quarta-feira, 25 de junho de 2014

EUA condenam o assédio à imprensa, mas mantêm aliança com o Cairo 
A ressaca das "primaveras árabes" empurra Obama para a "realpolitik" 
Marc Bassets - El País
AP
8.jun.2014 - O novo presidente do Egito, Abdul Fatah al Sisi, faz o juramento de posse em seu primeiro dia no comando do país 8.jun.2014 - O novo presidente do Egito, Abdul Fatah al Sisi, faz o juramento de posse em seu primeiro dia no comando do país
Com a guerra no Iraque e na Síria, o caos na Líbia e a impressão em Washington de que as primaveras árabes foram um pesadelo que só trouxe desordem e instabilidade, os Estados Unidos regressam aos velhos modos que garantiram uma precária "pax americana" na região. O Egito, durante décadas ancoragem da maior potência no Oriente Médio e no mundo árabe, é novamente um aliado indispensável. Um círculo se fecha.
Três anos depois da queda de Hosni Mubarak, outro militar, o novo presidente, Abdelfatah al Sisi, é o homem forte dos EUA. No Cairo, no fim de semana, o secretário de Estado, John Kerry, falou da "associação histórica" entre os dois países, anunciou o desbloqueio de US$ 572 milhões em ajuda militar e prometeu que "muito, muito em breve" as forças armadas receberão dez helicópteros Apache.
"A ideia de que as coisas voltam à normalidade nas relações habituais entre Egito e EUA não deveria ser assim", disse por telefone Joe Stork, responsável por Oriente Médio e norte da África na organização pró-direitos humanos Human Rights Watch. "Está na hora de haver uma mudança."
A sentença de prisão de três jornalistas da rede Al Jazira dois dias depois que se soube da condenação à morte de 183 militantes da Irmandade Muçulmana mereceu a reprovação da Casa Branca. Em um comunicado, o porta-voz do presidente Barack Obama pediu ao governo egípcio que indultasse ou comutasse as sentenças dos jornalistas e concedesse clemência a todos os condenados por motivos políticos.
Mas as decisões judiciais recentes não modificaram os planos para retomar a aliança militar que desde o final dos anos 1970 sustentou a relação entre EUA e Egito. O trato era redondo. Em troca de manter a paz com Israel, o Egito recebia por ano centenas de milhões de dólares que investia em armamento de fabricação americana. O dinheiro não só criava emprego nas fábricas do meio-oeste dos EUA, como oferecia ao país uma alavanca para influir.
As primaveras árabes – as revoltas contra os líderes autoritários que explodiram em 2011 – obrigaram Obama a revisar as alianças dos EUA com regimes como o egípcio.
Na Tunísia, país que saiu em melhor situação desse processo, os EUA quase não intervieram. Na Líbia, contribuíram para a campanha de bombardeios que acabou com a queda e a morte de Muammar Gaddafi. Na Síria, o levante contra Bashar al Assad derivou em uma guerra civil na qual morreram mais de 150 mil pessoas. O Iraque era um caso à parte. Foi o antecessor do democrata Obama, o republicano George W. Bush, quem ordenou a invasão desse país em 2003, muito antes das primaveras, mas deixou uma lição em Washington: as mudanças de regime não poderiam ser impostas de fora.
Durante esses anos, o presidente dos EUA manteve uma posição ambígua, dividido entre a retórica a favor da democracia, os interesses nacionais e a constatação de que a influência dos EUA é limitada diante de um processo difícil de controlar.
O Egito, país mais populoso da região, era a prova do êxito ou fracasso dos protestos. Obama vacilou durante as manifestações na Praça Tahrir, no Cairo, que precipitaram a queda de Mubarak e coincidiram com uma visita ao Pentágono de comandantes militares egípcios. Preservou a relação com a ascensão ao poder de Mohamed Mursi, o líder da Irmandade Muçulmana. Resistiu a designar como "golpe de Estado" a quartelada que há um ano derrubou Mursi e instaurou um governo sob o controle das forças armadas. Em outubro os EUA suspenderam parte da ajuda militar.
"No Egito, os EUA hesitaram demais a criticar o governo: primeiro com Mubarak, depois os generais, depois Mursi e desde julho novamente os generais", diz Stork. "A cada passo os EUA foram muito reticentes em criticar abertamente e ainda mais em dar passos como condicionar a ajuda militar" aos direitos humanos.
No Oriente Médio, o tempo da democratização e do idealismo na política americana ficaram estacionados. A "realpolitik" – a política externa baseada nos interesses nacionais – volta à ordem do dia. 
Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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