Meu Libertarianismo Houseniano
Em
todos esses anos, desde que me considero um libertário anarquista, li
as mais diversas justificações de vários autores em defesa do
libertarianismo. Em regra, usando uma recente distinção fornecida por Jeffrey Tucker,
existe tanto os teóricos libertários que se focam quase que
exclusivamente em razões mais “brutas”, ou seja, apenas na aplicação
exclusiva do Princípio da Não-Agressão (PNA) em casos práticos e
hipotéticos (os principais representantes dessa corrente são Rothbard, Block e Hoppe),
e aqueles que buscam ir além da aplicação de um princípio geral para
todos os problemas da humanidade, por compreender que a defesa da
liberdade necessita também de um “recheio humanista”, o qual facilitaria
a aceitação de valores como tolerância, respeito mútuo, inovação e
diversidade em todos os sentidos e áreas da sociedade. Além do próprio
Tucker, podemos citar Friedrich Hayek, James Buchanan, Steven Horwitz, Roderick Long, Gary Chartier e Charles Johnson.
A filosofia libertária, ao contrário do
que seus críticos à direita e à esquerda alegam, é bastante plural e
abarca distintas concepções sobre o indivíduo, a sociedade, a economia,
os valores sociais e o mundo, não sendo assim uma visão “pobre e
simples” sobre as questões humanas. Por se focar, essencialmente, na
questão do uso legítimo da coerção, o libertarianismo acaba permitindo
que subcorrentes venham naturalmente a tona, diferenciando-se pelos
elementos teóricos e valorativos, pertencentes a outras doutrinas e
filosofias, que lhes são “fundidos” ou adicionados por certos
pensadores.
É por isso que podemos encontrar tantos
tipos de libertários: anarquistas como minarquistas, naturalistas como
consequencialistas, segregacionistas como integracionistas, religiosos
como ateus, “direitistas” como “esquerdistas”. Em suma, a filosofia
libertária é um “terreno fértil” que permite que os mais diversos tipos
de concepções teóricas possam ser “erguidas” sobre ela, podendo assim
adaptar-se aos interesses de distintos indivíduos e grupos na sociedade,
desde que, é claro, o uso da coerção seja principiologicamente
rejeitado.
Feita esta introdução, me sinto à vontade para abordar sobre o meu
libertarianismo. Digo isto, admitindo antecipadamente que de forma até
ousada, porque não li em todos esses anos uma defesa da filosofia
libertária nos moldes que aqui pretendo delinear. Isso se deve ao fato
de que os motivos que me levaram à adoção do libertarianismo foram, ao
seu modo, peculiares e, como pretendo explicar, pessimistas,
antissociais e calcados numa visão misantrópica (o que justificará o
título desse texto).
Se por um lado, minha tomada de posição
política se iniciou com um deslumbre (confesso que ignorante) por um
estatismo quase fascista, meu caminho para a filosofia libertária
começou com uma forte rejeição a qualquer mentalidade
anti-individualista. Devo isso em muito, como propulsora dessa guinada
tão brutal, à leitura da obra distópica 1984,
de George Orwell. Até o momento que antecedeu tal mudança de paradigma,
minha confiança na capacidade do “nós” de resolver todos os problemas
da humanidade era forte. Por “nós”, me refiro à coletividade, a defesa
irrestrita e incondicional dos intitulados “interesses sociais”,
supostamente encarnados na figura do Estado. Foi Orwell que não apenas
destruiu essa minha visão ilusória, como me fez criar uma ojeriza a
qualquer filosofia ou teórico que considerasse ser legítimo ou justo
sacrificar indivíduos em nome de um “bem maior”. Consequentemente, essa
rejeição a qualquer coletivismo acabou por resvalar também na minha
visão religiosa.
O passo seguinte na minha rota para o libertarianismo foi firmada pela leitura de duas outras obras: Desobedecendo: A Desobediência Civil & Outros Escritos, do anarquista Henry Thoreau, e Sobre a Liberdade, do liberal John Stuart Mill.
