quarta-feira, 25 de junho de 2014

Após trocar o "prometer" pelo "fazer", premiê italiano começa a pilotar mudanças 
Primeiro-ministro italiano promove, depois de sua ampla vitória nas eleições europeias, um programa de reformas para a modernização do país 
Pablo Ordaz - El País
Tony Gentile/Reuters
Matteo Renzi (à direita) toca um sino de prata para marcar o início de sua primeira reunião de gabinete, ao lado de Enrico Letta, seu antecessor, em Roma Matteo Renzi (à direita) toca um sino de prata para marcar o início de sua primeira reunião de gabinete, ao lado de Enrico Letta, seu antecessor, em Roma
Aos 19 anos, Matteo Renzi, que hoje tem 39, participou do programa A Roda da Fortuna e ganhou 48 milhões de liras (cerca de R$ 75 mil) que aquele "corajoso e simpático rapaz", nas palavras do apresentador, investiu na recuperação da empresa familiar. Os vídeos de sua passagem pelo programa já retratam o mesmo jovem seguro de si, atrevido e dono de uma linguagem que, no início de dezembro passado, sendo ainda prefeito de Florença, conquistou a direção do Partido Democrático (PD). Três meses depois, arrebatou sem contemplações o governo de seu companheiro Enrico Letta e agora, nas eleições europeias, acaba de conseguir o apoio de 40,8% dos eleitores, jamais alcançado por seus muitos e malfadados antecessores.
Se a isso acrescentarmos a atração italiana pelos vitoriosos que o escritor Ennio Flaiano captou em uma de suas irônicas reflexões --"os italianos sempre correm para ajudar o vencedor"--, chegamos ao momento atual: em apenas seis meses, Renzi transformou-se no líder político mais bem avaliado da Itália, à grande distância de Beppe Grillo e de Silvio Berlusconi, e as pesquisas dizem que seu governo, nascido no final de fevereiro conjugando juventude, paridade de gêneros e irreverência com os interesses investidos, já desfruta da confiança de três em cada quatro italianos. A chave, ou pelo menos uma delas, está na substituição do tão desgastado verbo "prometer" por outro muito mais esquecido pela política: "fazer".
Não é necessário ir muito longe --o inverno de 2012-- para constatar que Renzi (nascido em Florença em 1975) foi o primeiro a perceber que os cidadãos atingidos pela crise e renegados por uma política ensimesmada em seus privilégios estavam preparando sua própria vingança. Apresentou-se nas primárias para eleger o candidato do PD às eleições gerais pedindo a aposentadoria dos velhos líderes que não haviam sabido vencer Berlusconi, começando por seu adversário, o ex-comunista Pier Luigi Bersani. E advertiu sobre a necessidade urgente de renovar um país onde o "amiguismo" contava mais que os méritos, a burocracia enterrava qualquer iniciativa e os jovens e as mulheres quase não tinham futuro em uma gerontocracia avassaladoramente masculina.
O PD não lhe fez caso, Bersani venceu Renzi e, chegado o momento das eleições, Grillo e seu Movimento Cinco Estrelas (M5S) souberam canalizar o cansaço e a raiva. A decisão do presidente Giorgio Napolitano de entregar, em abril de 2013, um governo de emergência a Enrico Letta deixou Renzi fora do jogo. Mas, só naquele momento.
Em seu gabinete na Prefeitura de Florença, Renzi observou, assim como os demais italianos, que o governo de Letta não só sofria a chantagem constante de Berlusconi (que já havia arruinado o projeto de Mario Monti), mas que Grillo tinha decidido investir sua vitória eleitoral em destruir o governo, sem apoiar qualquer iniciativa, nem mesmo aquelas com as quais concordava em princípio.
As eleições europeias se aproximavam perigosamente, e Renzi entendeu que sua "janela de oportunidade" havia chegado --esse pequeno resquício de bom tempo que permite que os alpinistas ataquem o pico mais difícil. Com métodos pouco ortodoxos e nada elegantes derrubou Letta, conquistou o governo, impôs um gabinete histórico (o mais jovem, o mais equilibrado entre homens e mulheres) e trocou o prometer pelo fazer. Por meio de uma televisão que até o momento só servia para intermináveis tertúlias estéreis, os italianos observaram que Renzi se comprometia diante deles a fazer tudo o que os demais haviam prometido. E algo mais.
O que os demais haviam prometido: reformar o Senado para que deixe de ser um inconveniente à governabilidade da Itália, construir uma nova lei eleitoral que retire dos pequenos partidos a possibilidade de bloquear a política, simplificar uma burocracia capaz de minar qualquer projeto. Mas, além disso, com uma linguagem direta que supera a do político mais populista, Renzi começou a vender carros oficiais, a distribuir um salário extra de 80 euros por mês aos cidadãos de renda mais baixa em troca de cortar os salários astronômicos dos dirigentes públicos, a criticar a contribuição para o bem comum dos sindicatos, da cúpula empresarial, da RAI... e a pôr em jogo sua própria cabeça: "Se eu não conseguir fazer as reformas, deixo a política".
Enquanto as reformas iam saindo a duras penas, vieram as eleições europeias e os italianos decidiram que aquele rapaz da Roda da Fortuna merecia uma oportunidade. Durante a última reunião do PD, o partido que lhe havia negado o pão e o sal, Renzi falou claramente diante de um grande cartaz com o número de sua vitória: "40,8%". Esse apoio dos cidadãos, advertiu, é a última oportunidade para mudar a Itália pelo lado de dentro da política, e não de fora.
Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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