Líder curdo alerta EUA sobre os desafios do ''novo'' Iraque
Michael R. Gordon e C.J. Chivers - TNYTNS
Kamal Akrayi/EFE
O presidente da região curda autônoma do Iraque disse na terça-feira (24) que o secretário de Estado norte-americano, John Kerry, está diante de um enorme desafio ao buscar um governo nacional multissectário, declarando: "Nós estamos diante de uma nova realidade e de um novo Iraque".
Após militantes sunitas do Estado Islâmico do Iraque e do Levante (EIIL) tomarem Mosul e começarem a avançar para o sul, as forças de segurança curdas responderam entrando em Kirkuk, uma cidade localizada em uma região rica em petróleo há muito dividida entre árabes e curdos.
A expansão dos curdos os deixou em posição de exigirem maior autonomia nas negociações políticas a respeito do futuro do Iraque. Mas também pode complicar o esforço para formar um novo governo iraquiano, particularmente um que não inclua Al-Maliki, que há muito é acusado de tendências autocráticas pelos políticos iraquianos.
As autoridades americanas deixaram claro, de forma privada, que estão abertas à escolha de um novo primeiro-ministro, mas não se sabe se os partidos políticos sunitas e xiitas podem encontrar pontos suficientes em comum para formação de um novo governo, agora que os combatentes pesh merga curdos assumiram o controle de Kirkuk.
"A derrubada de Maliki exigirá a cooperação de todos os outros blocos", disse Ramzy Mardini, um especialista em Iraque e um membro não residente do Conselho Atlântico, um centro de estudos independente. "Mas o Iraque não é um lugar onde interesses coletivos estão acima dos paroquiais. A crise está criando novos fatos em solo e provavelmente afetará como o próximo governo será formado. Por exemplo, a cooperação entre sunitas e curdos para formação de um governo provavelmente diminuirá após a tomada de Kirkuk pelos curdos."
Os curdos são um elemento crítico da equação política no Iraque. Mas Barzani tem um relacionamento difícil com Al-Maliki, um xiita.
As autoridades curdas insistiram nos últimos dias que os pesh merga expandiram sua pegada para melhor defender os curdos contra os extremistas do EIIL, mas o petróleo na região curda há muito está no centro do atrito entre Bagdá e Irbil.
A meta americana da viagem de Kerry é insistir para que os curdos deixem de lado quaisquer ideias de independência e exerçam um papel ativo na formação de um novo governo.
"Eu acho que há um debate ocorrendo na região curda, com algumas pessoas dizendo 'Ei, isto está muito bom, veja o que está acontecendo aqui', e outras dizendo 'Por que não rodeamos com um fosso e nos viramos sozinhos?'", disse um alto funcionário do Departamento de Estado, falando anonimamente, segundo os protocolos impostos pelo departamento. "Esse é o debate de uma minoria."
"O debate entre a maioria é que não é do interesse de ninguém ter uma espécie de Al Qaeda anabolizada em nossa fronteira sul, e a única forma de garantir sua remoção é assegurar que um componente sunita mais moderado seja capaz de limpar aquelas áreas", acrescentou um funcionário do Departamento de Estado. "E para isso é realmente essencial que os curdos sejam uma parte ativa e eficaz do processo político nacional, inclusive com um presidente curdo muito forte."
Nos últimos anos, o posto em grande parte cerimonial de presidente do Iraque é ocupado por um curdo –o primeiro-ministro conta com autoridade muito maior– e as autoridades americanas aceitam que a posição provavelmente permanecerá em mãos curdas.
Kerry, por sua vez, manteve os temas básicos no início do encontro.
"Eu espero ter uma boa conversa hoje sobre como o processo de formação do governo pode produzir o governo inclusivo, de base ampla, que todos os iraquianos com os quais conversei desejam", disse Kerry.
Em Al-Qaim, uma cidade controlada pelos insurgentes próxima da fronteira da Síria, pelo menos uma aeronave militar atacou na terça-feira por volta das 9h45 da manhã, segundo autoridades locais e moradores. Não ficou imediatamente claro que força aérea esteve por trás do ataque.
"Eu estava dormindo quando uma grande explosão sacudiu nossa casa", disse Mohammad al-Ani, um morador contatado por telefone.
"Eu segui diretamente para o hospital para checar se algum dos meus parentes e amigos foi morto ou ferido, mas os militantes impediram todas as pessoas de entrarem no hospital." Funcionários de saúde locais disseram que um mercado e um prédio próximo foram atingidos no ataque, e que pelo menos 19 pessoas morreram e 30 ficaram feridas.
As autoridades em Al-Qaim disseram que os ataques foram realizados pela Força Aérea Síria, apesar do relato delas não ter sido imediatamente confirmado e um representante do gabinete de Al-Maliki ter contestado a alegação.
O dr. Kareem Bardan, um médico que tratou dos feridos no hospital de Al-Qaim, disse que os relatos iniciais de que muitas mulheres e crianças tinham sido mortas não era verdadeiro, mas que ele tinha conhecimento de que uma mulher e três crianças com menos de 15 anos estavam entre os mortos.
O lado sírio da fronteira está há muito tempo sob controle de vários grupos rebeldes.
A travessia de fronteira iraquiana em Al-Qaim foi capturada na sexta-feira por combatentes do EIIL. Com a ajuda de tribos sunitas e usando armas capturadas dos militares sírios e iraquianos, incluindo muitas armas fornecidas pelos Estados Unidos para as forças de segurança do Iraque, os insurgentes estão expulsando as forças do governo de áreas dominadas pelos sunitas no oeste do Iraque.
Em um ataque separado, também atribuído por moradores locais a uma aeronave síria, 24 pessoas foram mortas e 27 ficaram feridas na cidade de Rutba, no oeste do Iraque, quando prédios do governo e um posto de gasolina usado pelos militantes foram atingidos, disseram testemunhas. Uma testemunha, Omar, disse que a maioria das vítimas era civil.
Rutba, tomada recentemente pelo EIIL, fica a cerca de 145 quilômetros ao leste da fronteira da Jordânia. Seria incomum uma aeronave síria atacar tão profundamente dentro de território iraquiano e a alegação não pôde ser verificada de forma independente.
O general Qassim Atta, um porta-voz das forças armadas iraquianas, disse em uma coletiva de imprensa televisionada que as forças do governo retomaram o controle pleno das travessias de fronteira perto de Trebil e Waleed, ambas retiradas das mãos do governo segundo testemunhas. O general disse que as forças de segurança receberam ajuda tribal na retomada das travessias, apesar dessa afirmação ter sido negada por pessoas contatadas em ambas as áreas.
Na travessia de fronteira perto de Trebil, que é a única legal para a Jordânia, um funcionário do serviço de fronteira, contatado por telefone e falando sob a condição de anonimato, disse que as forças de segurança abandonaram o posto e que nenhuma presença tribal era visível.
Tradutor: George El Khouri Andolfato
Nenhum comentário:
Postar um comentário