Florence Beaugé - Le Monde
Andrzej Wiktor/EFE
Foi um baque para o governo Tusk. Uma semana após desencadear o
escândalo das escutas ilegais de dirigentes políticos, a publicação
semanal "Wprost" voltou à carga em sua edição do dia 23 de junho,
publicando a transcrição de aproximadamente oito horas a mais de
gravações secretas.
Essas novas revelações parecem ainda mais comprometedoras do que as
anteriores para a coalizão de centro-direita no poder em Varsóvia.
Radoslaw Sikorski, ministro das Relações Exteriores, é um dos principais
alvos dessa última leva. Esse homem distinto formado em Oxford, casado
com a jornalista norte-americana Anne Applebaum, foi pego falando em
termos inesperados."A aliança com os Estados Unidos não vale nada. É uma besteira completa. Ela é até mesmo prejudicial, pois cria uma falsa sensação de segurança", declarou Sikorski àquele que, na época, era o ministro das Finanças, Jacek Rostowski. Sikorski disse ainda: "Podemos entrar em conflito com a Alemanha e a Rússia e achar que está tudo ótimo porque fizemos um boquete nos americanos!" Depois, ele lamenta o fato de que os poloneses tinham "muito pouco orgulho e baixa autoestima", que seriam uma prova de sua "negritude" [no sentido de subserviência].
Paranoia entre os políticos
Essas declarações "caíram como uma bomba" na Polônia, como resume Eryk Mistewicz, especialista em marketing político. Radoslaw Sikorski, cujo nome foi muitas vezes cogitado para o cargo de Anders Fogh Rasmussen na Otan ou de Catherine Ashton na diplomacia europeia, de repente viu sua carreira vacilar. A do primeiro-ministro Donald Tusk está igualmente comprometida.Seria esse o último episódio de uma série que tem criado paranoia entre os políticos, mas que tem tanto empolgado quanto escandalizado a opinião pública? A redação da "Wprost", que pende mais para a direita e para o sensacionalismo, diz ter recebido através da internet cada uma dessas gravações secretas, mas nega categoricamente ser a autora delas.
"Não inspiramos nem encomendamos essas gravações. Nossa fonte é conhecida por somente duas pessoas da casa: um jornalista e o diretor. Tudo que podemos dizer é que se trata de um empresário", afirma o chefe do departamento de economia da revista, Grzegorz Sadowski.
E por que essa "fonte" escolheu a "Wprost" dentre tantos veículos? "Porque ela sabia que teríamos a ousadia de publicar essas gravações", responde o jornalista, ao mesmo tempo em que reconhece "não ter questionado" as motivações da "fonte".
"Todas as hipóteses são possíveis"
A imprensa polonesa está sem entender. "Não vejo onde está o 'interesse público' invocado pela 'Wprost', pelo contrário. Desacreditar dessa forma o governo polonês me parece perigoso, com tudo o que tem acontecido recentemente no cenário internacional, especialmente na Ucrânia", se irrita Aleksandra Karasinska, jornalista da "Newsweek Polska".A solidariedade dos primeiros dias, suscitada por uma batida policial das forças especiais na sede da revista, no dia 19 de junho, deu lugar à dúvida. Qual o motivo dessas revelações e, sobretudo, por que agora?
Quem estaria comandando isso que parece ser uma maquinação de profissionais, que pode ter violado a lei durante anos, uma vez que essas escutas clandestinas foram feitas ao longo de muito tempo e dentro de dois restaurantes de Varsóvia?
"Todas as hipóteses são possíveis. Uma vingança de empresários. Um golpe dos serviços secretos estrangeiros. Na Polônia, quanto mais rocambolesco, mais plausível", diz Konstanty Gebert, da "Gazeta Wyborcza". "Conheço alguém que deve estar muito satisfeito neste momento, o Vladimir Putin", suspira o pesquisador e sociólogo Georges Mink.
A "Wprost" também está bem satisfeita. A revista, que normalmente tem uma tiragem de 50 mil exemplares, decidiu aumentá-la para 300 mil exemplares esta semana.
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