segunda-feira, 2 de junho de 2014

Estabilidade no Egito é esperada e favorável à causa palestina 
No passado, um Egito forte e estável significava mais apoio para a Palestina, na região e no exterior. 
Ali Jarbawi - INYT 
A causa palestina sempre teve laços profundos com o Egito, historicamente o maior e mais poderoso Estado árabe. Assim, o Egito tem desempenhado o papel mais importante e influente na definição de posição do mundo árabe em relação à Palestina, tanto em um nível regional quanto internacional.
Quando as relações entre o Egito e os líderes palestinos eram boas, como na época de Gamal Abdel Nasser, o Egito desempenhou um papel central com seu apoio. Quando as relações se deterioraram, como no governo de Anwar al-Sadat e, de novo, ao longo dos últimos dois anos, a influência do Egito diminuiu.
Quando o Egito está estável internamente, é ativo externamente, o que beneficia a causa palestina. No entanto, quando está preocupado com seus assuntos internos e se volta para dentro, seu papel regional e internacional diminui, assim como seu desejo e capacidade de apoiar a causa palestina.
Desde o início da revolução egípcia em 2011, o Egito tem sido consumido por assuntos internos, o que o deixou incapaz de ter qualquer influência real sobre assuntos regionais e internacionais.
A situação foi agravada pela crescente influência de Estados não árabes, como Irã e Turquia, o que levou a um declínio do poder diplomático e da eficácia dos Estados árabes. Atualmente, a maioria dos governos árabes está tentando lidar com seu próprio povo e lutando contra revoluções e guerras civis. A causa palestina ficou para trás, na beira do caminho, e os palestinos foram abandonados para que enfrentassem Israel sozinhos, algo que eles não podem fazer.
A eleição de Abdel Fattah El-Sissi como o novo presidente do Egito deu aos palestinos a esperança de que a sua causa volte para a vanguarda dos assuntos árabes --ou que, pelo menos, haja um pequeno ajuste no equilíbrio de poder com Israel. Isso não tem nada a ver com qualquer juízo de valor sobre a revolução egípcia. É uma postura puramente pragmática, baseada no fato de que a eleição de Sissi irá influenciar os assuntos palestinos de três maneiras significativas.
Em primeiro lugar, esta eleição pode marcar o retorno da estabilidade ao Egito, uma estabilidade que é importante para os palestinos e para o futuro apoio à causa palestina. Sissi conta não apenas com a adesão do Exército, mas também de uma grande faixa da população egípcia que deseja um retorno à estabilidade, segurança e normalidade. Isso não vai acontecer rapidamente, mas suas consequências vão se acumular rapidamente.
Para evitar que os manifestantes retornem às ruas, qualquer que seja o novo presidente do Egito, ele terá que tirar o país de sua decrepitude atual, modernizar a infraestrutura, atualizar a educação e estimular a economia.
Em segundo lugar, a estabilidade é necessária para o Egito competir com os novos poderes regionais que usurparam seu lugar. Se for bem sucedida, a eleição presidencial egípcia terá um efeito positivo sobre as águas agitadas da política árabe. O Egito é um Estado forte, centralizado e, se começar a se estabilizar, isso terá uma influência positiva sobre seus vizinhos árabes, em lugares como Líbia, Síria e Líbano, e até mesmo o Iraque.
Unir os fragmentos do atual cenário político árabe é um passo crucial para acabar com a interferência dos agentes não árabes em assuntos regionais. Em um futuro próximo, o Egito, com o apoio dos países do Golfo, poderia desempenhar um papel central na consecução deste objetivo.
Por fim, o Egito não será capaz de voltar a sua antiga estatura regional, do tipo que gozava sob Nasser, até que se liberte de sua absoluta rendição para os Estados Unidos, que desde Sadat o transformaram em nada além de um satélite na órbita política norte-americana --tanto assim que, até o fim da era Mubarak, parecia estar apenas seguindo ordens dos Estados Unidos.
Aparentemente, Sissi terá um relacionamento diferente dos seus antecessores com os Estados Unidos. Enquanto continua a manter fortes laços com os EUA, há sinais de que pretende conduzir o Egito em direção a uma política externa mais independente; sua recente viagem à Rússia é uma indicação disso.
Se tudo isso acontecer e o Egito conseguir evitar um novo ciclo de violência, então a situação na Palestina também poderá começar a melhorar.
Os palestinos terão de reparar o relacionamento que foi esgarçado durante o período em que o Hamas foi acusado de interferir nos assuntos internos do Egito (o que levou a uma crescente desconfiança egípcia e um sentimento negativo para com os palestinos em geral). Essa desconfiança popular levou as autoridades egípcias a tomarem medidas contra a faixa de Gaza, incluindo a destruição de centenas de túneis que eram a fonte de sustento do Hamas em Gaza. As ações do Egito, além de outros fatores como a retirada de apoio político e financeiro ao Hamas, têm produzido resultados, o mais significativo dos quais talvez seja a reconciliação interna palestina que pôs fim à amarga separação de sete anos. Em suma, o Hamas aprendeu a lição.
O fim do cisma político palestino também marca um retorno à normalidade com o Egito. A guarda presidencial palestina está assumindo o controle da fronteira entre Gaza e Egito, o que levará a um controle mais palestino sobre a segurança e permitirá que o Egito lide melhor com a segurança na Península do Sinai.
Como resultado, a causa palestina poderia recuperar o forte aliado regional e internacional do qual precisa tão desesperadamente. Ninguém espera que Sissi renegue o tratado de paz com Israel, pois este se tornou importante para a própria segurança nacional do Egito. No entanto, espera-se que haverá uma paz fria com Israel e que o Egito terá um papel forte e proativo em confrontar a expansão dos assentamentos israelenses em Jerusalém e na Cisjordânia.
As expectativas palestinas são altas com a estabilidade interna do Egito. Algumas vão se materializar, outras são pura esperança. Mas, se o Egito de Sissi se recusar a fugir do confronto com Israel, como fez durante a era Mubarak, quando estava firmemente sob o controle norte-americano, será um grande benefício para a causa palestina. 
Tradutor: Deborah Weinberg

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