quarta-feira, 4 de junho de 2014

"Os britânicos compreendem a loucura que seria sair da UE", diz Tony Blair
Carsten Volkery - Der Spiegel 
Getty Images
"Há uma visão comum de que a Europa tem de reafirmar seu propósito essencial e fazer alterações na maneira como o bloco funciona", diz Blair "Há uma visão comum de que a Europa tem de reafirmar seu propósito essencial e fazer alterações na maneira como o bloco funciona", diz Blair
Ultimamente não temos tido quase nenhuma notícia sobre o ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair. Mas, nos últimos dias, ele entrou no debate envolvendo o próximo presidente da Comissão Europeia. Em entrevista, ele também previu que os britânicos votarão para permanecer na União Europeia.
Depois de anos vivendo discretamente, o ex-premiê britânico Tony Blair retornou ao palco europeu. Na esteira das eleições para o Parlamento Europeu, ocorridas no final de maio, ele lançou uma ofensiva na mídia alertando repetidamente contra o fascínio exercido pelos populistas de direita – que obtiveram resultados significativos no pleito – e exigindo a realização de reformas na UE. A Spiegel Online encontrou Blair na segunda-feira passada, juntamente com vários outros veículos de comunicação.
Spiegel – O Parlamento Europeu quer transformar Jean-Claude Juncker, cujos aliados conservadores saíram por cima nessas eleições, no novo presidente da Comissão Europeia. O primeiro-ministro David Cameron e um punhado de outros líderes da UE estão tentando evitar isso. Será que Juncker é o melhor homem para o cargo?
Blair – Eu não quero comentar sobre pessoas individuais. Nós devemos escolher a pessoa mais capaz de levar adiante a agenda de reformas da Europa. Este é um momento muito importante para o futuro da Europa. Há uma visão comum de que a Europa tem de reafirmar seu propósito essencial e fazer alterações na maneira como o bloco funciona.
Spiegel – Há alguém que se encaixe nesse perfil?
Blair– Existem muitas pessoas que estariam preparadas para se transformar num principal executivo forte para comissão e para adotar a agenda de reformas do conselho. Deverá haver uma sessão especial do conselho durante a qual essa agenda será elaborada. Vai ser difícil lidar com o novo parlamento. O conselho terá que se afirmar com bastante força e a comissão terá que ser unificada sob uma liderança executiva forte e clara.
Spiegel – Isso soa como uma receita para travar uma guerra contra o parlamento.
Blair– As eleições realizadas na UE representam um desejo de mudança. Os líderes da UE não podem simplesmente ignorá-las.
Spiegel – O que você acha do argumento de que os eleitores escolheram um dos principais candidatos para ocupar o cargo de presidente da comissão?
Blair– Eu não acho que as pessoas da Europa realmente sabiam que estavam elegendo o presidente da comissão. Temos que ser realistas sobre isso. As pessoas não se sentem conectadas ao Parlamento Europeu da maneira como gostaríamos que elas se sentissem. Você tem que ter cuidado com o conceito de que essa eleição europeia tinha como finalidade eleger uma determinada pessoa para a presidência. É claro que temos que levar em consideração quem ganhou a eleição. Isso está documentado. Mas, no final das contas, o presidente deve ser a melhor pessoa para o cargo.
Spiegel – Por que você entrou no debate da UE agora? Alguns podem dizer que você está querendo um cargo na burocracia europeia.
Blair– Eu não estou buscando uma função na Europa – nem formal nem informal. Só estou dizendo isso porque é algo em que acredito, literalmente. É importante que os pró-europeus se pronunciem na Grã-Bretanha. 
Spiegel – Na Alemanha, as pessoas acreditam que David Cameron está fazendo chantagem com seus homólogos da UE pela candidatura de Juncker. Será que ele conduziu a Grã-Bretanha a um beco sem saída?
Blair– David Cameron tem uma tarefa difícil nas mãos. Ele não pode ignorar o resultado do UKIP (UK Independence Party) e ele tem problemas dentro de seu próprio partido. Eu acho que dá para dizer melhor o que a Grã-Bretanha deseja caso se argumente com base no que é bom para a Europa, e não apenas no que é bom para a Grã-Bretanha. Dessa maneira será mais provável costurar alianças.
Spiegel – Cameron usou as táticas erradas?
Blair–  Não, eu não estou criticando Cameron de jeito nenhum. Ele tem a chance de construir uma aliança para realizar as reformas. Ele não é o único do Conselho Europeu a enfrentar dificuldades no plano doméstico. Qualquer que sejam os sentimentos negativos existentes em relação aos britânicos sobre isso, essa é uma negatividade passível de cura.
Spiegel – Você consegue imaginar uma situação na qual a Grã-Bretanha venha a sair da UE dentro de cinco anos?
Blair– Eu acredito que, no futuro, a Grã-Bretanha votará e optará por permanecer na Europa. No final, os britânicos compreendem a loucura que seria sair da Europa. Eu não aceito a insinuação de que os britânicos são tão antieuropeus quanto todo mundo fala. É fato que ninguém nunca venceu uma eleição usando uma plataforma de hostilidade em relação à UE. Eu ganhei três eleições como pró-europeu. Margaret Thatcher venceu suas duas primeiras eleições como pró-europeia.
Tradutora: Cláudia Gonçalves 

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