quarta-feira, 4 de junho de 2014

Comum em Pequim, preconceito contra forasteiros cria tensão entre moradores 
Helen Gao - Plrospect 
Kim Kyung- Hoon/Reuters
Calçados infantis são colocados contra janela de prédio residencial onde vivem trabalhadores de reciclagem na vila Dongxiaokou, em Pequim, na China Calçados infantis são colocados contra janela de prédio residencial onde vivem trabalhadores de reciclagem na vila Dongxiaokou, em Pequim, na China
No mês passado, quando voltei ao apartamento dos meus pais, após uma viagem aos Estados Unidos, eu notei que a porta do apartamento vizinho, antes mantida ligeiramente aberta, estava fechada. A conversa abafada que normalmente vinha de detrás da porta se transformou em silêncio. "As meninas tiveram que sair", explicou meu pai. "As famílias do andar de cima e do andar de baixo escreveram uma carta conjunta se queixando delas."
Há meio ano, três dúzias de mulheres jovens se mudaram para o prédio, que fica em um bairro elegante no noroeste de Pequim. Vestindo uniformes vermelhos, com os cabelos presos em coque, trabalhavam em restaurante 24 horas de fondue chinês e dormiam em beliches no apartamento de três quartos vizinho. Ocasionalmente eu me encontrava com elas no elevador. Nós conversávamos sobre o trabalho delas e sobre Pequim. ("Eu estou me acostumando à poluição, mas minha pele está sempre seca.")
Esse arranjo amigável continuou até poucas semanas atrás, quando um homem do andar de baixo bateu à porta dos meus pais, pedindo ao meu pai que assinasse uma carta de reclamação. "Elas são muito barulhentas", ele gesticulou para a porta vizinha. "Mas elas nem usam celulares por aqui", disse meu pai. "De qualquer forma, nós também suspeitamos que elas trouxeram baratas ao prédio", o homem continuou. "Essas 'waidiren' são sujas."
"Waidiren", ou "pessoas de fora da cidade", é uma frase comum em Pequim, já que a cidade de 21 milhões de habitantes inclui 8 milhões de migrantes de outras províncias. Eles são separados dos moradores locais pelo sistema "hukou", um registro de residência que lhes nega acesso pleno aos serviços de saúde locais e ensino público gratuito para seus filhos. A política tem atraído muitas críticas nos últimos anos, impulsionando uma reforma em cidades importantes. Mas menos discutida é a discriminação casual que encontram.
Por mais vasta e diversa que seja a China, a migração em massa é um fenômeno relativamente recente. As reformas econômicas de Deng Xiaoping nos anos 80 geraram o fenômeno, que ganhou força nos anos 90, à medida que as cidades costeiras se transformaram em metrópoles, atraindo pessoas de todo o país com oportunidades de carreira. Migrantes de Sichuan, Hunan e Shandong chegaram em peso a Pequim e Xangai, transformando as cidades antes homogêneas em um caldeirão de dialetos e costumes. Isso não levou a um surto de mentalidade aberta entre os moradores locais, que prontamente se voltaram ao estereótipo sobre forasteiros.
As pessoas de Henan, uma província na região central da China, sofrem com a reputação de não serem confiáveis, qualquer pessoa de Guizhou e Shanxi provavelmente é pobre e atrasada, enquanto os homens do Nordeste são considerados gângsteres que batem nas esposas.
Essas percepções perseguem as vidas dos forasteiros nas grandes cidades, que experimentam preconceito de várias formas, da rejeição inexplicada em pedidos de emprego a amor não correspondido. Recentemente, eu me vi em algumas poucas reuniões de escola, ouvindo confissões de amigas sobre seus dramas nos relacionamentos e critério para pretendentes. "Eu prefiro rapazes de Pequim aos de outros lugares", uma amiga murmurou enquanto tomava chá no McDonald's. "Caso contrário, todos seus parentes de fora da cidade vão querer visitar o tempo todo, e dormir na nossa casa." Outra amiga, que está em um relacionamento firme há anos, também se queixou após visitar pela primeira vez os parentes de seu namorado na província de Shanxi. "Eles não são de Pequim", ela suspirou. "Talvez eu não devesse esperar demais."
De todos os grupos regionais, talvez nenhum seja mais estigmatizado que os uigures, os muçulmanos de língua túrcica da região de Xinjiang, no oeste da China. Amplamente vistos como astutos e violentos, esses preconceitos se tornaram ainda mais pronunciados nos últimos meses, após uma série de ataques terroristas por separatistas uigures. Em março, na cidade de Kunming, no sudoeste, oito homens empunhando facas mataram 29 pessoas em uma estação de trem e deixaram mais de 100 feridos, e ocorreram vários outros ataques desde então.
Esses incidentes fizeram a atenção se voltar para a crescente tensão entre os chineses han e a minoria uigur, também trazendo à tona o assunto da discriminação regional. Uma postagem na rede social popular Weibi, um dia depois do ataque com facas em março, pareceu ter ressonância, sendo retuitado 94 mil vezes.
"Depois que você conhece mais a sociedade, você perceberá que as pessoas de Xinjiang nem sempre empunham facas; as de Henan nem sempre têm dedos ensebados; nem todos os cantoneses comem tudo o que veem, e nem todos os sichuaneses são viciados em mahjong; algumas pessoas do Nordeste são tímidas, e algumas de Xangai são fáceis de conviver; os pequineses realmente não falam com ar pomposo; e os tibetanos não são sempre briguentos. 'Qualé', nós somos adultos maduros, mas observamos este mundo por meio de suposições e preconceitos. Isso, eu acredito, é a coisa mais triste a respeito de nós chineses."
Nos milhares de comentários que se seguiram, as pessoas aplaudiram as observações e acrescentaram as suas próprias. "Eu tenho uma confissão a fazer", disse um sichuanês ao final de um tópico de discussão. "Eu não jogo mahjong, e nem mesmo entendo as regras." 
Tradutor: George El Khouri Andolfato

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