O vôo da Galinha Caipira
Segmento mais sensível ao humor do empresariado, o setor de bens
de capital caiu 9,7%, na comparação com maio e 21,1% na comparação com
junho de 2013. A compra de máquinas e equipamentos é reflexo direto da
confiança do empresário com o futuro da economia, e a queda nesse
quesito mostra a desconfiança do grupo. Dos 24 ramos acompanhados pelo
IBGE, a indústria perdeu produção em 18.
Costumo comparar a economia brasileira em geral – e o setor
industrial em particular – a uma galinha. Contra todas as dificuldades,
todos os obstáculos, todos os percalços, a nossa “Galinha Caipira” vem
tentando, ao longo dos últimos anos, alçar um voo alto e contínuo, mas
sempre acaba se esborrachando no chão, coitada. Apesar de suas asas
atrofiadas e de seu peso desproporcional, entretanto, nossa heroína,
como boa brasileira, não desiste nunca. Mais uma vez, a coitadinha teve
de pousar prematuramente. Espatifou-se, por assim dizer, a infeliz.
Depois de um fabuloso esforço para manter-se no ar em 2013, era
previsível essa queda em 2014, afinal a sua fisiologia pouco
aerodinâmica e o seu péssimo preparo físico não ajudam na árdua
empreitada.
Malgrado a óbvia impossibilidade fisiológica, algumas teorias tem
sido criadas ao longo dos anos para explicar os curtos voos de nossa
heroína. Uns alegam o de sempre: a maldita taxa de juros do Banco
Central, “que só beneficia banqueiros e rentistas”. Outros culpam a
falta de ajuda governamental. Alguns mencionaram a política cambial,
que dificulta a concorrência com os produtos estrangeiros.
São todas desculpas pra lá de esfarrapadas, claro. Ninguém, fora uns
poucos comentaristas, se lembrou de ulular – com a devida vênia do
grande Nelson Rodrigues – o óbvio: que a nossa brava heroína não
consegue sustentar-se no ar justamente porque ela é só uma galinha.
O que os especialistas não mencionam é que nossa notável galinácea
não voará enquanto não fizer uma dieta rigorosa, além de exercícios de
musculação vigorosos, que a transformem, senão numa bela águia (com
trocadilho), pelo menos numa ágil gaivota. Não há taxa de juros, por
menor que seja, que a faça voar alto enquanto mantiverem essa carga
(tributária) indecente e sem qualquer benefício pesando sobre as suas
asas; enquanto continuarem cerceando sua liberdade de iniciativa com
regulamentações espúrias e sem qualquer sentido; enquanto ela permanecer
sufocada por uma burocracia ineficiente e corrupta; enquanto seus pés
não forem liberados das amarras (trabalhistas e fiscais); enquanto a
justiça do galinheiro não se tornar mais ágil; enquanto ela não estiver
tranqüila de que os seus direitos de propriedade estão realmente
garantidos; enquanto as leis não forem claras e a justiça previsível;
enquanto não abrirem as portas do galinheiro para o exterior; enquanto
os galos que mandam não se conscientizarem de que a inflação é o pior e o
mais cruel de todos os impostos, pois penaliza principalmente as aves
mais débeis; enquanto não acabarem com os privilégios de toda sorte;
enquanto não se produzir um ambiente propício à livre iniciativa, aos
negócios e ao desenvolvimento.
Chega de hipocrisia, de mentira, de desinformação, de
superficialidade, de demagogia, de populismo. Não pensem que
resolveremos todos os nossos problemas simplesmente baixando a taxa de
juros ou mexendo no câmbio. Precisamos de reformas estruturais
profundas, que tornem o ambiente brasileiro propício ao empreendedorismo
e aos investimentos. Afinal, como bem disse o velho Einstein, fazer as
coisas sempre do mesmo jeito e esperar um resultado diferente nada mais
é do que uma grande demonstração de insanidade.
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