quarta-feira, 4 de junho de 2014

Monarquias são mais úteis do que se pensa
Serge Schmemann - NYT
Daniel Ochoa de Olza/ AP3.jun.2014 - O rei Juan Carlos e o príncipe Felipe assistem a uma cerimônia militar 3.jun.2014 - O rei Juan Carlos e o príncipe Felipe assistem a uma cerimônia militar
A decisão do rei Juan Carlos da Espanha, 76 anos, de abdicar em favor de seu filho de 46 anos, o príncipe Felipe, inevitavelmente revive a questão de por que tantos monarcas ainda reinam por toda a Europa.
Parece incrível que 12 monarquias ainda sobrevivam lá, apesar de isso incluir curiosidades como Andorra, cujos copríncipes são o presidente da França e o bispo de Urgel; o Vaticano, governado pelo papa, e os principados de selos postais de Mônaco e Liechtenstein.
As outras –Bélgica, Dinamarca, Espanha, Holanda, Luxemburgo, Noruega, Reino Unido e Suécia– estão entre as democracias mais liberais da Europa, mas todas ainda mantêm governantes hereditários onerosos nas contas nacionais e costumam tratá-los, bem, como realeza.
É verdade, a maioria das rainhas, reis, príncipes e princesas ganham a vida trabalhando. Aos 88 anos, uma idade em que a maioria dos plebeus há muito se aposentou do trabalho e muitas vezes da vida, a rainha Elizabeth 2ª do Reino Unido ainda mantém uma agenda árdua de cerimônias de Estado. E é difícil imaginar o que muitas revistas da Europa fariam sem as intermináveis fotos de nobres usando plumagens para algum grande evento, produzindo um herdeiro real ou deixando seus castelos para andar de bicicleta ou esquiar com seus súditos –ou se envolverem em algum escândalo suculento.
Em um nível mais sério, os chefes de Estado reais representam a história e continuidade de uma nação. Os chefes de Estado republicanos, sejam eles politicamente poderosos como os dos Estados Unidos ou França, ou cerimoniais como na Alemanha, todos se cobrem em algum grau de tradição e pompa. Mas não podem se erguer acima da política como os monarcas podem. E mesmo quando as monarquias geram escândalos de proporções reais –pense na princesa Diana– os políticos tendem a permanecer bem abaixo dos nobres nas pesquisas de popularidade.
Todas as monarquias europeias contam com um coro pequeno, mas ruidoso, pedindo a abolição das instituições, e a maioria dos países tem continuamente aberto seus governantes a um maior escrutínio público. Por sua vez, os governantes, especialmente os escandinavos, têm rebaixado seus estilos de vida quase ao nível das ruas. Mas mesmo quando mantêm o mínimo do aparato real, isso gera valor simbólico.
O rei Juan Carlos se destaca entre esses anacronismos vivos. Ele foi preparado para governar por um ditador, o general Francisco Franco, que travou uma guerra civil brutal para impedir que a Espanha se tornasse uma república e então a governou com mão de ferro por quase 40 anos. Mas após Juan Carlos assumir o trono restaurado em 1975, o jovem herdeiro Borbón exerceu um papel crítico na condução da Espanha à democracia. O ponto alto de seu reinado ocorreu em 1981, quando os oficiais militares tentaram dar um golpe e Juan Carlos, em uniforme militar, foi à televisão convocar apoio ao governo democrático.
Nos últimos anos, entretanto, sua posição caiu demais, em parte porque os críticos acreditavam que ele vivia um tanto grandiosamente em um momento de tribulação econômica, em parte por causa das alegações de corrupção contra seu genro. Ao deixar de ser um símbolo unificador, ele fez bem em renunciar.
Se a monarquia pode recuperar sua posição dependerá muito do príncipe, que reinará como rei Felipe 6º. Com 1,95m, bonito, um ex-velejador olímpico e formado na escola de relações exteriores da Universidade de Georgetown, ele tem credenciais sólidas para cumprir os deveres cerimoniais de chefe de Estado da Espanha, e permaneceu relativamente não manchado pelos escândalos em torno de seu pai.
Fora seus problemas recentes, Juan Carlos fez uma grande contribuição ao seu país, e alguém só pode esperar que Felipe esteja à altura dessa parte do legado dele. Apesar de um país como os Estados Unidos, nascido de uma rebelião contra a monarquia, não compartilhar plenamente a empolgação dos monarquistas, ele certamente pode apreciar o poder dos símbolos unificadores. E os americanos adoram celebridades de livros de histórias como qualquer um.
Tradutor: George El Khouri Andolfato

Nenhum comentário: