO POVO - PR
A queda de Fernando Collor de Mello, sacramentada pelo Congresso Nacional e sob a mais estrita legalidade constitucional em 1992, é até hoje lembrada como uma referência da pujança que a nossa democracia alcançou após duas sofridas décadas de domínio ditatorial. Naquela época, o Partido dos Trabalhadores esteve na linha de frente dos protestos pelo impeachment, ao lado de outras legendas políticas e entidades como a União Nacional dos Estudantes, a Ordem dos Advogados do Brasil e a Associação Brasileira de Imprensa. Mereceram aplausos e passaram à história os que viram em Collor de Mello ações ou omissões caracterizadas como crime de responsabilidade.
Nos anos seguintes, durante os dois mandatos de Fernando Henrique Cardoso, o PT igualmente liderou manifestações cujo mote era “Fora FHC e o FMI”, em referência ao Fundo Monetário Internacional. Um direito legítimo, desde que exercido pelas vias institucionais, daqueles que viam também na gestão tucana indícios que poderiam levar à saída de FHC do Planalto, embora a mobilização não criado ambiente político propício a que se chegasse ao impeachment, como aconteceu com Collor.
A história se repete agora; à medida que o escândalo das propinas da Petrobras vai ficando mais e mais cabeludo, vários grupos, não necessariamente vinculados a partidos políticos, têm percorrido ruas de várias capitais brasileiras com o refrão “Fora Dilma” – um novo protesto está marcado para este sábado. A reação do PT e da própria presidente a essas manifestações, no entanto, deixa evidente uma incoerência em relação à visão que o partido tinha das mobilizações que protagonizou no passado.
“Golpista” é o adjetivo mais usado nesses casos – e o PT não está falando apenas dos verdadeiros golpistas, aqueles (felizmente, uma minoria) que pedem um golpe militar que deponha Dilma: o termo, na boca da presidente e de outros membros do PT, engloba qualquer um que vá às ruas pelo impeachment. Na opinião da presidente, seriam golpistas os que, seja nas tribunas do Congresso Nacional ou nas passeatas, acreditam que a corrupção instalada nos estamentos governamentais seria motivo suficiente para desalojá-la do Palácio do Planalto. Ainda na semana passada, reunida em Fortaleza com o diretório nacional do PT, Dilma discursou: “Esses golpistas que hoje têm essa característica, eles não nos perdoam por estar tanto tempo fora do poder”. Em seguida, tentou relativizar a visão autoritária presente na raiz da classificação que dá aos oposicionistas: “Temos de tratar isso com tranquilidade e serenidade, não podemos cair em nenhuma provocação e não faremos radicalismo gratuito, pois temos a responsabilidade de governar”.
O impeachment é um instrumento legal e legítimo nas melhores democracias e se aplica aos governantes que cometam crimes de responsabilidade – isto é, que, no exercício do poder, adotem condutas que atentem contra a Constituição e, entre outros motivos, atentem também contra a probidade administrativa. Assim, não poderá ser visto como golpe se for proposto o impeachment da presidente se ficar provado que ela sabia, se beneficiou ou nada fez para conter a corrupção no seio do governo.
Se em 1992 e nos anos FHC as manifestações populares eram legítimas, por que não considerar igualmente legítimos os movimentos que pedem o “Fora Dilma”? Sem entrar no mérito da luta, que já comentamos em ocasiões anteriores, não há razão para condenar sua manifestação, feita até agora de forma pacífica e conduzida sob a proteção de cláusulas pétreas da Constituição que garantem a livre expressão do pensamento, o que desautoriza a presidente a considerar como golpistas os que pedem “Fora Dilma” diante do escândalo da Petrobras. Ao demonizar a oposição, institucional ou popular, como golpista, a presidente usa palavras e atitudes que a aproximam do autoritarismo e parece desconhecer a legitimidade que a Constituição confere a seus adversários.
