Vivian Yee e Marc Santora - NYT
The New York Times
A menina de 7 anos está hospitalizada em estado crítico, a única
testemunha de um crime que até agora não tem explicação: um homem
esfaqueou duas crianças pequenas no elevador de um conjunto habitacional
e fugiu na noite. O melhor amigo dela, um menino de 6 anos, está morto.
Apesar dos moradores do projeto habitacional do Brooklyn terem visto um
homem fugindo após o ataque, ele permanecia foragido na segunda-feira
(2), com a busca dificultada pela ausência de câmeras de vigilância no
prédio.Viver nos conjuntos habitacionais do Leste de Nova York significa conviver com ameaça diária de violência e Boulevard Houses não é exceção. Mas até a noite de domingo, os pais se sentiam seguros em permitir que seus filhos descessem para brincar.
"Quem imaginaria que você mandaria uma criança subir e ela nunca mais voltaria?" perguntou Sherri Baptiste, 53 anos, uma amiga da mãe do menino.
A falta de câmeras provocou questionamentos, com as autoridades eleitas acusando a Autoridade Habitacional de Nova York, que administra o conjunto habitacional, de lentidão na instalação de câmeras.
Muitos conjuntos habitacionais por toda a cidade não contam com câmeras de vigilância, apesar dos mais de US$ 60 milhões destinados para elas nos últimos anos. Boulevard Houses tem cinco, mas estão todas concentradas em um de seus 18 prédios. O ataque em Boulevard Houses ocorreu apenas dois dias depois de uma mulher de 18 anos, Tanaya Copeland, ter sido morta a facadas a várias quadras do conjunto habitacional. Vários fatores em comum, incluindo o fato de facas de cozinha terem sido utilizadas e recuperadas em ambos os casos, e a proximidade dos ataques, levam os detetives a acreditarem que os casos podem estar relacionados.
No caso da morte de Copeland, um vídeo granulado registrou o assassino fugindo do local, em roupas semelhantes às vestidas pelo homem que as testemunhas descreveram ter visto após as crianças serem esfaqueadas.
Crime
Na noite de domingo, Mikayla Capers, 7, e Prince Joshua Avitto, 6, que era conhecido como P.J., desejavam algo frio e doce após brincarem ao ar livre sob o sol. Ao entrarem no elevador apertado e mal iluminado em Boulevard Houses, pouco antes das 18h, um trajeto de 22 segundos até os sorvetes no freezer, o assassino estava logo atrás deles.
Naquela caixa de metal, ele atacou repetidas vezes as crianças com uma faca de cozinha de 20 centímetros. P.J. foi mortalmente ferido. Mikayla cambaleou para fora, gritando, antes de desmaiar enquanto o homem fugia passando por ela.
Mikayla, que está hospitalizada em Manhattan, conseguiu dar à polícia uma breve descrição de seu agressor, o que está auxiliando na busca, disse Eric L. Adams, o presidente do distrito do Brooklyn. Parentes disseram que ela esteve brevemente consciente na noite de domingo, após o ataque.
O comissário de polícia, William J. Bratton, disse que o departamento não descansará até que o assassino seja pego. Na segunda-feira, dezenas de policiais fizeram uma varredura pelo conjunto habitacional, helicópteros da polícia sobrevoavam no alto e policiais adicionais patrulhavam as ruas por onde as crianças iam e vinham da escola.
"Eu estou extraordinariamente preocupado e furioso com a ideia de crianças não poderem tomar um elevador de modo seguro em seu próprio prédio", disse Bratton. "Nós pegaremos esse indivíduo, e esperamos fazê-lo rápido."
Na noite de segunda-feira, a polícia divulgou um retrato falado do agressor e o descreveu como um homem negro com cerca de 25 a 35 anos, cerca de 1,80 metro e robusto. Ele foi visto pela última vez vestindo um casaco cinza, disse a polícia.
Várias pessoas relataram ter visto o homem cair várias vezes enquanto corria pelo projeto habitacional após as crianças serem esfaqueadas, mas ninguém pareceu reconhecê-lo.
Ele deixou para trás a faca ensanguentada usada no ataque.
Na noite de segunda-feira, centenas de pessoas se reuniram para uma vigília em frente ao prédio. Muitas carregavam flores e algumas seguravam balões que mostravam o Homem-Aranha –a última fantasia de Halloween de P.J.
As pessoas estavam tão aglomeradas que os pais de P.J. tiveram dificuldade de atravessar.
"Encontrem o homem, façam justiça", disse a mãe de P.J., Arica McClinton. "Nosso bebê se foi, ele não vai voltar, restando 15 dias para seu aniversário."
Além dela, o pai de P.J., Nicholas Avitto, tinha uma foto do filho pregada em sua camisa xadrez. Ele chorou enquanto ela falava e então disse: "Deus, eu não consigo fazer isso. Meu filho se foi, eu tenho que ir".
"Tiraram meu orgulho, minha alegria, minha vida, minha razão de viver, meu apoio –meu bebê."
Apelo
Rochelle Copeland, a mãe da jovem de 18 anos que foi morta na sexta-feira, implorou para que o assassino –ou assassinos– seja retirado das ruas.
"Uma garota de 18 anos foi esfaqueada mais de 30 vezes, uma menina de 7 anos mais de 15 vezes", ela disse, apontando para as câmeras de televisão. "Nós precisamos de ajuda. Nos ajudem." A vigilância com câmeras é um assunto contencioso há anos. Os críticos da autoridade habitacional dizem que ela tem demorado demais para instalar as câmeras, que a agência estima que custariam US$ 200 milhões para serem instaladas em todos seus conjuntos. A autoridade alerta que o processo é complexo.
O orçamento da cidade "ajuda a construir ginásios de basquete e estádios de beisebol", disse Charles Barron, um ex-vereador pela área, que disse que ele alocou centenas de milhares de dólares para instalação de câmeras em Boulevard Houses quando exercia seu mandato. "Eles podem instalar algumas câmeras."
Amigos das famílias das duas crianças e vizinhos concordam, dizendo que cada prédio deveria ter câmeras nos elevadores, que a polícia diz atrair um volume desproporcional de crimes.
Em uma coletiva de imprensa na segunda-feira, o prefeito Bill de Blasio disse que haverá uma revisão do status das câmeras de segurança nos conjuntos habitacionais em uma audiência da Câmara Municipal na quarta-feira.
Enquanto P.J. era colocado na ambulância no domingo, sua mãe correu atrás dela, batendo nas portas. No Centro Médico e Hospital da Universidade Brookdale, ela foi informada que o filho dela não sobreviveu. Ela descobriu seu corpo e o abraçou, chorando sobre seus ferimentos.
"Ele era apenas um bebê. Era apenas um bebê", disse em descrença Sophia Diaz, 47 anos, uma amiga da família que levou a mãe de P.J. ao hospital. "Ele nem tinha 7 anos."
No mesmo hospital, Mikayla estava em cirurgia. Na ambulância, disse Diaz, cuja irmã acompanhou Mikayla, a menina perguntava: "Por que o homem me machucou?"
Regenia Trevathan, 62 anos, a bisavó de Mikayla, disse que a menina abriu seus olhos na noite de domingo e perguntou pela mãe e tia.
Ela também perguntou sobre seu amigo.
Por ora, eles não conseguiram contar para ela o que aconteceu com P.J.
Tradutor: George El Khouri Andolfato
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