terça-feira, 3 de junho de 2014

Os sem-vergonha
Ricardo Noblat - O Globo 
Há comissões parlamentares de inquérito (CPIs) que se esgotam sem dar em nada – a maioria. Há comissões que resultam em punições – poucas. Mas não há comissões que de fato vão às raízes dos objetos investigados.
Em 1993 uma CPI apurou o escândalo das emendas parlamentares ao Orçamento da União. Seis deputados foram cassados. Quatro renunciaram ao mandato. Nada aconteceu com empresas que pagaram propinas a eles. Sequer foram apontadas.
A CPI que acabou provocando o impeachment do presidente Fernando Collor em 1992 passou longe das empresas que doaram dinheiro para o caixa 2 da campanha dele.
Ocorreu o mesmo em dezembro de 2012 com a chamada CPI Mista do Cachoeira, criada para investigar a atuação do ex-bicheiro Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, e suas ligações com agentes públicos e privados.
Cachoeira foi solto. Políticos do PSDB de Goiás, deixados em paz. Bem como a Construtora Delta, do empresário Fernando Cavendish, acusada de bancar falcatruas.
O senador Demóstenes Torres (DEM-GO), parceiro de Cachoeira, renunciou ao mandato para escapar da cassação.
O filme é velho, portanto. Nem por isso deixará de se repetir com as CPIs da Petrobras ora em funcionamento – uma formada apenas por senadores, outra por senadores e deputados.
A oposição bateu-se pelas CPIs na tentativa de deixar mal o governo, especialmente Dilma, presidente do Conselho Administrativo da Petrobras na época em que a empresa comprou no Texas a refinaria Pasadena. No mínimo foi um mau negócio.
Embora não admitam, oposição e governo se juntaram para impedir que a CPI envolva em suas investigações as empresas que prestam serviços à Petrobras. Por que?
Muito simples: porque essas empresas financiam candidatos. Financiaram, por exemplo, a eleição de mais da metade dos membros da CPI Mista da Petrobras.
Se tivessem o mínimo de vergonha na cara, tais cidadãos se julgariam impedidos de fazer parte da CPI. Mas foram escolhidos para fazer parte justamente porque lhes falta vergonha.
Refinaria de Pasadena

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