Fim da mágica na economia
CORREIO BRAZILIENSE 
O segundo governo de Dilma Rousseff deu ontem um passo importante para se distanciar das trapalhadas que marcaram a condução da política econômica nos últimos quatro anos. Poucas horas depois de viver uma intensa batalha para livrar a presidente do vexame de haver produzido deficit em vez de cumprir a meta de gerar superavit fiscal primário em 2014, o Congresso Nacional recebeu uma proposta da nova equipe econômica que bate um dos últimos pregos no caixão de fantasias, truques e voluntarismo do primeiro mandato.
Muito diferente do projeto da equipe anterior, que propôs e obteve a mágica de transformar perdas em ganhos, empurrando perigosamente o país para o descrédito internacional, o que os futuros ministros Joaquim Levy (Fazenda) e Nelson Barbosa (Planejamento) produziram foi mais uma medida para recuperar a confiança dos consumidores e dos agentes econômicos na capacidade do governo de lidar com a economia.
Propõem uma honesta redução do entusiasmo contido no Projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) para 2015, já em tramitação. Em vez do crescimento de 2% do PIB - obviamente ilusório, ante o tamanho do desastre de 2014 e a falta de inversão consistente do quadro de desaceleração da economia -, passa a valer a previsão de 0,8%, uma dramática redução de 60%.
Além de mais alinhada com a média das previsões de 100 especialistas consultados semanalmente pelo Banco Central, essa expectativa restabelece a compatibilidade aritmética com a meta de superavit primário de R$ 66,3 bilhões, equivalentes a 1,2% do PIB.
É uma meta modesta, mas ainda assim duríssima, ante os desvarios e comprometimentos dos últimos anos, e que se pretende cumprir sem contar com a ilusão de recordes de arrecadação, antes proporcionados pelo crescimento econômico. Na proposta original, a LDO de 2015 prometia superavit primário de R$ 143,7 bilhões, equivalentes a 2% do PIB, já considerados os abatimentos legais das aplicações no Programa de Aceleração do Crescimento.
É uma mudança e tanto. Ficaram famosas as previsões do ainda ministro Guido Mantega, da Fazenda, de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) sempre muito acima do que indicava a realidade dos fatos.
Mais danosa foi a maneira irresponsável como a primeira equipe da presidente Dilma - em grande parte conduzida por ela mesma - tratou a política fiscal nos últimos dois anos. De fato, enquanto as previsões de Mantega para o crescimento da economia viravam chacota, a distância entre os gastos e as receitas do governo central crescia como um tumor, que qualquer manual de economia classificaria como maligno.
Ao colocar o calendário eleitoral acima da gestão dos recursos públicos, o governo simplesmente desconheceu a meta original de superavit primário de 3,7% do PIB, ou R$ 167,4 bilhões, em 2014. Foi abatendo tudo que podia e providenciando jeitinhos contábeis para esconder o resto do desarranjo.
Já as alterações propostas pela nova equipe parecem sinalizar que a presidente vai mesmo fazer um governo diferente. Entre manter os equívocos de uma matriz econômica que deu errado ou o constrangimento de cumprir o receituário pregado pela oposição, Dilma parece ter escolhido o mais sensato. Resta-lhe bancar a decisão e convencer setores menos esclarecidos de seu partido de que se trata de salvar seu governo e os avanços sociais obtidos pelo país.

Oportunidades da crise
João Bosco Rabello - OESP
O governo logrou a aprovação da anistia da meta fiscal, a duras penas, mas a oposição também conseguiu alcançar seu objetivo de impor imenso desgaste político à presidente Dilma Rousseff, ajudada pelo PMDB que deu a maioria que lhe faltava enquanto executava sua estratégia de pressionar o Planalto.
O assunto ganhou visibilidade nacional , assim como a leitura de calote que a oposição conseguiu agregar ao projeto. Na volta mesmo do Congresso Nacional, na madrugada de hoje, era possível a muitos atores secundários da votação constatar que não há motorista de táxi que tivesse interpretação diferente que a disseminada pela oposição para o episódio.
Os telejornais cuidaram de explicar didaticamente o tema, de alguma complexidade econômica e pontuado por terminologias distantes do cotidiano da maioria das pessoas, traduzindo-o em uma conta de assimilação ginasiana.
