quarta-feira, 4 de junho de 2014

Crise com a Rússia domina o giro de Obama pela Europa
Marc Bassets - El País
Saul Loeb/AFP
Barack Obama, presidente dos EUA, participa de entrevista a jornalistas em Varsóvia (Polônia) Barack Obama, presidente dos EUA, participa de entrevista a jornalistas em Varsóvia (Polônia)
Em viagem pela Europa Nesta semana, o presidente Barack Obama se reunirá com chefes de Estado e de governo, verá veteranos ativistas pela democracia e ex-combatentes da Segunda Guerra Mundial, mas a pessoa à qual os discursos serão dirigidos e que monopolizará sua atenção será outra: seu homólogo russo, Vladimir Putin.
A crise da Ucrânia reabriu as tensões geopolíticas entre os velhos rivais pela influência na Europa. Putin forçou Obama, que havia feito da Ásia a prioridade de sua presidência em política externa, voltar ao cenário do confronto entre Washington e Moscou durante a Guerra Fria.
O presidente norte-americano não tem previsto nenhum encontro formal com o líder russo durante o giro por Polônia, Bélgica e França, sua segunda visita à Europa em menos de três meses.
Mas, cada discurso e cada gesto foi pensado (e será lido) como um sinal aos aliados europeus e a Moscou em um momento de dúvida sobre a capacidade da maior potência mundial diante da ambição do Kremlin.
Em Varsóvia, onde o Air Force One aterrissou na segunda-feira (2), Obama se reunirá com os líderes dos países da Europa Central e Oriental que se sentem ameaçados pela Rússia e que, em tempos de naufrágio, olham mais para Washington do que para Berlim ou Paris.
Obama pedirá a seus parceiros um maior compromisso com a Otan e terá reunião com Petro Poroshenko, o magnata recém-eleito presidente da Ucrânia. O presidente irá comemorar com um discurso o sindicato polonês Solidariedade e as primeiras eleições parcialmente livres em 1989.
"Ele terá a oportunidade de falar sobre a história do movimento democrático na Polônia, de sua influência além das fronteiras polonesas e de suas conexões com muitos movimentos pró-democracia e direitos humanos na Europa Oriental e por todo o mundo", disse em uma entrevista coletiva às vésperas da viagem Ben Rhodes, vice conselheiro de segurança nacional.
Obama vai comprovar a fragilidade --depois das eleições europeias-- de alguns de seus colegas na cúpula do G-7 em Bruxelas. O encontro deveria ter-se realizado na cidade russa de Sochi, mas foi cancelado, e Putin, excluído em represália pela anexação da Crimeia em março.
Obama tentará convencer os europeus a diversificar as fontes de energia para reduzir a dependência do gás russo e buscará um acordo comercial que é visto com ceticismo em algumas capitais europeias e pelo Congresso norte-americano.
Na Normandia, última etapa antes de regressar a Washington na sexta-feira (6) à noite, Obama encontrará Putin na comemoração do 70º aniversário do Desembarque na Normandia, o último ato de heroísmo coletivo de uma aliança que pouco depois se rompeu para dar lugar a quatro décadas de Guerra Fria e equilíbrio nuclear.
As comemorações do Desembarque sempre ofereceram leituras contemporâneas da história. Há dez anos, participou pela primeira vez um chanceler alemão, a potência derrotada em 1945. Na sexta-feira, as praias onde mais de 4.000 aliados perderam a vida reunirão, pela primeira vez desde que eclodiu a crise ucraniana, Putin e os líderes europeus. Poroshenko também foi convidado.
A tarefa de Obama não é fácil. Chega à Europa no início do trecho final de seu segundo e último mandato, a cinco meses de eleições legislativas que seu Partido Democrata pode perder e que reduzirão mais sua margem de manobra.
O momento também oferece uma imagem vacilante no exterior. A cautela diante da Síria preocupa aliados como a França. E a mensagem diante de Putin é matizada: inclui sanções, mas elas foram modestas para evitar romper a união de EUA e UE. Kiev, a capital da Ucrânia, está a menos de 800 quilômetros de Varsóvia, mas uma visita rápida à cidade para mostrar o apoio à Ucrânia pró-ocidental não está na agenda do presidente.
"Eu gostaria muito que ele fosse a Kiev, mas não irá", lamenta em Washington Leon Wieseltier, editor literário da revista "New Republic" e figura destacada da esquerda favorável às intervenções humanitárias.
"Reagan foi a Berlim, Kennedy foi a Berlim", lembra, referindo-se aos presidentes republicano e democrata, respectivamente, que em 1987 e 1963 pronunciaram discursos memoráveis na capital alemã.
Na Europa, o presidente não escutou uma voz única. Com a Ucrânia afloraram novamente as divisões entre a Europa oriental e a ocidental.
"Os poloneses estão muito decepcionados porque os alemães não foram suficientemente longe na hora de promover sanções mais duras contra a Rússia", disse em Berlim Judy Dempsey, do laboratório de ideias Fundação Carnegie para a Paz Internacional.
"Os europeus orientais e os países bálticos têm a sensação, sabem e creem que os europeus ocidentais vacilam diante da Rússia e não darão a cara pela integridade das fronteiras e dos valores. Isso enfraqueceu e dividiu a Europa. A Europa está completamente dividida agora sobre como tratar com a Rússia."
Para complicar, as eleições para o Parlamento Europeu deram visibilidade a um virtual partido putinista na Europa: uma coalizão transversal que une a extrema esquerda antiamericana e a extrema direita.
A Frente Nacional, vencedora na França, é o expoente mais óbvio dessa corrente. O partido putinista também conta com militantes no establishment de países-chave como Alemanha, cujo ex-chanceler Gerhard Schröder, presidente do conselho de uma filial da Gazprom, exibe sem complexos suas simpatias pelo presidente russo.
Não há alarme em Washington, mas sim preocupação porque a relação transatlântica pode se ressentir. 
Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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