Desconfiança e inflação
OESP
A inflação elevada vai continuar assombrando
os brasileiros neste ano e no próximo e ninguém deve esperar novas
medidas sérias contra a alta de preços, segundo as mais recentes
projeções de instituições financeiras e consultorias coletadas pelo
Banco Central (BC) em sua pesquisa Focus. A economia vai continuar em
deterioração, com baixo crescimento e piora das contas públicas, de
acordo com a pesquisa. Em resumo, o BC jogou a toalha, e nada, no quadro
atual, indica a possibilidade de melhora. Em palavras, este é o
significado dos números apresentados no boletim. A pesquisa foi
realizada na sexta-feira. Dois dias antes o Comitê de Política Monetária
(Copom) havia anunciado a manutenção da Selic, a taxa básica de juros,
em 11%, depois de nove elevações.
A reação dos
economistas do mercado foi abandonar ou reduzir a expectativa de novas
altas até dezembro. A mediana das projeções da Selic para o fim do ano
caiu de 11,25% para 11%. A inflação projetada - também mediana das
estimativas - continuou em 6,47%, muito próxima, portanto, do limite da
margem de tolerância de 6,5%. O mercado já havia previsto uma redução
das taxas mensais até o começo do segundo semestre e um repique a partir
daí. Nada de novo, portanto, em relação a essa expectativa.
Para
o próximo ano, a inflação esperada subiu de forma quase imperceptível,
de 6% para 6,01%. A Selic prevista ficou em 12%, como na semana
anterior. Ainda se espera, portanto, algum movimento dos membros do
Copom, mas muito discreto e insuficiente para derrubar a inflação para
menos de 6%. Está pressuposta, naturalmente, a manutenção do quadro
político.
Nesse caso, continuará prevalecendo a tolerância à
inflação. Segundo os números dos últimos cinco anos e alguns meses, o
governo parece muito confortável com taxas anuais próximas de 6%. Nesse
intervalo, só houve uma exceção: 5,9% em 2008, 4,31% em 2009, 5,91% em
2010, 6,5% em 2011, 5,84% em 2012 e 5,91% em 2013. A taxa de 6%
acumulada em 12 meses foi superada várias vezes. Em abril, estava em
6,28%. Dentro do padrão atual de normalidade, nenhum ministro tem
exibido grande preocupação quanto ao aumento de preços.
A
presidente Dilma Rousseff e seus principais auxiliares continuam
rejeitando qualquer proposta de redução da meta, como se a consequência
inevitável de uma política mais séria de combate à inflação fosse uma
desastrosa mistura de recessão e de desemprego. A rejeição virou tópico
da campanha eleitoral petista, como se uma inflação parecida com a dos
últimos anos fosse garantia de crescimento econômico e de bem-estar para
os brasileiros.
Mas a meta oficial, de 4,5%, só vale
formalmente. O alvo efetivo é, obviamente, muito maior. Só pode estar na
vizinhança de 6%, como indica a experiência dos últimos quase cinco
anos e meio. Autoridades falam e agem como se houvesse de fato um "teto
da meta" e qualquer número entre 4,5% e 6,5% estivesse "na meta".
Defender
uma inflação tão alta como condição de crescimento econômico e de
criação de empregos é desconhecer ou negar a experiência internacional.
Dirigentes do BC, embora pouco dispostos a enfrentar a presidente da
República, têm mencionado essa experiência e defendido taxas mais
civilizadas de inflação como importantes para o planejamento de negócios
e para a expansão da economia. Essa referência tem aparecido com
frequência nas atas de reuniões do Copom.
Até o ministro da
Fazenda, Guido Mantega, acabou reconhecendo os males da alta de preços,
ao comentar na sexta-feira passada o crescimento de apenas 0,2% do
Produto Interno Bruto (PIB). Segundo ele, a inflação foi uma das causas
da redução do consumo no primeiro trimestre. Nem por isso ele mostrou
disposição de apoiar uma política inflacionária mais digna desse nome.
A
expectativa de política mais frouxa, evidenciada na pesquisa Focus, é
mais preocupante que as projeções de inflação. Quando a autoridade
monetária perde credibilidade, as piores previsões podem parecer
otimistas quando confrontadas, afinal, com os fatos.
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