Ao governo não restava alternativa senão cruzar o rubicão, que implicou o reconhecimento da impossibilidade de cumprir metas que ele próprio estipulara, passando um atestado público de má gestão – de resto, amplamente consolidada na opinião pública, diante das contradições entre o dioscurso de campanha e o dia seguinte à reeleição de Dilma Rousseff.
Não há dúvida para ninguém que o país está com a economia estagnada, as contas públicas destroçadas, investimentos paralisados, crescimento quase zero e que esse conjunto desanimador não pode ser atribuído a uma crise externa.
Ajuda essa última percepção o avassalador avanço das investigações que desnudam um esquema de corrupção de volume ímpar no país, em que um gerente de terceiro escalão da Petrobras se compromete a devolver 100 milhões de dólares.
O cidadão começa a fazer contas e a estabelecer a linha lógica de raciocínio entre corrupção de Estado e ineficiência de gestão, equação que explica a deterioração dos serviços públicos em contrapartida a uma carga tributária altíssima e corrosiva.
Mesmo assim, o PT ainda sonha em voltar a viver perigosamente, estimulando a ideia de que o novo ministro da Fazenda, Joaquim Levy, tem prazo de vida no governo, no qual ficaria tempo suficiente para consertar os erros, assumindo o ônus das medidas recessivas.
Pode-se deduzir por pensamentos manifestados por alguns integrantes do partido que a guinada ortodoxa de Dilma tem prazo de validade, estimado em dois anos , ou pouco mais, tempo que se calcula para repor a economia nos trilhos.
Cumprida essa etapa, voltaria o discurso e a prática anteriores para viabilizar a candidatura do ex-presidente Lula em 2018, que se vitoriosa completaria o ciclo de 20 anos de poder petista. É uma nova ilusão, mas com riscos concretos de se levar o país à bancarrota.
A presidente Dilma ainda não deu os sinais necessários para tirar a nomeação de Joaquim Levy do plano da dúvida quanto à sua continuidade como modelo permanente para a economia. A dúvida do mercado em relação ao assunto é alimentada pelas versões como a do líder do PT, Humberto Costa (PE), que dão à nomeação de Levy caráter transitório (“é apenas uma etapa”).
A rigor, a presidente perde a oportunidade de enfrentar o fisiologismo de sua amplíssima base de sustentação no Congresso, ao manter o número de 39 ministérios como base mpara as negociações políticas em troca do apoio parlamentar.
O governo estimula a argumentação de que o número de Pastas, considerando as várias secretarias que têm status de ministério, mas estruturas simples, não é fator essencial no contexto do gasto público, o que orçamentariamente pode até fazer algum sentido.
Mas o nefasto é o que sinaliza e propicia estrutura tão grande. Sinaliza para um modelo de fartura, em época de incontornável austeridade, e propicia gastos fora do interesse público, para abrigar conveniências de uma constelação partidária que vai a 30 legendas, da qual se extraem apenas seis ou sete com legitimidade de representação, configurando uma maioria que se dedica tão somente à extorsão política.
Terá uma nova oportunidade a presidente da República de promover mudança também nesses critérios, quando desabar sobre o Congresso Nacional o telhado de concreto construído pela aliança mafiosa entre construtoras e os partidos da base de sustentação de seu governo.
 Se tomados por verdadeiros os frequentes sinais da presidente de que o sistema a torna refém – e a qualquer outro – da chantagem política de um universo de 30 partidos – que, teoricamente, impõe a submissão à vontade dos três maiores para fazer valer a força do governo -, a reforma política é a saída, ainda que nem precise se dar em toda a extensão ideal.
 Pois o quadro que advirá das investigações da Petrobrás oferece a oportunidade histórica de somar esses cenários fragmentados em um movimento que possa alterar o contexto nocivo atual. Desde que a presidente se disponha a liderar a reforma em bases plurais ao invés de fazer coro a mudanças sectárias que interessam apenas ao PT.
