Reino Unido deve escolher agora se vai ficar na Europa
Editorial da Der Spiegel
REUTERS/Andrew Yates/Pool
Durante anos, o Reino Unido vem chantageando e zombando da União Europeia. O Reino Unido deve finalmente fazer uma escolha: pode jogar segundo as regras ou deixar a UE.
A intimidade da conexão dessas duas questões ficou clara na semana passada, quando o primeiro-ministro David Cameron recusou-se a reconhecer os resultados das eleições europeias e a nomear o vencedor Jean-Claude Juncker como presidente da Comissão Europeia, o braço executivo da UE. A maioria dos países e líderes do Conselho Europeu, o corpo poderoso que representa os líderes da UE, já havia concordado com este procedimento. Era uma promessa significativa para os povos da Europa --eles deveriam ganhar maior influência e deveriam receber um sinal de que seu voto conta, que tem efeitos concretos. Mas, Cameron jogou um balde de água fria no projeto.
A crise na democracia europeia é também consequência de um relacionamento instável. Nos últimos anos, tanto a UE como o Reino Unido vêm percebendo as suas relações como um fardo. Os funcionários em Bruxelas sofrem com Londres, que frustra constantemente a unidade europeia, freando o progresso e impedindo obstinadamente um aprofundamento das relações.
O ponto de virada
No Reino Unido, as pessoas sofrem com a própria UE. É um sofrimento crônico, sem qualquer perspectiva de alívio. Durante a eleição europeia de 25 de maio, o partido UKIP, que é contrário à UE, recebeu 27,5 % dos votos, tornando-se o mais forte partido britânico no novo Parlamento Europeu. E isso apesar do fato de que outros partidos políticos do Reino Unido, com exceção dos liberais democratas, são tão amigáveis à UE quanto o partido cético da EU na Alemanha, o AFD.O Reino Unido e a União Europeia são como um casal em que um torna o outro infeliz, mas nenhum faz nada a respeito.
Com certeza seria uma tragédia se o Reino Unido tivesse que deixar a União Europeia --uma perda política, econômica e cultural. De fato, os britânicos devem ser creditados por grande parte daquilo que torna o continente tão especial hoje e do que as pessoas têm tanto orgulho. Eles introduziram a democracia em um momento em que o absolutismo prevalecia na Europa. Eles nos mostraram as vantagens de um liberalismo econômico que, apesar de todas as suas fraquezas, em última análise transformou a Europa em um continente próspero. Em todos os momentos, os britânicos nos proporcionaram um enriquecimento cultural.
No entanto, o Reino Unido nunca teve um desejo pela integração europeia. A perspectiva predominante em Londres é que a UE deve ser uma zona glorificada de livre comércio. Na melhor das hipóteses, uma aliança de Estados, mas sem mencionar o termo união política.
Há razões egoístas e nacionalistas para isso, mas são insuficientes para explicar o fenômeno. Não é a geografia, o fato de o país ser uma ilha, que torna o Reino Unido uma exceção. O país também possui uma cultura política diferente. Para os britânicos, que nunca sequer elaboraram sua própria Constituição, preferindo recorrer a uma coleção de documentos diversos para aplicar o Estado de Direito, as normas rigorosas da UE permanecem alienígenas até hoje. Além disso, não se deve esquecer o fato de que o Reino Unido quer manter uma relação especial com os Estados Unidos, o que também se destina a fornecer um contrapeso à União Europeia.
Basta
Independentemente disso, a Europa levou em conta as sensibilidades e especificidades britânicas por tempo suficiente. A União Europeia permitiu as chantagens e zombarias inúmeras vezes. Foi paciente ao ponto da autonegação. Por décadas, a Inglaterra foi perdoada por cada veto que lançava; cada desejo especial foi concedido. Quando Margaret Thatcher gritou, em 1984: "Eu quero o meu dinheiro de volta", a UE concedeu-lhe o "desconto britânico", do qual o país ainda usufrui. Nada disso ajudou a mudar a visão dos britânicos, e o país está mais distante da UE hoje do que jamais foi.Chegou a hora de esclarecer as coisas. E é possível que a União Europeia ainda tenha que decidir o que é mais importante: uma Europa mais democrática ou ter o Reino Unido como um membro. Este esclarecimento deve acontecer agora, com a nomeação do futuro presidente da Comissão Europeia. É uma decisão que não pode esperar até 2017, ano em que David Cameron disse que vai realizar um referendo sobre a adesão do Reino Unido à União Europeia.
A UE não pode permitir-se ser chantageada pelos britânicos por mais três anos e se recusar a dar ao povo da Europa o que foi assegurado a eles antes da eleição --que poderiam usar seu voto para determinar o próximo presidente da Comissão Europeia. Se a UE não cumprir essa promessa, vai perder toda sua credibilidade e aceitação.
Esta decisão deverá ser tomada na próxima reunião de cúpula da UE em junho. Na reunião, os líderes da UE devem cumprir sua promessa e nomear Jean-Claude Juncker, mesmo que isso crie dificuldades ainda maiores para Cameron em casa e mesmo que ele ameace retirar seu país da UE.
A UE deverá implementar as convicções da maioria, e não aquelas que são aceitáveis para um Estado-membro. O Reino Unido então poderá decidir como quer responder a essa nova situação na Europa --se quer acompanhar o movimento ou se prefere ir embora.
Com certeza, o Reino Unido é importante. Mas a escolha entre uma UE mais democrática e a participação continuada do Reino Unido é clara. A Europa tem que escolher a democracia.
Tradutor: Deborah Weinberg
Nenhum comentário:
Postar um comentário