"Mapa Dibujado por un Espía"
Todos movimentos socialistas começam dizendo que amam a liberdade e acabam matando quem discorda deles
Luiz Felipe Pondé - FSP
Literatura é um
documento histórico? Para mim, a literatura é um documento antes de tudo
porque "brota" do solo de uma época, dos modos de vida, das ansiedades,
das práticas morais e políticas. Enfim, da "matéria social e
psicológica" de quem escreve.
Entretanto, a verdade histórica é
mesmo um drama. Existe "fato histórico"? Aliás, como nos ensinou George
Orwell em seu brilhante "1984", podemos criar um passado (ou um
presente) que não existe, a fim de fazer as pessoas esquecerem o que
queremos que esqueçam ou acreditem no que queremos que elas acreditem. A
nossa Comissão da Verdade está bem no olho do furacão deste debate.
Professores de história ensinam o que querem, contanto que façam a
cabeça dos alunos do jeito que querem.
Proponho que todo mundo
que queira ter uma ideia do que foi e é Cuba, para além da propaganda
ideológica ainda em curso em nossas terras neolíticas, leia Guillermo
Cabrera Infante (1929-2005), escritor cubano, mais tarde naturalizado e
radicado na Inglaterra devido aos conflitos com a ditadura cubana,
"nuestra camarada".
Entre vários títulos, leia "Mapa Dibujado por
un Espía", da editora de Barcelona Galaxia Gutenberg, de 2013 ("mapa
desenhado por um espião", numa tradução direta). Creio, ainda sem
publicação no Brasil.
O livro, publicado postumamente por sua
mulher Miriam Gómez, é um documento do ano de 1965 em Havana. Os
especialistas discutem se teria sido escrito em 1973 ou antes. Antoni
Munné, que faz o prefácio desta edição, suspeita, devido a inúmeros
detalhes biográficos de Cabrera Infante, que é mais provável que tenha
sido escrito antes de 1968.
O autor, que vivia então na Bélgica
como funcionário diplomático, volta a Havana (cidade profundamente amada
por ele) devido à morte de sua mãe. E aí começam suas agruras. O livro
pode ser lido pelo viés de como Cabrera Infante passa esses quatro meses
e pouco em Havana, sem conseguir sair, dormindo com inúmeras mulheres.
Mas pode ser lido também como um documento do dia a dia de seus amigos,
sua família e dele mesmo.
Uma coisa que chama atenção é o
progressivo sistema de controle do comportamento que a ditadura cubana
cria por meio de seu Ministério do Interior e seu departamento de
"lacras sociales" (vícios sociais). Por exemplo, suspeitos de
homossexualidade eram acompanhados diariamente porque eram considerados
praticantes de vícios burgueses. Para os revolucionários, os gays eram
uma doença social, não muito diferente do entendimento que alguns
pentecostais famosos no Brasil têm dos gays.
Cabrera Infante é
retirado do avião quando ia voltar para Bruxelas, sem que uma razão seja
dada, apenas ordem do Ministério do Exterior (Minrex), no qual ele
trabalhava.
Meses passam sem que tenha qualquer resposta da razão
de ele ter sido tirado do avião. Ele vai inúmeras vezes ao ministério,
mas sem que seja atendido pelas autoridades revolucionárias. Assim é sua
aventura kafkiana. Regimes burocráticos movidos pela certeza de
representar o "bem social" costumam ser inacessíveis.
Num diálogo
especialmente elucidativo, o autor ouve de uma alta patente
revolucionária, Haydée Santamaría, qual o entendimento da revolução com
relação aos seus supostos 15 mil inimigos presos: "La Revolución no
cuenta a sus enemigos sino que acaba con ellos". Todos os movimentos
socialistas que começam dizendo que amam a liberdade, a democracia e a
justiça social acabam matando todo mundo que discorda deles.
A
comida era pobre (basicamente vegetais) e repetida. Todo dia a mesma
coisa. Faltava água (banhos eram uma raridade) e apenas a aristocracia
revolucionária tinha acesso a carne e luxos semelhantes. A medicina, um
lixo, como é até hoje. Café, uma festa! "Radiolas" não funcionavam por
falta de baterias (pilhas). Ninguém confiava em ninguém.
O regime
chegou a pensar em retirar o pátrio poder das famílias e fazer das
crianças "filhos da revolução". Enfim, o horror que quem conhece a
história do século 20 sabe, mas que começa a ser omitido para os alunos
em suas aulas de história no Brasil.
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