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Corrupção institucionalizada 
MERVAL PEREIRA - O Globo
O que todos supúnhamos está ganhando contornos de verdade: o esquema de corrupção nas licitações de obras públicas está espalhado por vários setores no país, e não se restringe apenas à Petrobras.
Com conhecimento de causa, essa certeza já havia sido dada pelo ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa, que iniciou o processo de delação premiada nas investigações do escândalo que ficou conhecido como petrolão.
Em recente sessão da CPI mista do Congresso, Costa afirmou que o mesmo esquema de corrupção que existe na estatal se repete em todos os outros contratos públicos do país, incluindo ferrovias, portos, aeroportos e demais obras.
O próprio juiz Sérgio Moro, do Paraná, responsável pelas investigações da Operação Lava-Jato, disse ontem que as evidências já recolhidas indicam que o esquema de fraude em licitação "vai muito além" da Petrobras. Ele classificou de "perturbadora" uma tabela apreendida em março com o doleiro Alberto Youssef, que continha uma lista de cerca de 750 obras públicas de infraestrutura.
Ali, constavam "a entidade pública contratante, a proposta, o valor e o cliente do referido operador, sendo este sempre uma empreiteira", mostrando pelo menos o interesse do doleiro em prospectar novos negócios ilegais no mesmo setor em que já operava.
O ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa confirmou para a CPI outro ponto que já se sabia pelas evidências: para ser indicado para diretoria de estatal, "em todos os governos, desde Sarney, Itamar, Fernando Henrique, Lula, Dilma", é preciso ter apoio político.
O interesse de políticos por indicações para "a diretoria que fura poço" ou para chefe da Receita Federal no aeroporto de Cumbica ou no Porto de Santos ou para diretor da Transpetro sempre existiu, e a ilação mais generalizada na opinião pública é que ninguém se interessa por um cargo desses à toa, para fazer que o Porto de Santos ou a alfândega funcionem melhor.
E dá também para imaginar que os governantes aceitavam que políticos importantes exercessem influência em áreas estratégicas, como diretorias de estatais, fazendo vista grossa para suas reais intenções. Eram esquemas políticos de corrupção pontuais, mesmo tradicionais e que prejudicavam o andamento dos serviços públicos, subvertendo os valores que deveriam orientá-los.
O desvio de licitações e a formação de cartéis sempre foram denunciados e vemos agora em São Paulo, graças a investigações de autoridades suíças, o desmembramento de um cartel que funcionava até recentemente nos governos do PSDB, desde Mario Covas.
Vários executivos de empresas estatais responsáveis pelos transportes públicos, sejam trens ou metrô, foram indiciados, inclusive os atuais presidente e o diretor de operações da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM), Mário Bandeira e José Luiz Lavorente. Apesar de o esquema estar em vigor há muitos anos, não há até o momento nenhuma acusação de que o PSDB montou-o para financiar suas atividades políticas.
O assunto está sendo tratado como um esquema de corrupção tradicional, digamos assim, e o que se deve estranhar é que tenha funcionado durante tanto tempo sem que três governos tucanos notassem.
Ao contrário, no petrolão (e já houve a comprovação disso no mensalão) há indicações de que esses esquemas passaram a ser institucionalizados, e o que era área de influência deste ou daquele político ou grupo político passou a obedecer a um esquema mais organizado de financiamento dos partidos políticos.
O Ministério Público Federal já baseava sua investigação na chance de que parte do dinheiro cobrado por diretores da Petrobras para firmar contratos com empreiteiras investigadas pela Lava-Jato pudesse ter sido repassado a partidos políticos para financiar campanhas.
No documento que baseou as primeiras prisões de empreiteiros, o MPF afirmava que as investigações da PF apontam que as doações para campanhas são "mera estratégia de lavagem de capitais" e que o pagamento de propina teria sido utilizado pelas empreiteiras para "obtenção de vantagem indevida".
Esse esquema foi parcialmente confirmado pela delação premiada do executivo Mendonça Neto, da Toyo Setal, que revelou que verba desviada de uma obra da Petrobras fora transformada em doação legal para o PT, por orientação do ex-diretor da Petrobras Renato Duque, indicado pelo ex-ministro José Dirceu.
