Clemens Wergin - INYT
Andrzej Wiktor/EFE
A onda de políticos populistas e extremistas observada nas recentes
eleições para o Parlamento Europeu pode ser atribuída a muitas coisas. A
uma expressão de raiva antiestablishment generalizada, alimentada por
uma crise econômica que já dura vários anos. Ao ressentimento contra as
elites europeias, que parecem conhecer apenas um único caminho para a
União Europeia – a integração –, enquanto a maioria dos cidadãos prefere
que o estado-nação continue sendo a principal instância decisória na
região.
Mas também há um sentimento de que as pessoas que
administram a Europa são menos do que inspiradoras e parecem ter sido
escolhidas não por seu carisma ou competência, mas devido a
conveniências políticas.Analisemos o caso da presidência do Conselho Europeu, um cargo criado há cinco anos com muito estardalhaço e que passou a ser ocupado pelo tranquilo Herman Van Rompuy, ex-primeiro-ministro belga e poeta amador escolhido porque todos pensavam que ele não incomodaria os demais os chefes de estado europeus com sua própria ambição e visão. Olhando por esse prisma, ele tem feito um trabalho maravilhoso.
Consideremos também o caso de Catherine Ashton, a chefe da diplomacia europeia, que deixará o cargo até o final deste ano. Quando a política britânica foi escolhida, em 2009, ela não tinha nenhuma credencial relacionada à política externa. Mas ela era britânica, membro do Partido Trabalhista – que então controlava o governo de seu país – e mulher. O desempenho dela foi um pouco melhor do que sugeriria sua falta de experiência, mas certamente não foi notável.
Mas para todos aqueles que ficaram decepcionados com as medíocres escolhas de políticos para os principais cargos da Europa, há agora uma nesga de esperança. Alguns dias atrás, o primeiro-ministro polonês, Donald Tusk, sugeriu que seu ministro das Relações Exteriores, Radoslaw Sikorski, deveria suceder Ashton como chefe da diplomacia europeia.
Sikorski é exatamente o tipo de personagem necessário para mudar a nossa visão sobre os líderes políticos europeus: ele não apenas é um dos talentos políticos de maior destaque na Europa, como também é uma figura intelectualmente inspiradora, cuja vida agitada foi moldada pelo curso trágico da história polonesa.
Exilado da Polônia em 1981, quando a lei marcial foi declarada em seu país, Sikorski, que na época ainda um estudante, recebeu asilo político na Grã-Bretanha. Ele estudou filosofia, política e economia na Universidade de Oxford, onde se tornou chefe da comissão permanente da sociedade de debates da Oxford Union.
Em meados da década de 1980, ele foi para o Afeganistão como jornalista para cobrir a invasão russa. "Os afegãos estavam resistindo ao mesmo tipo de domínio estrangeiro que a Polônia; a causa deles era a minha causa", escreveu ele em seu livro de memórias sobre o período em que passou lá, "Dust of the Saints" ("A poeira dos santos", em tradução livre). Há alguns anos, quando eu perguntei a Sikorski sobre os rumores de que ele havia tomado parte nos combates, ele me respondeu com um sorriso. Segundo Sikorski, há coisas que ele nem sequer contou a sua família.
Quando Sikorski se tornou ministro da Defesa da Polônia, em 2005, ele era amplamente visto, por vezes, como um ácido inimigo da Rússia. Mas desde que se tornou ministro das Relações Exteriores, em 2007, ele aparou suas arestas consideravelmente. Ele e o primeiro-ministro Tusk têm investido uma grande quantidade de energia para melhorar as relações com dois grandes vizinhos da Polônia, a Alemanha e a Rússia, apesar de o país ter recebido, historicamente, um tratamento terrível por parte de ambos durante as ocupações nazista e soviética. Os esforços de Sikorski em relação à Rússia esmoreceram após Vladimir V. Putin retomar a presidência do país, em 2012, mas ele tem feito progressos significativos para melhorar as relações com a Alemanha.
A Alemanha também estava interessada em melhorar e atualizar seus laços com a Polônia, mas mesmo assim Sikorski tomou algumas medidas sem precedentes. Em 2011, durante um famoso discurso em que ele implorou para que a Alemanha assumisse um papel mais ativo na crise do euro, Sikorski fez uma declaração notável para um político polonês. "Eu temo o poder alemão menos do que eu estou começando a temer sua passividade", disse ele – um comentário que certamente o colocou em maus lençóis com a oposição conservadora em casa.
Um dos pontos fortes da Sikorski é o fato de ele não ser o mais diplomático dos diplomatas e de se recusar a dominar a arte da chatice.
Durante um discurso de 2012, proferido na sua amada Oxford, ele se dirigiu especialmente a seus antigos colegas de classe – que são conservadores e, em grande parte, céticos do euro – e lhes disse que seria insensato se a Grã-Bretanha deixasse a União Europeia, conselho que seus ouvintes teriam ridicularizado abertamente como interferência nos assuntos internos britânicos se tivesse partido de qualquer outra pessoa (afinal de contas, Sikorski recebeu a cidadania britânica em 1987, apesar de ter renunciado a ela em 2006, depois de se tornar ministro da Defesa da Polônia).
A Polônia, assim como outros países do Leste Europeu, foi vista durante duas décadas como um caso perdido, do qual a União Europeia precisava tomar conta. Mas, na verdade, a Polônia há muito deixou de ser um problema para se transformar em uma solucionadora de problemas, desempenhando um papel diplomático vital na periferia leste da Europa, especialmente em relação à Bielorrússia e à Ucrânia.
Esta semana, a Polônia comemora 25 anos do início de sua transição para a democracia, um lembrete – como se isso fosse necessário – de que o país é detentor da mais bem-sucedida história entre os países do antigo bloco oriental. Desde 2004, quando a Polônia aderiu à União Europeia, sua economia cresceu, em média, 4 % ao ano, e suportou a tempestade da crise econômica melhor do que a maioria das nações europeias. A Polônia também é politicamente estável: Donald Tusk é o primeiro primeiro-ministro desde a transição a ser reeleito para o cargo.
Com a agressão da Rússia contra a Ucrânia, a história retornou à Europa, trazendo consigo uma intensificada sensação de vulnerabilidade para o continente. Os europeus orientais em geral, e Sikorski em particular, têm sido muito mais realistas do que seus colegas europeus ocidentais ao avaliarem os instintos imperialistas da Rússia, e eles têm muito mais habilidade para ler a mentalidade dos governantes da Rússia.
Mas Sikorski também é uma pessoa que pode fazer a ponte entre o Leste e Oeste da Europa. Ele tem bons relacionamentos em Washington e não precisará fazer o treinamento "on the job" que Ashton fez.
A Polônia nunca ocupou nenhum dos postos mais importantes de Bruxelas. Desta vez, o país deveria. E Radoslaw Sikorski é o homem certo no momento certo.
Tradutora: Cláudia Gonçalves
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