As empresas privadas empregam 450 mil pessoas e estimulam uma mentalidade "capitalista" na ilha. Quatro em cada cinco assalariados trabalham para o Estado
Juan Jesús Aznárez - El País
A garota que por volta das 8 da manhã atravessava a rua com os peitos nus chamou a atenção do promotor cubano, que parou o carro e anotou o endereço do cenário de autuação: uma espécie de boate em Havana, propriedade de uma conhecida jogadora de vôlei e seu marido italiano. "O promotor deve ter alucinado", comentou um empresário estrangeiro que conheceu o fato ocorrido. O magistrado alucinou tanto que chamou a polícia e pediu o fechamento do antro por motivo de escândalo público.
A senhorita ousada e um irredutível pelotão
de notívagos havia se embriagado até a madrugada em um dos bares abertos
perto da residencial Quinta Avenida, ao amparo da abertura econômica
vigente há três anos. A liberalização ativou uma mentalidade capitalista
nos novos gestores de cafés, restaurantes ["paladares"], pizzarias,
ateliês, cooperativas, lojas de artesanato, cabeleireiros ou academias
de ginástica: 450 mil cubanos, em torno de 9% da população ativa, em 200
categorias de gestão privada. De agentes imobiliários a alfaiates,
carpinteiros, fotógrafos e motoristas de táxi.
O monopólio do Partido Comunista de Cuba continua vigente, mas a tolerância com as infrações dos empreendedores ["cuentapropistas"] é grande, porque são muitos os desvios regulatórios durante a incipiente abertura. Mas, nem todos os negócios prosperam.
O
italiano e a jogadora de vôlei estavam se forrando com um local aberto
24 horas, mas acabaram na delegacia. Preventivamente, alguns lugares de
dança colocaram música sacra depois da batida, mas retomaram a
"pachanga" quando a coisa clareou. "Aqui o deixam fazer as coisas até
que ocorre algo, então acabou", comenta meu acompanhante. Jovens da
incipiente burguesia local se movem festivamente pelo estabelecimento
noturno, aberto no andar térreo de um sobrado e decorado com um desenho
do cais de Havana e fotografias emblemáticas da cidade.
Usam celulares importados, roupas de marca, entornam drinques de 4 euros, e a política não está entre suas prioridades porque, entre outras razões, a ideologia e seus derivados são franquia governamental intransferível. O enrolador de tabaco que me instrui sobre a bitola e a embocadura de um "puro" também não quer falar sobre democracia pluripartidária. "Não estou para isso, compadre. Quantos 'tabacos' quer? Vendo-lhe por um bom preço."
A liberalização promovida por Raúl Castro e o sexto Congresso do partido em 2011 não cede poder político, mas a abertura socioeconômica ganha vida própria em alguns setores e sua inércia pode abalar a hegemonia do partido único, segundo a esperança de quem reza para que seja assim. Mas, visto o que se viu em Cuba, onde o ativismo antigovernamental é imperceptível ou reprimido, só cabe esperar o êxito das orações ou a improvável generosidade do regime.
O objetivo oficial é outro: o bem-estar econômico, a recolocação dos 500 mil trabalhadores de empresas falidas que perderam seus empregos e resolver o futuro de outros 500 mil em suspenso. O Estado ainda emprega 4 dos 5 milhões em idade ativa. Uma segunda meta é reduzir o gasto das contas em alimentos porque o país importa 60% do que consome, cerca de 1,8 bilhão de euros anuais.
Soltando lastro e subsídios, 200 pequenas e médias empresas estatais foram transformadas em cooperativas no ano passado, e se consolidou a carga fiscal sobre os autônomos, que aumentaram sua contribuição para os orçamentos gerais em 18%. Contrariamente à sepultada retórica igualitarista, o castrismo permite o enriquecimento moderado dos que se aventuram com dinheiro próprio ou emprestado pelos 2 milhões de parentes nos EUA, na Espanha e em outros países. Suas remessas para a ilha somam 2 bilhões de euros por ano.
Ao final de 2013, cerca de 2.000 "paladares" funcionavam com pagamentos em CUC, a moeda forte, equivalente ao dólar, e 7.250 moradias eram alugadas. Ana Sarabig Domínguez reuniu cerca de 30 mil euros para abrir há dois anos o "paladar" Sancho Panza, no bairro El Vedado de Havana, com um cardápio de variedades europeias. Para ela, vai bem: emprega 18 pessoas. "Os inspetores nos pedem faturas que às vezes não podemos apresentar porque quem vende o peixe, a carne ou os legumes não nos dá", explica Alina, a contadora.