A corrupção institucionalizada é um degrau acima na escala da degradação do Estado brasileiro.
Inflação como herança maldita
O Estado de S.Paulo
Os preços continuam subindo rapidamente e corroendo os salários, novas pressões devem surgir e será preciso manter por um bom tempo uma forte política de ajuste - se o governo, é claro, abandonar a tolerância à espiral inflacionária. Os últimos números da inflação mais que justificam o aperto recém-anunciado pelo Banco Central (BC), um aumento da taxa básica de juros de 11,25% para 11,75%. O indicador oficial dos preços no varejo subiu 0,51% no mês passado e 6,56% em 12 meses. A tolerância do governo manteve a alta de preços bem acima da meta de 4,5% nos últimos cinco anos. Neste ano, até novembro, chegou a 5,58% a inflação medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), referência para a política anti-inflacionária.
Se a taxa do mês passado se repetir em dezembro, o aumento acumulado em 2014 chegará a 6,12%. Mas há previsões, no mercado, de números bem mais próximos do limite de tolerância, de 6,5%. As estimativas para 2015 ainda apontam resultados na vizinhança dessa marca.
Manter o índice anual abaixo de 6,5% tem sido a principal preocupação do governo. A meta oficial é de 4,5%, mas, na retórica da presidente Dilma Rousseff, pode ser qualquer ponto até o limite de tolerância. O uso corrente da expressão "teto da meta" - erro cometido até por analistas de instituições importantes - acaba avalizando a fala presidencial e dando um ar de seriedade a uma embromação.
Autoridades continuam negando responsabilidade pela disparada dos preços. É muito mais confortável apontar causas independentes da ação - e dos erros - governamentais. A seca é uma justificativa quase perfeita, por seu impactos, tanto reais quanto supostos, no custo da comida. É uma saída fácil, porque o item "alimentação e bebidas" tem o maior peso na composição do IPCA. Com alta de 7,83% em 12 meses, esse item teve um impacto de 1,92 ponto na formação dos 6,56% acumulados no período.
Mas outros itens, com peso menor no resultado geral, subiram mais que alimentação e bebidas: habitação, 8,82%; despesas pessoais, 8,63%; e educação, 8,43%. Esses três componentes, somados, produziram uma inflação de 2,36%, maior que a dos alimentos. Enfim, excluindo-se comida e bebida, sobra uma alta de preços de 4,64%, acima da meta e muito maior que a da maior parte dos emergentes.
Não há como negar: a inflação brasileira resulta basicamente de uma combinação de erros políticos e de atos irresponsáveis do governo, como o excesso de gastos públicos e o estímulo imprudente ao consumo (bem maior que à produção). Além disso, a política educacional demagógica e mal orientada explica em boa parte os desajustes no mercado de trabalho, onde continua escassa a oferta de mão de obra com algum grau, embora modesto, de qualificação. Somando-se ainda os custos crescentes da logística e estará dada a maior parte das condições para um desarranjo persistente dos preços.
Com ou sem seca, com preços em alta ou em queda no mercado internacional de commodities, a inflação brasileira tem permanecido há muito tempo longe da meta e muito acima dos padrões internacionais. Excluída a Argentina, a inflação média do Grupo dos 20 (G-20) ficou em 2,5% nos 12 meses até outubro, último dado disponível. A do Brasil chegou a 6,59%.
Como o ajuste das contas públicas, na melhor hipótese, ainda vai demorar, a política de juros altos continuará sendo, por um bom tempo, o principal instrumento de controle da demanda e, portanto, do repasse dos aumentos de preços.
Os dirigentes do BC terão de continuar muito atentos a esse risco, especialmente porque os preços por atacado voltaram a subir. Em quatro dos cinco meses de maio a setembro esses preços caíram, segundo a Fundação Getúlio Vargas, mas já avançam com firmeza. Subiram 0,73% em outubro e 1,44% em novembro. Foram puxados em novembro pelos produtos agropecuários (2,92%), mas o encarecimento dos industriais também foi sensível (0,89%). E ainda vem pela frente o reajuste de preços contidos politicamente e também daqueles indexados. Se tentar contemporizar, a presidente começará muito mal o segundo mandato.