Com a primeira obra, meu coração
anarquista ficou latente. Não poderia mais ignorar que a noção de
autoridade simplesmente não possuía nenhum sentido moral. A ideia de que
uma pessoa deva se submeter aos interesses e mandos de outros para o
seu próprio bem e/ou da coletividade me soavam completamente
arbitrarias. Não importava como essa autoridade surgiu ou mantinha seu
poder ou cargo de superioridade, simplesmente não me parecia mais
correto, sobre nenhum aspecto, defender que um indivíduo deva obedecer
alguém, independente de sua vontade. Nesse sentido, minha posição
contrária à autoridade me levou, em especial, à rejeição de qualquer
variante de filosofias estatistas.
Já com a segunda obra, obtive a orientação teórica sobre como lutar pelos meus ideais na realidade.
Afinal de contas, por mais anarquista que pessoalmente eu seja, o mundo
em que vivo não o é. Na verdade, está bem longe disso. Por isso, a
defesa da liberdade escrita de forma tão apaixonante por Mill foi tão
cativante. Se a autoridade e as formas coletivistas não podem ser
abolidas, que ao menos possam ser mitigadas pela defesa do direito a
certas liberdades essenciais, às quais permitem que pelo menos parte de
nossa individualidade possa ser exercida sem o risco de punições, legais
ou não. Enfim, somente o exercício da liberdade pode nos permitir
considerarmo-nos como indivíduos, e não como androides programados a
pensar e agir de forma pré-determinada ou dentro de uma gama de
possibilidades de ação pré-selecionadas ou toleradas pela sociedade ou
pelo Estado.
Mas afinal onde nessa história entra Dr. House, o famoso personagem de TV?
Bom, todas essas mudanças filosóficas na minha vida acabaram por coincidir com a estreia e temporadas subsequentes da série House.
Eu simplesmente me encantei com o protagonista e sua forma cínica e
misantrópica de ver o mundo. E muito desse encantamento se deve ao fato
de que eu, em grande parte, também compartilho desta visão.
Meu cinismo, que se devia ao meu suposto
respeito à noção de autoridade, se revelava em casa e na escola: na
primeira, pelo fato de que agora eu era um ateu morando com meus pais
ultra-religiosos, e na segunda porque eu era um anarquista que estudava
num colégio militar. Fingir ser algo que não era, apenas para evitar
conflitos desnecessários e irritantes, foi uma regra durante boa parte
da minha adolescência. Nas palavras de House, “é uma verdade básica dos seres humanos: todo mundo mente, a única variável é sobre o que.”
Minha misantropia, por outro lado, tem
raízes na minha infância. Nunca fui o tipo sociável, até porque a
maioria das crianças me parecia estúpida ou violenta (como creio que
crianças em regra o sejam, inclusive como eu fui). A preferência pelo
isolamento social acabou rendendo bons frutos, como meu interesse pela
leitura, especialmente por história, que até hoje é uma das minhas áreas
do conhecimento favoritas. Muito dessas informações históricas
adquiridas, em parte, reforçaram a minha impressão negativa quanto ao
ser humano e sua fácil tendência para desembocar na maldade, mesmo que
por supostos bons motivos. A história humana é tão implacável e sem
consideração nesse aspecto quanto às rugas no rosto de um idoso.
E a gentileza e bondade foram ignoradas
por mim nesses estudos? Não, caro leitor, apenas penso que ou “as
pessoas são boas, descentes e se importam [...] ou as pessoas são
covardes. Eu sou mau para você, então seja mau comigo. Destruição
mutuamente garantida.”
