Não sabe
Merval Pereira - O Globo
Ao ser
perguntada por jornalistas estrangeiros recentemente por que o país
cresce tão pouco em seu governo, a presidente Dilma deu uma resposta
espantosa, mas coerente com a atual situação: “Não sei”. É preocupante
que ela não saiba, mas a resposta confirma a impressão generalizada de
que temos à frente do governo uma pessoa incapaz de dar resposta à crise
em que o país está instalado.
O governo da presidente Dilma, com a
previsão de que o crescimento do PIB este ano será em torno de 1%, terá
o pior desempenho econômico da História republicana, com exceção de
dois que tiveram crescimento negativo. O professor Reinaldo Gonçalves,
do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, fez
um ranking dos governos brasileiros com base apenas na avaliação
econômica desde Deodoro da Fonseca.
Ele classifica os que tiveram
crescimento do PIB abaixo de 2,3% como os piores: além dos governos com
queda do PIB durante os mandatos, Collor (-1,3%) e Floriano Peixoto
(-7,5%), compõem a lista Venceslau Brás (2,1%) e Dilma Rousseff (2%),
isso quando a previsão de crescimento era de 2,1% a 2,2% em 2013-14.
Em
termos de comparação, governos “medíocres” foram aqueles que tiveram
crescimento do PIB entre 2,3% (Fernando Henrique) e 3,1% (Campos
Salles). Entre eles estão Afonso Pena (2,5%) e João Figueiredo (2,4%). A
taxa média anual de crescimento do PIB brasileiro é de 4,5% no período
republicano; a taxa de crescimento médio anual do PIB mundial é 3,5%.
Para
o governo Dilma chegar à classe “medíocre”, seria necessário que as
taxas de crescimento médio anual do PIB fossem maiores do que 2,8% em
2013-14, impossível de se concretizar diante do crescimento pífio de
2,5% ano passado e de previsão pior ainda este ano.
É por isso que
os candidatos de oposição estão comparando a performance do governo
Dilma às piores da República. Ontem, o ex-governador de Pernambuco
Eduardo Campos disse que o crescimento econômico do país é o pior “desde
Deodoro da Fonseca”, o que, sendo uma quase verdade, já basta para a
luta política pela Presidência da República.
A pesquisa do Pew
Research Center, dos Estados Unidos, que mostra que 86% dos brasileiros
consideram que a inflação é a principal causa do mau humor generalizado
no país — que resiste até mesmo a uma Copa do Mundo — toca no ponto
fulcral de nossa situação.
O governo, em busca de melhorar o
crescimento a qualquer custo, aceitou um pouco mais de inflação e acabou
sendo atingido por sua negligência. Se a presidente Dilma não está
convencida ainda de que uma das principais razões para o país não
crescer é a inflação estabilizada em níveis altos, que deveriam ser
inadmissíveis, estamos bem parados.
A resiliência da popularidade
da presidente Dilma, que ainda é vista com bons olhos pela maioria da
população, é um ponto fora da curva neste cenário brasileiro atual, mas é
muito difícil afirmar-se que esse ponto se manterá até a eleição como
uma exceção, enquanto os níveis das demais facetas da administração
federal permanecem no negativo.
Não sendo uma política
carismática, a presidente Dilma dificilmente conseguirá manter essa
distância da realidade, e necessariamente será tragada pelo ambiente
negativo que domina o país. O fato de não poder ir a um estádio de
futebol com temor de ser vaiada é significativo de clima, mesmo numa
festa como a Copa do Mundo.
O perigo de despertar na multidão um
sentimento negativo é tão grande que nem o ex-presidente Lula se arrisca
a colocar a cabeça fora d’água, ele que gosta tanto de futebol e foi o
maior responsável pela existência do Itaquerão.
Nem mesmo a
torcida do seu Corinthians pode garantir que passe imune às críticas
sobre a organização do Mundial de futebol, cuja desorganização começou
em seu governo, responsável ao mesmo tempo pela glória de ter trazido o
campeonato para o Brasil e de ter conseguido transformá-lo em um ônus
para os governos petistas, sem o bônus que tanto buscaram.
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