quarta-feira, 4 de junho de 2014

Nem mesmo boicote de rebeldes e oposição a Assad podem mudar resultado de eleição na Síria
Cécile Hennion - Le Monde
Segundo a teoria oficial, é a primeira eleição democrática da história da Síria. Na prática, o único suspense a respeito do pleito de 3 de junho não é saber se Bashar Assad será reeleito, mas sim se sua votação superará os 96% obtidos por Abdel Fattah al-Sisi no Egito, no final de maio.
Até hoje, o ditador sírio foi escolhido a cada sete anos por plebiscito, depois de ser designado pelo partido Baath. Com a morte de seu pai, Bashar foi escolhido --não sem uma oportuna emenda da Constituição reduzindo a idade mínima de 40 para 34 anos-- e depois plebiscitado com 97% dos votos, no dia 17 de julho de 2000.Aquele que havia encarnado brevemente a esperança de reformas quando chegou ao poder esperou 14 anos para "abrir" as eleições para outros além dele. Deixando de lado o contexto apocalíptico da atual situação na Síria e mesmo se atendo à propaganda oficial, essa abertura tem seus limites: Maher al-Hajjar e Hassan al-Nouri, os dois outros candidatos, são perfeitos desconhecidos tanto dentro quanto fora do país.
Vinte e quatro outros se arriscaram, mas as candidaturas não foram aceitas, por razões obscuras, pelo Conselho Constitucional, encarregado de validá-las. Um dos pré-requisitos era ter mantido uma residência permanente na Síria durante dez anos, anteriormente à eleição. É uma medida que desqualifica quase todos os opositores do regime, em sua maior parte refugiados no exterior.

Cartazes gigantes

Entre os rejeitados, um coronel chamado Mohammed Kanaan teve uma efêmera notoriedade. Sequestrado por uma brigada rebelde perto de Deraa, ao sul do país, ele apareceu em um vídeo postado no YouTube no dia 6 de maio, sentado em um sofá e vigiado por um homem armado, explicando que ele havia sido "forçado a se candidatar".
É difícil determinar o que é mais patético nessa história: a declaração do coronel ou o fato de que uma brigada rebelde tenha acreditado que tais "confissões" seriam úteis para provar aquilo que a oposição como um todo denunciou, que essas eleições seriam "uma farsa".
A vitória programada de Assad não impediu a realização de uma campanha eleitoral nas zonas controladas pelo regime. Cartazes gigantes representando o atual chefe do Estado sírio de terno e gravata ou em uniforme de combate, generosamente oferecidos por ricos empresários sírios que tiveram a honra de ver seus nomes constarem nesses cartazes, se multiplicaram nos grandes eixos da capital, a poucos quilômetros dos subúrbios em ruínas, devastados por três anos de guerra e de bombardeios.
Damasco afirma que haveria 15 milhões de eleitores no país. Sabendo-se que a população síria era estimada em 23 milhões antes de 2011, que a guerra provocou a saída de pelo menos 3 milhões de refugiados, que o número de deslocados é de aproximadamente 6 milhões e que, por fim, a comissão eleitoral avisou que negaria a possibilidade de votar a todos aqueles que não estivessem com seus documentos em dia, o número real de eleitores em potencial não deveria passar de 5 ou 6 milhões.
Bashar Assad, que adotou o slogan "Juntos", generosamente convidou os refugiados a voltarem para um país dividido e destruído pela guerra civil para exercerem seu direito de voto. O Líbano avisou que aqueles que atravessarem a fronteira não serão autorizados a voltar.
Muitas chancelarias estrangeiras que fazem oposição ao regime de Damasco proibiram a realização dessas eleições aos sírios que residem em seus territórios. Os opositores e militantes, civis e rebeldes propuseram um boicote, o que não deverá mudar em nada o resultado.

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