Rodrigo Constantino - VEJA
“O Nascimento de Vênus”, de Botticelli
Em um mundo trágico, rodeado por
desgraças, um verdadeiro “vale de lágrimas”, a busca do belo tem sido
uma constante para a humanidade. Eis onde entram as artes, as diferentes
expressões individuais no afã de capturar de alguma forma esse
transcendental, universal e atemporal que nos retira um pouco do
efêmero, do aqui e agora.
Roger Scruton tem sido uma das vozes mais importantes na luta pela resistência desse ideal, e em Beauty: A Very Short Introduction*,
ele desenvolve sua visão acerca da importância da beleza em nossas
vidas. Tentarei, a seguir, resumir seu ponto de vista, que julgo
instigante, mesmo para quem não compartilha de seus sentimentos
religiosos. Aliás, diria que para ateus a busca do eterno nas artes se
torna ainda mais relevante.
Scruton entende que o julgamento
artístico é subjetivo, mas ao mesmo tempo depende do suporte de motivos
racionais. Mas estes não podem se limitar a algum argumento dedutivo,
pois se fosse o caso, qualquer opinião de segunda mão sobre beleza
valeria. Haveria especialistas em beleza que nunca a experimentaram, e
isso não faz sentido.
O julgamento estético não é uma simples
afirmação de preferências, pois demanda um ato de atenção. Nós chamamos
algo de belo quando extraímos prazer ao contemplá-lo como um objeto
individual, por si mesmo. Para tanto, é preciso deixar de lado outros
interesses, como os utilitaristas e funcionais, e focar na coisa em si.
Em outras palavras, exige uma atitude desinteressada, que não lida com o
objeto como apenas um entre vários substitutos, mas como o foco
exclusivo da atenção.
Esse prazer desinteressado é uma forma de
prazer também, mas sua diferença está nesse foco no objeto que depende
também de pensamento, reflexão. Há uma “intencionalidade” específica
envolvida, é parte de uma vida cognitiva. Somente criaturas como nós,
com linguagem, auto-consciência, razão prática e julgamento moral, podem
observar o mundo desta forma alerta e desinteressada, de modo a
capturar o objeto apresentado e extrair prazer dele por meio da
contemplação, não apenas do desejo.
Segundo Scruton, essa é uma maneira de se
aspirar à imortalidade, que seria a demanda mais elevada da alma
humana. Apesar de existirem modismos na beleza humana, e de cada cultura
lidar com o corpo de forma diferente, os olhos, a boca e as mãos têm um
apelo universal. Para o filósofo britânico, isso ocorre pois eles são
os meios pelos quais a alma do outro brilha sobre nós, e torna-se
conhecida.
Uma analogia feita por Scruton ajuda a
compreender a importância do bom gosto nas artes. A arte seria como o
humor, como piadas que possuem uma função dominante, que são objetos de
interesse estético. O que nos faz rir diz muito sobre quem somos. “Nada
revela tanto o caráter de uma pessoa quanto as coisas que a fazem rir”,
disse Goethe. Parece evidente que existem boas e más piadas, refinadas e
inteligentes ou grosseiras e superficiais, e que tal divisão não é
somente algo subjetivo. Da mesma forma, a arte pode atingir sua função
de uma maneira recompensadora, oferecendo alimento para a alma e um
espírito mais elevado, inspirando seu público. Caso contrário, sequer
merece o conceito de arte, pois se tudo é arte, então nada é arte.
O objetivo da arte seria nos apresentar
mundos imaginários, nos quais podemos adotar, como atitude estética, uma
postura de preocupação imparcial. Nas artes vemos a comunicação de
experiências individuais, que buscam dar significado ao mundo e à nossa
existência. Para ser bela, ela precisa ter significado, fornecer um
sentido de pertencimento a uma empreitada comum. Claro que o conflito e a
dor podem fazer parte da aventura artística, mas eles também podem
transmitir essa sensação de pertencimento. Isso em nada se assemelha à
tentativa de chocar por chocar, de mexer com as emoções de forma banal,
sentimentalista.
Implícito no sentido da beleza estaria
nosso pensamento sobre a comunidade, sobre a concordância acerca de
julgamentos que tornam a vida em sociedade possível e valiosa. Mesmo com
diferenças culturais, há a possibilidade de denominadores universais,
de cruzamento cultural, caso contrário Homero ou Shakespeare não seriam
admirados por séculos e séculos em diversas culturas diferentes.
Simetria e ordem, proporção, harmonia, convenção, tudo isso parece
enraizado em nossa natureza, como valores permanentes em nossa psique. A
beleza, nesse aspecto, seria como o bem: ela nos fala, como a virtude
nos fala, sobre os potenciais humanos; não sobre o que desejamos apenas,
mas sobre o que deveríamos desejar, porque nossa natureza requer isso.
A distinção entre uma obra de arte
erótica e a pornografia deixa mais claro esse papel. São dois tipos
diferentes de interesse em jogo, incompatíveis entre si. Na arte erótica
não se pode simplesmente substituir o objeto envolvido, pois há um
sujeito a ser contemplado; já na pornografia há uma total
“despersonificação” do objeto, cujo único papel é despertar o interesse
sexual, o desejo imediato. Um fala à nossa imaginação, o outro à
fantasia. A pornografia, ao contrário da arte erótica, trata o objeto
como uma commodity, separa o corpo da alma. Em vez de ser um tributo à
beleza humana, representa sua dessacralização, transformando a pessoa em
objeto, pedaço de carne, um mero animal.
A apreciação da beleza nos exige um
afastamento intelectual de nós mesmos, do aqui e agora, de nossos
interesses narcísicos. Uma renúncia que torna possível reverenciar o
mundo e o que nele há de belo. Para Scruton, a necessidade que temos da
beleza é parte de nossa condição metafísica, como indivíduos livres, em
busca de nosso lugar em um mundo público e compartilhado. Podemos
escolher a alienação, o ressentimento, a desconfiança e o niilismo, ou
podemos encontrar um lar aqui, que nos forneça um descanso em harmonia
com os demais e com nós mesmos. A experiência da beleza nos guiaria
nesta segunda direção, surgindo a partir de uma postura de humildade
diante do mundo, uma aceitação de nossas imperfeições, enquanto
aspiramos a uma unidade mais elevada e transcendental.
A cultura pós-moderna, ao negar a beleza,
ao atacar tudo que é sagrado, pretende destruir isso que nos julga e
nos “acusa”, justamente por ser mais elevado. Ela procura destruir o
amor e a liberdade, profana tudo que é reverenciado como superior,
universal e atemporal, como uma criança que deseja rejeitar toda
autoridade. Em seu lugar, coloca o vício dos apetites, o aqui e agora
hedonista, as fáceis recompensas dos interesses imediatos. Tal atitude
estaria em evidente confronto com a busca pela beleza conforme descrita
por Scruton, que demanda sacrifício, distanciamento, atenção canalizada
para o objeto a ser contemplado. E o ser humano jamais seria o mesmo sem
o enaltecimento do belo, que existe para elevar nosso espírito acima da
existência meramente animal, efêmera, trágica.
Do blog:
*Existe uma tradução para o português:
Título:Beleza
Autor:Roger Scruton
Editora: É Realizações
Do blog:
*Existe uma tradução para o português:
Título:Beleza
Autor:Roger Scruton
Editora: É Realizações
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