quarta-feira, 4 de junho de 2014

Presidente brasileira rejeita críticas à Copa do Mundo
Simon Romero - NYT 
Roberto Stuckert Filho/PRA presidente Dilma Rousseff recebeu correspondentes internacionais no palácio da Alvorada e rebateu críticas às obras de infraestrutura inacabadas para a Copa do Mundo A presidente Dilma Rousseff recebeu correspondentes internacionais no palácio da Alvorada e rebateu críticas às obras de infraestrutura inacabadas para a Copa do Mundo
No ano de 1970, agentes da ditadura militar no Brasil prenderam Dilma Rousseff, que na época participava de um grupo de guerrilha urbana incipiente, a Vanguarda Armada Revolucionária Palmares. Dentro da prisão onde foi detida em São Paulo, travou-se um debate entre os presos sobre se deveriam apoiar o Brasil na Copa do Mundo daquele ano.
"Naquela época, muitas pessoas que se opunham ao governo questionaram se estaríamos reforçando a ditadura por torcer pela seleção brasileira", disse Dilma Rousseff, de 66 anos, que hoje é a presidente do Brasil, em uma entrevista nesta terça-feira (3). "Eu não tinha esse dilema", afirmou.
Dilma disse que a resistência dissipou-se entre os guerrilheiros presos com a aproximação da vitória do Brasil sobre a Itália na final, que foi foi realizada na Cidade do México.
Com o governo do Brasil enfrentando agora o descontentamento generalizado em relação aos seus preparativos para a Copa do Mundo, Dilma fez esta rara referência pública a sua prisão décadas atrás, quando os interrogadores a torturaram durante seus três anos de prisão.
Bebendo suco de laranja e comendo castanha de caju em uma espaçosa mesa circular em seu escritório, ela defendeu os empréstimos de bancos estatais para a construção dos novos estádios para o torneio de futebol e insistiu que os brasileiros que pretendem evitar o evento são uma "pequena minoria".
Com a aproximação do início da Copa do Mundo deste ano, no dia 12 de junho, Dilma está às voltas com uma onda de greves, uma economia lenta e uma corrida presidencial em que seus rivais estão subindo nas pesquisas de opinião pública. Enquanto ela ainda é tida como uma das favoritas nas eleições de outubro, seu governo foi alvo de críticas por atrasos nas obras para a Copa do Mundo e uma série de outros projetos de obras públicas paralisados.
Uma pesquisa divulgada na terça-feira pelo Pew Research Center revelou que 72% dos entrevistados estavam insatisfeitos com a maneira como as coisas estavam indo no Brasil, um aumento em relação aos 55% apenas algumas semanas antes dos enormes protestos de rua que sacudiram as cidades brasileiras em junho de 2013.
Na pesquisa, baseada em 1.003 entrevistas cara à cara com adultos brasileiros, em abril, dois terços dos entrevistados disseram que a economia do Brasil estava em má forma, e 61% disseram que sediar a Copa do Mundo foi uma má ideia porque retirou recursos dos serviços públicos, incluindo saúde e educação.
O clima sombrio que segue um boom econômico, que culminou com 7,5% de crescimento em 2010, foi agravado por escândalos na empresa nacional de petróleo, a Petrobras, e uma desaceleração no crescimento econômico de vários anos. A economia cresceu apenas 0,2% no primeiro trimestre de 2014, menos do que a expansão de 0,4% dos três meses anteriores.
Ainda assim, Dilma Rousseff, do Partido dos Trabalhadores, de esquerda, que governa o Brasil desde 2003, defendeu vigorosamente seu histórico econômico em uma entrevista de uma hora no palácio presidencial na capital modernista, Brasília. Ela insistiu que várias medidas mostram que a vida, em geral, tinha melhorado no Brasil.
Citando projetos de combate à pobreza que elevaram milhões de pessoas para a classe média na última década, ela disse que a renda dos brasileiros mais pobres tinha subido bem acima da taxa de inflação, fazendo com que o progresso do Brasil na redução da pobreza fosse comparável ao da Espanha após a morte do ditador Francisco Franco, em 1975, que marcou o início de uma transição para um governo democrático.