A questão é que foi justamente a
combinação desses elementos “housenianos” que me levaram ao
libertarianismo. Se meu cinismo me protegia de lidar conflituosamente
com as pessoas na maior parte do tempo, minha misantropia cobrava de mim
uma resposta para tornar o cinismo desnecessário. A principio, como
acredito que a maioria das pessoas fazem, minha solução inicial foi
apostar minhas fichas numa resposta única e geral, algo que soasse
definitivo e aparentemente lógico. Por isso, apostei na via estatal para
resolver os problemas do mundo (e como qualquer jovem, pensava que se eu fosse o presidente poderia cuidar de tudo). Evidentemente, com os devidos estudos filosóficos e econômicos com os anos, essa “arrogância fatal”
acabou sendo posta de lado, até que me tornei um libertário anarquista.
Da mesma forma como House afirmou certa feita de que oxigênio é mais
importante do que amor para se viver, eu acredito que a liberdade
individual é mais fundamental do que qualquer plano brilhante para
tornar a terra um paraíso.
Meu libertarianismo houseniano, ao
contrário dos defensores estritos do PNA ou dos libertários humanistas,
não está calcado na fé de que o voluntarismo
é a chave para os grandes e pequenos problemas da humanidade. Ele
simplesmente entende, de forma dura e fria, que as demais opções
disponíveis é que são péssimas e trazem consequências ainda mais
danosas. Eu não sofro (mais) da ilusão de que posso consertar tudo que
não é perfeito neste mundo. Eu simplesmente tento defender uma
alternativa que impeça a nossa situação de se deteriorar mais ainda.
Meu libertarianismo houseniano não
acredita que o ser humano tenda, num ambiente de plena liberdade, ao
progresso, ao bem estar geral, nem à tolerância ou respeito ao próximo
como indivíduo. Ele, cinicamente, observa que ao menos nesse ambiente, o
poder é mitigado ao extremo, qualquer vestígio de autoridade se torna
quase nula, e ninguém tem meios, legais ou não, o suficiente para impor
sua vontade sobre um número enorme de pessoas, justamente o que não
ocorre no cenário em que vivemos atualmente. É por isso que acho que a
crença na capacidade da humanidade para o bem é supervalorizada.[1]
A dureza da realidade, o cinismo cobrado
para sobreviver às relações sociais, além do desgosto por mantê-las por
meras convenções que você não escolheu, mas que lhe foram impostas a
seguir, me levaram, por um lado, a admirar o espírito rebelde,
sarcástico e misantropo do personagem House, e ao mesmo tempo perceber
que é justamente pelo fato do ser humano tender a delírios de grandeza,
arrogância e todos os sentimentos mais vis e mesquinhos inimagináveis
com os demais (uma rápida passagem pelo noticiário policial de qualquer
lugar no planeta é o suficiente para constatar isso), que a minha defesa
da liberdade tem um caráter tão negativista e pessimista. Em outros
termos, “querer acreditar no melhor das pessoas não o torna realidade”.
Não se trata de lutar pela crença num
mundo melhor – o qual somente a filosofia libertária poderia nos levar –
mas impedir que nossa tendência natural e irrefreável para a
autodestruição como espécie é o que me torna um defensor do
libertarianismo. Eu espero sempre o pior das pessoas, por isso não
costumo me desapontar; E como costumo deixar isso claro com as quais
convivo, elas não alimentam expectativas quanto a mim. É justamente essa
facilidade de lidar com a vida que meu libertarianismo houseniano me
fornece.
O personagem House decretou certa vez algo que considero uma espécie de mantra (só para soar irônico): “Somos
animais egoístas, desprezíveis, rastejando pela terra, e porque temos
cérebros, se tentarmos com muito esforço ocasionalmente podemos aspirar
alguma coisa que não seja puro mal.”
Esta tentativa de esforço ocasional que nos permite como indivíduos ir além da maldade, a qual House se refere, eu denomino de libertarianismo.
Nota
[1] Alguns leitores
conservadores, sendo pessimistas antropologicamente, podem até se
empolgar com essa minha assertiva. Contudo, corto de imediato suas asas:
acreditar que somos um bando de lobos tendentes a nos matar pelos
motivos mais espúrios possíveis, não me faz defender a estúpida ideia de
botar lobos para governar outros lobos como solução. Então, podem
retirar seu Hobbes dessa chuva.
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