Barusco entrega documentos contra Renato Duque
Além de comprometer o ex-diretor da Petrobras indicado pelo PT, ex-gerente confirmou a participação do operador Shinko Nakandakari, também ligado ao partido, e disse que gastou 'apenas' US$ 1,5 milhão do dinheiro desviado
Daniel Haidar - VEJA
O ex-gerente de Serviços da Petrobras Pedro Barusco Filho entregou documentos que comprometem o ex-diretor de Serviços da estatal Renato Duque, libertado por liminar do Supremo Tribunal Federal (STF) na quarta-feira. As provas foram oferecidas no acordo de delação premiada fechado com o Ministério Público Federal e a Polícia Federal, em que ele admitiu ter participado do esquema de corrupção e passou a colaborar com as investigações em troca de uma punição mais branda da Justiça.
Barusco é o mais recente delator da Operação Lava Jato a identificar beneficiários do petrolão. Depois de presos, o ex-diretor de Abastecimento da Petrobras Paulo Roberto Costa e o doleiro Alberto Youssef passaram a ajudar nas investigações, principalmente apontando políticos beneficiários do esquema. O empresário Augusto Mendonça Neto e o lobista Júlio Camargo, ambos do grupo Toyo Setal, se anteciparam a uma ação da polícia e também conseguiram acordos de delação premiada. Os executivos descreveram o funcionamento do cartel formado por algumas das maiores empreiteiras do país e entregaram documentos contra Duque e o lobista Fernando Soares, o Baiano, apontado como o operador do PMDB na Diretoria Internacional. Só Mendonça Neto e Camargo descreveram o pagamento de mais de 60 milhões de dólares em propina para Barusco e Duque.
Por ter sido subordinado a Duque, indicado pelo então ministro José Dirceu para o cargo de diretor da estatal, Barusco colaborou significativamente para apontar provas contra o antigo chefe, mas não apenas contra ele. Foram mencionados, nos depoimentos da delação premiada, novos operadores que atuavam como intermediários dos pagamentos de propina para os executivos da estatal. Barusco confirmou a participação de Shinko Nakandakari como operador do PT na Diretoria de Serviços, como apontou Erton Medeiros da Fonseca, presidente da divisão industrial da Galvão Engenharia. A colaboração de Barusco deve motivar uma nova leva de prisões desses intermediários, de acordo com investigadores.
“Barusco presenciou muitos anos de corrupção. Tem muito mais gente envolvida”, afirmou uma fonte que acompanha a investigação.
A insistência da família levou Barusco a se entregar e colaborar. A esposa chegou a acompanhá-lo em depoimentos ao Ministério Público. Ele enfrenta um câncer ósseo e tenta escapar da prisão. Já se comprometeu a devolver 97 milhões de dólares escondidos na Suíça e a devolver outros 6,5 milhões de reais, parte da propina que recebeu em espécie. Barusco disse que vai provar aos investigadores que gastou “apenas” cerca de 1,5 milhão de dólares do dinheiro desviado da Petrobras.
Muito além da Petrobrás
O Estado de S.Paulo
Funciona assim: "Desde o governo Sarney, governo Collor, governo Itamar, governo Fernando Henrique, governo Lula, governo Dilma, todos os diretores da Petrobrás e diretores de outras empresas, se não tivessem apoio político, não chegavam a diretor. Isso é fato. Pode ser comprovado". E o resultado é esse: "O que acontecia na Petrobrás acontece no Brasil inteiro: nas rodovias, ferrovias, nos portos, aeroportos, nas hidrelétricas. Isso acontece no Brasil inteiro. É só pesquisar".
