Rodrigo Constantino - VEJA
Sartre, baba-ovo de tiranos assassinos
Lendo a breve entrevista do documentarista e jornalista francês Christian Siquier no GLOBO, o trecho final chamou minha atenção. Diz ele:
O que, no Brasil, interessa aos estrangeiros?
Até
pouco tempo atrás, ninguém queria matar a boa imagem do Brasil e de
Lula. Ofereci reportagens sobre o mensalão. Ninguém queria saber. É
igual a Cuba no início: a França não criticava Fidel Castro, depois
mudou. Você tem que ter um mito, uma esperança, e o Brasil representava isso.
A confissão é muito
interessante, pois vem de um francês que vive aqui desde 1994. Retrata
muito bem a postura da elite parisiense em particular, e de boa parte
das nossas elites também. Esse foi o tema central do meu livro Esquerda Caviar,
em que tento dissecar esse fenômeno estranho, porém comum: as elites
que vivem no conforto capitalista, mas adoram adorar regimes socialistas
autoritários à distância. Escrevi:
Não podemos
excluir ainda o puro tédio como imã para a esquerda caviar. Vivendo
vidas seguras e confortáveis, fúteis e vazias, a fina flor da esquerda
abraça ideias revolucionárias ou exóticas apenas para afastar de si a
angústia de suas existências. A sociedade da abundância ajuda a parir os
radicais chiques. São os “senhorzinhos satisfeitos” de que falava
Ortega y Gasset.
Normalmente
incapazes de se enquadrar ao sistema, por considerarem aquelas pessoas
de classe média “felizes” com suas distrações burguesas, tais como
novelas e futebol, um bando de alienados, esses membros da elite
entediada partem para aventuras mais radicais. Eles precisam “cair fora”
(drop out) da sociedade, buscar alternativas que ofereçam um novo sentido a suas vidas.
Desde Rousseau existe essa busca por uma fuga romântica. O “bom selvagem” precisa existir,
mesmo que tenhamos de fechar os olhos para a realidade. Somente assim
vamos manter a chama da esperança com um mundo ideal acesa. Os pobres
latino-americanos, os indígenas, os africanos, todos serão cobaias de
nossos experimentos sociais em prol do “mundo melhor”, enquanto
continuamos no conforto capitalista. Em outro trecho, expliquei:
Dessa forma,
a esquerda caviar, vivendo no conforto ocidental, prega as maravilhas
da vida selvagem na África, ou os encantos do islã, ou ainda a ligação
com a natureza dos índios. Claro, o que deseja é transformar tais
bolsões do atraso em mascotes, não percebendo a arrogância em se tratar
culturas menos avançadas como animais de estimação. Mas vale tudo para
condenar o próprio Ocidente e idealizar o “bom selvagem”.
Os
“zoológicos” humanos são defendidos pela esquerda caviar em nome da
justiça e da diversidade. Ao condenar índios ao confinamento indígena, a
esquerda caviar os impede de conhecer inúmeras inovações que poderiam
melhorar absurdamente suas vidas. Os índios já desfrutam de quase 13% do
território nacional, mas a esquerda caviar não acha isso suficiente
para aliviar seu sentimento de culpa. É preciso mais!
Os franceses arrogantes da elite
parisiense sempre gostaram de parir ideologias e utopias do conforto de
seus escritórios, cujas cobaias estariam bem longe. Sartre visitou Fidel
Castro para ver in loco as “maravilhas” do socialismo, e
depois retornou para Paris. Deu aula para Pol-Pot também, o genocida do
Khmer Vermelho que exterminou um terço do povo no Camboja.
As celebridades de Hollywood adoram Che e
Fidel, mas continuam vivendo em Los Angeles, enquanto o povo cubano
“paga o pato” da miséria e escravidão inexoráveis no socialismo. Os
nossos atores globais adoram Cuba, os black blocs, o MST, o movimento
indígena, as favelas, todas as “minorias” que servem como mascotes para
seu tédio, sua alienação, sua culpa, mas não abrem mão daquilo que só o
consumismo burguês no regime capitalista tem a oferecer: milionários
cachês de publicidade.
No livro, dei a seguinte sugestão a esses membros da elite entediada, que endosso aqui para finalizar:
Muito sangue
inocente seria poupado se esses intelectuais canalizassem sua
frustração com a realidade de sua sociedade imperfeita para outras
esferas além da política. Como alertou Michael Oakeshott em seu ensaio Ser conservador,
“a união entre sonhos e governo gera tirania”. Esses sonhadores
políticos deveriam anotar as palavras do escritor Mario Vargas Llosa e
colocá-las no espelho do banheiro, para lembrar do alerta diariamente:
Devemos
buscar a perfeição na criação, na vocação, no amor, no prazer. Mas tudo
isso no campo individual. No coletivo, não devemos tentar trazer a
felicidade para toda a sociedade. O paraíso não é igual para todos.
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