Demografia ao vivo
HÉLIO SCHWARTSMAN - FSP
SÃO
PAULO - Nós nos acostumamos a pensar a demografia em termos de janelas e
projeções. No mais trivial dos exemplos, o IBGE estima que a população
brasileira crescerá até o ano de 2040, atingindo o pico de 219 milhões
de habitantes, e, a partir daí, passará a declinar.
Essa forma de
expor as tendências é fundamental para que os planejadores possam
preparar-se, mas frequentemente nos faz esquecer de que a demografia não
lida só com o futuro, mas também com o presente. As transformações que
etiquetamos com rótulos solenes como "transição demográfica" em datas
longínquas já estão ocorrendo aqui e agora.
Dois hospitais
particulares de São Paulo, o Santa Catarina, no centro da capital, e o
Stella Maris, em Guarulhos, ilustram bem esse fenômeno ao anunciar que
estão fechando suas maternidades. Ambas as instituições pretendem
dedicar-se a especialidades com maior demanda e rentabilidade, como
oncologia, neurologia, cardiologia e ortopedia --não por acaso, áreas
que tendem a ganhar espaço com o paulatino envelhecimento da população.
E
não é apenas na saúde que isso está acontecendo. A redução da população
mais jovem também já está produzindo efeitos na educação (se não
cortarem as verbas, haverá cada vez mais dinheiro a ser gasto por aluno)
e na Previdência (cuja situação tende a complicar-se).
É
importante que as autoridades usem as informações reunidas pelos
demógrafos para evitar que as soluções de mercado nos coloquem em maus
lençóis. Se muitos hospitais privados fecharem suas maternidades, caberá
ao setor público suprir a demanda que ainda existirá.
A nota
inquietante aqui é que estamos vendo nossa era de bonança demográfica (a
maior fatia de pessoas no mercado de trabalho) estreitar-se sem que o
país tenha aproveitado esse período para aumentar de forma consistente
sua riqueza. Fazê-lo a partir de 2040 será bem mais difícil.
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