Que venham os dólares
OESP
A decisão do governo de facilitar o ingresso
de dólares, por meio da redução do Imposto sobre Operações Financeiras
(IOF), pode servir tanto para conter a inflação a curto prazo - embora
sem atacar suas causas mais importantes - quanto para estimular a
ampliação do crédito. A novidade foi conhecida na manhã de ontem: o
imposto cobrado sobre financiamentos externos com prazo mínimo de 180
dias foi reduzido de 6% para zero. O limite anterior era de 360 dias.
Economistas do mercado já haviam formado opinião sobre a medida bem
antes da explicação oferecida pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega.
Segundo especialistas citados pela Agência Estado, as autoridades
afrouxaram a política principalmente para frear a alta do dólar e
impedir o efeito inflacionário do câmbio.
Essa
opinião foi bem sintetizada pelo ex-presidente do Banco Central Gustavo
Loyola: "As projeções para o IPCA de 2014 já são muito altas e a mediana
das estimativas da pesquisa Focus está em 6,47%, muito próxima do
limite". A margem de tolerância para a alta do Índice de Preços ao
Consumidor Amplo (IPCA), referência da política oficial, vai até 6,5%.
O
ministro dificilmente reconheceria, nesta altura, a preocupação com a
alta de preços. Segundo ele, a medida foi tomada para "normalizar" o
mercado de câmbio, além de favorecer a captação de crédito no exterior e
a maior oferta de financiamentos no mercado interno.
O
esclarecimento pode parecer um tanto estranho, porque o próprio
ministro, na mesma entrevista, descreveu o fluxo cambial como já
normalizado e apontou o real como a segunda moeda com maior valorização
nos últimos seis meses. Sem ser dramáticas, as estatísticas são menos
favoráveis que no ano passado. Neste ano, até o fim de maio, o fluxo
cambial - entradas menos saídas - ficou em US$ 4,03 bilhões, com saldo
negativo de US$ 634 milhões no movimento financeiro e positivo de US$
4,46 bilhões no comercial. Em 2013, no mesmo período, o saldo total
positivo chegou a US$ 12,17 bilhões.
Se a iniciativa do
governo der certo, o maior ingresso de dólares poderá conter a
depreciação do real e pelo menos atenuar o efeito do câmbio sobre os
preços. Pesquisas de instituições nacionais e estrangeiras têm mostrado
consumidores muito descontentes com o aumento do custo de vida. Esse
descontentamento é especialmente preocupante para o governo em ano de
eleições. O ministro da Fazenda tenta exibir tranquilidade, mencionando a
queda recente da taxa de inflação, mas esse recuo já era previsto no
mercado financeiro e a expectativa dos especialistas, até agora, é de
recrudescimento inflacionário no terceiro trimestre.
Se a
pressão cambial diminuir, o cenário dos preços no segundo semestre
poderá ser menos incômodo para o governo, embora a tendência de repique
se mantenha. O desajuste das contas públicas, uma das principais fontes
de pressão inflacionária, deve ampliar-se nos próximos meses, segundo
todas as indicações.
Além disso, uma retomada do consumo,
ambição explícita do ministro da Fazenda, também favorecerá a elevação
dos preços - detalhe nunca mencionado em seus comentários. O aumento do
crédito, segundo ele, deverá levar os consumidores às compras e criar
condições para um crescimento econômico mais acelerado. Na sexta-feira,
ao comentar o crescimento do PIB no primeiro trimestre, de apenas 0,2%, o
ministro havia apontado o arrefecimento do consumo como grande entrave à
produção industrial e ao investimento. Como de costume, sua análise
passou longe de questões cruciais, como a combinação, nos últimos anos,
de baixo crescimento do PIB, rápida expansão do consumo e investimento
sempre raquítico.
O lado certamente positivo da medida, por
enquanto, é a normalização gradual da política. Durante anos, o governo
montou barreiras para limitar o ingresso de capitais e frear a
valorização do real. O quadro mudou desde 2013. A eliminação progressiva
dos estímulos monetários americanos facilitou e, mais que isso, tornou
necessário o desmonte das barreiras cambiais do Brasil.
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