A bem da verdade, o autor desses dois enunciados não estabeleceu uma relação de causa e efeito entre eles. Mas se o ex-diretor da Petrobrás Paulo Roberto Costa, em depoimento à CPI mista do Congresso sobre o esquema de corrupção na estatal, deixou de ligar os pontos do quadro que traçou, não pode haver dúvida sobre o tamanho, o alcance e a longevidade do círculo vicioso da corrupção compartilhada por servidores públicos, autoridades, parlamentares e interesses privados.
Embora não se deva presumir que os executivos apadrinhados foram invariavelmente postos em seus cargos para enriquecer os seus padrinhos, a si mesmos e os empresários que têm negócios com os setores onde atuam - e financiam as campanhas dos políticos envolvidos -, o padrão decerto é esse. O exemplo perfeito é do próprio Paulo Roberto, nomeado em 2004 pelo então presidente Lula, a pedido do aliado PP, para a diretoria de Abastecimento da Petrobrás.
Ao longo dos oito anos seguintes, dividia entre o partido e o PT, nesse caso em proporção maior, as comissões pagas pelas empresas em busca de contratos (superfaturados) com a petroleira. Outra parcela ele mesmo embolsava e entregava ao doleiro Alberto Youssef para ser branqueada no exterior. Em junho último, três meses depois do início da Operação Lava Jato, a Suíça informou que os seus depósitos no país somavam US$ 23 milhões. Em setembro, comprometeu-se a devolver um total de US$ 26 milhões.
Diferentemente de sua ida anterior à CPI mista, quando ficou calado, na segunda-feira passada surpreendeu os parlamentares que o haviam convocado para uma acareação com outro ex-diretor da estatal, Nestor Cerveró, ao fazer um "esclarecimento inicial", em que falou da corrupção disseminada e das nomeações políticas. Admitiu ter arrolado "algumas dezenas" de políticos em seus 80 depoimentos no regime de delação premiada. Um deputado disse ter ouvido dele, depois da sessão, que os mãos sujas são pelo menos 35, filiados ao PP, PMDB e PT.
Costa confirmou que em 2009, já "enojado" do que fazia e via acontecer à sua volta na Petrobrás, mandou um e-mail à então ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, a fim de alertá-la do processo aberto no Tribunal de Contas da União (TCU) para a apuração de irregularidades em obras da empresa. A reiteração põe definitivamente abaixo a versão da presidente de que não tinha conhecimento de malfeitorias na estatal - cujo órgão máximo, o Conselho de Administração, ela chegou a dirigir.
Do mesmo modo, não há de ter sido pela boca do depoente que a maioria dos membros do Congresso Nacional ouviu pela primeira vez que a corrupção está presente "nas rodovias, ferrovias, portos, aeroportos, hidrelétricas", loteados entre os partidos. Alguns devem conhecer por experiência própria, digamos assim, exemplos do que Costa tinha em vista. Ironicamente, é o que pensa também o juiz federal Sergio Moro, a quem caberá julgá-lo. Uma planilha com dados sobre 750 obras públicas apreendida com Youssef sugere, segundo o juiz, "que o esquema criminoso de fraude à licitação, sobrepreço e propina vai muito além da Petrobrás".
Embora não seja tido como uma cleptocracia, o Brasil "estagnou" no índice de corrupção elaborado pela Transparência Internacional (TI). Do ano passado para este, o País subiu da 72.ª posição para a 69.ª no total de 175. Numa escala de 0 a 100 pontos, o Brasil praticamente ficou onde estava, ganhando apenas um ponto - de 42 para 43. "O dinheiro público continua a ser saqueado", observa o diretor para as Américas da TI, Alejandro Salas.
"Está tudo bichado nos palcos do poder", afirmou editorial do Estado, terça-feira. É pior na Rússia, China e Índia, três dos nossos sócios no Brics. Mas isso não é consolo.
