Tabus e oportunismo
Eliane Cantanhêde - FSP
BRASÍLIA - A manchete da
Folha desta segunda (2), informando que seis em cada dez alunos da USP
poderiam pagar mensalidade, é muito importante e duplamente oportuna.
Primeiro,
por causa da crise da melhor universidade brasileira, que acaba de
perder o primeiro lugar da América Latina para a PUC do Chile. Segundo,
porque a campanha eleitoral já está escancarada.
Campanhas e
eleições são para exposição e confronto de ideias, de forma que o
eleitor possa optar pelos candidatos que melhor traduzam suas posições,
suas aspirações, suas crenças. Mas não é isso que ocorre. Há uma
pasteurização.
Petistas e tucanos correm atrás de Maluf e, como
liberais e conservadores, gregos e troianos, viram papagaios repetindo o
mesmo discurso sobre os temas mais polêmicos e que, portanto, deveriam
justamente diferenciá-los diante da sociedade.
Quem não se lembra
do contorcionismo de Dilma e de Serra ao falar sobre aborto em 2010?
Eles diziam a mesma coisa --o oposto do que ambos acreditam. Em vez de
expor corajosamente suas ideias ao escrutínio do eleitor, decoraram um
discurso enviesado ditado pelos marqueteiros com base nas pesquisas e no
oportunismo eleitoral.
Agora, em 2014, quem terá coragem de
remar contra a corrente e falar o que pensa e o que planeja de fato?
Dilma, Aécio, Eduardo Campos? Nenhum deles. Nem suas campanhas deixam
nem eles mesmo se arriscariam. Seria "ingenuidade".
Em sendo
assim, o país perderá uma grande chance (mais uma) de debater para
valer: 1) sistema misto de bolsas e cobrança no ensino superior; 2) o
direito ao aborto; 3) a descriminalização da maconha; 4) a redução da
maioridade penal. Muito menos (5) como tratar as tarifas públicas para o
bem de todos.
E é assim que o estudante pobre vai continuar
pagando universidades privadas ruins e caras, enquanto o rico estuda nas
públicas boas e gratuitas. Mas é proibido falar disso.
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