Nós Somos uma Máquina de Perder Dinheiro
Poucas afirmações possuem a força natural de causar longos segundos de silêncio e reflexão como essa: nós fomos programados, tanto genética quanto socialmente, para perdermos dinheiro na bolsa de valores.
Tal
pensamento traz em si o mesmo caráter silenciador do “sou vegetariano”
em um churrasco. O fato é que todos nós gostamos de afirmações
positivas, palavras de incentivo e quadros coloridos nos dizendo, “tudo
bem, tudo dará certo!”. Talvez essa seja a maior característica
da nossa geração, se você nasceu no final dos anos 80 para cá – sai a
ideia de que a vida é difícil, trabalhosa, recheada de responsabilidades
e entram pensamentos libertadores, meio clichés, do tipo “você pode ser
e fazer o que quiser, o que importa é estar feliz, corra atrás dos seus
sonhos”.
Para os que não estão familiarizados com o mercado de renda variável tupiniquim, saibam desde já que ele foi dividido em antes e depois
da crise sub-prime. 2008 foi o grande ano de mudanças de paradigma na
nossa bolsa. Antes da crise em decorrência da bolha de hipotecas
norte-americana, conhecíamos um mercado ainda em características
pré-civilizatórias: tudo só subia, as Estatais ainda cumpriam um papel
majoritário no peso de nosso índice – muito mais do que hoje – e você
não precisava saber exatamente o que fazer, afinal de contas, caso
houvesse comprado algo em uma hora não tão boa, bastava esperar que,
pacientemente, os preços voltariam ao seu preço de compra e, pouco tempo
depois, você já estaria no lucro. Um exército de “profissionais” sequer se preocupavam com o momento da compra, pois todos viviam uma espécie de “oba-oba” do vai subir para sempre.
Em 2007 o mercado estava no seu ápice bull: havia feiras de investimentos em que era possível encontrar palestrantes que diziam,“chute
o traseiro do seu chefe e vá viver de bolsa! O que está esperando? Olhe
essa lista de ativos que subiram mais de mil por cento em linha reta!”.
Um séquito fiel e incontesto de professores, dentistas, empresários,
advogados, estudantes e aposentados sentavam naquelas cadeiras
estofadas, com suas canetas personalizadas e bloquinhos que ganharam
como brinde, para anotar aqueles conselhos de pessoas que nunca haviam
visto tudo despencar. Estavam comprando no final da curva de alta,
arcando com custas operacionais duzentos, trezentos por cento mais altas
do que arcamos hoje em dia, e nada disso parecia importar. Eis que veio
2008.
Quando a crise sub-prime explodiu, a grande maioria dos neófitos pensou: “Ah, tudo bem, está caindo um pouco; melhor comprar mais para abaixar o meu preço médio”. Os não tão confiantes ligaram para seus assessores, que disseram: “Está caindo, mas logo mais tornará a subir”. O
próprio Presidente da República tratou de exportar o medo, dizendo que o
lado de lá do hesmisfério vivia um clima de terror, mas que aqui,
debaixo da linha do Equador, tudo aquilo chegaria como uma marolinha,
afinal de contas, o que tínhamos a ver com aqueles investimentos
complicados e equivocados que os gringos haviam feito? Aqui era Brasil,
pô! O Brasil vivia um momento único: sonhava em sediar a Copa do Mundo e
as Olimpíadas em poucos anos, nosso PIB havia crescido mais de seis por
cento em 2007 e o Banco do Brasil era utilizado como exemplo de
fortaleza e Basiléia ao resto do mundo, desorganizado e especulativo.
Nada de mal poderia nos atingir! Éramos um verdadeiro cachalote
econômico, invencíveis. Bom, quem viveu a história sabe que as coisas
não ocorreram de maneira tão tranquila assim. A marolinha, ao final,
revelou-se uma tormenta em uma economia cujo crescimento havia se
escorado no binômio crédito subsidiado e consumo de varejo estimulado.
Havíamos ignorado totalmente reformas importantes em nosso código
tributário, em logística e tecnologia da informação e agora iríamos nos
molhar pra valer e sequer havíamos comprado os guarda-chuvas ainda. Foi
feio.
“Lá, a crise é um tsunami. Aqui, se chegar, vai ser uma marolinha.”
Um
número enorme de investidores – que se recusavam a aceitar que era
possível perder muito dinheiro em uma queda violenta – foi pego com as
calças arreadas. Alavancados, utilizavam-se de termos para movimentarem
mais dinheiro do que possuíam em suas contas; todas as suas posições
abertas sem qualquer tipo de cuidado defensivo ou plano B; nunca haviam
levantado a hipótese de que talvez, apenas talvez, devessem aprender a
estruturar operações protegidas em suas carteiras. O clima era o de uma
verdadeira festa eterna. Nunca os escritórios haviam ganho tanto
dinheiro, havia um número recorde de investidores na bolsa, o Ricardo Amorim havia previsto o IBOVESPA em 200 mil pontos e o próprio presidente da BMF-BOVESPA dizia, em uma entrevista, que alcançaríamos os cinco milhões de CPF’s ativos e investindo. Foi um verdadeiro morticínio.