Embora só a diáspora e os cubanos com divisas possam comprar apartamentos e automóveis e financiar os empreendimentos que exigem milhares de euros de investimento, o resto dos compatriotas pode optar pelos créditos oferecidos pelo Banco Central de Cuba. Só 550 empreendedores os pediram. O cinquentão Alejandro se esqueceu dos empréstimos para se arriscar com uma licença de motorista.
São 9h30 e a bordo de seu debilitado Ford 1956, rumo a lugar nenhum. Cobra entre 10 e 20 pesos nacionais, entre 0,20 e 0,60 euro, dependendo da distância. "Como está?" Os passageiros, um avô e um casal com sua filha pegam a conversa. "Vamos indo. Posso fazer uns mil pesos por dia, mas pago muitos impostos várias vezes por ano. Além disso, a gasolina, os pneus estragados pelos buracos, as avarias ou o que seja. Não me resta muito." Queixa-se da concorrência porque 11% dos licenciados também são taxistas e motoristas, mas para ele compensa a independência.
Alejandro e seu Ford seguem varrendo diariamente as ruas do populoso bairro Centro Habana em busca de viajantes também pretendidos por uma frota de Chrysler, Mercury, Chevrolet e outras relíquias. Cerca de 8.000 circulam na capital, e centenas foram transformados em limusines oferecidas a noivos, festeiros e turistas.
Quando Cuba assumiu os mecanismos de mercado em seu embrião capitalista também assumiu os danos colaterais: as emergentes desigualdades sociais, as interferências da máfia durante as trocas de titularidade de apartamentos e veículos e os contratos falsos sobre valor e conceito das transações para evitar impostos. "Há intermediários que estão ganhando fortunas", admitem fontes oficiosas.
Também quer sua parte a patrulha que me deteve uma noite dirigindo na contramão. O diálogo com o agente terminou com o aparecimento de um civil que me convidou a subir em um carro. "A multa é de 60 CUC, mas por 20 CUC o senhor pode ir embora. Deixe o dinheiro no assento do carro e saia." Cúmplice do delito, foi o que fiz.
A técnica me lembrou, em miniatura, a cortesia do cabo policial mexicano Arturo Durazo (1924-2000) durante os intervalos de suas extorsões a balas. As vítimas chegavam a seu escritório, e então o negro Durazo saía, deixando aberta uma gaveta da escrivaninha. Os chantageados depositavam ali pacotes de notas, moedas de ouro, escrituras, joias: as legendárias "mordidas" ainda vigentes na América Latina, embora mais sofisticadas, do Rio Grande à Terra do Fogo.
Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
O monopólio do Partido Comunista de Cuba continua vigente, mas a tolerância com as infrações dos empreendedores ["cuentapropistas"] é grande, porque são muitos os desvios regulatórios durante a incipiente abertura. Mas, nem todos os negócios prosperam.
Um
velho Oldsmobile transformado em táxi privado passa por rua em Havana
em 2001
Em 19 de dezembro de 2013, o governo cubano autorizou a livre importação de carros ao país, proibida durante meio século - AFP
Em 19 de dezembro de 2013, o governo cubano autorizou a livre importação de carros ao país, proibida durante meio século - AFP
Milhares fecharam porque abriram com mais entusiasmo do que estudos
anteriores sobre sua idoneidade, e porque a capacidade aquisitiva da
clientela é muito limitada: o grosso dos 11 milhões de cubanos recebe
seu salário em pesos, em média 500 por mês, ao câmbio cerca de 25 euros,
e os empreendedores orientam quase todos os seus negócios para os
compatriotas com divisas estrangeiras. Enquanto a duplicidade monetária
--a circulação de duas moedas, o nó górdio das reformas-- não for
solucionada, a vida dos assalariados em pesos será dura.
Usam celulares importados, roupas de marca, entornam drinques de 4 euros, e a política não está entre suas prioridades porque, entre outras razões, a ideologia e seus derivados são franquia governamental intransferível. O enrolador de tabaco que me instrui sobre a bitola e a embocadura de um "puro" também não quer falar sobre democracia pluripartidária. "Não estou para isso, compadre. Quantos 'tabacos' quer? Vendo-lhe por um bom preço."
