Le Monde
Polícia Federal Belga/AFP
Na Europa deste início de século 21, matam-se homens, mulheres e
crianças só por estes serem judeus. Não é uma violência indiscriminada,
cega. São agressões direcionadas, específicas, perpetradas contra
vítimas escolhidas por aquilo que elas são, não pelo que elas fazem ou
que poderiam fazer.
A verdade sobre o atentado cometido no
sábado (24) contra o Museu Judaico de Bruxelas é essa, em toda a sua
brutalidade e sua trágica simplicidade. Às vésperas da eleição do
Parlamento Europeu, na "capital" da União Europeia e a poucos dias do
aniversário do Desembarque na Normandia, em junho de 1944, etapa crucial
na derrota do nazismo, o antissemitismo matou no Velho Continente
--mais uma vez.A Justiça dirá se o francês detido no domingo (1º) em Marselha é de fato o autor do massacre de sábado (24). Naquele dia, no meio da tarde, um homem entrou no Museu Judaico, no centro de Bruxelas. Ele carregava uma bolsa, de onde sacou uma arma e abriu fogo. Disparou uma dezena de vezes antes de sair do museu, dois minutos depois. Quatro pessoas morreram.
A cena lembra os crimes cometidos no dia 19 de março de 2012 por Mohamed Merah em uma escola judaica de Toulouse. Naquele dia, um professor e três crianças foram mortos no pátio --por serem judeus. Merah pegou pelos cabelos uma menina que tentava fugir e atirou contra sua cabeça.
Antes de analisar, é preciso "descontextualizar", levar em consideração somente essa singularidade factual, tanto em Bruxelas como em Toulouse, para lhe dar todo seu significado: a volta de uma fobia contra judeus, de um ódio racista em seu estado mais puro que é o antissemitismo.
Muitos indícios parecem apontar para a responsabilidade do jovem francês detido no domingo pelo quádruplo homicídio de Bruxelas. A polícia encontrou em sua bagagem um fuzil de assalto Kalashnikov com as inscrições de um grupo jihadista ativo na Síria, além de um revólver, munições e uma câmera do mesmo tipo utilizado por Merah para gravar e "assinar" seus crimes.
Assim como Merah, o jovem parece ter misturado gangsterismo com jihadismo, matando em nome de uma luta islamita ou alqaedista cujo novo teatro de guerra é a Síria. Ele teria passado ali um ano, a exemplo de centenas de outros jovens europeus, a maioria de origem magrebina, para quem a Síria se tornou um campo de treinamento do jihad.
A internet e mais especificamente o Facebook têm exercido aqui seu papel de plataforma de recrutamento e de difusão da improvável mixórdia ideológica que é o discurso jihadista. Este empresta do velho antissemitismo europeu e das teorias da conspiração que se espalham pela internet para restaurar os arquétipos racistas mais ignóbeis.
A liberação do discurso antissemita é uma das marcas de nossos tempos. Irredutível à determinada explicação geopolítica, na França ele é mantido pelo islamismo radical e pelas vituperações de um "comediante" muito famoso. Seria fugir das responsabilidades ver ali somente um caso de polícia.
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