Reinaldo Azevedo - VEJA
Na estação Itaquera, trabalhadores arrombam o portão para ter acesso à plataforma de trens da CPTM (Peter Leone/futura Press/Futura Press/Folhapress)
O Brasil
está se tornando um país tão exótico, tão fora do eixo — não aquele de
Pablo Capilé, o contestador chapa-branca, financiado por estatais —, tão
perdido que trabalhadores são obrigados a praticar atos de vandalismo
para poder trabalhar. Como sabem os leitores de São Paulo e de todo o
Brasil, os funcionários do metrô, sob a liderança de Altino Prazeres, um
sindicalista ligado ao PSTU, estão em greve. Como sempre acontece
nesses casos, instala-se o caos na cidade.
Na estação
Itaquera, aconteceu um fato espetacular. Os grevistas, como se fossem
donos do bem público, simplesmente trancaram os portões. Acontece que
eles dão acesso também à estação da CPTM, dos trens. Impedir o usuário
de entrar na estação significa deixá-lo também sem o trem. Pois bem:
aqueles que queriam trabalhar não tiveram dúvida: arrebentaram o portão e
entraram.
Vocês
sabem o que penso sobre vândalos: o lugar deles é a cadeia. Ocorre que
não vejo, nesse caso, um ato de vandalismo, mas de resistência.
“Queremos trabalhar, queremos trabalhar”, gritavam esses usuários. A
linha chegou a ser invadida, exigindo que as composições parassem.
Trata-se
de uma greve vergonhosa, escancaradamente política, oportunista! O
governo concedeu aos metroviários um reajuste de 8,7% para uma inflação,
no período, de 5,2%. Isso significa aumento real de salário. Mas não só
isso: o vale-alimentação passou de R$ 247 para R$ 290. O valor é pago
também no 13º, como cesta de Natal. O vale-refeição, que é outra coisa,
passou de R$ 615 para R$ 670, e isso é pago integralmente pelo metrô. Há
ainda a creche para crianças de até sete anos, que pode ser
reivindicada também pelos país, não só pelas mães: o desembolso com esse
serviço passou de R$ 532 para R$ 579. De 2011 até agora, considerada a
data-base dos funcionários do metrô, a inflação foi de 21,11%, e o
reajuste dos salários, de 30,87%, sem contar esses benefícios sociais.
A soma do
vale-refeição com o vale-alimentação chega a R$ 960. O salário mínimo no
país é de R$ 724. No caso dos quem têm um filho em creche, o valor do
desembolso do Metrô alcança R$ 1.492, mais do que dois salários mínimos.
Trata-se de uma greve moralmente criminosa e escancaradamente ilegal
porque não está sendo cumprida a determinação da Justiça de manter 100%
do serviço nos horários de pico.
Daqui a
pouco começa uma audiência de conciliação. Caso não se chegue a um
acordo, a legalidade do movimento será julgada nesta sexta, às 14h30.
Se, como deve ser, a paralisação for considerada ilegal, o Metrô tem de
começar a oferecer o caminho da rua para os chantagistas que se acoitam
no metrô para chantagear os trabalhadores, mesmo estando com a pança
cheia.
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