segunda-feira, 2 de junho de 2014

Israel adverte contra aceitação do recém reconciliado governo palestino
Jodi Rudoren e Isabel Kershner - NYT23.jan.2014 - O primeiro ministro israelense, Benjamin Netanyahu, participa de um painel no Fórum Econômico Mundial 23.jan.2014 - O primeiro ministro israelense, Benjamin Netanyahu, participa de um painel no Fórum Econômico Mundial
No domingo passado, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, de Israel, pediu à comunidade internacional "para que não se apresse em reconhecer" o novo governo palestino que tomaria posse nesta segunda-feira (2). Segundo Netanyahu, o novo governo "é apoiado pelo Hamas", a facção militante islâmica que Israel e grande parte do Ocidente consideram uma organização terrorista.
O presidente Mahmoud Abbas, da Autoridade Palestina, insistiu que, apesar de o novo governo ser fruto de um pacto de reconciliação que a OPL (Organização para a Libertação da Palestina) assinou seis semanas atrás com o Hamas, o governo será formado por ministros não vinculados a facções políticas. Durante uma ligação telefônica no domingo passado, Abbas disse ao secretário de estado norte-americano, John Kerry, que o novo governo "representará a agenda política do presidente", segundo informou a WAFA, a agência de notícias palestina oficial. Ou seja: segundo, Abbas o novo governo palestino vai reconhecer Israel e renunciará à violência – compromissos que o Hamas se recusa a assumir.
Mas, apesar dessa declaração, Abbas afirmou no sábado passado que Israel teria dito a ele que vai "boicotar" o novo governo palestino e Ehab Bessaiso, porta-voz do governo palestino, afirmou no domingo: "Nós deveremos enfrentar alguns momentos difíceis nas próximas semanas".
Autoridades israelenses disseram que nenhuma decisão havia sido tomada ainda em relação a sanções contra o novo governo palestino ou em relação a sobre como a mudança afetará seu relacionamento diário com os palestinos. Mas Israel já se negou a conceder permissões para que três ministros nomeados pelos palestinos – que vivem na Faixa de Gaza, região governada pelo Hamas desde 2007 – viajassem através de seu território para assistir à cerimônia de posse, que ocorreria segunda-feira na Cisjordânia. Segundo um porta-voz israelense, essa atitude pode ser atribuída a "questões políticas".
Além disso, a Força Aérea israelense atingiu dois alvos em Gaza na madrugada de segunda-feira. Segundo Israel, o ataque ocorreu em resposta a dois mísseis disparados a partir da Faixa de Gaza nos últimos dois dias. Não houve relatos imediatos sobre vítimas.
Um alto funcionário israelense, que falou sob a condição de anonimato por temer se adiantar a qualquer medida adotada pelas instâncias decisórias, disse: "nós estamos iniciando uma nova realidade".
"A questão é o que acontece após o casamento ser consumado – eu acredito que estamos iniciando um novo jogo", disse ele. "A situação já não era muito boa desde o início, e as novas condições tornaram a situação bem mais delicada".
O pacto de reconciliação, destinado a solucionar uma feroz desavença que já durava sete anos entre o Hamas e a facção Fatah, de Abbas, e unificar os territórios palestinos sob um único governo, levou Israel a suspender as já paralisadas negociações de paz mediadas pelos EUA em 24 de abril passado. Agora, o foco se volta para a promessa do novo governo, que garantiu que realizará as já vencidas eleições palestinas no período de seis meses. No curto prazo, os compromissos do novo governo são convencer o Egito a reabrir passagem de Rafah, ao sul de Gaza, e enfrentar a escassez de combustível e a disparada da taxa de desemprego que vem assolando a faixa costeira há meses.
E ainda podem existir outras disputas a serem resolvidas. Sami Abu Zuhri, porta-voz do Hamas, divulgou um comunicado no início da manhã de segunda-feira advertindo que a facção "não aceitará as declarações feitas pelo governo na segunda-feira" caso, conforme foi relatado na imprensa local, elas não incluam um ministério para assuntos relacionados aos prisioneiros e se a responsabilidade pela função for transferida para a OLP.
No início de domingo passado, as autoridades do Hamas disseram que os ministros que compunham um governo paralelo em Gaza iriam retornar imediatamente a seus cargos dentro do partido político ou retomariam suas funções de professores universitários; Ismail Haniya, primeiro-ministro do Hamas, passará a ser chamado simplesmente de "vice-líder" do movimento.
O destino de mais de 100 mil funcionários públicos – postos que, em geral, eram ocupados por dois trabalhadores cada – ainda não ficou claro. Da mesma maneira, há incertezas sobre os serviços duplicados, como os dois postos de controle de entrada e saída localizados na passagem de Erez para Israel – um deles é administrado pelo Hamas e o outro, pela Autoridade Palestina.
Outra questão fundamental é a forma como o novo governo será tratado por Washington e pelo Ocidente.
Segundo a previsão, os Estados Unidos deverão fornecer US$ 440 milhões para a Autoridade Palestina este ano. Mas os norte-americanos estão proibidos de financiar qualquer "governo que inclua o Hamas ou que resulte de acordos com o Hamas e sobre o qual o Hamas tenha influência indevida", de acordo com o Serviço de Pesquisa do Congresso norte-americano. Essas condições só poderão ser ignoradas com autorização do presidente Barack Obama. O Departamento de Estado dos EUA – da mesma maneira que a UE (União Europeia) – sinalizou que está aberto a negociar com o novo governo desde que ele siga a linha de Abbas. Mas as forças pró-Israel que atuam no congresso norte-americano poderão pressionar o governo Obama.
Jen Psaki, porta-voz do Departamento de Estado dos EUA, disse que Kerry expressou preocupação com relação a Abbas durante uma conversa telefônica que manteve com ela no domingo sobre o papel do Hamas. "O secretário afirmou que os Estados Unidos vão monitorar a situação de perto e julgar esse e qualquer outro governo com base em sua composição, suas políticas e suas ações", disse Psaki.
Mas Netanyahu disse a seu gabinete no domingo que o Hamas "é uma organização terrorista que defende a destruição de Israel, e que a comunidade internacional não deve reconhecê-lo".
O alto funcionário israelense que não quis se identificar observou que Estados Unidos, Canadá, Europa, Japão e Austrália consideram o Hamas uma organização terrorista e que "existem implicações legais", bem como as políticas, "para repassar dinheiro a um grupo terrorista".
Embora Israel tenha adotado uma postura dura contra o novo governo, o país precisa encontrar um equilíbrio delicado nessa situação, pois a retirada da ajuda internacional pode levar a um colapso da Autoridade Palestina. Isso deixaria Israel responsável pela economia e pelos setores de educação e saúde dos palestinos.

