quarta-feira, 25 de junho de 2014

Violência sectária iraquiana é demonstração do que há de pior nos dois lados
Rod Nordland e Suadad Al Salhy - NYT
Na segunda-feira (23), a violência sectária no Iraque demonstrou o que há de mais brutal nos dois lados do conflito, quando policiais iraquianos foram denunciados pela morte de dezenas de prisioneiros insurgentes sunitas ao longo de uma rodovia no sul e militantes no norte entregaram os corpos de 15 civis xiitas assassinados por eles, incluindo mulheres e crianças, quando simplesmente bombardearam o cemitério durante os funerais, de acordo com um relato.
Em um terceiro episódio, sem ligações sectárias claras, uma família de seis pessoas, incluindo três crianças, foi encontrada morta a tiros em Tarmiya, uma área sunita na província de Bagdá, ao norte da capital. Não houve confirmação sobre quem estava por trás da chacina.
As mortes dos prisioneiros sunitas acusados de terrorismo, mas ainda não condenados, foram registradas perto de Hillah, uma cidade ao sul de Bagdá, e foram o segundo episódio em menos de uma semana. Em Baquba, na semana passada, 44 prisioneiros sunitas foram mortos em suas celas. Segundo as autoridades, insurgentes bombardearam a delegacia de polícia, mas a maioria foi assassinada a tiros. E a morte de civis xiitas perto da cidade de Kirkuk faz parte de uma série de episódios recentes em que os extremistas do Estado Islâmico do Iraque e do Levante (EIIL) deliberadamente mataram civis ou prisioneiros desarmados simplesmente porque eram xiitas. O EIIL defende uma versão extrema do islamismo sunita que considera todos os xiitas apóstatas que devem ser mortos.
Com o aumento desses episódios, torna-se cada vez mais difícil para o governo iraquiano dominado pelos xiitas fazer as pazes com sunitas e curdos em torno de uma causa comum contra os insurgentes. O EIIL, por sua vez, não faz segredo de sua intenção de provocar uma guerra sectária e espera que o extermínio de sunitas pelo governo leve mais sunitas para o seu lado.
Os últimos assassinatos de prisioneiros ocorreram ao longo de uma rodovia a cerca de 25 quilômetros ao sul de Hillah. De acordo com quatro fontes da segurança, que preferiram permanecer anônimas por medo de punição, a polícia estava acompanhando cerca de 70 prisioneiros de um centro de detenção da polícia de combate ao terrorismo em Hillah para uma prisão mais para o sul, pois suspeitava-se que o EIIL planejava libertá-los.
O EIIL tem um histórico de sucesso na invasão de prisões, inclusive Abu Ghraib, no entorno de Bagdá, de onde libertou 800 prisioneiros no ano passado, muitos deles seus próprios ativistas.
Os agentes da polícia que escoltavam os ônibus decidiram parar e se vingar da alegação do EIIL de ter matado 1.700 soldados iraquianos em 15 de junho, disse um policial.
Outro alegou que os prisioneiros eram criminosos envolvidos em assassinatos e explosões e que a maioria deles eram líderes da Al Qaeda ou do EIIL. "Eles deveriam ter sido executados há muito tempo", disse ele.
"Ninguém tinha dado ordens para que fizessem aquilo", disse um policial em Hilla. "Eles acreditavam que os prisioneiros não iam ser condenados ou que seus crimes não seriam levados a sério, então simplesmente os mataram".
Outro disse que os prisioneiros teriam sido liberados pelo sistema judicial corrupto e incompetente do Iraque. O registro do número de vítimas varia; as fontes oficiais disseram entre 69 e 73.
Mas o governador de Hillah, Sadiq al-Sultani, insistiu que foi o EIIL que atacou o comboio, matando 15 dos prisioneiros. O restante, segundo ele, foi levado em segurança para outra prisão em Qasim. O suposto ataque ocorreu em uma estrada principal em uma área onde o EIIL raramente opera.
O relato foi contrariado por Hassan Fada'am, membro do conselho provincial em Hillah, capital da província de Babil, que disse que o EIIL atacou o comboio e matou os prisioneiros nos ônibus, mas não matou a escolta policial porque estava em veículos blindados. Ele afirmou que 60 dos 85 prisioneiros morreram.
Em outro grave episódio envolvendo civis xiitas em uma aldeia ao sul de Kirkuk, os relatos das testemunhas e das autoridades foram conflitantes. Trinta pessoas foram sequestradas na semana passada por membros do EIIL na aldeia turcomana xiita, de acordo com Mohammed Mehdi al-Bayati, ex-representante da região no Parlamento. Ele disse que, após negociações com os anciãos locais, os militantes devolveram os corpos de metade dos mortos, incluindo algumas mulheres e crianças.
"Nós ainda temos 15 pessoas desaparecidas, e ninguém tem ideia do seu destino", disse ele.
Uma testemunha da aldeia e autoridades curdas em Kirkuk, porém, disseram que o EIIL atacou o cemitério quando as famílias iam enterrar seus mortos, e que pelo menos quatro pessoas, combatentes que vigiavam o local do enterro, foram mortas.
No terceiro surto de violência, em Tarmiya, não ficou claro quem foi o responsável pela morte da família de seis pessoas, incluindo duas meninas, de 10 e 12, um garoto de 17 anos de idade, seus pais e um tio.
Milicianos xiitas têm sido ativos na área, que fica no caminho para a linha de combate com os extremistas do EIIL, mas o pai da família era membro do Despertar Sunita, um grupo pró-governo. Isso o tornava um alvo potencial do EIIL, de acordo com uma autoridade de segurança do Ministério do Interior, falando sob condição de anonimato por questão de política oficial.
Tradutor: Deborah Weinberg

Nenhum comentário: