Rodrigo Constantino - VEJA
Nenhuma revolução saiu da cabeça de
proletários. Todas as utopias sangrentas e assassinas foram paridas no
conforto de escritórios e salas de aula, por gente de classe média ou
alta entediada, alienada, ressentida, rancorosa, ávida por fortes
emoções, por uma aventura “purificadora”. Quem paga o preço com a
própria vida é a massa de manobra feita de cobaia por tais
“intelectuais”.
Em sua coluna
de hoje, Demétrio Magnoli usa um caso particular para ilustrar esse
fato. Trata-se da socióloga Esther Solano, da Unifesp, que teria,
segundo reportagem do Estadão, justificado e defendido a ação criminosa
dos black blocs. Afinal, em um país com mais de 50 mil homicídios, vamos
dar importância a estes quarenta garotos? Demétrio foi buscar as
origens do fenômeno em Marcuse:
As ideias
têm importância. Os “40 garotos” inspiram-se no filósofo Herbert
Marcuse, que interpretava as democracias representativas como regimes
autoritários disfarçados sob uma película irrelevante de falsas
liberdades. A rejeição marcusiana às instituições da “falsa democracia”
funcionou como mola das organizações de “ação direta” que emergiram no
rescaldo do Maio de 1968 na Europa. Dos destroços da “ação direta”,
surgiram grupos terroristas como o Baader-Meinhof e as Brigadas
Vermelhas. Os ancestrais dos black blocs eram “garotos” alemães e
italianos cujas vidas — e as de tantos outros da mesma geração não
envolvidos em atos de terror — foram tragadas no caldo letal das ideias
formuladas por intelectuais-militantes.
A professora
da Unifesp só tem relevância como sintoma. Na hora da repressão, ela
estará defendendo sua tese acadêmica ultrarradical numa sala
climatizada, entre pares ideológicos. Mas as bobagens rasas que diz e
escreve descortinam um panorama trágico: uma parte da esquerda
brasileira não aprendeu nada e ensaia reproduzir experiências
catastróficas bem conhecidas.
Marcuse, confortavelmente vendo o circo pegar fogo…
A insistência nos mesmos erros do passado
é, realmente, a marca registrada de nossa esquerda, que flerta com tudo
que há de pior. Não satisfeitos com a desgraça que é o PT no poder,
agora convertido em situação, em “partido da ordem”, esses
“intelectuais” sonham com algo mais radical ainda, com o PT de ontem,
com o PSOL, o PSTU, os black blocs.
Demétrio vai direto ao ponto quando diz
que, seguindo a trilha do mestre Marcuse, esses “intelectuais” enxergam
nesses “garotos” mascarados a “centelha de uma grande fogueira
purificadora”. A violência vai aplacar suas angústias existenciais, seu
niilismo, sua sede de “vingança”, sabe-se lá de que ou de quem. É
preciso destruir, apenas isso. Fogo nessa “democracia burguesa”, no
“sistema”!
Esse foi um tema que já abordei aqui diversas vezes. Por exemplo, mostrei
que o coordenador de Pós-Graduação de Psicanálise da Uerj, Luciano
Elia, havia se transformado em uma máquina de propaganda dos criminosos
mascarados, endossando o uso de violência como arma política. Foi um
tema amplamente abordado em meu Esquerda Caviar também, em que disse:
Esses nossos “intelectuais”, filhotes
tardios de Marcuse, não conseguem amar o próximo. Não conseguem amar,
ponto. E com muito ódio nos corações, eles vendem utopias que justificam
quaisquer meios. Afinal, o prêmio é bom demais para clamar por
moderação e prudência, as duas principais bandeiras conservadoras. Antes
de chegar a este paraíso terrestre, precisamos só quebrar alguns ovos, e
teremos uma linda omelete.
Os “garotos” mascarados serão os
instrumentos dessa bela revolução, ainda que, na prática, não passem de
cobaias sacrificadas no altar das utopias dos “intelectuais”, que seguem
com suas vidas confortáveis e, sim, bastante burguesas.
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