Destaque dos tributos nos preços
Saber quanto paga em tributos pode ajudar o consumidor a melhorar sua consciência tributária
Gazeta do Povo (PR)
É a partir deste mês que
começa para valer a obrigatoriedade de constar, nas notas fiscais de
venda, os tributos incidentes sobre o preço final das mercadorias e dos
serviços. Essa obrigação foi aprovada pela Lei 12.741/2012 e, depois de
idas e vindas, estabeleceu-se, em junho de 2013, o prazo de 12 meses
para sanções aos estabelecimentos que não cumprirem a exigência. Afora
alguns aspectos controvertidos referentes ao cumprimento da lei – já que
o Brasil tem vários entes tributários (municípios, Estados e União) e
um leque exagerado de tributos –, o ato de dar mais informação
tributária principalmente aos consumidores pessoas físicas é bastante
positivo.
O mercado é um processo de trocas mediante pagamento
monetário e seu bom funcionamento depende, sobretudo, de liberdade
econômica e de um sistema competitivo de preços. É também necessário que
os agentes envolvidos nos processos de compras e vendas disponham de
informações sobre produtos, qualidade, preços, concorrentes e saibam
quais tributos são pagos ao governo, principalmente no Brasil, que criou
uma estrutura tributária distorcida que privilegiou os tributos
indiretos – aqueles embutidos na cadeia produtiva e de difícil
identificação pelo contribuinte.
Um exemplo de ocultação do
tamanho da carga tributária é o caso da gasolina. Os consumidores têm
dificuldade para descobrir que, ao encher o tanque do carro, em torno da
metade do valor pago refere-se aos tributos. Outro exemplo refere-se à
energia residencial. O Brasil tem uma das matrizes energéticas mais
limpas do mundo, mas está entre as quatro energias mais caras do
planeta. E a razão são os tributos. No caso do Paraná, somente os
tributos informados na fatura da Copel equivalem a 30% do preço-base.
A
informação do preço total nas faturas e notas fiscais sem destaque do
valor referente aos tributos contribui para manter a população na
ignorância sobre a fração de sua renda que vai para o governo. A partir
da entrada em vigor das punições para quem não cumprir a exigência de
informar os tributos nas notas e faturas, a consciência sobre a carga
tributária tende a melhorar. Mas o Brasil ainda não chegou aos padrões
de países adiantados, onde o conhecimento sobre a carga de impostos é
bem mais amplo, como ocorre nos Estados Unidos, país em que os produtos
são anunciados e vendidos por preço sem a inclusão do imposto. Muitos
turistas desavisados se surpreendem ao descobrir somente na boca do
caixa que devem pagar o imposto separado do preço de etiqueta.
Os
tributos indiretos são propícios para levar o comprador a não se dar
conta da dimensão da mão pesada do governo sobre seu bolso, o que
colabora para reduzir o impacto psicológico sobre o fato de que o
governo é sustentado pela população, a quem deve prestar contas da forma
como gasta o dinheiro arrecadado. Para os governantes, os impostos
indiretos são mais fáceis de manipular e elevar as alíquotas. Já com os
tributos diretos, a situação é um pouco diferente. O trabalhador que
recebe um demonstrativo de seu salário e nele pode ver o quanto paga de
INSS e de Imposto de Renda tem mais disposição para pressionar e
fiscalizar as autoridades e é menos passivo diante de tentativas de
elevação tributária.
Não é por outra razão que os impostos
indiretos estão entre os preferidos pelos políticos no poder e, no
Brasil, foram os que mais aumentaram nas últimas quatro décadas. Se o
governo eleva as alíquotas dos tributos diretos – aqueles que são
cobrados sobre rendas, entre elas o salário –, a reação da população é
imediata. Mas quando o governo aumenta os tributos indiretos, o
consumidor só percebe caso haja elevação do preço final da mercadoria ou
serviço e, ainda assim, se o vendedor lhe explicar a razão do aumento
do preço.
Ao exigir que sejam destacados os valores dos tributos
nas faturas e notas fiscais de venda, a lei dá ao consumidor uma
informação preciosa para melhorar sua consciência tributária e ajuda na
construção da cidadania. É difícil, neste momento, avaliar o grau do
impacto dessa lei sobre a consciência social a respeito do custo do
governo para a população, mas é um passo importante para melhorar o
nível de mobilização coletiva no sentido de acompanhar e fiscalizar o
comportamento dos governantes.
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