Navegando o rio das eleições
Emmanuel Publio Dias - OESP
Entre as analogias para explicar pesquisas eleitorais, a de que eu mais gosto é a que compara o processo político a uma bacia hidrográfica onde o rio principal é a intenção de voto. Os fatos, os fundamentos, a imprensa e a própria atividade política seriam os acidentes geográficos, a base sedimentar do leito do rio, a topografia e as configurações das margens, tudo, enfim, o que dá forma, volume e curso ao rio principal.
Pesquisas são visões parciais e temporárias, mais ou menos nítidas, conforme a qualidade e a abrangência dos instrumentos de medição. Ao fotografar (pesquisar) um determinado momento, o que se vê é um instantâneo do rio principal (opinião pública/intenção de voto), sem que se possa, a partir dessa única foto, prever como serão os próximos movimentos e características desse rio e muito menos onde vai desaguar. Quem já visitou as Cataratas do Iguaçu sabe que elas são precedidas de lagos e remansos que em nada prenunciam o que vai acontecer dali a poucas centenas de metros.
Entre as analogias para explicar pesquisas eleitorais, a de que eu mais gosto é a que compara o processo político a uma bacia hidrográfica onde o rio principal é a intenção de voto. Os fatos, os fundamentos, a imprensa e a própria atividade política seriam os acidentes geográficos, a base sedimentar do leito do rio, a topografia e as configurações das margens, tudo, enfim, o que dá forma, volume e curso ao rio principal.
Pesquisas são visões parciais e temporárias, mais ou menos nítidas, conforme a qualidade e a abrangência dos instrumentos de medição. Ao fotografar (pesquisar) um determinado momento, o que se vê é um instantâneo do rio principal (opinião pública/intenção de voto), sem que se possa, a partir dessa única foto, prever como serão os próximos movimentos e características desse rio e muito menos onde vai desaguar. Quem já visitou as Cataratas do Iguaçu sabe que elas são precedidas de lagos e remansos que em nada prenunciam o que vai acontecer dali a poucas centenas de metros.
Declarações
peremptórias de que “vai/não vai haver segundo turno”, “Dilma vencerá”,
“Aécio está no segundo turno” valem tanto quanto um atestado de
potabilidade da água do Rio Tietê, medida em suas nascentes, antes de
receber as toneladas de dejetos da capital.
É importante
entender que as perguntas que o pesquisador faz a uma amostra
representativa do universo dos eleitores partem sempre de hipóteses
condicionais: “Se as eleições fossem hoje, em quem você votaria/não
votaria?”. Acontece que as eleições não são “hoje”. Raciocinar hoje como
se estivéssemos em outubro equivale a dormir num bote sem âncora nos
lagos e remansos que precedem as cataratas.
Fazer ilações
sobre o comportamento do eleitorado usando como referencial seu próprio
universo e círculos de relacionamento (reais e virtuais) tem levado a
muitos erros e conclusões dissociadas da realidade.
E o que diz o mundo real dos eleitores, dos brasileiros?
Em
primeiro lugar, que eles ainda não estão, em sua grande maioria,
interessados nas próximas eleições. Quem discute eleições hoje somos
nós, estudiosos, militantes, imprensa, membros do governo, das oposições
e das instituições mais politizadas. Enquanto já se desenham hipóteses e
alianças para o segundo turno, a última pesquisa do Ibope (campo 15-19
de maio) nos diz que apenas 14% declaram ter “muito interesse” nas
eleições, enquanto 57% são claros: “Têm pouco ou nenhum interesse” nas
eleições. São exatamente os mesmos números de
interessados/desinteressados que tínhamos na pesquisa de março.
Esse
desinteresse faz com que os candidatos sejam ainda desconhecidos e as
respostas, quando cruzadas, produzam contradições, como, por exemplo, a
mudança de candidato quando as perguntas se referem às intenções de voto
nos dois turnos. Ou as discrepâncias entre respostas sobre a intenção
de voto, rejeição e a perguntas a respeito de possibilidades de “com
certeza, poderia votar, não votaria de jeito nenhum”.
Não
reconhecer esses dois mundos pode levar a erros estratégicos, como dos
candidatos da oposição tentando “se diferenciar”, quando a maioria não
tem ideia de quem é um e quem é outro. Ou, do lado governista,
reconhecer por meio de comerciais que a situação pode mudar, pode
retroceder, quando esse perigo não está posto para a maioria dos
eleitores.
A única coisa certa - porque independe de
conhecimento/análise política, apenas reflete percepções - é o desgaste
do governo da presidente Dilma Rousseff e a vontade de mudança. A última
pesquisa Datafolha (campo 7-8 de maio) reduziu para 9 pontos o saldo
positivo deste governo, que já teve 60 pontos de diferença entre as
avaliações ótimo/bom e ruim/péssimo. A pesquisa Ibope, uma semana
depois, confirma: o saldo positivo é de apenas 2 pontos, coincidindo com
o empate entre os que aprovam/desaprovam o governo e a maioria que já
não confia na presidente, deseja mudanças na forma de governar, mas com
outro candidato no lugar dela.
Os cruzamentos entre essas
avaliações do governo e as intenções de voto deixam claro que, se a
presidente Dilma não recuperar o apoio em níveis parecidos com os que
tinha antes de junho de 2013, será difícil manter a vantagem de hoje.
Até por ser a candidata mais conhecida, está sendo o desaguadouro
natural da rejeição provocada pela percepção negativa do governo e suas
ações.
Há outros sinais que devem estar preocupando os
profissionais da campanha Dilma. São corredeiras que começam a se formar
no leito do rio. Além da crescente desaprovação ao seu governo e do
crescimento das candidaturas da oposição (à medida que se tornam mais
conhecidas) em proporção bem maior que o da presidente, a campanha da
reeleição tem à frente, e bem visível, um conhecido desfiladeiro que, já
se sabe, tem suas escarpas apinhadas de guerreiros armados, de
comportamento imprevisível.
O nome desse desfiladeiro é Copa
do Mundo: independentemente dos resultados em campo, o que vai definir
se o barco da campanha governista atravessará o desfiladeiro incólume
será o sucesso ou não da organização, da segurança, do funcionamento, da
fluidez de comunicações, do deslocamento das torcidas, do acesso e
tranquilidade nos estádios. E o mais importante: a imagem que o Brasil
vai projetar para si mesmo e para a imprensa internacional.
Se
tudo der certo, o Brasil sairá da Copa orgulhoso e satisfeito com seu
papel de país-sede, reconhecido pelas autoridades, pelas torcidas e pela
imprensa, Dilma ganhará um extraordinário alento para seu governo e
isso se refletirá imediatamente nas próximas pesquisas. Um fracasso, uma
vergonha nacional, se os piores vaticínios que hoje se fazem se
concretizarem e o País for exposto à execração nacional e internacional,
dificilmente essa nau passará pelo desfiladeiro.
O que existe depois dele conheceremos nas pesquisas de julho.
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