Rodrigo Constantino - VEJA
A principal causa isolada da
criminalidade é a impunidade. Saber a priori que dificilmente haverá
punição é um convite e tanto ao crime, e os bandidos em potencial reagem
a tais incentivos. Endurecer as penas e, acima de tudo, cumpri-las
passa a ser prioridade de qualquer combate ao crime. Essa é uma daquelas
coisas óbvias que só um sociólogo com Ph.D. pode se dar ao luxo de
ignorar.
— Temos que
ver todo o sistema. A sensação de impunidade começa no 190, quando não
há viatura, e vai até quando sai uma sentença da Justiça — afirmou
Beltrame. — Em delegacias, 80% das pessoas conduzidas não são presas,
não por culpa do delegado, do policial, mas sim porque é facultado a
essa pessoa sair — reiterou.
Foi a mensagem que os Secretários de Segurança da região sudeste levaram aos políticos:
O secretário
de Segurança do Rio, José Mariano Beltrame, defendeu as propostas
afirmando que o resultado do trabalho das polícias nos estados do
Sudeste tem aumentado nos últimos anos, mas sem conseguir fazer frente
ao crescimento da violência. Na visão dele, isso ocorre porque falta um
sistema de segurança capaz de levar adiante o trabalho das forças
policiais.
O secretário
de Segurança de São Paulo, Fernando Grella, disse que, por falta de
mecanismos legais e de eficiência em outras áreas do sistema, o trabalho
da polícia acaba não sendo mais eficaz:
— As
polícias ficam com uma sensação de que estão enxugando gelo sem que seu
trabalho resulte em resultados positivos para as sociedades.
A polícia até tenta fazer sua parte,
prendendo. Mas logo depois cerca de metade dos presos já está em
liberdade. As leis são brandas, sem falar da superlotação nos presídios e
prisões. Estudo do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) mostra
que há déficit de 210 mil vagas no sistema carcerário brasileiro. É um
dado alarmante, que impede a garantia do mínimo de dignidade aos presos,
assim como a própria manutenção de criminosos isolados da sociedade,
função primária das prisões.
Investir em novos presídios, de
preferência em parceria com a iniciativa privada, aparelhar e treinar
melhor as forças policiais, e mudar as leis para impor de fato penas
mais rigorosas, eis o caminho evidente para reduzir a criminalidade no
país, que com menos de 3% da população mundial concentra 10% dos
homicídios do planeta.
Vivemos uma epidemia do crime, e isso é
ampliado pelo total clima de impunidade, inclusive para delitos menores.
A teoria da janela quebrada explica como uma coisa leva à outra, em uma
escalada crescente. É preciso ter tolerância zero com crimes, e para
tanto é necessário ter penas rigorosas que são efetivamente aplicadas,
assim como vagas disponíveis e locais decentes para manter os presos.
Em vez de atacar tais problemas, nossos
políticos preferem aprovar a Lei da Palmada, que criminaliza o pai que
dá um beliscão no filho. É muita inversão de valores, muita falta de
foco, noção e bom senso, muita falta de prioridade. A polícia tenta
fazer sua parte, apesar de recursos precários e falta de treinamento.
Mas os políticos não ajudam, imbuídos da crença dos “especialistas” de
que o criminoso é uma “vítima da sociedade” e que vamos combater o crime
com “programas sociais” em vez de punição severa e, principalmente,
efetiva.
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