A pergunta que fica é: Por que ninguém imaginou que aquilo tudo poderia ruir? Que aquela alta decenal poderia regredir, se tornando uma enorme correção? E mais do que isso: Porque tendemos a acreditar que os preços subirão para sempre?! A resposta é direta – porque fomos feitos para isso.
O homem moderno, na concepção biológica da expressão, é uma máquina de
acreditar no melhor. Desde sempre, seja quando nos lançamos nos oceanos
em busca de um continente perdido, até quando começamos a rabiscar os
primeiros planos para a nossa chegada na lua, sempre acreditamos que
tudo daria certo; caso contrário sequer levantaríamos das nossas camas.
Quando algo está dando errado em nossas vidas, ouvimos – “não se preocupe, dará tudo certo”. Quando planejamos esse ou aquele objetivo para o próximo ano, todos nos dizem, “pensamento positivo, cara, tudo dará certo!”,
de maneira que nos blindamos contra os que levantam pensamentos
negativos, quase sempre repelindo-os de nossa biblioteca de conselhos.
Fechamos as gavetas para as críticas e abarrotamos nossas prateleiras
apenas com exemplares coloridos e brilhantes, que repetem seus salmos,“dará certo, pode acreditar; você irá conseguir”. Aquele que destoa é taxado como olho gordo, negativo, mal amado.
Fomos construídos, tanto por nossa biologia quanto por nossa sociedade,
para acreditarmos que as coisas tendem sempre a melhorar.
A
bolsa de valores é anti-natural. Poucas afirmações causam tanto alarde:
as grandes e bem sucedidas operações especulativas tendem a ter início
em uma compra de fundo – quando o mercado está lá embaixo – que é quando
todos temem, dizem que o mundo acabará, que nada sobreviverá a essa
crise, que acredita-se sempre ser a última da sociedade, e que é melhor
correr para o ouro e se esconder em uma caverna; após essa compra,
passado um tempo, uma realização em preços altos, quando todas as capas
de revista dizem - “a bolsa de valores é o melhor investimento do ano! Nunca os Brasileiros optaram tanto por esse tipo de investimento”. O especulador de sucesso é um homem solitário.
Ele compra quando ninguém mais deseja aqueles papéis e zera a sua
operação quando estão todos ávidos por aquela nova maravilha da
humanidade. Está sempre na contra-mão do fluxo e esse tipo de postura
exige uma rigidez emocional imensa. Demandam-se anos para que ela seja –
efetivamente – adquirida.
Sugiro
aos leitores que façam o seguinte exercício: que busquem as edições das
principais revistas de negócios do país em que a bolsa de valores foi
capa. Perceberão algo interessantíssimo: quase sempre quando a capa
conclama aos investidores ao negócio, estamos em um mercado de topo e na
proporção inversa, quando o mercado é demonizado, estamos em um ótimo
momento de compras. Lembro como se fosse hoje quando o ex-presidente
Lula permitiu que o povo levantasse o fundo de garantia para compra de
ações da Petrobrás; no outro dia houve um programa inteiro em um famoso
canal de notícias, em que um especialista dizia - “É uma ótima
oportunidade! Comprem! O governo jamais cometeria a irresponsabilidade
de permitir ao povo o ingresso em um mercado tão peculiar como a bolsa
de valores, se já não tivesse certeza dos bons resultados da empresa”.
Foi uma verdadeira chacina! O governo, incapaz de analisar sequer uma
projeção plausível para o PIB da própria máquina que governa, saberia,
na suposição desse especialista, o momento correto para chamar o
contribuinte para as compras no mercado de renda variável. A lição
amarga até hoje a boca de quem seguiu a onda.
Existem
diversas outras formas, mais complexas e estruturadas, para se fazer
dinheiro dentro do mercado, envolvendo a venda coberta, lançamentos
cobertos, operações travadas em índice, dólar, o mercado agrícola, mas
tudo isso são derivações do que você vai aprendendo, ao longo dos anos,
nesse exercício de humildade e de ego controlado que é a bolsa de
valores de topos e fundos; essas são esquinas mais acima, asfaltadas,
que só são atingidas após meditarmos sobre essa dura realidade: a de que
somos construídos para perder dinheiro na bolsa de valores e a de que,
antes de qualquer estratégia super-complexa ou algoritmos
mega-programados, o mercado, para a grande maioria dos investidores
comuns, seria muito menos doloroso se seguíssemos a máxima de comprarmos
boas empresas quando ninguém as quer e sairmos de nossas posições – ou
até mesmo as mantermos, por um prazo ainda maior, recebendo os louros
dos dividendos e juros sobre capital – quando os outros estão todos
ávidos por mais quinhentos por cento de valorização, após ter havido
quase cem.
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