O PT treme de novo
Em 2005, Duda Mendonça confessou ter recebido do PT 5 milhões de dólares por debaixo do pano, dinheiro depositado em contas bancárias no exterior. Era o começo do mensalão. Agora, empresários admitem ter pago 150 milhões de reais em propina ao PT e a aliados. É o início do petrolão
Robson Bonin e Alexandre Hisayasu - VEJA
Augusto Ribeiro de Mendonça Neto: ele confessou à PF ter pago 150 milhões de reais de propina para manter contratos com a Petrobras – e disse que parte desse dinheiro foi abastecer o caixa eleitoral do PT
Augusto Ribeiro de Mendonça Neto: ele confessou à PF ter pago 150 milhões de reais de propina para manter contratos com a Petrobras – e disse que parte desse dinheiro foi abastecer o caixa eleitoral do PT (Leo Pinheiro/Valor/VEJA.com)
O ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa, o primeiro a fazer acordo, revelou como funcionava a quadrilha dentro da estatal, as vinculações partidárias dos criminosos e a identidade dos empreiteiros envolvidos. Depois dele, foi a vez de o doleiro Alberto Youssef apresentar o nome de aproximadamente cinquenta políticos que receberam propina, entre deputados, senadores, governadores e ministros. O mosaico do golpe bilionário aplicado contra a Petrobras começou a ganhar forma a partir das informações, das pistas e das provas fornecidas pelos dois delatores. Na semana passada, o juiz Sergio Moro, da 13ª Vara Federal de Curitiba, divulgou um conjunto de depoimentos prestados por executivos da empresa Toyo Setal, uma das fornecedoras de serviços à Petrobras, que acrescentam ao caso ingredientes com imenso potencial de destruição. Segundo esses relatos, o PT não só é apresentado como o responsável pela montagem e pela operação do esquema de corrupção na estatal como também se nutriu dele. E ainda mais grave: dinheiro da corrupção pode inclusive ter ajudado a eleger a presidente Dilma Rousseff.
Em 2005, o marqueteiro Duda Mendonça assombrou o país ao revelar a uma CPI do Congresso os detalhes da engenharia criminosa montada pelo PT para pagar as dívidas da campanha presidencial de Lula. Contratado pelo partido para cuidar da propaganda eleitoral de 2002, Duda recebeu parte do pagamento — 5 milhões de dólares — em depósitos clandestinos no exterior. Era o início do até então maior escândalo de corrupção da história. Sob os holofotes do Congresso, Duda mostrou extratos, ditou o nome dos bancos estrangeiros e os valores ocultos pagos lá fora. A história do partido mudaria para sempre desde então. Seus líderes — definidos pelos ministros do Supremo Tribunal Federal como “profanadores da República” — foram julgados, condenados e enviados à cadeia. No auge da crise, o PT temeu sucumbir à gravidade dos seus pecados, mas resistiu, reelegeu Lula, elegeu e reelegeu Dilma Rousseff, mas, ao que parece, não aprendeu nada com o susto do mensalão.
Em acordo de delação premiada, Augusto Ribeiro de Mendonça Neto, um dos executivos da japonesa Toyo Setal, confirmou que participava de um cartel de empresas que comandava as obras da Petrobras e, em contrapartida, entregava uma parte de seus ganhos aos partidos do governo — exatamente como disseram o ex-diretor Paulo Roberto e o doleiro Youssef. No caso da empresa japonesa, o “acerto” era feito com o diretor de Serviços da Petrobras, Renato Duque. Militante petista, Duque foi alçado ao posto por indicação do mensaleiro José Dirceu, ex-ministro-chefe da Casa Civil, atualmente cumprindo pena de prisão por corrupção. Duque seria o responsável por coletar a parte do PT junto às empreiteiras que integravam o chamado “clube” do bilhão. Era ele também que decidia os valores que deveriam ser repassados diretamente ao partido. “Os pagamentos se deram de três formas: parcelas em dinheiro, remessas a contas indicadas no exterior e doações oficiais ao Partido dos Trabalhadores”, declarou o empresário. Definidos os porcentuais e a metodologia de distribuição, os detalhes eram combinados com o tesoureiro do PT, João Vaccari. É desse trecho do depoimento que eclode uma constatação de estremecer: o delator confirmou que a Toyo Setal enviou parte do dinheiro roubado da Petrobras ao caixa eleitoral do PT, simulando uma doação legal.
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