Tudo cresce na Ásia, e também o nacionalismo, alimentado por uma infinidade de rixas históricas
Lluís Bassets - El País
Yuya Shino/Reuters
Ao lado de Yasukuni, onde nada menos que 2,5 milhões de deuses são venerados, há jardins magníficos com as obrigatórias cerejeiras, um teatro nô, uma quadra de sumô e um museu militar onde são exibidos desde arcos de épocas remotas até aviões e tanques da Segunda Guerra Mundial. Sua entrada é guardada por esculturas de um cavalo, um pastor alemão e um pombo, em homenagem aos animais que morreram em combate. Em um dos pavilhões está a lista de deuses, que em outras latitudes seriam mártires ou caídos. Em um canto há um pequeno monumento, rotulado só em japonês, que presta homenagem a espíritos especiais --os membros da Kempeitai, a polícia secreta do Japão totalitário, equivalente à Gestapo alemã.
Em suas vitrines, o militarismo japonês se exibe sem pudor, com o único disfarce da autenticidade e da vitimização do nacionalismo, sempre puro e inocente. Os criminosos de guerra são deuses; os camicazes, heróis; o ataque a Pearl Harbor, fruto da intransigência americana; e Hiroshima e Nagasaki, dois bombardeios sem a importância que lhes conferiu a esquerda pacifista japonesa no pós-guerra.
A visita a Yasukuni remete ao peso do passado no continente do futuro. Moon Chang-Keuk, primeiro-ministro coreano recém-nomeado, demitiu-se por ter feito declarações sobre fatos ocorridos há mais de 70 anos. Disse que a colonização da Coreia, de 1910 até 1945, foi a "vontade de Deus".
Como os asiáticos veem seu futuro?, pergunta-se o grupo de pensadores pan-europeu Centro Europeu para Relações Exteriores, no seminário sobre Ásia que organizou esta semana em Tóquio. A resposta, dada pelas notícias políticas de cada dia, e não as econômicas, é muito simples: atirando-se uns contra os outros de cabeça.
Tudo cresce na Ásia: economia, consumo, população, orçamentos de defesa, arsenais militares ou disputas por penhascos semissubmersos; e também o nacionalismo, obrigatoriamente alimentado pelas rixas históricas. O deslocamento de poder que ocorreu no mundo, da bacia atlântica para a do Pacífico, também transferiu a carga sinistra das mesmas pulsões coletivas que outrora atormentaram a Europa, embora a Europa pareça reagir com sua própria ascensão populista e nacionalista, como se fosse sua última reivindicação do poder perdido.
Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
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