Brasil não está pronto para a Copa do Mundo
Jorge Ramos - NYT
O Brasil não está pronto para a Copa do Mundo de futebol. Nem estará.
Há coisas pendentes demais. Mas, não se preocupem. A bola vai rolar a
partir de 12 de junho, e durante 90 minutos, por algumas vezes, nos
esqueceremos de tudo o que está ruim.
Ainda há estádios por
terminar, policiais entrando nas favelas para evitar violência -- uma
imagem negativa para o mundo-- e protestos dos que creem que os US$ 11
bilhões (R$ 25 bilhões) gastos no futebol seriam melhor utilizados em
escolas e hospitais.
Já é tarde demais para queixar-se. A maioria dos times já está treinando no Brasil (eu já comprei meus ingressos para a final).
Coube-me cobrir quatro mundiais como jornalista: EUA, Coreia do
Sul/Japão, Alemanha e África do Sul. Sempre houve relatos de que o país
sede não está pronto e, afinal, sempre se realiza o torneio e os
problemas são superados (ou, no pior dos casos, se improvisam soluções).
No Brasil está acontecendo o mesmo.
"O Brasil começou a
trabalhar tarde demais", disse Sepp Blatter, presidente da Fifa, o órgão
internacional que rege o futebol. "É o país que mais se atrasou desde
que estou na Fifa, apesar de ser o único que teve tanto tempo, sete
anos, para se preparar." O Brasil deixou tudo para o final. E seu tempo
terminou.
"É uma vergonha", disse o ex-jogador Ronaldo em
entrevista à Reuters, criticando os atrasos na organização do evento.
"Estou envergonhado. Este é meu país e o amo muito. Não deveríamos
divulgar esta imagem no exterior."
Mas a presidente Dilma
Rousseff não deixou que ele marcasse um gol e respondeu ao atacante:
"Tenho certeza de que nosso país apresentará a Copa das Copas.... Estou
orgulhosa de nossas conquistas. Não temos nenhuma razão para estar
envergonhados e não temos um complexo de inferioridade".
Ao
contrário. Se há algo que caracteriza os brasileiros, assim como os
texanos, é que gostam de fazer as coisas grandes. De fato, tiveram a
audácia de ser anfitriões da Copa do Mundo e dos Jogos Olímpicos com
apenas dois anos de intervalo. Genial.
Mas a burocracia
brasileira é de se arrancar os cabelos e não esteve à altura das
circunstâncias. A Copa rapidamente a ultrapassou.
Tenho um
exemplo perto de casa. O Consulado do Brasil em Miami foi um verdadeiro
desastre para atender as milhares de pessoas que querem ir à Copa e
precisam de um visto. Há várias semanas fui solicitar um visto de
turista para meu filho, que me acompanha ao Brasil. Cheguei pouco depois
das 9 da manhã e tive de esperar mais de três horas para ser atendido
por um dos funcionários. O consulado não estava preparado para o
mundial.
O atendimento foi péssimo e mal-humorado, o site da
internet para solicitar o visto é tão confuso que gera mais perguntas
que respostas, cartões de crédito não são aceitos e ninguém atende o
telefone no consulado para agilizar o processo. É tão frustrante que vi
dois adultos saírem de lá chorando.
É claro que, com um sistema
tão ruim, ineficaz e limitado, muitas pessoas têm que voltar várias
vezes com documentos, pagamentos e pedidos absurdos de dois burocratas
cansados que, com seu pedacinho de poder, fazem concorrência ao
"Castelo" de Franz Kafka. Terrível. O consulado do Brasil em Miami deu
uma imagem muito injusta de seu país. Oxalá não seja um augúrio. Em vez
de nos dar as boas-vindas, sua mensagem parecia ser: não queremos que
vão ao Brasil.
Tudo isto, espero, vamos esquecer assim que
virmos as primeiras partidas de futebol. Estive em várias ocasiões no
Brasil, e é um país extraordinário. Nunca saí de lá decepcionado. Mas,
esta é a prova de fogo.
Como os brasileiros medirão o êxito de
sua Copa do Mundo? Tenho quase certeza de que não será em reais, mas em
gols. Se a seleção do jogo bonito ganhar o campeonato mundial pela sexta
vez, tudo terá valido a pena para eles. Até os manifestantes, tenho
certeza, deixariam seus protestos no dia da final.
Não, o Brasil
não está pronto para o Mundial, mas na verdade não importa.
Esquecemo-nos de que a única coisa verdadeiramente importante em uma
Copa é o futebol. Nada mais.
Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
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