segunda-feira, 2 de junho de 2014

Periferia de Paris também deu preferência a le Pen, da extrema-direita 
No departamento 93, a abandonada periferia mestiça de Paris, a abstenção de 75% facilitou a vitória histórica da extrema direita em 24 dos 40 municípios  
Miguel Mora - El País
Stephane Mahe/Reuters
Marine le Pen, da Frente Nacional, partido de extrema-direita da França, teve maioria de votos na periferia
Marine le Pen, da Frente Nacional, partido de extrema-direita da França, teve maioria de votos na periferia
Há pouco mais de uma semana, a Frente Nacional ganhou as eleições europeias na França com 4,6 milhões de votos, ou 24,8%. A extrema direita se impôs em 71 dos 101 departamentos [Estados]. Seus resultados foram espetaculares exceto em Paris, nos departamentos de ultramar e no oeste do país.
Na capital, Marine Le Pen obteve 9,3% e ficou relegada ao quinto lugar. A prefeita Anne Hidalgo se felicitou pela "exceção parisiense" e pela participação dez pontos acima da média, que foi de 43,5%. O caracol parisiense, entretanto, ficou cercado por uma grande "baba bleu" Marine. Na periferia ["banlieue"] da capital, houve uma abstenção de 75% e o partido xenófobo fez estragos.
Em Île de France, a região que inclui a capital, a FN foi a segunda força mais votada, com 17,3%, quatro pontos a menos que os conservadores da UMP. Le Pen quadruplicou os resultados das europeias de 2009 e ganhou pela primeira vez no departamento 93 (Seine-Saint-Denis), velho feudo comunista e socialista agitado pelos distúrbios raciais em 2005.
No primeiro turno das presidenciais de 2012, Le Pen havia obtido nesse departamento, de forte presença africana e muçulmana, 13,55%. Agora, com sua melhora de sete pontos, superou a Frente de Esquerdas por menos de um ponto e se impôs em 24 de 40 municípios. Embora o verdadeiro vencedor fosse a abstenção --no 93 só 25% votaram--, Le Pen ganhou em lugares como Drancy (cenário de perseguições antissemitas na Segunda Guerra Mundial), La Courneuve ou Le Bourget, onde Hollande fez seu comício de campanha em 2012 e se declarou inimigo das finanças.
Em Clichy-sous-Bois, o município onde em 2005 começaram os distúrbios, a abstenção superou 78%, e também ganhou pela primeira vez a Frente Nacional. Nas municipais de março passado, os socialistas receberam 65% dos votos. A FN não concorreu.
Fabien Mariano Ortiz, cineasta de origem espanhola que se criou no 93, explica que "a vitória da FN na periferia era prevista. Em Saint-Denis, só votaram os poucos franceses que restam. Os jovens estão na fratura, e a dinâmica de esquerda é inexistente. Só se movem nas municipais, quando as pessoas votam não por motivos políticos, mas porque conhecem o candidato".
"Esqueceram de nós", advertia há dois anos em uma reportagem na televisão um morador do 93 para explicar seu apoio à extrema direita nas presidenciais. Ao redor dele via-se uma paisagem desolada: telefones públicos quebrados, imóveis insalubres... um território abandonado. A 15 quilômetros da Torre Eiffel, o quarto mundo.
Nidhal Ben Salem, animador social de origem tunisiana, 32, que vive e trabalha em Saint-Denis, conta que a vitória da FN no 93 foi "uma triste surpresa", mas a atribui à abstenção. "Em número de votos não cresceram, o problema é que os partidos não se mobilizaram e não explicaram aos jovens por que é importante votar."
A periferia de Paris continua muito parecida com a de 2005. Sete em cada dez habitantes vivem abaixo do limite de pobreza; há 25% de desemprego e 40% de desemprego juvenil. Metade da população tem menos de 25 anos.
Depois da queda dos socialistas, François Hollande pediu aos franceses que se reúnam "em torno da República nesta hora grave". Mas, faz tempo que a República não passa pelo 93, diz Ben Salem: "Os distúrbios não foram as revoluções árabes. Aqui, nada mudou e nada mudará. Continuamos sofrendo discriminação e racismo. Se ligamos a televisão, não nos sentimos representados. A população imigrante nunca aparece".
Elise Mbock, uma política de origem africana do 93, salientou em seu blog o grande paradoxo: a FN, um partido fascista, tem cada vez mais apoio entre os que sofrem o racismo: "Muitos africanos e árabes pobres expressam assim seu cansaço do sistema. A ironia é que, se Le Pen governasse, as ajudas para os imigrantes terminariam e não haveria regularizações. No entanto..."
Nidhal Ben Salem conta que "muitos jovens dos subúrbios votaram em Hollande em 2012. Mas veem que a mudança não veio, e Manuel Valls se parece muito com Sarkozy. Apoia Israel contra a Palestina e ataca os ciganos para contentar a direita, porque sua única ambição é ser presidente em 2017".
O sociólogo Eric Fassin, professor na Universidade Paris 8, atribui o avanço da FN à "progressiva direitização do Partido Socialista em economia e segurança. A direita está há anos imitando a extrema direita, e os socialistas copiam a direita. Primeiro Sarkozy e depois Valls retomaram o vocabulário e as ideias sobre imigração e identidade de Le Pen. Se um presidente ou um primeiro-ministro abraçam teses assim, fica impossível proibi-las e dizer que são diabólicas. Ao contrário, se legitimam. E assim se cumpre o teorema de Le Pen: as pessoas preferem o original à cópia."
O autor do ensaio "Esquerda, o futuro de uma desilusão" salienta que "os socialistas creem que a realidade é de direita. Hollande exacerbou isto ao defender o tratado Merkozy [o pacto de estabilidade da UE] e dar seu giro neoliberal, aplaudido pela mídia de esquerda, e ao nomear Valls. A única diferença entre o PS e a UMP hoje é a política sexual. E a mensagem do PS é o triunfo póstumo de Thatcher: "Não há alternativa".
Onde acabará a ascensão da extrema direita? Fassin prevê que, em 2017, Le Pen disputará o segundo turno das presidenciais com o candidato da UMP e depois entrará no governo. "Vão nos dizer que é um partido republicano como os outros e que é necessário para lutar contra a extrema direita violenta."
Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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