Opinião: A miragem do Islã político
Mustapha Tlili - NYT
Mohamed El-Shahed/AFP
"O poder deve ser mantido por consentimento, não por coerção; é preciso respeitar os direitos das minorias, e participar com espírito de tolerância e concessão; é preciso colocar os interesses de seu povo e o funcionamento legítimo do processo político acima de seu partido. Sem esses ingredientes, eleições por si só não produzem uma verdadeira democracia."
O discurso no Cairo fez parte de um roteiro baseado nos conselhos de um relatório de 2008, "Mudança de Curso: Uma nova direção para as relações dos Estados Unidos com o mundo muçulmano", elaborado pela liderança do grupo para engajamento americano-muçulmano, composta por ex-altos funcionários do governo, tanto democratas quanto republicanos, assim como acadêmicos (eu incluso), analistas políticos e especialistas em relações internacionais. Todos nós estávamos preocupados com a divisão entre os Estados Unidos e o mundo muçulmano, e nós recomendamos que o novo presidente fizesse um grande discurso em uma capital islâmica significativa –Cairo, Istambul, Jacarta ou Rabat– voltado diretamente ao mundo muçulmano. Foi o que Obama fez na Universidade do Cairo, em 4 de junho de 2009.
De lá para cá, o Egito experimentou a "Primavera Árabe", seguida primeiro pela chegada da Irmandade Muçulmana ao poder pelo voto e depois sua queda. Se a mensagem de Obama em 2009 tivesse sido transmitida mais vigorosamente ao ex-presidente do Egito, Mohamed Mursi, antes de ser derrubado pelo exército em julho do ano passado, as esperanças de árabes e muçulmanos de todo o mundo, após o discurso no Cairo, poderiam não ser tão decepcionantes quanto são hoje.
Infelizmente, cada um dos "ingredientes" para democracia listados por Obama foi desprezado por Mursi durante seu tumultuoso ano no poder. Ele forçou a aprovação da Constituição de 2012 da Irmandade Muçulmana, emitiu decretos se impondo acima do Judiciário, não forneceu proteção aos cristãos coptas, deu início a vinganças contra jornalistas e ativistas, e tratou a oposição secular como uma inimiga que deveria ser excluída da vida política. Resumindo, o presidente egípcio promoveu as metas políticas da Irmandade Muçulmana em detrimento da nação, exatamente aquilo contra o que Obama alertou.
O resultado é que o governo Obama se viu em uma posição desconfortável. Como o presidente comentou na Assembleia Geral das Nações Unidas em setembro do ano passado, "a América foi atacada por todos os lados nesse conflito interno, acusada simultaneamente de apoiar a Irmandade Muçulmana e de tramar sua remoção do poder".
Mas se o governo tivesse criticado mais duramente as violações pela Irmandade dos direitos democráticos, ele poderia ter evitado essa situação. Em vez disso, quando perguntado sobre o decreto de Mursi, em novembro de 2012, que dava ao seu regime poderes extraordinários, um porta-voz do Departamento de Estado respondeu, "esse é um processo político egípcio". Obama pode ter dito que "eleições por si só não produzem uma verdadeira democracia", mas os Estados Unidos agiram como se as eleições no Egito fossem suficientes. Nas palavras da embaixadora americana no Egito, Anne Patterson, "o fato é que disputaram uma eleição legítima e venceram" –foi como se isso resolvesse o assunto da adequação da Irmandade a um governo democrático.
Na Tunísia, o governo Obama adotou uma postura igualmente equivocada em relação ao Ennahda, o partido islâmico que então governava, apesar das alegações de laços com extremistas suspeitos nos assassinatos de políticos seculares proeminentes, incluindo Chokri Belaid, em fevereiro de 2013, e Mohamed Brahmi, em julho.
Após um ataque contra a embaixada americana em Túnis por associados salafistas do Ennahda, o Ansar al Shariah, em setembro de 2012, a imprensa tunisiana revelou que o líder do Ennahda, Rachid al-Ghannouchi, tinha se encontrado previamente com os ativistas salafistas e os orientado sobre estratégia política. Antes de seu retorno do exílio à Tunísia em 2011, Ghannouchi foi saudado em Londres e Washington como um muçulmano democrata e modelo de moderação.
Cinco anos depois do discurso no Cairo, o apoio equivocado do governo a esses regimes é claramente um erro estratégico, proveniente do fracasso em entender a natureza do Islã político. Em sua raiz, o equívoco está na crença de que os islamitas eram a voz legítima do Islã. Não foi isso o que nosso grupo quis dizer com "engajamento com os muçulmanos".
Durante as décadas de ditadura no mundo árabe, os políticos islamitas venderam a si mesmos no Ocidente como movimentos "moderados" que buscavam conciliar o Islã com democracia. Na verdade, eles são defensores de uma ideologia messiânica na qual o princípio fundamental é implantar a vontade de Deus na Terra. Apesar de terem conseguido disfarçar com sucesso suas verdadeiras intenções em conversações na Chatham House ou no Conselho de Relações Exteriores, eles não conseguiram fornecer o parceiro que os Estados Unidos precisavam.
Enquanto a equipe de Obama preparava o fim das guerras do governo Bush, ela sentiu a necessidade de amigos no mundo árabe. Assim, o governo comprou a falácia do Islã político "moderado".
Se não tivessem engolido a defesa da democracia da boca para fora pelos islamitas, eles teriam prestado mais atenção à nova força política que brotou da Primavera Árabe: o secularismo democrático. Lamentavelmente, os Estados Unidos fracassaram em reconhecer a necessidade de fortalecer os partidos democráticos seculares no mundo muçulmano e empoderar seus apoiadores, que querem construir uma sociedade baseada em tolerância, moderação, estado de direito, direitos das mulheres e liberdade constitucional. Assim como os Estados Unidos trabalharam para impedir o avanço do comunismo após a Segunda Guerra Mundial, o governo Obama poderia ter investido nos grupos da sociedade civil e nos partidos democráticos seculares no mundo muçulmano.
Poucos questionariam que o islamismo em sua forma "moderada" atualmente está recuando. Bastou apenas um ano para a incompetência da Irmandade Muçulmana no Egito se revelar (a queda do Ennahda na Tunísia demorou mais). Washington precisa reconhecer a nova realidade, e se engajar com o governo Sisi no Egito e com os partidos políticos seculares na Tunísia antes das eleições nacionais deste ano.
Como canalizar as aspirações desse segmento das sociedades egípcia e tunisiana que é rural, religiosa, analfabeta e conservadora continua sendo um verdadeiro desafio. Geralmente essas pessoas são pobres e carecem de oportunidades econômicas. Do período da ditadura às eleições possibilitadas pela Primavera Árabe, essas populações foram cortejadas pelos islamitas e se desenvolveram em um forte eleitorado. Especialmente no Egito e na Tunísia, mas por todo o mundo muçulmano, os sistemas políticos devem encontrar formas de integrar essas comunidades na vida política e econômica da nação.
Isso não apenas pelo bem da justiça social, mas também para fechar a porta ao islamismo, tanto "moderado" quanto jihadista. Nessa tarefa difícil, os Estados Unidos precisam ajudar, e não atrapalhar, os democratas do mundo muçulmano. Isso é de interesse nacional dos Estados Unidos.
Tradutor: George El Khouri Andolfato
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