Philippe Ricard, Alain Salles e Frédéric Lemaître - Le Monde
John Macdougall/AFP
A nomeação do presidente da Comissão Europeia vem agindo como uma cruel
reveladora das relações de forças dentro da União Europeia. Na quinta e
na sexta-feira (26 e 27), chefes de Estado e de governo deverão aprovar
a nomeação de Jean-Claude Juncker ao posto hoje ocupado por José Manuel
Barroso.
A decisão é uma pequena revolução que muitos
dirigentes, a começar por Angela Merkel, consideravam improvável ou até
descabida até poucas semanas atrás. O Conselho Europeu deve levar em
conta a escolha do Parlamento Europeu em prol do líder da direita, que
venceu as eleições europeias. Mas, a nomeação desse veterano da zona do
euro virou um confronto com o Reino Unido, que está prestes a ser
isolado por seus parceiros continentais, e suscitou uma revolta contra a
política de austeridade recomendada pela chanceler alemã.Para diminuir as tensões em um Conselho Europeu que promete ser explosivo, seu presidente, Herman Van Rompuy, se encontrou com o primeiro-ministro britânico, David Cameron, na segunda-feira (23) à tarde em Londres. No entanto, seus colaboradores preferem enfrentar uma crise com o Reino Unido a ter um "conflito institucional" entre o Parlamento e o Conselho, onde o candidato da direita europeia dispõe de uma sólida maioria.
Superar a crise da zona do euro
David Cameron não arreda. Durante o Conselho Europeu, ele deverá fazer um apelo para que votem contra ou a favor de Jean-Claude Juncker, o que seria algo inédito entre chefes de Estado e de governo."Se a vontade é de encontrar um candidato consensual, a decisão deveria ser adiada, mas se os dirigentes não querem nem mesmo considerar outros nomes, deve haver uma votação", avisa uma fonte britânica. "É importante que cada dirigente assuma uma posição clara quando princípios tão determinantes estão em jogo: conceder novos poderes ao Parlamento através de um acordo espúrio", diz a mesma fonte.
A provável nomeação de Jean-Claude Juncker também tem provocado um sério embate entre os dirigentes que o apoiam. Desta vez a questão é a política econômica a ser seguida para superar a crise da zona do euro quatro anos após o naufrágio da Grécia. Coordenada por Matteo Renzi, presidente do conselho italiano, e por François Hollande, a rebelião tem como alvo a austeridade recomendada pela chanceler alemã.
No sábado (21), em Paris, os chefes de governo socialdemocratas europeus apoiaram oficialmente a candidatura de Jean-Claude Juncker, esperando que ele adote parte de suas demandas, apesar das reservas de Angela Merkel.
"As prioridades que escolhemos", explicou François Hollande após o encontro, "são primeiramente o crescimento e o emprego, usando todas as margens, todas as flexibilidades do pacto de estabilidade e de crescimento, e lançar um grande programa de investimentos para organizar, entre outras coisas, a transição energética e a independência energética da Europa."
Briga à distância com a chanceler alemã
Os chefes de governo socialdemocratas não estão procurando renegociar o pacto de estabilidade e de crescimento, mas lutam por uma aplicação "inteligente" desse instrumento de disciplina orçamentária. Segundo Hollande, usar todas as flexibilidades significa respeitar os compromissos. "Mas nós [poderíamos] saber quais são os investimentos que estão entrando ou não no nível dos gastos, essa é a proposta italiana", explica o presidente francês, que acredita que "poderia haver ajustes em um certo número de esforços ligados aos fundos estruturais". François Hollande explicou que ele havia sido "encarregado de levar essas orientações" durante o Conselho Europeu.Nessa briga à distância com Angela Merkel, o chefe do Estado recebeu o apoio enfático do vice-chanceler alemão Sigmar Gabriel. Este lembrou a situação da Alemanha em 2003: o governo de Gerhard Schröder havia então lançado seu amplo plano de reformas, sem ter condições de respeitar suas metas de deficit.
O líder do Partido Socialdemocrata alemão reconhece que poderia se conceder a mesma flexibilidade a outros países. Mas ele também não dispõe de uma grande margem de manobra diante de Angela Merkel.
Seus compatriotas são em grande parte comprometidos com o pacto de estabilidade, criado a pedido de Helmut Kohl para disciplinar os países do Sul. Angela Merkel e o ministro das Finanças, Wolfgang Schäuble, mudaram a orientação do debate, na semana passada, e figuras secundárias assumiram o papel de criticar Sigmar Gabriel. Para Steffen Kampeter (CDU, direita), secretário de Estado junto ao ministro das Finanças, está fora de cogitação modificar o pacto.
"Existem limites. É como se recusássemos o acordo sobre o salário mínimo", ele explica, para deixar claro aos socialdemocratas europeus que, com ou sem Juncker, não chegou a hora de uma mudança de política.
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