Os abutres do bem
Governo brasileiro tem autoridade para defender a Argentina nesse momento difícil, porque segue a mesma escola
GUILHERME FIUZA - O Globo
Lula
da Silva pediu a cabeça de uma funcionária do Santander. O banco
entregou-lhe a cabeça dela. Era uma funcionária abutre, dessas que
atacam os cordeirinhos socialistas, escrevendo coisas desagradáveis
sobre o governo popular. Como ousa essa agente do capitalismo selvagem
dizer que a queda de Dilma Rousseff nas pesquisas eleitorais anima o
mercado?
É bem verdade que a queda de Dilma nas pesquisas anima o
mercado, mas... precisava dizer isso para todo mundo? A analista do
Santander não poderia ser mais discreta com seus clientes? Não dava pelo
menos para falar mais baixo? Ou mudar de assunto? Não dá para entender
por que esses analistas de conjuntura insistem em falar de coisa triste.
Em vez desses boletins sisudos e cinzentos, poderiam mandar mensagens
coloridas e alegres, prevendo um PIB maravilhoso e garantindo que a
inflação está quietinha no seu canto. Se o ministro da Fazenda faz isso,
por que um banco não pode fazer? São mesmo uns pessimistas. Abutres!
Mas
aqui no nosso terreiro, financista estrangeiro não vai cantar de galo,
não. Como avisou Dilma na Copa do Mundo, o brasileiro já superou seu
complexo de vira-latas. Os pastores alemães sentiram na carne o que
significa isso. E os pitbulls do governo popular foram para cima do
Santander: Dilma rosnou, Lula mordeu, e o banco teve que engolir suas
palavras. Onde quer que esteja agora, o companheiro Hugo Chávez deve
estar explodindo de orgulho dos seus amigos petistas. Lula já dissera
que a Venezuela chavista é um modelo de democracia, e agora mostra que
não estava brincando.
A reação do filho do Brasil em defesa da
reeleição de sua criatura foi um ato de estadista. O que fazer diante de
uma análise desfavorável ao governo do PT? Elementar: fuzilar o
analista. Com classe: “Não entende porra nenhuma de Brasil.” Quase é
possível ouvir a reação eufórica do coronel Chávez: “Meu garoto!”
Aqui
na Terra, a parceria chavista também é só alegria. Depois de destroçar a
economia argentina com seu populismo cor-de-rosa, Cristina Kirchner deu
o calote e recebeu o caloroso abraço do Brasil. “Não podemos aceitar
que a ação de alguns poucos especuladores coloquem em risco a
estabilidade e o bem-estar de países inteiros”, declarou Dilma em
Caracas, lugar ideal para esse tipo de ternura. Estão vendo como esses
abutres são maus? Atacam uma viúva indefesa, que é leal ao falecido e
mantém irretocável a reputação caloteira da família.
O abraço de
Dilma em Cristina é pleno de simbolismo. A presidente brasileira deve
muito à companheira argentina. Foi Cristina quem começou, corajosamente,
a esconder os indicadores feiosos da economia, e a fabricar números
novinhos em folha — tornando os índices de inflação, por exemplo, até
simpáticos. Dilma tomou coragem e foi atrás, implantando no governo
brasileiro a contabilidade criativa — sem dúvida uma das realizações
mais engenhosas do PT no poder. Numa triangulação mágica entre o
Tesouro, o BNDES e estatais como a Petrobras e a Caixa, o governo
popular aprendeu a esconder déficits e assim ampliar o orçamento do
fisiologismo. Nem a seleção alemã pôs o Brasil na roda com tanta
maestria.
Entre outras maravilhas da bravura bolivariana, os
Kirchner arruinaram as empresas de energia — base do crescimento — para
garantir a conta de luz baratinha, que o povo adora. Os abutres pensam
que é fácil enganar o povo, mas enganados estão eles: custa caríssimo.
Propaganda populista, truques assistencialistas, engordar a máquina para
enriquecer os aliados — isso tudo custa dinheiro. Como declarou Dilma, é
um absurdo que esses urubus não tenham um mínimo de sensibilidade para
com o bem-estar dos marajás da viúva.
E o governo brasileiro tem
autoridade para defender a Argentina nesse momento difícil, porque segue
a mesma escola de abutres do bem: além dos números amestrados, por aqui
o setor elétrico também foi depredado em favor da bondade tarifária —
que ajudou adicionalmente a sumir com metade do valor da Petrobras (fora
o antro de negociatas, que ninguém é de ferro). E, para provar que o
Brasil faz questão de estar no mesmo barco da Argentina, o governo Dilma
acaba de bater um novo recorde, depois de construir os estádios de
futebol mais caros do mundo: o primeiro semestre de 2014 registrou o
maior déficit nas contas públicas do século 21.
É bem verdade que
o PT ainda não conseguiu torpedear a imprensa com a eficiência dos
Kirchner. Mas tem suas listas negras, e continuará caçando essa gente
que não entende porra nenhuma de Brasil.
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