quarta-feira, 25 de junho de 2014

Crise no Iraque preocupa China, grande consumidora do petróleo do país 
China consome a metade do óleo bruto extraído das jazidas iraquianas
Macarena Vidal Liy - El País
Na medida em que progridem os avanços do Estado Islâmico do Iraque e do Levante (EIIL), a China reforça sua atenção sobre os acontecimentos no país árabe. A República Popular compra quase a metade da produção de petróleo iraquiana (aproximadamente 1,5 milhão de barris diários), investiu 7,3 bilhões de euros no setor energético e conta com cerca de 10 mil trabalhadores chineses nesses campos petrolíferos.
Até o momento, a ordem oficial do governo de Pequim é calma. À diferença do que ocorreu durante os recentes protestos antichineses no Vietnã pela disputa de soberania no mar do Sul da China, quando Pequim repatriou mais de 3.000 cidadãos, quase não houve retirada de chineses do Iraque. A porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Hua Chunying, afirma que "os empregados chineses no Iraque se encontram em áreas relativamente seguras".
Pequim, afirma Hua, "apoia os esforços do governo iraquiano para manter a estabilidade interna e lutar contra o terrorismo e espera que a estabilidade e a ordem sejam restabelecidas assim que possível. A China continuará fazendo o que estiver a seu alcance para ajudar o Iraque. Enquanto isso, espera que o lado iraquiano adote medidas concretas para garantir a segurança das empresas e dos trabalhadores chineses no Iraque".
Depois da queda do regime de Saddam Hussein, as companhias de petróleo chinesas irromperam com força no setor energético iraquiano, onde rapidamente se transformaram no maior investidor. Enquanto os EUA perdiam o interesse pelo país árabe diante da possibilidade de extração de petróleo de xisto em seu território, a gigante petroleira estatal chinesa CNPC, o principal investidor estrangeiro no Iraque, adquiria rapidamente os direitos de exploração de campos como os de Al Ahdab, a sudeste de Bagdá, e entrava no consórcio que extrai 37% do produto cru de Rumalla, o principal campo iraquiano. Foi exatamente em Al Ahdab que ocorreram algumas remoções de cidadãos chineses.
Mas a preocupação não se deve tanto ao fato de que os campos de petróleo possam cair nas mãos dos rebeldes. A também estatal Sinopec tem interesses em um campo no norte, em área curda, e 90% da produção se concentram no sul, nas regiões de maioria xiita próximas a Basora, embora ainda muito longe do alcance do EIIL sunita. Em todo caso, segundo apontou Wang Tao, do Centro Carnegie-Tsinhua para Política Global, em um fórum sobre segurança realizado em Pequim, devido à situação na Síria, no Sudão do Sul e agora no Iraque a China "nos últimos anos começou a buscar fornecedores de energia mais estáveis, como Austrália, América do Norte e Reino Unido".
O que mais preocupa a China, que no ano passado se transformou no principal importador de petróleo cru do mundo, acima dos EUA, é a possibilidade de uma escalada de preços. Com reservas domésticas muito abaixo de sua demanda interna, calcula-se que em 2020 a República Popular dependerá das importações para 66% de suas necessidades de petróleo, segundo a Administração de Informação sobre Energia dos EUA (EIA na sigla em inglês). O aumento da produção iraquiana após a queda de Saddam Hussein e da guerra havia sido, em parte, o que permitiu evitar uma alta dos preços nos últimos anos, apesar das sanções internacionais ao Irã como punição por seu programa nuclear.
Uma escalada do preço do cru, que na segunda-feira (23), segundo a agência Reuters, chegou a US$ 114,89 por barril de petróleo Brent, representaria um importante buraco nas contas de uma China cuja economia começa a dar sinais de esgotamento e que tenta superar sua grande dependência do carvão nacional, altamente poluente.
Essa necessidade de se abastecer no exterior poderá causar, segundo os analistas, uma certa virada na política externa do país, que o obrigue a abandonar sua posição tradicional de não envolvimento para envolver-se cada vez mais nos assuntos globais. Uma primeira experiência nesse sentido, comentam eles, já se desenvolve no Sudão do Sul, onde a China, o principal parceiro comercial do país mais jovem do mundo e com importantíssimos interesses em seu setor petroleiro, participa ativamente das conversações entre os lados e os mediadores.
E situações como a do Iraque também abrem a porta para uma maior colaboração com os EUA. Na opinião de Wang, ambos os países têm diante de si importantes possibilidades de cooperação na área de segurança energética. Uma delas, indica, é a "melhora da situação da segurança dos campos de petróleo e do fornecimento".
Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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