Enfatizando que a desigualdade caiu no Brasil enquanto crescia nos Estados Unidos e em partes da Europa, Dilma Rousseff, economista por formação, elogiou o trabalho de Thomas Piketty, professor da Escola de Economia de Paris, cujos estudos de desigualdade ganharam atenção mundial.
"Eu acho que ele fez um trabalho fantástico", disse Rousseff sobre Piketty, que defendeu suas conclusões sobre a evolução da desigualdade de riqueza depois de o jornal "Financial Times" atacar seus dados.
Rousseff disse que o aumento da renda no Brasil havia criado novos desafios, refletidos nas grandes manifestações que deram lugar a protestos menores, muitas vezes liderados por ativistas de habitação ou grupos anti-establishment. Ela disse que muitas das queixas dos manifestantes sobre a má qualidade dos serviços, seja de governos ou empresas privadas, eram compreensíveis.
"Os serviços cresceram menos do que a renda", disse ela, dando como exemplo o crescente acesso ao transporte aéreo no Brasil, que deixou muitos viajantes fatigados só de pensar em lidar com a infraestrutura aeroportuária afogada do país. A classe média crescente do Brasil, segundo ela, tem "mais desejos, mais ambições, mais exigências".
"Esta é uma parte intrínseca do ser humano na sociedade em que vivemos", disse ela. "Ele obtém algo, mas quer mais, o que é muito bom".
Além dos desafios que seu governo enfrenta antes da Copa do Mundo, com as forças de segurança se preparando para um possível retorno de protestos em grande escala contra os gastos com o torneio, Rousseff disse que o evento é uma oportunidade de fortalecer a posição do Brasil no cenário global.
Ela também disse que estava preparada para um degelo nas relações com os Estados Unidos, depois de um azedamento no ano passado com as revelações de que a NSA (Agência de Segurança Nacional) tinha espionado Rousseff e seu círculo de assessores. Ela observou que planeja reunir-se com o vice-presidente Joe Biden quando ele visitar o Brasil este mês para assistir ao jogo dos EUA contra Gana.
"Estou certa de que podemos retomar nossas relações de onde paramos", disse Rousseff. Ela disse que estava disposta a remarcar uma visita de Estado a Washington, que ela havia adiado em setembro, em resposta às revelações da NSA.
Sobre outras questões, Dilma disse que esperava que o Brasil continuasse elevando seu perfil diplomático e econômico na América Latina e no Caribe. Ela destacou Cuba como um país onde as empresas brasileiras estavam fazendo incursões. "Estamos apostando muito mais em uma política de investimento do que em um bloqueio", disse ela, referindo-se ao embargo comercial dos Estados Unidos contra Cuba, que começou em 1960.
Em um exemplo de fortalecimento dos laços do Brasil com Cuba, a gigante brasileira de construção civil Odebrecht realizou uma renovação no porto de Mariel, em Cuba, por US$ 900 milhões. Rousseff disse que a reforma da economia de Cuba exigia a aplicação de "mais forças de mercado, e não menos".
A ajuda a Cuba no processo de abertura de sua economia também reflete a evolução política do Brasil, e de Dilma, desde o fim do regime militar em 1985. Enquanto o Brasil tem hoje uma presidente que foi guerrilheira marxista em sua juventude, ele se destaca entre os seus vizinhos por ter uma lei que protege os perpetradores de violações de direitos durante a ditadura.
A mais alta corte do Brasil confirmou a lei de anistia, o que significa que os torturadores de Dilma permanecem livres até mesmo enquanto as comissões examinam os crimes politicamente motivados da época.
Rousseff disse que, como presidente, ela respeita a lei, apesar de seus pontos de vista pessoais. "Eu não acredito em vingança, mas tampouco acredito em perdão", disse ela.
"É uma questão de conhecer a verdade", acrescentou. "É extremamente importante para o Brasil saber o que aconteceu, pois isso vai significar que não vai acontecer novamente". 
Tradutor: Deborah Weinberg

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