A liberalização promovida por Raúl Castro e o sexto Congresso do partido em 2011 não cede poder político, mas a abertura socioeconômica ganha vida própria em alguns setores e sua inércia pode abalar a hegemonia do partido único, segundo a esperança de quem reza para que seja assim. Mas, visto o que se viu em Cuba, onde o ativismo antigovernamental é imperceptível ou reprimido, só cabe esperar o êxito das orações ou a improvável generosidade do regime.
O objetivo oficial é outro: o bem-estar econômico, a recolocação dos 500 mil trabalhadores de empresas falidas que perderam seus empregos e resolver o futuro de outros 500 mil em suspenso. O Estado ainda emprega 4 dos 5 milhões em idade ativa. Uma segunda meta é reduzir o gasto das contas em alimentos porque o país importa 60% do que consome, cerca de 1,8 bilhão de euros anuais.
Soltando lastro e subsídios, 200 pequenas e médias empresas estatais foram transformadas em cooperativas no ano passado, e se consolidou a carga fiscal sobre os autônomos, que aumentaram sua contribuição para os orçamentos gerais em 18%. Contrariamente à sepultada retórica igualitarista, o castrismo permite o enriquecimento moderado dos que se aventuram com dinheiro próprio ou emprestado pelos 2 milhões de parentes nos EUA, na Espanha e em outros países. Suas remessas para a ilha somam 2 bilhões de euros por ano.
Ao final de 2013, cerca de 2.000 "paladares" funcionavam com pagamentos em CUC, a moeda forte, equivalente ao dólar, e 7.250 moradias eram alugadas. Ana Sarabig Domínguez reuniu cerca de 30 mil euros para abrir há dois anos o "paladar" Sancho Panza, no bairro El Vedado de Havana, com um cardápio de variedades europeias. Para ela, vai bem: emprega 18 pessoas. "Os inspetores nos pedem faturas que às vezes não podemos apresentar porque quem vende o peixe, a carne ou os legumes não nos dá", explica Alina, a contadora.
Embora só a diáspora e os cubanos com divisas possam comprar apartamentos e automóveis e financiar os empreendimentos que exigem milhares de euros de investimento, o resto dos compatriotas pode optar pelos créditos oferecidos pelo Banco Central de Cuba. Só 550 empreendedores os pediram. O cinquentão Alejandro se esqueceu dos empréstimos para se arriscar com uma licença de motorista.
São 9h30 e a bordo de seu debilitado Ford 1956, rumo a lugar nenhum. Cobra entre 10 e 20 pesos nacionais, entre 0,20 e 0,60 euro, dependendo da distância. "Como está?" Os passageiros, um avô e um casal com sua filha pegam a conversa. "Vamos indo. Posso fazer uns mil pesos por dia, mas pago muitos impostos várias vezes por ano. Além disso, a gasolina, os pneus estragados pelos buracos, as avarias ou o que seja. Não me resta muito." Queixa-se da concorrência porque 11% dos licenciados também são taxistas e motoristas, mas para ele compensa a independência.
Alejandro e seu Ford seguem varrendo diariamente as ruas do populoso bairro Centro Habana em busca de viajantes também pretendidos por uma frota de Chrysler, Mercury, Chevrolet e outras relíquias. Cerca de 8.000 circulam na capital, e centenas foram transformados em limusines oferecidas a noivos, festeiros e turistas.
Quando Cuba assumiu os mecanismos de mercado em seu embrião capitalista também assumiu os danos colaterais: as emergentes desigualdades sociais, as interferências da máfia durante as trocas de titularidade de apartamentos e veículos e os contratos falsos sobre valor e conceito das transações para evitar impostos. "Há intermediários que estão ganhando fortunas", admitem fontes oficiosas.
Também quer sua parte a patrulha que me deteve uma noite dirigindo na contramão. O diálogo com o agente terminou com o aparecimento de um civil que me convidou a subir em um carro. "A multa é de 60 CUC, mas por 20 CUC o senhor pode ir embora. Deixe o dinheiro no assento do carro e saia." Cúmplice do delito, foi o que fiz.
A técnica me lembrou, em miniatura, a cortesia do cabo policial mexicano Arturo Durazo (1924-2000) durante os intervalos de suas extorsões a balas. As vítimas chegavam a seu escritório, e então o negro Durazo saía, deixando aberta uma gaveta da escrivaninha. Os chantageados depositavam ali pacotes de notas, moedas de ouro, escrituras, joias: as legendárias "mordidas" ainda vigentes na América Latina, embora mais sofisticadas, do Rio Grande à Terra do Fogo.
Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
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