quarta-feira, 4 de junho de 2014


A arte do foco na era digital
David Brooks - NYT
Silvia Izquierdo/AP
Muitos de nós levamos uma vida de distrações e somos incapazes de nos concentrar naquilo que sabemos que devemos focar Muitos de nós levamos uma vida de distrações e somos incapazes de nos concentrar naquilo que sabemos que devemos focar
Como todo mundo, eu estou perdendo a guerra da atenção. Eu checo meus e-mails enquanto deveria estar trabalhando. Eu fico enviando torpedos enquanto deveria estar prestando atenção às pessoas que estão na minha frente. Eu passo horas assistindo a vídeos vagamente divertidos no YouTube. ("Olhe, há um grupo de caras que consegue tocar 'Billie Jean' em garrafas de cerveja!")
E, como todo mundo, eu já demonstrei minha concordância com os sermões que pregam a proibição desse tipo de distração e imploram para que eu limite minha dieta de informações. Pare de ser uma pessoa multitarefa! Desligue todos os aparelhos eletrônicos pelo menos uma vez por semana!
E, como acontece com todo mundo, esses sermões não tiveram nenhum efeito sobre mim. Muitos de nós levamos uma vida de distrações e somos incapazes de nos concentrar naquilo que sabemos que devemos focar. De acordo com uma pesquisa divulgada no domingo passado nas páginas de opinião do jornal The Times por Tony Schwartz e Christine Porath, 66% dos trabalhadores não são capazes de se concentrar em uma única coisa de cada vez. E 70% dos profissionais não têm um horário regular para devotar ao pensamento estratégico ou criativo enquanto estão no trabalho.
E, como os sermões que pregam a proibição não funcionam, eu me pergunto se nós não conseguiríamos copiar algumas das técnicas utilizadas pelas criaturas que são incrivelmente boas em aprender coisas novas: as crianças.
Recentemente, eu me deparei com uma entrevista com Adam Phillips, que atuou como psicólogo infantil durante muitos anos, publicada pelo The Paris Review. Em primeiro lugar, diz Phillips, a fim de realizar suas aventuras intelectuais, as crianças precisam de uma base social segura:
"Há algo de profundamente importante na experiência precoce de estar na presença de alguém sem ser invadido pelas demandas desse alguém e sem que esse alguém tenha a necessidade que você exija alguma coisa dele. E isso cria um espaço interno no qual a pessoa pode ficar absorta. A fim de sentir-se absorta, a pessoa tem que se sentir suficientemente segura, como se houvesse um tipo de escudo ou alguém tomando conta de você e protegendo contra os perigos de tal maneira que você seja capaz de "se esquecer de você mesmo" e ficar absorvido em um livro, por exemplo".
Em segundo lugar, as crianças podem se lançar em suas obsessões. Crianças são movidas por desejos tão poderosos que esses desejos podem se mostrar assustadores. "Uma das coisas interessantes em relação às crianças é a dimensão do apetite delas", observa Phillips. "Elas têm muito apetite, mas também se comportam de maneira muito conflituosa em relação a seus apetites Qualquer um que tenha crianças pequenas... vai se lembrar de que as crianças são incrivelmente exigentes em relação a sua comida.
"Isso significa, entre outras coisas, que há algo de muito assustador em relação ao apetite das pessoas. Por isso, as pessoas tentam conter sua voracidade de uma forma muito específica, limitada e estreita. Um apetite... é algo assustador, pois ele conecta você com o mundo de maneiras muito imprevisíveis. ... Todas as pessoas lidam constantemente com o quanto de seu próprio sentimento de estar vivo é possível suportar e o quanto elas precisam se anestesiar".
Em terceiro lugar, as crianças não estão sobrecarregadas por uma autoconsciência excessiva: "quando somos crianças, ouvimos os adultos falarem antes de conseguirmos entender o que eles estão dizendo. E, no fim das contas, é aí que começamos – começamos em uma posição de incompreensão". As crianças estão acostumadas a viver uma riqueza emocional que não pode ser capturada em palavras. Elas não se preocupam em tentar organizar suas vidas em narrativas arrumadinhas. A experiência de vida delas é mais direta, pois elas gastam menos tempo com pensamentos intrusivos a respeito delas mesmas.
Dessa maneira, a lição da infância é que se você quiser ganhar a guerra da atenção, não tente dizer "não" às distrações triviais disponíveis em meio à miscelânea de informações, mas tente dizer "sim" para os assuntos que despertam seus desejos mais ardentes e permita que essa multidão de desejos ardentes exponha todo o resto.
A maneira de descobrir um desejo ardente é libertar-se dos rótulos da autocensura que você começou a ensinar a si mesmo durante seu equivocado processo de educação. Essas fórmulas são estupidificantes, argumenta Phillips. "Você só consegue recuperar seu apetite ou seus apetites, se você se permitir ser desconhecido para você mesmo. Pois o objetivo principal de conhecer a si próprio é conter as ansiedades relacionadas a seus apetites".
Por isso: concentre-se em seus objetos externos de fascinação, e não em quem você acredita que é. Encontre pessoas que possuam obsessões que se sobreponham às suas. E não estruture seus encontros com essas pessoas da mesma maneira que todos fazem hoje em dia, ou seja, utilizando sessões de brainstorming (esse tipo de reunião não funciona) ou fazendo conferências com telas de projeção.
Em vez disso, olhe para a maneira como as crianças aprendem quando estão em grupo. Elas fazem descobertas sozinhas, mas levam seus tesouros para o grupo. Em seguida, o grupo se amontoa em volta e discute a novidade. Durante essas conversas, os conflitos, confusões e incertezas podem ser metabolizados e digeridos por meio das outros componentes do grupo. Se o grupo decidir se concentrar em um problema específico e, em seguida, definir um prazo apertado para obter uma solução para esse problema, a digressão livre gerada pelas conversas proporcionará ocasiões nas quais as pessoas se surpreenderão com suas próprias ideias.
O universo das informações nos seduz com diversões levemente agradáveis, mas que são, em última análise, anestesiantes. A única maneira de se manter totalmente vivo é mergulhando em suas obsessões. Lá em baixo, é possível avançar para tentar realizar seus desejos mais ardentes, feito que constitui a experiência que produz a alegria.
Tradutora: Cláudia Gonçalves

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