Falta de articulação
Empresas vencedoras que se integram às mais eficientes cadeias globalizadas aceleram a desindustrialização nacional
Paulo Guedes - O Globo
A desindustrialização da
economia brasileira prossegue em ritmo acelerado. As ameaças estavam
antes na adversa configuração de políticas macroeconômicas. O
ininterrupto crescimento dos gastos públicos trouxe impostos excessivos,
juros elevados e taxa de câmbio sobrevalorizada. Marcos regulatórios
inadequados trouxeram gargalos na infraestrutura. Décadas de descaso com
a educação resultaram numa força de trabalho com pouca escolaridade e
baixa produtividade, reduzindo também a competitividade da indústria
brasileira.
A boa notícia é que o
aperfeiçoamento do marco regulatório e a criação de políticas públicas
para democratizar o acesso à educação deflagraram um tsunami de
investimentos no setor. Uma verdadeira revolução que promete transformar
o país pela educação. Mas a má notícia é que o parque industrial
brasileiro sofre novas ameaças de natureza inteiramente distinta.
Trata-se de um esforço darwiniano de adaptação de nossas próprias
empresas aos desafios da globalização em meio a esta persistente e
perversa configuração do macroambiente.
A desindustrialização não
se limita mais às empresas enfraquecidas que estão sendo abatidas pela
maior competitividade dos produtos importados. Há também vítimas da
desarticulação das cadeias produtivas internas. Empresas vencedoras que
se integram às mais eficientes cadeias produtivas globalizadas abandonam
fornecedores locais de máquinas e equipamentos, matérias-primas e
insumos industriais. Importavam em um primeiro momento apenas bens de
capital para suas instalações industriais. Mas foram empurradas pela
maior competitividade dos asiáticos para a importação de insumos,
semimanufaturados e até mesmo produtos finais.
Em busca de vantagens
competitivas, tiveram de abandonar cadeias produtivas locais,
integrando-se às globais. Em vez de se chocarem com a produtividade
asiática, embutiram-na em seus produtos finais. Usam sua inteligência de
negócios, suas marcas com boa penetração e suas redes de distribuição
para atender o consumidor brasileiro. Pena que, pela baixa qualidade de
nossas políticas, condenamos alguns à morte e outros à abertura de
fábricas no exterior, quando poderíamos e deveríamos nos lançar todos
juntos, integrados e mais eficientes, às correntes globais de comércio.
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