Até agora, as sanções foram simbólicas. Israel reteve cerca de US$ 6 milhões do total de aproximadamente US$ 160 milhões em impostos mensais que vem recolhendo em nome dos palestinos desde a assinatura do pacto de reconciliação. O país declarou que as autoridades israelenses não se reuniriam mais com os seus homólogos palestinos, mas essas tarefas foram simplesmente transferidas dos ministérios para a Administração Civil, que lida com as relações com a Cisjordânia, de acordo com o porta-voz desse departamento, Guy Inbar.
"Nenhum projeto está atrasado nem será cancelado", disse Inbar, observando que recentemente ocorreram reuniões conjuntas para discutir os setores de turismo e de telecomunicações.
Bessaiso, porta-voz palestino, disse prever que mais receitas fiscais serão retidas por Israel, além do cancelamento de permissões que autorizam funcionários palestinos de alto escalão a viajar com mais facilidade pela Cisjordânia e para Jerusalém. Dezesseis ministros responderão ao primeiro-ministro Rami Hamdallah, disse Bessaiso, e alguns ficarão responsáveis por mais de uma pasta.
"Apesar das tentativas de retratar este governo como um ninho de membros do Hamas e das afirmações de que o Hamas é uma organização terrorista e assim por diante, essa não é a realidade", disse Bessaiso. "Nós pedimos à comunidade internacional para que reconheça este governo e que continue dando seu apoio ao povo palestino".
Tradutora: Cláudia Gonçalves 

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