Ficha que cai
Dora Kramer - OESP
Não é só a presidente Dilma Rousseff que deu
um banho de loja no temperamento quando percebeu que, irritação por
irritação, a do País era bem maior que a dela em seu modo irascível de
governar e com potencial de prejuízo bem maior sobre o projeto de poder
de seu grupo político.
Dilma amenizou, mas o PT
também deu uma boa reduzida no tamanho do salto do sapato nos últimos
tempos. Fruto do cenário adverso retratado sem retoques em reunião do
alto comando da campanha da reeleição na última segunda-feira, no
Palácio da Alvorada.
Segundo relatos, João Santana, o
marqueteiro, informou que diminuiu a confiança do eleitor na capacidade
de o governo representar o desejo de mudanças.
Significa o
enterro definitivo da previsão feita por ele de que Dilma venceria no
primeiro turno e iria pairar "sobranceira" sobre os "anões" da oposição.
O equívoco não tem nada demais. Ninguém é obrigado a adivinhar. O
exercício da arrogância, porém, dá ao vaticínio um toque de vergonha
alheia.
O importante a notar é que a ficha caiu. Ou parece
ter caído. Não se fala mais em vitória no primeiro turno, não se tratam
mais os aliados como subalternos (é de se ver até quando), praticamente
sumiram de cena as ironias dirigidas aos críticos do governo como
integrantes de um ínfimo porcentual de insatisfeitos dados a intenções
golpistas e já há algum tempo que não se ouvem acusações às elites. Ao
contrário, o esforço é de sôfrega reconquista.
Mas, há um
sinal mais eloquente. Traduzido em atitudes que, se adotadas antes,
talvez tivessem evitado muitos desgastes ao partido: o PT, outrora
complacente com transgressões dos seus, agora já não os protege.
Forçou
a desfiliação do deputado André Vargas em decorrência de seu
envolvimento com o doleiro Alberto Youssef e suspendeu por 60 dias o
deputado estadual Luiz Moura por suspeita de participar de reunião com
integrantes de organização criminosa.
É pouco, diante de
tudo o que já foi acobertado, quando o governo estava no auge, o partido
tinha gordura para queimar e a popularidade de Lula funcionava como uma
blindagem que transformava o inaceitável em perfeitamente aceitável?
Sem
dúvida. Nenhum dos dois era parte da cúpula nem privava, como José
Dirceu, Delúbio Soares e José Genoino, da intimidade do poder? De fato.
Ainda que pragmática, já é alguma coisa a prática de alguma ética.
É sério? O
ministro da Fazenda, Guido Mantega, atribui o diminuto índice de
crescimento (0,2%) do PIB no primeiro trimestre do ano à inflação, como
se a alta de preços não guardasse relação alguma com a política
econômica sob sua responsabilidade.
E a presidente Dilma cala, consentindo na escolha do vilão que por reiteradas vezes garantiu não ser motivo de preocupação.
Muito sério.
À primeira vista soou esquisita declaração da presidente da Petrobrás,
Graça Foster, recusando-se a comentar a entrevista em que o ex-diretor
Paulo Roberto Costa disse que a construção da refinaria Abreu e Lima foi
decidida na base da "conta de padeiro". Ou seja, no tapa, sem
planejamento nem embasamento técnico.
Mas, a afirmação da
presidente da estatal - "Não é que não queira, é que não posso falar" -
passa a fazer sentido quando a gente lembra o entusiasmo com que na
época do lançamento do projeto da refinaria, um empreendimento em
parceria com o governo Hugo Chávez que o Brasil acabou pagando sozinho, o
então presidente Lula se orgulhava de ter feito a "vontade política"
prevalecer sobre as conclusões técnicas e as análises de mercado nas
decisões da Petrobrás.
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